As cartas de Jane Austen

Finalmente chegaram as cartas, ou melhor, o livro com as cartas de Jane Austen. Este livro levou quatro meses singrando os mares e tem um história engraçada que oportunamente vou contar para vocês.

O livro tem 644 páginas – em letras miúdas – 348 com as cartas e o restante com notas, bibliografia selecionada, índices biográfico, de abreviações, topográfico e geral. Resumindo, se é que podemos usar a palavra resumir, é uma verdadeira maravilha que lerei aos poucos e consultarei muito.

Já estou prevendo que a lombada vai se acabar rapidinho pois abri poucas vezes e já está toda sulcada…

Corro os olhos por algumas páginas e leio: “In the morning Lady Willoughby* is to present […]”, “I flatter myself that itty Dordy will not forget me […]”, My dear Marta, the prospect of a long quiet morning determines me to write to you […] e paro por aqui pois será uma longuíssima leitura!

A capa já não fecha mais… precisei usar a cadeirinha!
Jane Austen’s Letters na Biblioteca Jane Austen

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* Quem será Lady Willoughby? E itty Dordy**, que a deixará tão lisonjeada por não esquecê-la? Que delícia, uma longa e silenciosa manhã só para si…

** Não resisti: itty Dordy, segundo a nota é George segundo filho do irmão de Jane, Edward Austen Knight, nas palavras mal pronunciadas do menino.

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Prefácio de Orgulho e preconceito da L&PM

Hoje, domingo não teremos a Gazeta de Meryton mas algo muito melhor! Teremos o prefácio completo de Orgulho e preconceito com a graciosa permissão da editora L&PM e do autor do texto, o poeta Ivo Barroso.

Muito obrigada a ambos!

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Jane Austen, a “boa tia de Steventon”

Ivo Barroso

Em 1817, falecia em Winchester, no condado de Hampshire, no sudeste da Inglaterra, uma frágil solteirona de 41 anos, de parcos dotes físicos, mas desenvolta dançarina nos saraus da província, que, com o correr dos tempos, se tornaria conhecida como uma das mais importantes escritoras da língua inglesa. Chamava-se Jane Austen e começou a escrever histórias apenas para a distração de seus inúmeros sobrinhos, chegando mais tarde a publicar alguns livros, o primeiro deles sob pseudônimo. O que se tornou mais famoso, precisamente este Orgulho e preconceito (Pride and Prejudice, em inglês), numa enquete organizada pela BBC de Londres, em 2003, sagrou-se como o segundo “Livro mais amado pelos leitores do Reino Unido”.

Com base em suas narrativas, têm sido feitas inúmeras adaptações cinematográficas, algumas bem recentes até, daí falar-se num revival de Jane Austen – mas a expressão é inadequada, pois a autora de Razão e sentimento (1811), Orgulho e preconceito (1813), Mansfield Park (1814) e Emma (1816) nunca esteve literariamente morta, embora tenha falecido para o mundo há quase dois séculos. Seus leitores – e não só os de língua inglesa – têm sido fiéis, constantes e crescentes em todos estes anos que viram a obra literária da “boa tia de Steventon” atingir fabulosas tiragens, comparáveis apenas com as da Bíblia e de Shakespeare.

Usando a narrativa como veículo para uma acerba crítica da sociedade em que vivia, defensora incontornável da moral mas sem arroubos moralistas, preferindo a ironia ao sermão, Jane Austen conseguiu criar personagens vivos e inesquecíveis com sua arte de pintar em subtons e nas entrelinhas o mundo provincial onde transcorreu sua pobre e curta existência. Somente através de uma observação vívida poderia essa “boa tia” transcender os parcos limites do serão familiar para projetar seus personagens na galeria dos grandes vultos criados pela tinta negra. E a despojada forma de seu estilo os preserva ainda hoje, saborosos e latentes, em meio aos milhares de poderosos vultos que nestes 190 anos vieram enriquecer a literatura mundial.

Mas, antes de mais nada, em que consiste esse famoso estilo? Jane Austen não está sozinha na galeria de mulheres escritoras da literatura inglesa de seu tempo: em 1847, Charlotte Brontë publica Jane Eyre, e sua irmã, Emily, O morro dos ventos uivantes; em 1860, George Eliot (pseudônimo de Mary Ann Evans) lança seu “romance novo” (The Mill on the Floss). São todas obras-primas da literatura romântica, sendo que o livro de Eliot inova o gênero com suas preocupações morais e psicológicas. No entanto, nenhuma delas conseguiu ser tão apreciada quanto Jane Austen, talvez por lhes faltar esse ingrediente que é uma das pedras de toque da literatura inglesa: o humor. Jane é espirituosa, é sarcástica, é gozadora. Os aspectos cômicos da pequena aristocracia inglesa são por ela expostos ao ridículo por meio das fraquezas vocabulares e das gafes. Em seus livros abundam as futricas e os mal-entendidos. Neles quase não há descrições; estão praticamente ausentes de paisagens, mesmo porque a autora muito pouco viajou. Toda a ação se passa no interior das residências, é induzida através dos diálogos ou das cartas. Mas que maneira espantosa de reproduzir tais diálogos ou de escrever tais cartas! Por eles, mesmo em tradução, Jane Austen nos permite avaliar o grau de educação ou a ignorância do personagem e situá-lo na escala social. No romance Razão e sentimento, por exemplo, quase todas as falas da sra. Jennings são antológicas, meras tentativas frustradas de o personagem aparentar o que não é, deixando sempre escapulir, pela tangente, um termo, uma expressão menos adequada ou um cacoete vocabular, que denunciam sua real personalidade ou sua formação cultural. Outro recurso estilístico de que Jane Austen se valeu de maneira exemplar foi o da inclusão de cartas no decorrer da narrativa. Na época em que viveu, a correspondência desempenhava um papel de relevância na vida familiar, não só por ser o veículo transmissor das notícias, mas igualmente por determinar o caráter do signatário; nela, o missivista punha à mostra o seu grau de instrução, seu conhecimento da língua e das boas maneiras sociais e, principalmente, a nobreza de seus sentimentos, que as convenções preconizavam fossem contidos ou dissimulados. Em Jane Austen, o trecho em que transcreve uma carta vale por uma longa descrição de fatos ou por uma demorada análise do comportamento do subscritor. CONTINUE LENDO>> Continue lendo

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