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LIVROS JANE AUSTEN,  MISCELÂNEA,  Razão e sentimento Razão e sensibilidade

A publicação de Sense and Sensibility – Parte 1

Em 1811 Jane Austen estava com 35 anos e finalmente seu primeiro livro seria publicado. Imagino a alegria e a apreensão de Jane, nesse início de ano, conferindo as provas e acertando os detalhes pedidos por seu editor, Thomas Egerton.

Jane Austen referiu-se a Sense and Sensibility – Razão e sentimento ou Razão e sensibilidade – em várias cartas, mas somente uma delas foi antes da publicação: a carta endereçada à irmã, Cassandra, em 25 de abril de 1811. Transcrevo abaixo apenas o trecho que se refere ao livro.

No indeed, I am never too busy to think of S&S [¹]. I can no more forget it, than a mother can forget her suckling child; & I am much obliged to you for your enquiries. I have had two sheets to correct, but the last only brings us to W.s [²] first appearance. Mrs. K [³] regrets in the most flattering manner that she must wait till May, but I have scarcely a hope of its being out in June. – Henry does not neglect it; he has hurried the Printer, & says he will see him again today. – It will not stand still during his absence, it will be sent to Eliza. – The Incomes remain as they were, but I will get them altered if I can. – I am very much gratified by Mrs. K.s interest in it; & whatever may be the event of it as to my credit with her, sincerely wish her curiosity could be satisfied sooner than is now probable. I think she will like my Elinor, but cannot build on anything else.
(Jane Austen’s Letters, Deidre Le Faye)

Claro que não, eu nunca estou ocupada demais para pensar em S&S [¹]. Não posso mais esquecê-lo, do mesmo modo que uma mãe não poderia esquecer de amamentar seu filho; e sou muito grata a você por seus questionamentos. Tive de corrigir duas folhas, mas apenas a última trata da primeira aparição de W. [²]. A sra. K [³] lamenta, e da forma mais lisonjeira, que ela tenha de esperar até maio, mas tenho poucas esperanças de que o livro seja publicado em junho. – Henry não descuida desse trabalho; ele tem apressado o impressor e diz que voltará a vê-lo hoje. – O texto não ficará parado durante sua ausência, e será enviado para Eliza. – Os rendimentos ficam como estavam, mas vou tentar alterá-los. – Sou muito grata à sra. K. por seu interesse no livro; e qualquer que seja o meu crédito com ela, desejo sinceramente que sua curiosidade possa ser satisfeita mais rápido do que agora é provável. Acho que ela gostará de minha Elinor, mas não posso especular sobre o que irá acontecer.
(trad. Rubens Enderle)

[¹] Sense and Sensibility
[²] Mrs. K. – senhora Knight, que adotou Edward, irmão de Jane Austen
[³] W.s – Willoughby

Alguns detalhes na carta me chamaram a atenção. O primeiro deles foi o agradecimento a irmã pelos questionamentos (dúvidas). Nesta frase podemos imaginar a influência de Cassandra no processo de revisão e mesmo elaboração dos livros de Jane Austen.

O empenho do irmão na publicação de Sense and Sensibility mostra que desde o primeiro livro Henry Austen participou ativamente da vida literária da irmã. O que não quer dizer que ela não tomasse parte no processo, como por exemplo, a tentativa de melhorar os rendimentos. Será que conseguiu?

Outro detalhe é a primeira menção a Willoughby que dá-se nas duas primeiras frases (abaixo), no capítulo 9:

A gentleman carrying a gun, with two pointers playing round him, was passing up the hill and within a few yards of Marianne, when her accident happened. He put down his gun and ran to her assistance. […] The gentleman offered his services; and perceiving that her modesty declined what her situation rendered necessary, took her up in his arms without farther delay, and carried her down the hill.

Um jovem, que trazia uma espingarda de caça e estava acompanhado por dois cães que brincavam em redor dele, passava pela encosta exatamente a poucos metros de Marianne, quando o acidente aconteceu. Pousou no chão a espingarda em correu em seu auxílio. […]  O senhor ofereceu-lhe seus préstimos, e percebendo que o recato da moça a levava a recusar o que a situação tornava necessário, tomou-a nos braços sem maiores delongas e carregou-a pela encosta abaixo.
(trad. Ivo Barroso)

Elinor and her mother rose up in amazement at their entrance, and while the eyes of both were fixed on him with an evident wonder and a secret admiration which equally sprung from his appearance, he apologized for his intrusion by relating its cause, in a manner so frank and so graceful that his person, which was uncommonly handsome, received additional charms from his voice and expression.

Elinor e a mãe ergueram-se espantadas à entrada deles, e enquanto os olhos de ambas estavam fixados no homem com evidente surpresa e secreta admiração, que provinham igualmente de sua aparência, ele desculpou-se por sua intromissão, explicando-lhes a causa de maneira tão franca e graciaosa, que sua figura, invulgarmente atraente, ficou acrescida dos encantos de sua voz e expressão.
(trad. Ivo Barroso)

Eis Willoughby, cantado em prosa e imagem!

Receio que as modificações que Jane Austen fez na primeira aparição do rapaz nos levam hoje, duzentos anos depois, a simpatizar com este sacripanta!

  • Texto publicado originalmente em 13 de março de 2011 no meu blog Lendo Jane Austen.
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7 Comentários

  • Ana Carolina

    Onde poderia encontrar para comprar as versões originais em português é claro dos livros da Jene Austen?
    Não acho em nenhuma pagina.

  • Sandra Cabral

    Raquel,
    Delicia de post, entender o quanto essa publicação foi importante e todas as coisas que se sucederam depois, cada pequeno detalhe é um prazer!
    agora eu não consigo perdoar o Willoughby
    pra mim ele é vilão. é ponto. rsrs