Jane Austen e Tom Lefroy – parte 3

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Segunda carta de Jane para Cassandra em 16 de janeiro de 1796. Como a primeira carta, esta também foi escrita em dois dias, quinta e sexta-feira.

Eu estou surpresa como as pessoas naquela época se correspondiam com freqüência. E adorei o quarto parágrafo onde Jane “confessa” que escreve por fama

Eu fico muito lisonjeada com seus elogios sobre minha última carta, mas escrevo apenas pela fama, sem qualquer perspectiva de remuneração pecuniária.

É realmente uma pena que não termos as cartas de Cassandra…

Steventon: Thursday (January 16)

I have just received yours and Mary’s letter, and I thank you both, though their contents might have been more agreeable. I do not at all expect to see you on Tuesday, since matters have fallen out so pleasantly; and if you are not able to return till after that day, it will hardly be possible for us to send for you before Saturday, though for my own part I care so little about the ball that it would be no sacrifice to me to give it up for the sake of seeing you two days earlier. We are extremely sorry for poor Eliza’s illness. I trust, however, that she has continued to recover since you wrote, and that you will none of you be the worse for your attendance on her. What a good-for-nothing fellow Charles is to bespeak the stockings! I hope he will be too hot all the rest of his life for it!

I sent you a letter yesterday to Ibthorp, which I suppose you will not receive at Kintbury. It was not very long or very witty, and therefore if you never receive it, it does not much signify. I wrote principally to tell you that the Coopers were arrived and in good health. The little boy is very like Dr. Cooper, and the little girl is to resemble Jane, they say.

Our party to Ashe to-morrow night will consist of Edward Cooper, James (for a ball is nothing without him), Buller, who is now staying with us, and I. I look forward with great impatience to it, as I rather expect to receive an offer from my friend in the course of the evening. I shall refuse him, however, unless he promises to give away his white coat.

I am very much flattered by your commendation of my last letter, for I write only for fame, and without any view to pecuniary emolument.

Edward is gone to spend the day with his friend, John Lyford, and does not return till to-morrow. Anna is now here; she came up in her chaise to spend the day with her young cousins, but she does not much take to them or to anything about them, except Caroline’s spinning-wheel. I am very glad to find from Mary that Mr. and Mrs. Fowle are pleased with you. I hope you will continue to give satisfaction.

How impertinent you are to write to me about Tom, as if I had not opportunities of hearing from him myself! The last letter that I received from him was dated on Friday, 8th, and he told me that if the wind should be favourable on Sunday, which it proved to be, they were to sail from Falmouth on that day. By this time, therefore, they are at Barbadoes, I suppose. The Rivers are still at Manydown, and are to be at Ashe to-morrow. I intended to call on the Miss Biggs yesterday had the weather been tolerable. Caroline, Anna, and I have just been devouring some cold souse, and it would be difficult to say which enjoyed it most.

Tell Mary that I make over Mr. Heartley and all his estate to her for her sole use and benefit in future, and not only him, but all my other admirers into the bargain wherever she can find them, even the kiss which C. Powlett wanted to give me, as I mean to confine myself in future to Mr. Tom Lefroy, for whom I don’t care sixpence. Assure her also, as a last and indubitable proof of Warren’s indifference to me, that he actually drew that gentleman’s picture for me, and delivered it to me without a sigh.

Friday. – At length the day is come on which I am to flirt my last with Tom Lefroy, and when you receive this it will be over. My tears flow as I write at the melancholy idea. Wm. Chute called here yesterday. I wonder what he means by being so civil. There is a report that Tom is going to be married to a Lichfield lass. John Lyford and his sister bring Edward home today, dine with us, and we shall all go together to Ashe. I understand that we are to draw for partners. I shall be extremely impatient to hear from you again, that I may know how Eliza is, and when you are to return.

With best love, &c., I am affectionately yours,

J. AUSTEN.

Miss Austen,
The Rev. Mr. Fowle’s, Kintbury, Newbury.

