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Professor Roger Maioli
FILMES & SÉRIES,  LIVROS JANE AUSTEN

O prazer de lecionar Jane Austen | Entrevista

Para falar sobre o prazer de lecionar Jane Austen entrevisto Roger Maioli, professor de literatura inglesa na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, com especialidade em literatura britânica do século XVIII.

“O vírus do amor ao livro é incurável, e eu procuro inocular
esse vírus no maior número possível de pessoas.”
José Mindlin

JANE AUSTEN EM PORTUGUÊS –  Roger, nossa conversa começou no Facebook, com um comentário seu sobre os desafios de dar aulas sobre Austen e sua obra, que reproduzo a seguir:

ROGER MAIOLI – Um dos desafios de dar aula sobre Austen é que muito aluno (principalmente os rapazes) chega ao curso predisposto a não gostar dos livros, porque aprendeu que são melosos. É uma impressão que vem principalmente das adaptações de Austen para o cinema, e também de filmes sobre a vida da autora, que a retratam não como a grande escritora que foi, mas como uma adolescente apaixonada. Aquele filme com a Anne Hathaway, em que Austen recebe lições de escrita do Professor Xavier, é imperdoável. Essa imagem popular da Austen faz com que leitores que ainda não a conheçam fiquem de pé atrás com ela, como se fosse o equivalente literário da novela das seis.

E você concorda que

[…] as adaptações trazem atenção para os livros, e os livros fazem a diferença. Aquela resistência inicial vai desaparecendo conforme os alunos vão lendo os livros e percebendo que por trás das tramas está uma imaginação madura, frequentemente cínica, com poucas ilusões quanto às dificuldades de levar vidas afetivas perfeitas no mundo real. Agora, igualmente importante é explicar para os alunos que o casamento, para uma jovem mulher inglesa em inícios do século XIX, não era a fantasia de amor que parece ser nos nossos dias. O que estava em jogo na época não era a consumação de um sonho romântico, mas a diferença entre ter um futuro e viver na pobreza ou mesmo indigência. Quando os alunos entendem um pouco mais sobre as opções estreitas das mulheres na época, os finais felizes de Austen vão fazendo mais sentido.

Na Abadia de Northanger John Thorpe já dizia “Jamais leio romances. Tenho coisa melhor a fazer”, e por sua vez Catherine Morland também imagina que o motivo dos homens não lerem romances seria “porque não são profundos o suficiente ” e supõem que “cavalheiros leem livros melhores”. Quais os motivos, nos dias de hoje, dos homens e das mulheres para não lerem Jane Austen além do suposto romantismo exagerado?

Boa pergunta! Antes de responder, vale a pena apontar que mesmo em A Abadia de Northanger o herói, Henry Tilney, é leitor ávido de romances, enquanto que John Thorpe é um contador de vantagens. Thorpe diz que não leria Os Mistérios de Udolpho porque prefere ler Ann Radcliffe, e não se dá conta de que Radcliffe é a autora de Os Mistérios de Udolpho. Austen sabe que muitos leitores na época tinham preconceito contra o romance, que era um gênero literário novo, e usa personagens como Thorpe para mostrar que os detratores do romance são fanfarrões que falam sem saber das coisas.

Mas voltando à sua pergunta: acontece muito de as pessoas não gostarem de literatura de outras épocas porque esperam que se pareça com a literatura mais recente. Veja esta resenha de Orgulho e Preconceito na Amazon: “O livro é ruim, fim. Sim, pode ser um clássico, mas é ruim, muita enrolação, você lê e lê e ainda tá parado no mesmo assunto”. Eu pessoalmente acho que Orgulho e Preconceito é um romance em que as coisas acontecem o tempo todo! O diálogo é rápido e espirituoso, a tensão sutil entre os personagens se desenvolve logo nos capítulos iniciais, a crise da família Bennet está sempre à tona… Mas não é esse tipo de coisa que o leitor acima esperava. Em Austen não há cenas de ação, brigas, ou assassinatos, nem vampiros, fantasmas e elfos. É um outro mundo e uma outra época, e o leitor precisa aceitar os limites realistas desse universo. Agora, apesar disso tudo um número impressionante de pessoas lê Austen e gosta. Basta ver quantas edições diferentes de seus romances estão disponíveis. Outros romancistas da época, como Walter Scott ou Maria Edgeworth, nem chegam perto. Quando vejo alguém lendo Austen no trem, penso: “Está lendo por prazer”. Mas se vejo alguém lendo Scott, já presumo que seja trabalho escolar.

Das últimas adaptações da obra de Jane Austen, Emma (2020) e Amor & Amizade (2016) quais você assistiu e qual é sua opinião? Fique à vontade para citar outros títulos.

Puxa vida, agora ficou difícil. Eu não vi Emma, e vi Amor e Amizade durante um voo, que não é a melhor condição para ver filmes.

