Orgulho e preconceito citação na Suprema Corte

Orgulho e preconceito foi citado pela primeira vez na Suprema Corte dos Estado Unidos  pelo juiz Scalia no caso Whitfield v. United States. A citação¹, que reproduzo abaixo em inglês e traduzo logo a seguir, oferece um exemplo de uso comum do inglês, do mesmo modo que muitas vezes os linguistas o fazem.

In 1934 [when the relevant statute was enacted -EV], just as today, to “accompany” someone meant to “go with” him. See Oxford English Dictionary 60 (1st ed. 1933) (defining “accompany” as: “To go in company with, to go along with”). The word does not, as Whitfield contends, connote movement over a substantial distance. It was, and still is, perfectly natural to speak of accompanying someone over a relatively short distance, for example: from one area within a bank “to the vault”; “to the altar” at a wedding; “up the stairway”; or into, out of, or across a room. English literature is replete with examples. See, e.g., C. Dickens, David Copperfield 529 (Modern Library ed. 2000) (Uriah “accompanied me into Mr. Wickfield’s room”); J. Austen, Pride and Prejudice 182 (Greenwich ed. 1982) (Elizabeth “accompanied her out of the room”).

Em 1934 [quando o relevante estatuto foi promulgado – V], assim como hoje, “acompanhar” alguém significa “ir com” ele/ela. Ver Dicionário Oxford de Inglês 60 (1ª ed. 1933) (definindo “acompanhar” como: “ir em companhia de, ir junto com”). A palavra não conota movimento por uma longa distância, como Whitfield contesta. Era, e ainda é, perfeitamente natural dizer acompanhar alguém por uma relativa curta distância, como exemplo: de uma área dentro do banco “até ao cofre”; “até ao altar” num casamento; “até às escadas”; ou dentro, fora, ou através de uma sala. A literatura inglesa está repleta de exemplos. Veja, por exemplo, C. Dickens, em David Copperfield, 529 (Modern Library ed. 2000): “Uriah me ‘acompanhou até o quarto do Sr. Wickfield’”;  J. Austen, Orgulho e preconceito, 182 (Greenwich ed. 1982), “Elizabeth ‘acompanhou-a até a porta’”

A referência da frase é do capítulo 26, no momento que Charlotte Lucas se despede das Bennet pois vai partir para seu casamento com Mr. Collins. Reproduzo o trecho original e na tradução de Celina Portocarrero para editora L&PM:

Thursday was to be the wedding day, and on Wednesday Miss Lucas paid her farewell visit; and when she rose to take leave, Elizabeth, ashamed of her mother’s ungracious and reluctant good wishes, and sincerely affected herself, accompanied her out of the room.

Quinta-feira seria o dia das bodas e, na quarta, a srta. Lucas fez sua visita de despedida; e, quando ela se levantou para sair, Elizabeth, envergonhada pelos votos indelicados e relutantes de sua mãe e sinceramente emocionada, acompanhou-a até a porta.

FONTE
¹ “Pride and Prejudice” gets its first U.S. Supreme Court citation – The Washington Post.

Suprema Corte, citação de Jane Austen - Elizabeth Bennet e Charlotte Lucas

Suprema Corte, citação de Jane Austen | Cena da despedida do capítulo 26 com Elizabeth e Charlotte que pergunta se a amiga a visitará em sua nova casa, a reitoria de Hunsford. | Ilustração de Hugh Thomson

 

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A verdade de Orgulho e preconceito

A verdade de Orgulho e preconceito é um post sobre a primeira frase do mais famoso e amado romance de Jane Austen e suas traduções. Escrevi este post em fevereiro de 2010 inspirada por um comentário da leitora Nique. Procurei então em outras línguas e me arrisquei apenas com as latinas, mais conhecidas.

Hoje, 18 de setembro de 2017, com muitos livros acrescentados na Biblioteca Jane Austen e cada vez maior acesso a textos online, decidi aumentar o números de traduções, não só em português mas também outras línguas.

Em primeiro lugar a frase original, em inglês:

It is a truth universally acknowledged, that a single man in possession of a good fortune, must be in want of a wife.

