A idade de Marianne Dashwood

A idade de Marianne Dashwood despertou minha curiosidade ao ler as traduções* deSense and Sensibility para o desafio do bicentenário da publicação do livro.

|3Remember, my love, that you are not seventeen.
|PT| — Lembra-te, minha querida, de que ainda não tens dezassete anos.
|BR| — Lembre-se, minha querida, de que você ainda não tem dezesseis anos.

No capítulo três, ainda em Norland Park, a senhora Dashwood diz para Marianne que ela é ainda muito nova para achar que jamais vai encontrar o companheiro ideal. Na tradução brasileira bastaria retirar o “não” e a frase ficaria perfeitamente correta: “Lembre-se, minha querida, de que você tem dezesseis anos.”

As Dashwoods ficaram por seis meses em Norland após a morte do pai. Minha dúvida: terá Marianne completado 17 anos antes de deixar Norland Park?

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|8“Perhaps,” said Elinor, “thirty-five and seventeen had better not have any thing to do with matrimony together.
|PT| — Diz antes — disse Elinor — que trinta e cinco anos e dezassete anos é preferível nada terem em comum com um casamento
|BR| — Talvez — disse Elinor — trinta e cinco e dezesseis nada tenham a ver  em comum com o casamento.

Pela afirmação de Elinor, no oitavo capítulo, parece que Marianne já completara 17 anos e as insinuações de casamento feitas pela sra. Jennings a incomodavan por demais. E assim sendo a tradução brasileira não teria motivos por manter 16 anos.

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|10Marianne began now to perceive that the desperation which had seized her at sixteen and a half, of ever seeing a man who could satisfy her ideas of perfection, had been rash and unjustifiable.
|PT| Marianne começava a perceber que o desespero, que a atingira aos dezasseis anos e meio, por pensar que nunca veria o homem que satisfizesse as suas noções de perfeição, fora apressado e injustificado.
|BR| Marianne começou a perceber que o desespero que dela se havia apossado, entre os dezesseis e os dezessete anos, quanto à possibilidade de encontrar na vida um homem capaz de corresponder ao seu ideal de perfeição era algo apressado e injustificável.

No capítulo nove, Marianne conhece Willoghby e no capítulo seguinte recorda seu tempo em Norland, quando tinha ainda 16 anos. Neste ponto fica claro que Marianne já estava com 17 anos quando encontrou Willoughby.

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|49A three weeks’ residence at Delaford, where, in his evening hours at least, he had little to do but to calculate the disproportion between thirty-six and seventeen, brought him to Barton in a temper of mind which needed all the improvement in Marianne’s looks, all the kindness of her welcome, and all the encouragement of her mother’s language, to make it cheerful.
|PT| Uma estada de três semanas em Delaford onde, pelo menos durante os serões, pouco mais tinha a fazer do que calcular a despreocupação[¹] entre trinta e seis e dezassete, trouxe-o para Barton com uma disposição com uma disposição que bem necessitava de todo o benefício do olhar de Marianne, de toda a amabilidade das suas boas-vindas e de todo o encorajamento das palavras de sua mãe para o tornar alegre.
[¹] aqui a única palavra que faz sentido é desproporção.
|BR| Após ter permanecido três semanas em Delaford, onde, pelo menos à noite, pouco tinha a fazer senão calcular a desproporção entre os trinta e seis e os dezessete anos, o coronel retornou a Barton num estado de espírito tal que necessitou de todos os incentivos do olhar de Marianne, de toda gentileza de sua recepção, e de todo o estímulo das palavras de sua mãe para torná-lo alegre.

No capítulo 49, o Coronel Brandon começa a frequentar o chalé de Barton e diferença de idade entre ele e Marianne continua a atormentar seus pensamentos. A surpresa fica por conta da comparação: 36 e 17 anos. Se levarmos em conta as datas originais dos parágrafos anteriores, a comparação correta seria entre 35 e 17, ou então entre 36 e 18.