Gostei do que vi, especialmente do figurino, e gostei do trabalho da Kate Beckinsale. Ao mesmo tempo, é muito estranho que o filme seja uma adaptação não de Amor e amizade, mas de Lady Susan. Imagino que tenham trocado os títulos porque os romances mais conhecidos de Austen têm títulos que consistem de dois substantivos abstratos: Razão e sensibilidade, Orgulho e preconceito, e aí pronto: Amor e amizade. Mas isso tende a causar confusão, especialmente se as pessoas que viram o filme quiserem ler o livro. A título de curiosidade, as editoras em língua inglesa decidiram preservar a ortografia peculiar do título (Freindship em vez de Friendship); já o título do filme adotou a grafia moderna. Eu, para o escândalo dos amigos que adoram a versão BBC de Orgulho e preconceito, gosto muito da versão com a Keira Knightley. Não entendo por que ela atrai tantas críticas.

Ainda sobre as adaptações, Orgulho e preconceito 2005 teve um final diferente para edição americana, completamente meloso. Os americanos são mais românticos do que os ingleses?

Opa, falemos então dessa versão. Pelo que li os produtores adotaram o novo final porque a exibição preliminar teve boa recepção nos EUA. Mas também vi que os membros da Jane Austen Society of America acharam o final um descalabro e caíram na risada ao vê-lo. Não sei se os americanos são mais românticos do que os ingleses — o sucesso de Simplesmente amor e Quatro casamentos e um funeral mostra que os ingleses adoram comédias românticas —, mas o final americano, com o longo beijo apaixonado entre Darcy e Elizabeth, ilustra o tipo de expectativa que o grande público tem com respeito a Austen. Querem romance, e é isso que os filmes — mesmo a versão inglesa — tendem a oferecer.

Não quero dizer que não haja histórias de amor nos romances de Austen. Claro que há. Mas Austen não é uma escritora “romântica” no sentido técnico do termo. O romantismo, como movimento literário, envolve emoções exaltadas, o idealismo, o radicalismo político, o sobrenatural, o fascínio pela Europa católica e pelo período medieval, e pontos e mais pontos de exclamação. Em Austen não há nada disso. Ela é um grande exemplo de romancista “clássica”, com um estilo cético e irônico, uma visão franca das imperfeições das pessoas e uma atitude tolerante mas crítica quanto às ilusões da vida afetiva.

Estudiosos de Austen como Jocelyn Harris e William Deresiewicz sugerem que os romances maduros da autora sofreram influência do romantismo, e há boas razões para concordar com isso. Mas ao mesmo tempo os autores românticos não a viam como uma deles. Quando Charlotte Brontë leu Orgulho e preconceito, ela achou um tédio. Reclamou que o romance era rasteiro e banal, porque não tinha os arrebatamentos românticos que ela própria buscou (e conseguiu) em Jane Eyre.

Quais os livros de Austen que você já apresentou para seus alunos? Teve algum que se destacou na preferência deles? A Juvenília e os livros inacabados, Os Watsons e Sanditon também fazem parte de sua programação? Aliás, Sanditon foi transformado em uma série em 2019 com o texto completado por Andrew Davies e foi a maior gritaria que não era Jane Austen mas continuam fazendo petições para uma segunda temporada pois o casal de enamorados não ficaram juntos no final! Como diria Emma Woodhouse, “a metade do mundo não pode compreender os prazeres da outra”!

Eu ainda não dei — mas pretendo dar — um curso inteiro só sobre Austen. E aí pretendo, sim, incluir a Juvenília e os romances inacabados. Os cursos que eu dou normalmente envolvem um romance só de cada escritor. Já dei aula sobre Razão e sensibilidade, Orgulho e preconceito, A abadia de Northanger, Persuasão e Mansfield Park. Só falta Emma dentre os seis grandes romances. Acho que Orgulho e preconceito tende a ser o favorito dos alunos. Mas o semestre passado o romance de escolha foi Persuasão, e acho que a impressão foi muito boa também.

Eu não vi essa versão de Sanditon. Romance inacabado é sempre complicado, né? Eu gosto
muito de Os Watsons, mas não sei se gostaria de ler um final escrito por outro autor ou autora.

As edições condensadas para ensino de inglês ou em outras línguas, na sua opinião, contribuem para despertar o gosto para Jane ou se perde o essencial neste tipo de livro e corre-se o risco do efeito contrário?

