Encontre Jane Austen na biblioteca

Ou melhor na biblioteca mais próxima de sua casa.

Hoje Rebeca do Chá com Jane Austen colocou um tópico adiando a leitura de Mansfield Park e A abadia de Northanger pois como já sabemos são os livros  mais difíceis de acharmos em português, aqui no Brasil pelo menos. Quando li o tópico pensei: a gente esquece das bibliotecas públicas – sem falar nas universitárias e de escolas particulares e então coloquei dois links referente ao acervo da bibliotecas públicas na cidade de São Paulo, que reproduzo abaixo.

Quem descobrir e quiser deixar um comentário neste post sobre obras de Jane que encontrou em bilbiotecas de suas cidades, fique à vontade.

Com vocês a maravilhosa biblioteca de Kellinch Hall na versão 1995 de Persuasion

e a aconchegante biblioteca de Mr. Bennet de Orgulho e preconceito de 2005. Deleitem-se!

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Jane Austen e Charlotte Brontë

Ou, a inveja mata, minha filha…

Desculpem-me. Não consegui resistir a um subtítulo maldosinho já que estou falando de duas criaturas que não eram santas, mas certamente adoráveis! É uma pena que tenhamos somente a opinião de uma delas. Seria divertido saber o que Jane diria da obra de Charlotte!

O texto abaixo copiei do livro Jane Austen: Emma e já havia mencionado aqui e aqui. Com vocês parte de uma carta de Charlotte Brontë escrita para seu editor, William Smith Williams em 1850, onde comenta, não sem um tanto de maldade, a obra Jane Austen (os negritos são meus, e são comentados no final do texto):

I have likewise read one of Miss Austen’s works – Emma – read it with interest and with just the degree of admiration which Miss Austen herself would have thought sensible and suitable. Anything like warmth or enthusiasm – anything energetic, poignant, heart-felt is utterly out of place in commending these works: all such demonstration the authoress would have met with a well-bred sneer, would have calmly scorned as outré and extravagant. She does her business of delineating the surface of the lives of genteel English people curiously well. There is a Chinese fidelity, a miniature delicacy in the painting. She ruffles her reader by nothing vehement, disturbs him by nothing profound. The passions are perfectly unknown to her; she rejects even a speaking acquaintance with that stormy sisterhood. Even to the feelings she vouchsafes no more than an occasional graceful but distant recognition – too frequent converse with them would ruffle the smooth elegance of her progress. Her business is not half so much with the human heart as with the human eyes, mouth, hands, and feet. What sees keenly, speaks aptly, moves flexibly, it suits her to study; but what throbs fast and full, though hidden, what the blood rushes through, what is the unseen seat of life and the sentient target of death – this Miss Austen ignores. She no more, with her mind’s eye, beholds the heart of her race than each man, with bodily vision, sees the heart in his heaving breast. Jane Austen was a complete and most sensible lady, but a very incomplete and rather insensible (not senseless) woman. If this is heresy, I cannot help it.If I said it  to some people (Lewes for instance) they would directly accuse me of advocating exaggerated heroics, but  I am not afraid of your falling into anny such vulgar error. (from letter to W. S. Williams, 1850)

