Jane Austen e a escravidão em Mansfield Park

Mansfield Park foi o primeiro livro no qual Jane mencionou a escravidão e o fez de tal forma que não ficamos sabendo qual a opinião de qualquer dos personagens ou mesmo dela própria (como narradora). Em Emma (veja o post), escrito logo depois de Mansfield Park, a posição dos personagens é clara – eles repudiam a escravidão – ou pelo menos se envergonham dela.

No capítulo 21, Fanny Price tenta demonstrar para Edmund que venceu sua timidez e temor ao tio argumentando que havia feito uma pergunta para Sir Thomas sobre o tráfico de escravos.

“But I do talk to him more than I used. I am sure I do. Did not you hear me ask him about the slave-trade last night?”

“I did–and was in hopes the question would be followed up by others. It would have pleased your uncle to be inquired of farther.”

“And I longed to do it–but there was such a dead silence! And while my cousins were sitting by without speaking a word, or seeming at all interested in the subject, I did not like–I thought it would appear as if I wanted to set myself off at their expense, by shewing a curiosity and pleasure in his information which he must wish his own daughters to feel.”

— Mas eu falo com ele mais do que costumava. Não me ouviu interrogá-lo ontem à noite sobre o tráfico de escravos?

— Ouvi — e tive a esperança de que a pergunta fosse seguida de outras. Seu tio havia de gostar que lhe tivesse pedido outras informações.

— E eu queria muito fazer outras perguntas — mas estava um silêncio tão pavoroso! E enquanto meus primos estavam ali sentados sem dizer uma palavra, parecendo não se interessar absolutamente pelo assunto, eu não quis… — parecia que eu queria me exibir às custas do silêncio deles mostrando uma curiosidade e um prazer pelas informações que ele de certo desejaria fossem manifestados pelas suas próprias filhas. | Tradução Rachel de Queiroz

O assunto principal deste trecho é sobre a participação mais efetiva de Fanny nas conversas familiares. A reação à pergunta de Fanny foi, por parte dos primos, indiferença – eles só gostavam de falar de seus prazeres. O tio gostou de ser inquirido – isso quem nos diz é Edmund – e só não sabemos o que respondeu, mas certamente respondeu, pois Fanny o ouviu com prazer e criticou as primas por não terem prestado a devida atenção as informações do pai.

Não podemos afirmar que Sir Thomas tinha escravos em suas propriedades em Antigua, pois não é mencionado no livro, mas é provável que tivesse pela própria história econômica das colônias de Antigua e Barbuda*. Mas supondo que não tivesse escravos, de qualquer maneira estaria envolvido no assunto pois era membro do Parlamento, que nessa época estava modificando as leis sobre tráfico de escravos.

O título do livro seria também uma homenagem ao juiz Mansfield. Não há, entretanto, nada escrito por Jane que confirme essa homenagem e como já citei aqui e repito abaixo, outros juizes já haviam se manifestado sobre o assunto.

Em 1772, no caso Somerset v Stewart, o juiz Mansfield teria dito que “um escravo que colocasse os pés na Inglaterra seria livre”. Mas parece que a deferência cabe mais ao juiz Lord Henley que em 1762, no caso Shanley v Harvey, proferiu as palavras do caso Cartwright de 1569 (sobre um escravo russo),

As soon as a man sets foot on English ground he is free […]
Tão logo um homem coloque os pés em solo inglês, ele é livre […]

john_newton

John Newton | Imagem: Virtual Museum Canada

* Antigua, assim nomeada por Critóvão Colombo em 1493, teve os primeiros moradores ingleses em 1632 e no século 18 foi grande produtora de cana-de-açúcar com o uso do mão-de-obra escrava africana. Em 1834, quando finalmente a Inglaterra aboliu a escravatura em todo seu império, Antigua instituiu imediatamente a emancipação completa. Antigua continuou colônia britânica e só tornou-se independente em 1981. Site sobre Antigua e Barbuda (em inglês)

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Tonbridge e a família Austen

Tonbridge, cidade às margens do rio Medway, tem um grande vínculo com a família de Jane Austen. Seu pai George, nasceu e foi criado na cidade e o avô, Williams Austen, está enterrado na Igreja da Paróquia de Tonbridge. Philadelphia Hancock, tia de Jane por parte de pai e mãe de Eliza Feullide também nasceu na cidade. Henry Austen, irmão de Jane, que mais tarde casou-se com Eliza de Feullide, estudou e foi Head Boy* na Tonbridge School.

Esta semana procurando por notícias do Festival Jane Austen em Bath, achei o site da Kent TV e o vídeo “Jane Austen Walk”.

É possivel acompanhar o vídeo com a transcrição, em inglês, no site.

Pesquisa da história e imagem da cidade (circa 1260) do site Tonbridge History Society. Thank you very much, Mr. Wilson.

Tonbridge_Castle

* Head Boy, monitor de classe.

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