Gatos melancólicos, sonolentos e entediados

Estou com a tradução de Sense and Sensibility feita por Dinah Silveira de Queiroz com o título de Razão e sentimento e ainda não tive tempo para comentar mas já coloquei um trecho no post “O Natal nos livros de Jane Austen“.

Coloco mais um trecho da tradução de Dinah e desta vez junto com a tradução de Ivo Barroso para apreciarmos as diferenças das traduções. E cito um exemplo do meu “tradutor simultâneo”, aquele que teima em dizer palavras em português quando leio em inglês: assim “dull as two cats” fica “entediados como dois gatos”.

Esta foto é a tradução literal de Donnie D.
(muito a propósito, debruçado no meu A arte de traduzir de Brenno Silveira)

“Ah! Colonel, I do not know what you and I shall do without the Miss Dashwoods;”–was Mrs. Jennings’s address to him when he first called on her, after their leaving her was settled–“for they are quite resolved upon going home from the Palmers;–and how forlorn we shall be, when I come back!–Lord! we shall sit and gape at one another as dull as two cats.” | Chapter 39

Ah! Coronel, não sei o que o senhor e eu iremos fazer sem as senhoritas Dashwoods… — foi a maneira como a sra. Jennings se dirigiu a ele quando as veio ver, assim que soube dos preparativos da partida —, pois estão decididas a retornarem a casa depois da visita dos Palmers… Como ficaremos desolados, quando eu voltar! Meu Deus! vamos sentar-nos aqui e bocejar como dois gatos melancólicos. | trad. Ivo Barroso |

— Ah! coronel, não sei o que faremos sem as senhoritas Dashwoods, disse a sra. Jennings ao coronel Brandon,a primeira vez em que este a visitou, depois de ter sido fixada a data da partida. Elas estão absolutamente decididas a voltar para casa, da propriedade de Palmer;  como estaremos sosinhos, quando voltarmos! Meu Deus! Ficaremos sentados, bocejando um para o outro, como dois gatos sonolentos. | trad. Dinah Silveira de Queiroz |

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Ivo Barroso: as razões da tradução

As razões da tradução sobre Sense and Sensibility que no Brasil, foi traduzido como Razão e sentimento por Ivo Barroso e Dinah Silveira de Queiroz, e como Razão e sensibilidade por Therezinha Monteiro Deutsch e também por quem fez a legendagem do filme de 1995*.

Antes de compartilhar com vocês esta cartinha, que recebi para o acervo do Jane Austen em Português, sugiro a leitura de três posts sobre o assunto: tradução, título e notas do Paulo Francis.

Obrigada, senhor Ivo. É um privilégio saber as razões e detalhes de uma tradução.

Caro Francis,

Como sabe, no Brasil, ao contrário da Inglaterra, Pride and Prejudice saiu antes de Sense and Sensibility. O primeiro foi traduzido por Lúcio Cardoso com o título (literal) de “Orgulho e Preconceito”, de grande força de expressão, que logo se tornaria entre nós uma característica marcante da obra de Jane Austen. Na verdade, esse título (dicotômico e aliterativo) foi escolhido por ela em função do primeiro, que tinha (em inglês) essas determinantes. Quando traduzi Sense and Sensibility, por estar o primeiro título decisivamente firmado entre nós, optei por usar uma fórmula semelhante, que expressasse o sentido do original, e cheguei a “Razão e Sentimento”. Essa dicotomia me pareceu mais importante do que a aliteração, por vários motivos. Para começo: a palavra sense em inglês significa “razão”, “bom senso” e não poderia ser traduzida simplesmente por senso; sensibility não tinha para a autora o sentido atual da nossa palavra sensibilidade (delicadeza de sentimentos, qualidade da pessoa sensível), mas designava simplesmente uma pessoa de sentimentos, capaz de sentir, daí eu ter achado que “Razão e Sentimento” exprimisse a dicotomia entre uma pessoa que age racionalmente e outra que age emocionalmente. Eis por que não tentei nada no estilo senso e sensibilidade, ou (quebrando a aliteração inicial) bom senso e sensibilidade, e preferi simplesmente a dicotomia já consagrada, daí o “Razão e Sentimento”.

Com um abraço do

Ivo Barroso


* Procurei na capa do DVD e não encontrei crédito da tradução das legendas.

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