Eu também li uma das obras de Miss Austen – Emma – a li com interesse e com o grau de admiração que a própria Miss Austen teria pensado ser sensato e adequado. Qualquer coisa como calorosa ou entusiástica – qualquer coisa vigorosa, pungente, ardente, está completamente fora de questão em recomendar estes trabalhos: todas estas demonstrações a autora teria considerado com refinado desdém e teria calmamente desprezado como excêntrico e extravagante. Ela faz o seu trabalho delineando apenas a superfície da vida dos ingleses bem-nascidos. Curiosamente bem. Há uma fidelidade meticulosa, uma delicadeza como a encontrada nas miniaturas no que ela descreve. Ela enfada seu leitor por nada veemente, perturba-o por nada profundo. Paixões são completamente desconhecidas para ela. Ela rejeita até mesmo uma conversa com mais familiaridade nessa tempestuosa irmandade. Mesmo para os sentimentos ela concede não mais do que um ocasional e gracioso mas distante reconhecimento – conversas freqüentes com eles enfadaria a elegância do andamento de seu trabalho. Seu negócio não é nem a metade com o coração humano bem como com os olhos, a boca, as mãos e os pés. O que vê aguçadamente, fala acertadamente, move-se com desenvoltura, isto sim adéqua-se para seu estudo; mas o que palpita rápido e completo, embora oculto, o que o sangue carrega apressadamente, o que é a invisível base da vida e o certeiro alvo da morte – isto, Miss Austen ignora. Ela, com seus olhos da mente, não mais contempla o coração de sua raça [humana] do que cada homem com sua visão física vê o coração em seu peito pulsando. Jane Austen foi uma senhora muito sensata mas uam mulher incompleta e bastante insensível (não insensata). Se isto é heresia, não posso fazer nada. Se eu dissesse isso para algumas pessoas (Lewes, por exemplo) eles [Lewes e os outros] prontamente me acusariam de preconizar heroísmo exagerado, mas eu não tenho medo de você cair em um erro tão grosseiro.

Imagem do site Old Literary Postcards que vende também itens sobre Jane Austen

Sei muito pouco sobre Charlotte Brontë e fiquei curiosa para saber o motivo de uma crítica tão ácida sobre o trabalho de Jane. Acho que posso dizer agora que descobri lendo sobre o assunto no maravilhoso Republic of Pemberley (sobre este site preciso fazer um bom post pois ele é uma fonte preciosa sobre Jane Austen, aguardem!) Pois bem, ao que tudo indica o senhor Lewes, após a publicação de Jane Eyre, recomendou a Charlotte “escrever menos melodramaticamente”, como Jane Austen… Ela respondeu em carta de 1848, 12 de janeiro,

Why do you like Miss Austen so very much? I am puzzled on that point. What induced you to say that you would rather have written Pride and Prejudice or Tom Jones, than any of the Waverley novels?

I had not seen Pride and Prejudice till I had read that sentence of yours, and then I got the book. And what did I find? An accurate daguerrotyped [photographed] portrait of a commonplace face; a carefully fenced, highly cultivated garden, with neat borders and delicate flowers; but no glance of a bright vivid physiognomy, no open country, no fresh air, no blue hill, no bonny beck [stream]. I should hardly like to live with her ladies and gentlemen, in their elegant but confined houses. These observations will probably irritate you. but I shall run the risk.
Now I can understand admiration of George Sand [Lucie Aurore Dupin]…she has a grasp of mind which, if I cannot fully comprehend, I can very deeply respect: she is sagacious and profound; Miss Austen is only shrewd and observant.”

You say I must familiarise my mind with the fact that “Miss Austen is not a poetess, has no ‘sentiment'” (you scornfully enclose the word in inverted commas), has no eloquence, none of the ravishing enthusiasm of poetry”; and then you add, I must “learn to acknowledge her as one of the greatest artists, of the greatest painters of human character, and one of the writers with the nicest sense of means to an end that ever lived”.
The last point only will I ever acknowledge. … Miss Austen being, as you say, without “sentiment”, without poetry, maybe is sensible (more real than true), but she cannot be great.

Por que você gosta tanto de Miss Austen? Eu fico intrigada sobre essa preferência. O que o leva a dizer que preferia ter escrito Orgulho e preconceito ou Tom Jones do que os romances Waverley?

