Jane Austen e os movimentos literários

A qual movimento literário a obra de Jane Austen pertence é uma questão frequente em discussões sobre os romances da autora e que parece não ter apenas uma resposta. Vamos então acrescentar novas possibilidades com o artigo de Chirlei Wandekoken, da editora Pedrazul.

Chirlei entrevistou Claire Scorzi que muitos de vocês já conhecem, não só de seu canal no You Tube mas também do post “Jane Austen não é romântica”, aqui no blog.

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Jane Austen
por Chirlei Wandekoken

Uma pequena senhorita de Steventon, no condado de Hampshire, sul da Inglaterra, é, sem dúvida, a mais amada de todas as escritoras existente até hoje. Ela é responsável pelo amor à leitura de milhares e, mesmo tendo se passado quase 200 anos de sua morte, sua escrita continua atrativa às diferentes faixas etárias. Mas, a grande dificuldade é enquadrá-la em um só movimento literário. Sua ficção, às vezes, é citada como pertencente ao movimento do Romantismo e até do improvável Realismo, mas seu estilo não se enquadra totalmente em nenhum dos dois. Apesar de uma ou outra de suas obras trazerem referências do Romantismo, ele continua único.

Segundo historiadores, a influência do Romantismo veio de um importante nome desse movimento, que surgiu no século XVIII, na Europa, o escritor inglês Samuel Richardson (1689-1761), considerado o precursor do romance. De fato sabe-se que ela leu todas as obras dele, pois “Pamela”, “Clarissa” e “Sir Charles Grandison”, foram citadas em suas correspondências. Já o Realismo surgiu na Europa na metade do século XIX, especialmente na França, como uma reação ao Romantismo. Jane Austen já havia morrido. Portanto, é improvável que ela seja uma autora realista. Flaubert, com “Madame Bovary” (1857) é um bom exemplo de literatura realista. Depois veio Balzac, Dickens, Thacheray e tantos outros. Lembrando que um escritor pode ter traços de romantismo, realismo etc. Charlotte Brontë permeou entre dois gêneros. Considerada uma escritora do Romantismo (e ela lia e admirava Byron e George Sand e outros românticos) ela escreveu obras românticas e outras com pinceladas de realismo, como “Villette”, por exemplo. Elizabeth Gaskell também passeou por diversos gêneros: foi do neoclássico, influência da própria Jane Austen de quem era fã; ao romântico, ela também era fã declarada de Charlotte; e realista, este último, influenciada por Dickens.

Segundo Claire Scorzi, que mantém um canal literário e é seguida por centenas e mais centenas de apaixonados leitores, uma das referências no Brasil quando se fala em literatura mundial, especialmente a inglesa dos séculos XVIII e XIX, sua paixão declarada, Jane Austen não foi, de fato, uma escritora romântica. “Em minha opinião lhe faltam características do Romantismo; talvez ela seja melhor classificada como uma neoclássica tardia: o controle das emoções, o elogio da sensatez e da razão”. Claire conta que Jane lia os moralistas franceses do século XVII, provavelmente La Bruyère, La Rochefoucauld e outros. “Eles eram irônicos, Jane Austen também”, ressalta. Os escritores neoclássicos queriam um estilo que conseguisse expressar ideias morais, como, por exemplo, os conceitos de justiça, honra e patriotismo. Jane Austen também lia Frances Burney e Maria Edgeworth que possuíam essas características, cuja ironia e a sátira social fazem parte de suas obras.

Sobre a rixa entre Charlotte e Austen, Scorzi é enfática: “acho tola; porque é possível amar as duas autoras por suas qualidades próprias; afinal, se algumas heroínas de Charlotte Brontë são conduzidas por seus princípios morais, e assim mantém suas emoções (sempre profundas e intensas) sob controle, acabam se aproximando de algumas figuras de Jane Austen. Infelizmente Charlotte não enxergou as sutilezas de Austen – deve ter visto toda aquela primazia do bom senso e da razão, como frieza. Uma pena”, pondera Claire. Para ela, Charlotte está mais para o Romantismo que o Realismo, “uma pré-romântica, talvez, apesar do ‘moderno’ e esplêndido desfecho de ‘Villette’, que caiu um pouco para o Realismo.

Eu adoraria imaginar uma conversa dessas mulheres inteligentes numa sala, levadas por alguma magia do Tempo – inclusive com a presença de Maria Edgeworth.” Sobre uma crítica que Maria Edgeworth (autora de Belinda, Helen e outras obras), fez a obra “Emma”, quando Austen lhe enviou um exemplar, Germaine Greer (acadêmica e escritora australiana, reconhecida internacionalmente como uma das mais importantes feministas do século XX), conta, em um de seus livros, que Edgeworth estava se recuperando de um período de doença e depressão (Greer acredita que fossem sintomas da menopausa) quando Austen lhe enviou ‘Emma’. “Talvez se devesse dar o desconto de Edgeworth ter lido essa obra luminosa e que parece leve (parece, apenas, em minha opinião) num momento desses. Também, em minha imaginação, se essas mulheres inteligentes fossem ‘obrigadas’ a conversar, acabariam se entendendo e se admirando mutuamente, pois suas obras são fantásticas.”

Jane Austen, movimentos literários

Imagens de cima para baixo e da esquerda para a direita:
Elizabeth Gaskell, Fanny Burney, Claire Scorzi, Charlotte Brontë,
Maria Edgeworth, livro Emma, Samuel Richardson,
Germaine Greer e Jane Austen (no centro).

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Banco Orgulho e preconceito

Aposto que vocês leram o título do post e já pensaram em abrir uma conta! Calma, pois o banco a que me refiro é um desses bancos de jardim e faz parte de um projeto para celebrar o patrimônio literário de Londres. Cinquenta (50) bancos foram colocados em diversos pontos da cidade no dia 2 de julho e ficarão em exposição até 15 de setembro.

Para quem estiver em Londres nesse época, ou para quem quiser dar uma olhada online, acesse o site Books about Town. Tem bancos lindos e confesso que fiquei um pouquinho decepcionada com o de Pride and Prejudice.

Em 7 de outubro será feito um leilão dos bancos e toda a renda irá para a National Literacy Trust, uma instituição de caridade dedicada a aumentar os níveis de alfabetização de crianças e jovens no Reino Unido.

Banco Orgulho e preconceito

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