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|50| She [Marianne] was born to overcome an affection formed so late in life as at seventeen, and with no sentiment superior to strong esteem and lively friendship, voluntarily to give her hand to another! — and that other, a man who had suffered no less than herself under the event of a former attachment, whom, two years before, she had considered too old to be married, […]
[…] she found herself at nineteen, submitting to new attachments, entering on new duties, placed in a new home, a wife, the mistress of a family, and the patroness of a village.
|PT| Nascera [Marianne] para vencer uma afeição que aparecera tão tarde na sua vida, aos dezassete anos, e para dar a sua mão a outro, pelo qual não sentia nada superior à forte estima e grande amizade!… E esse outro era um homem que não sofrera menos que ela por causa de uma afeição anterior, que dois anos antes ela considerara velho demais para casar […] encontrou-se aos dezanoveanos submetendo-se a novos afectos, iniciando novos deveres, instalada numa nova casa; era uma esposa, a senhora de uma família e a senhora de uma aldeia.
|BR| Nascera [Marianne] para superar uma afeição que aparecera em sua vida já aos dezessete anos, e, sem a ajuda do outro sentimento senão a da forte estima e uma viva amizade, voluntariamente dar a mão a outro!… e este outroera um homem que havia sofrido não menos que ela por causa de uma afeição anterior, e a quem, dois anos antes, ela havia considerado velho demais para casar-se…
[…] encontrou-se, aos dezenove anos, inclinada a novos afetos, encarregada em novos deveres, colocada num novo lar para ser a esposa, a mãe de uma família e a senhora de um padroado.

Que conheceu Willoughby aos dezessete anos e casou-se ao dezenove com o Coronel Brandon, não há dúvidas. Mesmo assim me pergunto: qual a idade do coronel quando se casou, 37 ou 38?

  • * Sen­si­bi­li­dade e Bom Senso, edi­ção Europa-América na tra­du­ção de Maria Luísa Fer­reira da Costa e Razão e sen­ti­mento, edi­ção Nova Fron­teira na tra­du­ção de Ivo Bar­roso.
  • “A Calendar For Sense and Sensibility” Precioso documento de autoria de Ellen Moody, publicado em 2000 no Philological Quarterly, 79.

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Entrevista: L&PM

Entre­vista (na ínte­gra) con­ce­dida a Carolina Marquis para editora L&PM: “Uma conversa com Raquel Sallaberry, dona do maior blog sobre Jane Austen no Brasil”.

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ENTREVISTA

Raquel Sallaberry é apaixonada por livros. Sua vida gira em torno deles. É diagramadora, restauradora e leitora voraz, como não poderia deixar de ser. O encanto que sente é ainda maior quando o assunto é Jane Austen, a escritora inglesa que viveu entre 1775 e 1817.

Raquel, quando começou a procurar informações sobre a escritora, surpreendeu-se com o pouco que encontrou sobre ela. Querendo reverter a situação, pôs-se a trabalhar e hoje é dona do Jane Austen em Português, um blog através do qual se comunica com amantes da autora de Orgulho e Preconceito no mundo inteiro.

Veja a entrevista que Raquel concedeu à L&PM Editores.

L&PM Editores – Qual foi o primeiro livro de Jane Austen que você leu?
Raquel Sallaberry – Li “Orgulho e preconceito” quando jovem. A obra completa, e aqui me refiro aos seis livros principais, só li muito tempo depois.

L&PM – Qual foi o impacto que o livro lhe causou?
Raquel – Lembro de ter tomado o partido de Mr. Darcy desde as primeiras linhas e ter dado boas risadas com Mr. Collins e Mr. Bennet. Meu humor começou a mudar a partir dessa leitura. Percebi que chatos e rabugentos podem ser muito divertidos.

L&PM – O que, na sua opinião, faz com que os livros e histórias de Jane Austen sejam universais?
Raquel – A sofisticação de sua escrita – simplicidade, perspicácia e humor – é o que torna suas histórias universais e atemporais, pois os costumes mudam, mas os sentimentos continuam os mesmos.

L&PM – Qual é o seu livro preferido da Jane Austen?
Raquel – Gosto de todos os livros de Jane Austen e quando preciso escolher fico dividida entre “Orgulho e preconceito” e “Persuasão”. Mas não posso deixar de mencionar alguns personagens queridos de outros livros: os sacripantas irmãos Mary e Henry Crawford de Mansfield Park; o corretíssimo Mr. Knightley de Emma; o rapaz mais divertido das redondezas, Henry Tilney d’A Abadia de Northanger e a discreta Elinor Dashwood  de “Razão e sentimento”.

L&PM – O que você acha das traduções brasileiras?
Raquel – Tem traduções ótimas e outras lamentáveis. Não nomearei as primeiras para não cometer injustiças e as últimas para não dar publicidade.