As traduções em português brasileiro

É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro possuidor de uma boa fortuna deve estar necessitado de uma esposa. (trad. Lúcio Cardoso | Várias editoras)

É verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de boa fortuna deve estar necessitado de esposa. (trad. Celina Portocarrero | L&PM)

É verdade universalmente admitida que um homem solteiro, possuidor de boa fortuna, deve estar precisando de uma esposa. (trad. Laura Alves e Aurélio Rebello | Francisco Alves)

É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro, de posse de boa fortuna, deve estar atrás de uma esposa. (trad. Alexandre Barbosa de Souza | Penguin/Cia. das Letras)

É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de uma boa fortuna deve estar à procura de uma esposa. (trad. Carol Chiovatto | Giz Editorial)

Em português de Portugal onde tenho uma favorita, a de Leyguarda Ferreira, que de tão direta tem um humor involuntário!

É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna necessita de uma esposa. (trad. Maria Francisca Ferreira de Lima | Europa América)

É uma verdade universalmente admitida que um homem solteiro, possuidor de uma grande fortuna, precisa de arranjar mulher. (trad. J. Almeida Pinto | Portugália Editora)

É indiscutível e todos sabem que um rapaz novo, solteiro e rico precisa casar-se. (trad. Leyguarda Ferreira | Romano Torres)

É uma verdade universalmente aceite que um homem solteiro na posse de uma fortuna avultada necessita de uma esposa. (trad. Nuno Castro | Grupo COFINA)

As traduções em italiano são do site Jane Austen Italia e tem muitas outras, de causar inveja com tantas traduções! Notem que o título tem duas traduções, assim como Razão e sentimento em português.

È verità universalmente riconosciuta che uno scapolo largamente provvisto di beni di fortuna debba sentire il bisogno di ammogliarsi. (Orgoglio e prevenzione, trad. Giulio Caprin | Mondadori)

È cosa ormai risaputa che a uno scapolo, ricco di un vistoso patrimonio, manchi soltanto una moglie. (Orgoglio e pregiudizio, trad. Italia Castellini e Natalia Rosi | Tariffi)

As duas traduções em espanhol foram encontradas nos sites de Jane Austen en Castellano:

Es verdad universalmente admitida que un soltero poseedor de buena fortuna tiene que necesitar una mujer [trad. José Urriez de Azara)

Es una verdad generalmente admitida que un hombre soltero, poseedor de una gran fortuna, debe tomar esposa (trad. Fernando Durán)

Em francês

Chacun se trouvera d’accord pour reconnaître qu’un célibataire en possession d’une belle fortune doit éprouver le besoin de prendre femme. Orgueil et Préjugés (Folio Classique Gallimard, trad. Pierre Goubert)

C’est une verité universellemet reconnue qu’un célibataire ourvu d’une belle fortune doit avoir envie de se marier, […] (trad. Valentine Leconte e Charlotte Pressoir, editora Christian Bourgois) Detalhe: no final da frase a tradução coloca uma vírgula e emenda com a frase seguinte)

A tradução em húngaro ganhei de presente:

Átalánosan elismert igazság, hogy a legényembernek, ha vagyonos, okvetlenül kell feleség. (Büszkeség és balítélet [Orgulho e preconceito], Trad.Szenczi Miklós Editora: Lazi Könyvkiadó)

Em alemão tenho duas traduções sobre as quais já escrevi a respeito e coloco o link pois é muito interessante o modo de tradução, “Peculiaridades de Jane Austen em Alemão”.

Es ist eine Wahrheit, über die sich alle Welt einin ist, daβ ewin unbeweibter Mann von einigem Vermögen unbedingt auf der Suche nach einer Lebensgefährtin sein musβ. (trad. Karin von Schwab, editora Anaconda)

Es ist eine allgemein anerkannte Wahrheit, dass ein Junggeselle im Besitz eines schönen Vermögens nichts dringender braucht als eine Frau. (trad. Ursula e Christian Grawe, editora Reclan).

Em mirandês, língua falada no Nordeste de Portugal, no distrito de Bragança, com o título Proua i Percunceito. Do tradutor sei apenas o primeiro nome, Fracisco e não sei se levou avante seu projeto de traduzir todo livro.

Ye ũa berdade sabida an todo l mundo que un home sulteiro, duonho dũa buona fertuna, ten de percisar dũa mulhier.

Arremato o post com a tradução em latim, de Thomaso Cotton do site Ephemeris onde Orgulho e preconceito intitula-se Superbia & Odium.

Verum est ubique agnotum quo plus caelebs locuples uxore careat.

A verdade de Orgulho e preconceito

A verdade de Orgulho e preconceito

 

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