Jane Austen e Flora Thompson

Quando assisti partes da série Lark Rise to Candleford, produzida pela BBC, fiquei encantada com a atuação de Julia Sawalha que fez o papel Lydia Bennet em Orgulho e preconceito de 1995. Aliás, do pouco que consegui ver da série, todos os atores estão fantásticos. Outro detalhe pelo qual me apaixonei, principalmente no personagem de Julia – Dorcas Lane –, foi o figurino. Mas mesmo com todas essas qualidades não pretendia falar sobre a serie aqui no blog, pois não havia nenhuma ligação com Jane Austen, além da atriz.

Dorcas Lane

Julia Sawalha como Dorcas Lane | Imagem: BBC divulgação

Mas, e sempre há um mas nas minhas historietas, depois do advento da internet quando me encanto com alguma coisa fico pesquisando compulsivamente. E foi assim que descobri que a série foi baseada numa obra semi-autobiográfica da escritora inglesa, Flora Thompson. Flora Jane Timms  aos catorze anos saiu de seu vilarejo natal para trabalhar nos Correios onde ficou por mais de dez. Depois casou-se com John Thompson, também funcionário dos Correios, e em 1903 o casal mudou-se para Winton. Quando abriu a primeira biblioteca na cidade ela disse “pela primeira vez em minha vida tive acesso a uma boa biblioteca pública e entrei como um pato que deslizando na água e li quase tudo.” Para Flora a biblioteca de Winton foi sua “Alma Mater”, sua universidade.

Flora Thompson

Flora Jane Thompson | Imagem:  John Owen Smith

Em 1910 Flora comprou uma máquina de escrever para datilografar as minutas das reuniões dos funcionários dos Correios para o marido. A partir dessa compra começou a escrever seus próprios textos e 1911 ela ganhou uma competição no “The Ladies Companion” com um ensaio de trezentas palavras sobre Jane Austen!

Laura Timmins

Olivia Hallinan como Laura Timmins | Imagem: BBC divulgação

Fiquei encantada com a descoberta e comprei o livro Lark Rise to Candleford. E, claro, desatinei a procurar o tal ensaio de trezentas palavras para então escrever sobre o assunto. Tive dois resultados. Primeiro, não achei nada, nadica de nada, do ensaio de Flora sobre Jane. Segundo, comecei a ler o livro e a me perder com o vocabulário… Quando cheguei nas canções, larguei. (Viu, Enzo Potel?) Tenho sérios problemas com versos em inglês.

Não vou desistir de procurar o ensaio, quem sabe um dia encontro … Quanto ao livro, vai ficando aos cuidados de Fanny “Faniquita” Price.

ATUALIZAÇÃO SETEMBRO 2022

Tradução do texto que foi publicado no The Ladies Companion em 25 de fevereiro de 1911.

O segundo concurso para o melhor ensaio sobre Jane Austen produziu muitos trabalhos interessantes, e em particular o de Flora Thompson, a vencedora de Grayshott Cottage, Winton, Bournemouth, cujo ensaio transcrevo a maior parte, pois estou certo de que outros concorrentes gostariam de ler o ensaio premiado.

O Ensaio

Antes de Jane Austen começar a escrever, os romancistas de sua época dependiam do enredo envolvente, do incidente sensacional e da influência do alcance da coincidência; portanto, quando essas histórias calmas e delicadas apareceram, lidando com pessoas e eventos cotidianos, o público em geral não reconheceu imediatamente sua genialidade ou apreciou o sarcasmo gentil que brinca em torno de seus personagens. É verdade que seu gênio foi imediatamente reconhecido por alguns dos maiores homens e mulheres de seu tempo, Sir Walter Scott admirava muito seu trabalho, assim como Sydney Smith, a condessa de Morley e, estranho dizer, o príncipe regente. Ela encontrou, de fato, seu próprio público de admiradores dedicados, mas era na época como hoje se diz  como “dar pérolas aos porcos”…

Jane Austen comparou-se a um pintor de marfim, e o prazer de seu trabalho é algo como a posse de uma requintada miniatura.