Terceiro parágrafo:

Nosso grupo para Ashe, amanhã a noite, consistirá em Edward Cooper, James (um baile não é nada sem ele), Buller, que está hospedado conosco e eu. Eu aguardo com impaciência por isto [o baile], já que espero muito uma oferta de meu amigo no decorrer da noite. Eu recusarei entretanto, a menos que ele prometa desfazer-se de seu casaco branco.

Aqui sempre fico na dúvida com a palavra “rather” que pode significar “muito pouco” (small amount), ou “muito” (very). Penso que pode ser tanto uma tradução como a outra. Alguém me corrija se estou errada.

Sexto parágrafo:

Como você é impertinente escrevendo para mim sobre Tom, como se eu não tivesse oportunidade de saber por ele próprio! A última carta que recebi dele era datada de sexta-feira, dia 8, e ele contou-me que se o vento fosse favorável no domingo, que provou ser, eles partiriam de Falmouth, nesse mesmo dia. A estas alturas, portanto, estão em Barbados, eu suponho.

Este Tom não é o Lefroy e suponho deve ser o mesmo Tom do último parágrafo:

Há um comentário que Tom irá se casar com uma moça de Lichfield.

Sétimo parágrafo:

Diga a Maria que eu passo [legalmente] o senhor Heartley e toda as suas propriedades para ela, para seu uso e benefício exclusivos no futuro, e estão nesta barganha não só ele como todos os meus outros admiradores, onde quer que ela possa encontrá-los, até mesmo o beijo que C. Powlett quis me dar, pois pretendo me restringir no futuro ao senhor Tom Lefroy, por quem não dou um tostão furado. Garanta a ela também, como uma última e irrefutável prova da indiferença de Warren por mim, o fato de ele ter desenhado um retrato daquele cavalheiro para mim e tê-lo entregue sem um suspiro sequer.

Traduzi “for whom I don’t care sixpence” por “por quem não dou um tostão furado”, mas não tenho certeza se tem o mesmo peso e a mesma ironia.

Oitavo parágrafo:

Sexta-feira – Finalmente é chegado o dia no qual flertarei pela última vez com Tom Lefroy e quando você receber esta [carta] tudo estará acabado. Minhas lágrimas correm enquanto escrevo diante da melancolia desta idéia.

Os dois primeiros parágrafos sobre Tom Lefroy são irônicos: desfazem de seu casaco, claro demais e  portanto feio, e de sua pessoa por quem não dá sixpence. Mas há o adágio: quem desdenha quer comprar… Resta a dúvida do último parágrafo. Estará fazendo ironia com a verdade?

Até a próxima carta!

Links da série completa de posts sobre Jane Austen e Tom Lefroy:
Jane Austen e Tom Lefroy – parte 1 | parte 2 | parte 3 | parte 4 | parte 5 | parte 6 | parte 7 | Amor, inocência e pouco substantivo

22 comentários em “Jane Austen e Tom Lefroy – parte 3

  1. Eh uma pena imaginar que pela “afeição” que existia da parte dela a fez sofrer com a partida dele. Eu vi o filme e ateh gostei, mesmo sabendo que muita coisa foi ficção, mas pelas cartas, ela realmente sofreu por ele, que até comenta com a irmã que chegou a chorar. Uma pena alguém que tenha escrito estórias tão lindas não tenha tido um final feliz como os do seus livros… Ela merecia um final feliz como os que ela escreveu.

  2. E quem disse que ela não teve um final feliz? Dedicando-se à maior paixão da sua vida, ela se tornou uma das maiores escritoras de língua inglesa de todos os tempos. Se ela tivesse se casado, dificilmente poderia se dedicar à atividade que tanto amava fazer.

  3. Elaine,
    também tenho minhas dúvidas se casada conseguiria escrever tanto… se bem que as mulheres que pertenciam a chamadas gentry – caso de Jane – tinham uma vida bastante boa e com muitos criados para todas tarefas, incluindo criar filhos. Mas acredito que a própria Jane não acreditava em finais felizes e sim em finais possíveis e foi feliz a maneira dela. Só conjecturas, é claro!

  4. Sim, ela foi feliz ao se tornar uma grande escritora, era o que ela queria, mas parte o coração saber q ela não conseguiu ficar com ele!!!