L&PM – A BBC de Londres fez em 2003 uma pesquisa que consagrou Orgulho e preconceito como sendo o livro mais amado pelos leitores do Reino Unido. O que há, afinal, de tão apaixonante nesta história?
Raquel – Há tanta coisa! Mr. Darcy, o herói rude, mas correto – não esquecendo naturalmente de Pemberley e sua bela renda anual. Elizabeth Bennet, a heroína inteligente e respeitadora das normas, mas que não se cala – imaginem a delícia de falar a verdade para uma arrogante como Lady Catherine de Bourgh. A fina ironia de Mr. Bennet, que muitos dizem ser a personificação de Jane Austen. Mr. Collins, a criatura mais obsequiosa que conheço – dono absoluto do meu bom humor. A nervosíssima senhora Bennet – tentem imaginá-la hoje, com as filhas na balada…
Muito mais haveria para falar sobre o livro que Jane considerava seu “filho amado”, mas vou guardar um pouco do assunto para 2013 quando ele completará duzentos anos de publicação.

L&PM – Para os fãs de um autor, é sempre motivo de angústia assistir a um filme cuja história é baseada no livro. O que você acha dos filmes baseados nas obra de Jane Austen?
Raquel – As séries lançadas pela BBC são muito boas. Entre elas destaco Orgulho e preconceito de 1995, com Colin Firth e Jennifer Ehle, um sucesso até hoje. As versões de Mansfield Park servem muito bem para ilustrar os tipos de filmes. A versão de 1999, de Patricia Rozema com o título Palácio das ilusões (no Brasil) é muito bonita mas a heroína, Fanny Price, e alguns personagens são quase o oposto do original. Em 2007 teve uma nova versão da ITV , também sofrível em termos de roteiro e interpretações. Apesar de antiga e mais teatral a versão de 1986 da BBC é a  melhor até hoje. Há também versões não muito fiéis, mas engraçadas como Northanger Abbey 1986ePersuasion 1971 (ambas da BBC). A grande maioria se não me encanta, me diverte.

L&PM – Como surgiu a ideia de fazer o blog Jane Austen?
Raquel – Tudo começou quando procurei na internet por traduções de Jane Austen e percebi que pouco ou quase nada havia de relevante sobre o tema. Quando descobri que o domínio “janeausten.com.br” estava disponível resolvi então fazer o blog. Já havia feito outros blogs sobre leituras, livros e tipografia e imaginei que seria do mesmo estilo. Isto até dar-me conta do número de visitas e do interesse dos leitores, quando passei a publicar com mais frequência.

L&PM – Como é a sua relação com os fãs de Jane Austen no Brasil e em outros países? Um blog é realmente uma janela para o mundo?
Raquel – Já perdi a conta do número de pessoas com as quais conversei e dei risadas lendo seus comentários. Com exceção de um ou dois stalkers, me considero privilegiada com meus leitores e leitoras, todos educados e sobretudo bem-humorados. Eu diria que o blog é uma porta para o mundo. Eu mesma escrevo, há quase um ano, como blogueira-convidada no blog da americana Vic Sanborn. Não nos conhecemos pessoalmente, mas a admiração por Jane Austen, uma língua em comum e a Web, possibilitaram o conhecimento mútuo e minha participação semanal no Jane Austen Today.

L&PM – De que forma a Jane Austen está em seu dia-a-dia?
Raquel – Como não tenho horários rígidos para trabalhar posso dizer que Jane Austen perpassa todos os meus dias. As leituras, as traduções, os filmes, a preparação do blog e por fim a correspondência com os leitores são entremeados pelos meus afazeres.

L&PM – Se você pudesse fazer uma pergunta para Jane Austen, qual seria?
Raquel – “Você me concederia uma entrevista?”

L&PM – A L&PM está em processo de lançar as obras completas de  Jane Austen em formato pocket. O que você acha disso?
Raquel – Eu acho ótimo, pois o processo teve início no Jane Austen em Português!

A Coleção L&PM POCKET lançará Persuasão, de Jane Austen, em abril de 2011.

NOTAS

  • Esta entrevista foi publicada no site da editora L&PM em fevereiro de 2011, e no blog Lendo Jane Austen em 30 de Junho de 2011.
  • Nesta data, 10 de outubro de 2013, que republico a entrevista no Jane Austen em Português, a editora já publicou 5 livros de Jane Austen: Orgulho e preconceito, Razão e sentimento, Mansfield Park, Persuasão e A abadia de Northanger. Falta apenas Emma que tem previsão para o ano de 2014.

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