…Aqueles que apreciam sua arte consideram nenhum elogio é elevado o suficiente, e há aqueles que simplesmente se perguntam como alguém pode percorrer as páginas enfadonhas e maçantes, pois ninguém ama Jane Austen moderadamente.

Lark Rise to Candleford

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Peculiaridades de Jane Austen em alemão

Em janeiro do ano passado tive uma gratificante troca de emails com o tradutor e professor de alemão, Jose Alexandre da Silva. O assunto, é claro, foi Jane Austen.

Com a devida autorização publico trechos de nossa correspondência para contar para vocês quão interessante é o mundo da tradução e as particularidades de cada língua, neste caso o alemão.

Stolz Vorurteil

Sobres as minhas indicações de traduções de Jane Austen José fez as seguintes observações:

“Das traduções citadas, algumas podem ser consideradas modelos de tradução: tanto as do Ivo Barroso quanto a do Lêdo Ivo. Na Alemanha, as traduções são inferiores se comparadas as do Barroso e do Lêdo. Entretanto a coisa muda, quando comparadas as dos outros tradutores. O parentesco entre o alemão e o inglês (ambas são línguas germânicas) nem sempre garante que as traduções alemãs sejam superiores as nossas.”

Fiquei curiosa sobre a inferioridade de algumas (creio que não devem ser todas) traduções alemãs pois como ele mesmo diz “ambas são línguas germânicas” e perguntei um pouco mais sobre o assunto:

“Alexandre, concordo, temos as ótimas traduções de Ivo Barroso e Lêdo Ivo e sinceramente gosto muito de Rachel de Queiroz com Mansfield. Tenho especial carinho pela tradução de Lúcio Cardoso mesmo reconhecendo o ótimo trabalho de Celina Portocarrero. E claro, temos as tenebrosas!
Muito interessante saber sobre as traduções de Jane Austen na Alemanha. Tem algum detalhe que seja o principal “pecado” nas traduções alemãs?
Por exemplo: as traduções francesas, não sei se em todas, mas pelo menos as primeiras, foram traduzidas em tom mais meloso ou romântico. Esta é a crítica que já li só não posso confirmar pois meus francês não serve mais nem para leitura.”

E vejam que descoberta interessante na pronta resposta de José Alexandre:

“Tem sim!!! o principal pecado é que – e isto vale para a maioria das traduções alemãs, com raras exceções devido à sensibilidade de alguns tradutores, principalmente mulheres (afinal são mais sensíveis) – , devido à dureza da própria língua alemã, os tradutores endurecem determinados personagens. Os que são sensíveis se tornam duros e os que são duros tornam-se mais duros ainda. Mas como isto é feito: simplesmente os tradutores cortam determinadas falas de personagens, principalmente, as que expressam algum sentimento “positivo”, ou seja, a Jane Austen alemã (tadinha) é bem menos sensível que a de qualquer outra nacionalidade. Ah!! o povo também é assim: coisa rara ouvir um eu te amo (ich liebe dich) mesmo entre casais apaixonados.”

Eu gostaria muito de ler uma dessas traduções mas certamente não vou apreender alemão tão cedo (para não dizer nunca…). Mas a curiosidade continua me atazanando e como José Alexandre disse que pretendia comprar alguma tradução de Jane Austen, resolvi colocar o primeiro capítulo de Stolz und Vorurteil (Orgulho e preconceito) de duas traduções que tenho.

Deixo para a apreciação de vocês, principalmente para quem entende alemão, estas duas páginas que são o primeiro capítulo de Orgulho e preconceito. A primeira, da editora Anaconda, com tradução de Karin von Schwab e a segunda, da editora Reclam com  tradução de Ursula e Christian Grawe.

PS: adoraria ver Mr. Darcy “mau que nem pica-pau” até o final do romance…

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