Eu sou muito a favor das versões adaptações para o estudante de línguas. Aprendi a ler em línguas como o francês e o alemão comprando esse tipo de livro, e de pouco a pouco fui conseguindo ler coisas mais complexas. Mas tem esse risco que você mencionou. O leitor que encontra Austen pela primeira vez numa versão simplificada pode achar que já conhece o original e nunca ir direto na fonte. E também pode concluir que o original não vale a pena. Quando eu estava na sexta-série li adaptações de Dom Quixote e Robinson Crusoé e não entendi por que esses livros eram famosos. Faltava o humor de Dom Quixote (que para mim é um dos livros mais engraçados do mundo). A adaptação simplesmente resumia as aventuras, que sem o estilo do Cervantes não têm muita graça ou sentido. Muitos anos mais tarde, quando li esses livros na íntegra, mudei de opinião.

Se você tem outras tantas técnicas para“ inocular o vírus do amor a Jane Austen”, por favor nos conte!

Austen é tão boa que a única dica que eu daria é que o leitor se dê a chance de abrir um livro e começar a ler. Tem escritor que exige perseverança e mesmo uma certa teimosia. Gostar de Faulkner ou de Virginia Woolf requer sangue, suor e lágrimas. Mas Austen é um prazer desde a primeira página. O que talvez ajude o leitor iniciante é desfazer-se da imagem popular da Austen como romancista do amor perfeito. O que mais me impressiona em Austen é a visão desencantada de sua narradora. Os romances terminam com final feliz, porque é esse o gênero dela (Austen não escreve tragédias como as de Emily Brontë ou Thomas Hardy). Mas no decorrer da trama vemos que Austen não acredita que o amor triunfa sobre tudo; casar-se por amor e acabar pobre é uma receita para o desastre. Tampouco ela acredita que o casamento sem amor seja sempre um erro. Charlotte, a amiga de Elizabeth em Orgulho e preconceito, é o grande exemplo da visão madura que Austen tem do mundo: ela se casa com um homem que não ama e tampouco respeita, mas que ao menos é um homem honesto capaz de proporcionar-lhe um lar e a estabilidade financeira. Esse casamento sem amor a resgata da difícil situação das mulheres solteiras na Inglaterra da época, e nas entrelinhas percebemos que Austen aprova a decisão de Charlotte — embora ela própria tenha optado por viver solteira.

Enfim, ajuda abrir os romances sabendo que Austen é capaz de encarar e retratar o lado duro da vida, mas é igualmente capaz de proporcionar esplêndidos desenlaces que nos consolam das imperfeições do mundo. Porque isso também é bom!


BLOG do Roger Maioli

Visitando a casa de Jane Austen”, post de Roger Maioli no Jane Austen em Português


NOTAS
  • José Mindlin, membro da Academia Brasileira de Letras, escritor e bibliófilo brasileiro com um acervo fabuloso que se encontra na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin
  • Citações de A abadia de Northanger, tradução de Júlia Romeu para Edições BestBolso.
  • Citação Emma, tradução do poeta Ivo Barroso para editora Nova Fronteira
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4 Comentários

  • Raquel Sallaberry

    Roger,
    em primeiro lugar, muito obrigada por tua entrevista. E sim, Dom Quixote é de fato o livro mais engraçado do mundo mundial!
    Percebi mais uma quebra de linha na última pergunta, que estava certa antes… acho que deve ter alguma configuração que não estou conseguindo eliminar. O WordPress mudou muito e tem cada vez mais bugs.

    Não sei se este comentário será publicado, pois já me informaram que não estão conseguindo comentar no blog. Lá vou eu tentar entender este doido mundo virtual. Volto mais tarde para comentar alguns pontos.

  • Rebeca Lima

    Raquel, que entrevista maravilhosa! Adorei!
    Se tiver repeteco, gostaria de saber o que ele acha do filme “Miss Austen regrets” e mais sobre como são as aulas dele.

    • Rebeca Lima

      Ah, só um ponto que discordo: pra mim Jane Austen desaprovava por completo casamentos sem afeto. Nas entrelinhas de O&P o que eu vejo é a condenação de Charlotte, que pode estar segura na vida, mas não pode ser feliz (ou ter o mínimo de paz de espírito; e quem poderia casando com o Sr. Collins?).
      Mais clara fica essa posição quando analisamos as recusas das heroínas: Elizabeth recusando o Sr. Collins (e o Sr. Darcy); Anne recusando Charles Musgrove; Fanny recusando Henry Crawford. Se a gente olhar de perto, são decisões econômicas desastrosas. Mas eu não vejo Austen vacilar em nenhum momento com um “até poderia ser…”. Pra mim, ela apoia as protagonistas (até porque ela tomou uma decisão igualzinha na própria vida).
      Mas é sempre muito legal ver leituras e interpretações diferentes. 🙂

  • Raquel Sallaberry

    Roger,
    nem me fale em Thomas Desgraça Pouca é Bobagem Hardy! Eu comecei a ler Austen na casa dos trinta anos e talvez por esse detalhe me encantei mais pelo desencanto como você descreve e ao mesmo tempo pelo humor. E aqui via uma pergunta que não fiz: qual foi o livro preferido, depois de Orgulho e preconceito, de seus alunos?

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