  5. Estou adorando esses posts sobre a Miss Jane Austen e Mr. Tom Lefroy.
    É muito interessante ver os diversos pontos de vista sobre como foi, de fato o “relacionamento” dos dois.
    Também fiquei impressionada com a regularidade que os ingleses escreviam cartas.
    Bem, queria dar parabéns mais uma vez pelo excelente site ^^
    Beijoos =3

  6. Raquel,
    Não resisto em comentar que James MacAvoy está simplesmente perfeito, irresistível no papel de Tom Lefroy. Ele realmente deu vida ao personagem.
    Dione

  7. Dione,
    seja bem-vinda ao Jane Austen em português!
    Eu pretendo ver Mr. McAvoy no filme The Last King of Scotland!

  8. Parabéns pelo site, Raquel.
    Muito bom e informativo, de fácil leitura. Queria só saber melhor inglês para poder ler e entender tudo o que a Jane escreve (ou escreve sobre ela).
    Também fico triste em saber que os dois (Jane e Tom) não ficaram juntos. É triste saber que duas pessoas se gostavam e não ficaram juntas por imposições da época… dá uma certa raiva…
    Ainda não li o livro, mas vi o filme e nele mostra que o Tom deu o nome da filha mais velha de Jane, isso mostra que o amor ficou guardado no coração, achei muito bonito.

  9. Priscila
    muito obrigada e seja bem-vinda ao Jane Austen em português!
    Espero que você goste da série de textos que fiz sobre Jane Austen e Tom Lefroy.

  10. Olá, Raquel!
    Sou formada em Literatura e apaixonada por cinema.
    No sábado, aluguei o filme “Amor e inocência”, que me chamou a atenção por se tratar da história da grande Jane Austen. Confesso a você que fiquei emocionada com a história; fui dormir pensando em Jane e Tom, neste relacionamento interrompido pelo destino e, fiquei matutando esta história até agora… Só pensava nestes dois incompreendidos!
    Bem, hoje recorri ao Google para obter mais informações sobre esta história e, ao ler seu blog, tuda cai por terra…
    Achei um absurdo os produtores não citarem, como você mencionou, no início do filme que parte do enredo era pura ficção…
    Ainda bem que achei seu blog, cujo conteúdo é interessantíssimo, imparcial, claro. Parabéns!
    Só não consegui abrir as partes 6 em diante. Caso possa me enviar, fico muito grata.

  11. Realmente interessante.

    Na minha humilde opinião, sobre os paragrafos, acho que Jane se sentiu chatiada, ou desesperançada, com a partida de Lefroy. Uma mulher que está chatiada com algo, quando não é muito sensivél, com certeza é muito irônica. E Jane Austen é irônicamente irônica e verdadeira, e muito mais. Por isso nos identificamos com ela.

    Eu até “entendo” um pouco ela. Acho que no fundo ela sentiria saudades daquele casaco e dos flertes nos bailes.

    E parece que o último paragrafo foi sincero, mesmo que seja um pouco dificil de acreditar, já que realmente parece ser ironia dela.

    Enfim, opiniões ainda controversas, vamos continuar.

    Bjs e parabén pelo blog!

    1. Aline,

      a ironia é uma boa forma de lidarmos com algumas situações desagradáveis.

  12. Nossa eu adoro Jane Austen, sempre que posso eu assisto, eu choro tanto! Na minha opinião é magnifico o filme, mas eu me indago por que ela nao fugiu com o Tom Lefroy? Pelo livros que ela escreveu, imagino que ela realmente amava ele, nossa eu não entendo por que quando encontra o verdadeiro amor, ele sempre acaba com um final tragico, mas por outro lado ela conseguiu o que ela queria ser escritora, admiro ela demais apesar de ser muito criticada pela mãe dela que achava que seria pobretona, e motivo de piada ela superou todos os obstaculos e se tornou uma grande escritora. E sobre o Tom, a primeira filha que ele teve, o nome dela é Jane né? Será que quando eles se encontraram no Museu que ela leu alguns trechos da sua obra, os dois somente se flertaram? Só permanece na imaginação né de cada um! beijos gente

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