Cátia, do Jane Austen Portugal eu, do Jane Austen Português, estamos lendo (sem comentarmos entre nós, de modo a não nos influenciarmos mutuamente) duas traduções, uma portuguesa e outra brasileira, de Sense and Sensibility. A leitura, que está sendo um aprendizado maravilhoso, é para comemorar o bicentenário da publicação de Sense and Sensibility, o primeiro livro publicado de Jane Austen.
Eu optei por uma breve introdução com as primeiras impressões, seguida das diferenças e/ou discrepâncias e dúvidas que encontrei na leitura até o capítulo 22. Na última parte – esta leitura será relatada em três partes –, tendo lido toda a obra nas duas traduções, darei minha opinião de leitora amadora de Jane Austen, pois esta não é uma leitura comparada acadêmica.
As traduções que estamos usando na leitura são: Sensibilidade e Bom Senso, edição Europa-América na tradução de Maria Luísa Ferreira da Costa e Razão e sentimento, edição Nova Fronteira na tradução de Ivo Barroso. O original para pesquisa, no meu caso, é a edição da Barnes and Noble.

Dentre as diferenças básicas que notei na leitura destes primeiros capítulos, uma delas foi o uso das abreviaturas de tratamento. A edição portuguesa manteve as abreviaturas em inglês: Mrs. e Mr. A brasileira optou por traduzir por “sra.” e “sr.”.
Outro detalhe foi a tradução literal dos parentescos na edição portuguesa. Aqui cabe uma explicação. Quando uma moça ou rapaz se casavam passavam a ser considerados filhos das respectivas familias e eram mencionados como tal nos livros de Jane Austen (exemplo abaixo). O tradutor brasileiro optou por descrever o parentesco como usamos no Brasil, (Sobre essas designações e tratamentos leiam a entrevista de Ivo Barroso). Restou desta leitura uma pergunta: em Portugal, atualmente, usa-se essa forma de referir-se às noras e genros, como filhos e filhas?
|01|In the society of his nephew and his niece, and their children, the old gentleman´s days were confortably spent.
|PT| Os dias do velho senhor passaram-se agradavelmente na companhia do seu sobrinho, sobrinha e respectivas filhas.
|BR| Em companhia do sobrinho, sua mulher e os filhos do casal, o velho solteirão teve conforto no seu fim de vida.
A minha primeira estranheza foi na segunda frase do livro onde não entendi o uso da palavra mesmo (grifo meu). Será uma maneira portuguesa de escrever?
|01| Their state was large, and their residence was at Norland Park, in the centre of their property […]
|PT| A sua propriedade era grande e mesmono centro situava-se Norland Park, a sua residência […]
|BR| Suas terras eram extensas e a mansão de Norland Park ficava no meio da propriedade […]
A descrição de Margaret Dashwood na edição portuguesa, na minha interpretação, indica que a menina não teria possibilidade de igualar-se as irmãs no futuro; e na brasileira, que apenas não igualava-se no presente momento, pela diferença de idade em relação às irmãs. E finalmente, no original, também não consegui me decidir com o uso da expressão “bid fair“. Desigualdade no presente apenas, ou no futuro?
|01| Margaret, the other sister, was a good-humored, well-disposed girl; but as she had already imbibed a good deal of Marianne’s romance, without having much of her sense, she did not, at thirteen, bid fair to equal her sisters at a more advanced period of life. |PT| Margaret, a outra irmã, era uma rapariga simpática e bem-humorada, mas estava ainda influenciada em grande parte pelo romantismo de Marianne, e não possuindo a sua sensatez, não parecia, aos treze anos de idade, poder a vir igualar-se com as irmãs daqui a alguns anos. |BR| Margaret, a outra irmã, era uma jovem e bem-disposta, mas como absorvera uma boa parte do romantismo de Marianne, sem guardar muito de seu bom senso, não conseguia, aos treze anos, rivalizar com as irmãs que já estavam num período de vida mais avançado.
A idade de Marianne mencionada nos capítulos três, oito e dez, estão diferentes nas duas traduções (dezesseis e dezessete) e como para explicar foi preciso recorrer aos capítulos finais, farei um post “A idade de Marianne Dashwood” e colocarei na programação (abaixo).
A primeira visita de Willoughby, que abre o capítulo dez, na tradução portuguesa diz algo completamente diferente do original. Não consigo entender o que ocorreu com esta frase, é como se tivesse sido traduzida por outra pessoa, que não o tradutor.
|10| Marianne’s preserver, as Margaret, with more elegance than precision, styled Willoughby, called at the cottage early the next morning to make his personal enquiries.
|PT| Margaret como acompanhante de Marianne, com maior elegância que precisão, acalmou Willoughby, que viera cedo, na manhã seguinte à casa para saber pessoalmente como ela passava.
|BR| O guardião de Marianne, título que Margaret, com mais elegância que precisão, atribuíra a Willoughby, apareceu na manhã seguinte bem cedo à porta do chalé para saber pessoalmente do estado dela.
No capítulo dezessete, Elinor e Marianne conversam sobre dinheiro e casamento. A quantia que Marianne considera necessária para uma vida minimamente confortável é para Elinor uma vida de riqueza. Na tradução portuguesa ocorreu algo comum, pelo menos acontece comigo, que é a confusão quando menciona centena (hundred) e milhar (thousand). Neste caso a forma como foi colocado o primeiro valor, eighteen hundred (dezoito centos), levou erroneamente ao “cento e oitenta”. O certo é ”um mil e oitocentos”. E para que os valores ficassem equivalentes, acabou por traduzir two thuousand por “duzentos”!
|17| “About eighteen hundred or two thousand a year; not more than that.”
Elinor laughed. “Two thousand a year! One is my wealth! ” […]
|PT| — Cerca de cento e oitenta a duzentas libras por ano; não mais do que isso.
Elinor riu-se:
— Duzentas libras por ano! Cem eram a minha riqueza! […]
|BR| — Cerca de mil e oitocentas a duas mil libras anuais; nada mais do queisso.
Elinor riu.
— Duas mil libras por ano! Com mil eu estaria rica!
Vocês devem ter percebido que ao fim e ao cabo tenho mais dúvidas do que explicações, mas creio que na troca de informações com os leitores boa parte delas serão esclarecidas.
NOTAS
- Abreviações usadas nos textos: |1| Capítulo do livro — |PT| Tradução portuguesa — |BR| Tradução brasileira
- Texto publicado originalmente em 30 de abril de 2011 no meu blog Lendo Jane Austen.
- PROGRAMAÇÃO DA LEITURA COMPARADA
Capítulos 1 a 23
“Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – I”
“A idade de Marianne Dashwood”
“Lendo Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – I”
“O tradutor visto por uma leiga”
Capítulos 23 a 36
“Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – II”
“O duelo de Razão e sentimento”
“O bom e velho Constância”
“Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (1)
“Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (2)
“Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (3)
Capítulos 37 a 50
“Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – III”
“Lendo Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – III”
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|01| Their state was large, and their residence was at Norland Park, in the centre of their property […]
|10| Marianne’s preserver, as Margaret, with more elegance than precision, styled Willoughby, called at the cottage early the next morning to make his personal enquiries.
|17| “About eighteen hundred or two thousand a year; not more than that.”