Jane Austen e Tom Lefroy – parte 8 (última)

Quase todas as discussões que tenho lido sobre Jane Austen e Tom Lefroy, começam, terminam ou mencionam o filme Amor e inocência (Becoming Jane).

O mote principal do filme, o romance entre de Jane e Tom certamente só poderia ser imaginado, pois as informações são mínimas e o exagero ficou por conta da fuga dos namorados e do encontro de ambos quando mais velhos – dois fatos que não há uma única evidência que tenha ocorrido.

Por mais que os produtores tenham protestado que é apenas uma obra de ficção, eles certamente contaram com a curiosidade e o desconhecimento do público sobre a vida de Jane Austen para divulgar o filme. Nada de errado em tornar ficção uma vida sobre a qual sabe-se muito pouco ou quase nada, mas considero desonesto não colocar no início ou mesmo no fim do filme essa informação. Colocar essa informação no mesmo “tamanho” e “importância” como a tela logo abaixo:

a propósito, o nome da sogra de Tom Lefroy era Jane, também…

e não como fizeram na última tela – letras minúsculas e de maneira vaga, quando a maioria das pessoas já se retirou da sala, do cinema ou de casa. Alguém leu? Eu traduzo: “Embora este filme tenha sido inspirado em eventos históricos, certas pessoas e eventos representados no filme foram inventados e/ou dramatizados. Qualquer similaridade entre as pessoas ou eventos fictícios e a pessoas ou eventos atuais são coincidências e não-intencional.”. Isto posto, vamos ao filme propriamente dito.

Os personagens e a “estória”

Lady Gresham e Mr. Wisley são fictícios apesar da importância deles na trama do filme. O dois parecem Lady Catherine de Bourgh e Mr. Darcy, ao contrário! Ela querendo casar o sobrinho com uma moça pobre e ele um bobalhão, o que não faz o menor sentido! Confesso que Wisley, no final da história, ganhou minha admiração mostrando-se alguém correto, apenas tímido ao extremo – bem mais parecido com Mr. Darcy do que Mr. Lefroy.

John Warren, ao contrário do que eu havia mencionado, existiu, mas com sentimentos diversos do personagem:

“Garanta a ela também, como uma última e irrefutável prova da indiferença de Warren por mim, o fato de ele ter desenhado um retrato daquele cavalheiro para mim e tê-lo entregue sem um suspiro sequer.” (Mais aqui)

O mãe de Jane retratada como uma “Mrs. Bennet” amarga e cavando suas próprias batatas foi outro exagero atroz. As mulheres da família faziam, é certo, trabalhos domésticos, mas os mais pesados ficavam com os criados. Os Austen faziam parte dos gentries, pessoas com condições financeiras razoáveis para manter empregados! (leia mais sobre gentry)

Esse Tom Lefroy fanfarrão e mulherengo, muito bem interpretado por James MacAvoy, está mais para Mr. Wickham, Henry Crawford ou Tom Bertram do que para Mr. Darcy! Eu diria que é quase o oposto do mencionado nas cartas de Jane e outros escritos,

“Ele é um rapaz muito educado, bonito, um jovem agradável posso assegurar isso para você.” (Mais aqui)
“[…] cartas escritas pelos tutor de Tom, Rev. Dr. Burrowes e também cartas do tio, Benjamin Langlois, que foram publicadas no livro Memoir of Chief Justice Lefroy, todas dando conta de um rapaz educado, de boa índole, aplicado nos estudos e piedoso. (Mais aqui)

A inclusão do irmão George quase nunca mencionado e que poucas pessoas sabem que existiu foi um ponto positivo para o filme, mas… Jane Austen não merecia a pieguice da cena final!