Eu não tinha visto Orgulho e preconceito até ter lido sua frase e então eu apanhei o livro. E o que eu achei? Um apurado daguerreótipo (fotografia). Um retrato de tipos comuns; um jardim muito bem cultivado, cuidadosamente cercado com canteiros de bordas bem delineadas e delicadas flores; mas nenhum vislumbre de uma fisionomia brilhante e vívida, nem um lugar aberto, nenhum um ar fresco, nenhum  monte azulado**,  nenhum riacho (córrego). Eu dificilmente gostaria de conviver suas [de Jane] senhoras e cavalheiros, em suas elegantes  mas confinadas residências. Estas observações provavelmente irritarão você, mas eu correrei o risco. Entretanto eu posso entender a admiração por George Sand [Lucie Aurore Dupin]… ela tem uma compreensão da mente a qual, emnbora eu não consiga capreender totalmente, eu posso respeitar profundamente: ela é sagaz e intensa; Miss Austen é apenas astuta e observadora.

Você diz que devo familiarizar minha mente com o fato de que “Miss Austen não é uma poetisa, não tem ‘sentimentos'” (você desdenhosamente colocou a palavra entre aspas), “não tem eloqüência, nada do entusiasmo arrebatador [próprio] da poesia”; e então você acrescenta, eu “devo apreender a reconhecê-la como um dos maiores artistas, dos grandes pintores da natureza humana e um dos escritores com o mais agradável senso de meios para um fim que se conhece. O último ponto, somente, eu reconhecerei. … Miss Austen sendo,  como você diz, sem “sentimentos”, sem poesia, talvez seja sensata (mais real do que verdadeira), mas ela não pode ser grande.

Primeira edição de Jane Eyre do site Biblio.com por modesto $12,000.00

E para completar mais um trecho de outra carta, creio que para o mesmo senhor Lewes, que consta na biografia de Charlotte Brontë, escrita por Elizabeth Gaskell:

Whenever I do write another book, I think I will have nothing of what you call “melodrama.” I think so, but I am not sure. I think, too, I will endeavour to follow the counsel which shines out of Miss Austen’s “mild eyes”, to finish more, and be more subdued; but neither am I sure of that.

Sempre que eu escrever um outro livro, eu acredito que não terá nada daquilo que você chama de “melodrama”. Eu acredito, mas não tenho certeza. Penso também, em esforçar-me por seguir o conselho proclamado pela “modesta visão” de Miss Austen’s, para finalizar melhor, e ser mais moderada; mas também não estou certa disso.

Tradução mea culpa. E muitos pontos ficaram vagos, comento alguns abaixo. Sintam-se à vontade para comentar e sugerir.

stormy sisterhood | tempestuosa irmandade – Charlote menciona que leu um livro de Jane na carta de 1850 – Emma. Mas Emma, a personagem, tem apenas uma irmã com quem pouco convive e é quase irrelevante na trama. Na carta de 1848 ela diz que leu Orgulho e preconceito, presumo então que se refira às irmãs Bennet.  Na minha opinião o relacionamento das Dashwood, das Elliot e das Bertram é muito mais tempestuoso do que das Bennets. Cá pra nós, ela leu toda a obra de Jane!

blue hill | monte azulado, belas paisagens (?) – uma metáfora que não entendi direito e não me ocorreu nada em português.

one of the greatest artists, of the greatest painters of human character | um dos maiores artistas, dos grandes pintores da natureza humana – aqui traduzi sem colocar no feminino pois entendi que Lewes colocava Jane entre os grandes artistas independente de seu sexo.

but she cannot be great | mas ela não pode ser grande – Ai, ai…

shines out of Miss Austen’s “mild eyes” | proclamado pela “modesta visão” de Miss Austen – Esta frase inteira ficou muito esquisita… mas tentarei explicar: shine out significa a opinião muito elevada que a pessoa tem de si mesmo e mild eyes seria um olhar suave, modesto, quase submisso. Resumindo e numa tradução atual ficaria assim: Juro que vou me esforçar em seguir o conselho que emana de criatura tão modesta e tão meiginha

Ao que tudo indica, se o senhor Lewes não tivesse ferido o orgulho Charlotte, ela poderia ter perdoado Jane por ser tão, como direi… tão orgulhosa de seu trabalho. Acho que “citei” Elizabeth Bennet por vias tortas!

  • Na Estante Virtual achei uma tradução de Shirley (21.abr.09) por 20 reais, me parece uma boa pedida.

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