Os atores

Todos, na minha opinião, com exceção de Anne Hathaway, atuaram bem. Ela não foi convincente como Jane Austen e teve uma atuação insonsa. Ao que tudo indica ela também não se sentiu “confortável”:

Anne said: “I started to sound a bit too much like myself and not at all like Jane. After all that f***ing accent work, about 80 per cent of the dialogue in the film was unusable. I had to go to England to re-record it all.”  Entrevista para Britain’s Sunday Telegraph – 21/fev/2007 no Boston.Com (em inglês).
Eu comecei [atuar] parecendo um pouco demais comigo mesmo e não com Jane Austen. Depois de todo o trabalho com este f***ing* sotaque, em torno de 80 por cento dos diálogos do filme ficaram inaproveitáveis. Eu tive que ir para a Inglaterra e regravar tudo.

* escrevam aqui o que você acham que ficaria adequado para desqualificar o sotaque dos conterrâneos de Jane Austen em uma entrevista sobre sua própria atuação como… Jane Austen.

Acredito que Anna Maxwell Martin, que fez o papel de Cassandra ficaria perfeita no papel de Jane, não só pela boa atuação como pelo tipo físico. Bastava escurecer um pouco os cabelos – compare com a aquarela de Jane de 1810. E se o personagem Tom Lefroy, fosse representado mais como o rapaz tímido descrito por Jane, acredito que o ator Tom Vaughan-Lawlor o faria com exatidão. Neste caso deveria clarear as madeixas! Compare também o sorriso com o original!

Anna Maxwell Martin como Cassandra Elizabeth Austen

Tom Vaughan Lawlor como Tom Fowles, noivo de Cassandra.

Conclusão

Quando leio as cartas de Jane Austen vejo uma moça inteligente encantada com um rapaz também inteligente e ambos regidos pelos costumes de sua época e suas própria ambições. No momento da decisão, se é que chegou a esse ponto, a escolha foi a razão e não os sentimentos.

Apesar do tom de galhofa de suas cartas penso que Jane ficou mais enamorada do que confessava, mas é só divagação pois não temos uma palavra ou um bilhete sequer de Tom dessa época para corroborar ou contradizer tal fato. Muitos anos depois, quando indagado sobre o assunto, por um sobrinho, o venerável Juiz do Supremo Tribunal de Justiça da Irlanda disse que teve um amor juvenil pela escritora Jane Austen. Joan Klingel Ray, que já mencionei aqui, interpreta esta declaração como uma demonstração de cavalheirismo de uma certa forma confirmando o que estava escrito nas cartas de Jane e não como confissão de um romance. Há outras possibilidades. Ter sido mesmo um amor juvenil. Ter sido um grande amor mas preferiu calar. Ter sido uma declaração por vaidade ou simplesmente estava gagá!

Algumas informações nestes post sobre Jane Austen e Tom Lefroy ficaram incompletas mas espero com o tempo adquirir mais informações para compartilhar com vocês.

Links da série completa de posts sobre Jane Austen e Tom Lefroy:
Jane Austen e Tom Lefroy – parte 1 | parte 2 | parte 3 | parte 4 | parte 5 | parte 6 | parte 7 | Amor, inocência e pouco substantivo

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Mr. Beveridge´s Maggot – partitura

Recebi da leitora Jacqueline a partitura de Mr. Beveridgs’s Maggot, a música dançada por Elizabeth e Mr. Darcy em Pride and Prejudice, minisérie da BBC de 1995. Ela observa que Emma e Mr. Knightley também dançam a mesma música, só não diz em qual versão e eu não lembro no momento…

Essa música foi escrita por Johan Playford em 1695 e publicada no Playford’s Dancing Master, um livro de instruções para contradanças. Segundo Jacqueline,

Para quem toca piano (ou cravo, ou pianoforte, ou teclado), há uma partitura simplificada, com menos “floreios” a la Bach (de quem Henry Purcell foi contemporâneo) e outra com tudo o que um musicista barroco tem direito. Para quem tiver um piano eletrônico, como eu, recomendo tocar com a opção “harpiscord” (ou cravo), ou “grand piano live” pois fica realmente muito parecido com o som da época.

Obrigada, Jacqueline! E gostaríamos muito de ouvi-la tocar Mr. Beveridge’s Maggot!

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