Visitando a casa de Jane Austen
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Visitando a casa de Jane Austen

Visitando a casa de Jane Austen
por Roger Maioli

Hoje [20 de abril de 2019] visitei a casa da Jane Austen. Ela teve vários endereços durante sua breve vida, é claro, mas esta casa aqui, na paróquia de Chawton, em East Hampshire, é especial. Foi aqui que Austen escreveu seus três últimos romances e provavelmente revisou os três primeiros para publicação. Ela passou aqui, em outras palavras, seus anos áureos (1809-1816), e para relembrar esse período a casa hoje funciona como um museu que celebra a memória dela, o Jane Austen’s House Museum. Aqui dá para ter uma ideia da vida diária da escritora e do ambiente em que escreveu seus romances. Também dá para ter uma ideia do mundo que ela reconstruiu, já que a realidade retratada nos romances deve muito ao mundo social em que a própria Austen viveu.

A menos de um quilômetro estrada acima, cruzando-se uns pastos com cheiro de esterco, fica a casa senhorial que pertencia ao rico irmão da escritora, Edward Knight. Austen visitava a casa sempre que o irmão vinha passar dias ali, e sabemos que usava sua biblioteca. Essa casa, chamada Chawton House, também tornou-se parte do patrimônio cultural britânico, e abriga hoje uma crescente biblioteca de livros raros de autoria feminina. Gente que estuda escritoras britânicas anteriores a 1830 com frequência vem fazer pesquisa ali. A casa também promove exposições, como a que vi hoje sobre o tema da leitura na época da Austen.

FOTOS

Esta é a casa [acima], vista de fora do muro para quem vem subindo a rua. É uma casa antiga, datada do século XVII, que foi ganhando ampliações com o tempo. Austen se mudou para cá depois dos anos sem rumo que se seguiram à morte de seu pai, em 1805. Foram anos difíceis. Desprovidas da renda do pai, Austen, sua mãe e sua irmã mais velha, Cassandra, ficaram na precária situação financeira das heroínas de Razão e Sensibilidade. Mudar-se para cá foi uma queda no padrão de vida delas, mas foi melhor do que a fase itinerante que precedeu a mudança.

Austen tinha vários irmãos, muitos deles bem-sucedidos na vida, especialmente Edward. A família de Austen tinha laços de parentesco com um casal sem filhos, Thomas e Catherine Knight, donos de grande fortuna. Eles adotaram Edward, deram-lhe seu sobrenome e fizeram-no seu herdeiro. Quando Thomas Knight morreu, Edward herdou Chawton House e várias propriedades menores ao redor, inclusive esta aqui, que era comparativamente uma casa modesta. Em 1809 ele propôs que a mãe e as irmãs, bem como a amiga delas Martha Lloyd, vivessem aqui de graça.

A casa [acima] vista por outro ângulo. A gente que vem do Brasil acha muito estranho que uma casa desse tamanho seja considerada modesta (um mero “cottage“), ou que mudar-se para cá fosse sinal de pobreza. E com motivo. Sempre que Austen retrata famílias em decadência social, a situação delas não é exatamente a de pobreza. Os pobres de verdade raramente aparecem nos romances de Austen. Em Razão e Sensibilidade a família retém seus criados, como também fez Cassandra Austen ao se mudar para cá. As quatro mulheres dividiam o térreo e o primeiro andar, enquanto que três criados (a aia, a cozinheira e o lacaio) moravam no sótão. Isso era o mínimo que se podia ter e ainda preservar a respeitabilidade de membros da lower gentry, o equivalente britânico da baixa fidalguia rural. Tanto a casa é grande que após a morte da segunda Cassandra ela foi dividida em três casas distintas, como moradia para famílias de lavradores.

Meu detalhe favorito sobre a casa é que hoje não se pode visitar o sótão, porque ali moram morcegos. E o museu decidiu que eles merecem privacidade.

Uma das placas comemorativas na fachada da casa. Informa que a casa foi aberta ao público sob os auspícios da Jane Austen Society em 1944, cujo presidente, o Duque de Wellington, dedicou-a à memória de seu filho, morto na Segunda Guerra Mundial.

“Jane Austen morou aqui de 1809 a 1817, e daqui partiram para o mundo todas as suas obras. Seus admiradores aqui e nos Estados Unidos uniram esforços para criar esta placa. Arte como a dela jamais há de envelhecer.”

Para mim esta é a melhor parte da casa: a mesinha onde se diz que Austen escrevia seus romances. Notem como é pequena. Eu já tinha visto em fotos, mas é muito bacana estar lá e ver ao vivo. As pernas da mesa foram reconstruídas, mas o topo é original. A evidência de que Austen escrevia aqui foi deixada por seu lacaio, William Littleworth.

Este é o cantinho da sala de jantar. Mostro a sala inteira numa outra foto.

Sabemos algo da história desta mesa graças a um rótulo colado à parte de baixo. Ele indica, entre outras coisas, que a mesa acabou pertencendo a Littleworth em anos posteriores.

Esta é a sala de jantar. A mesinha fica lá ao fundo.

Muito da casa ainda está no estado original. Notem as vigas no teto e o assoalho de tábuas. Fazem parte das ampliações da casa no século XVIII. Há partes mais antigas em que dá para notar que a madeira é mais bruta.

A vista de uma das janelas. Aquele é o jardim dos fundos, e a casa de madeira é onde ficava o forno de lenha.

É uma casa de vários cômodos pequenos, em três andares com escadinhas como esta.

Lá fora é a casa principal, vista de dentro da bakehouse, onde fica o forno.

Tudo isto aqui faz parte da vila de Chawton. Lembram-se da cena em Orgulho e Preconceito em que Elizabeth Bennet precisa atravessar um pasto a pé para ir visitar a irmã na casa de Bingley? Esse tipo de cena reflete a realidade comum da vida paroquiana inglesa. Era muito incomum uma jovem mulher sair assim desacompanhada, mesmo para um passeio a pé; mas andar em grupo era comum, e a distância entre Chawton Cottage, onde Austen morava, e Chawton House, a casa senhorial pertencente a seu irmão, certamente convidava a isso.

Lá nos fundos vê-se Chawton House, a mansão senhorial. Até hoje a vida interiorana da Inglaterra é marcada pelo regime administrativo da igreja católica medieval, que dividiu o país em paróquias e dioceses. No coração de cada paróquia havia a igreja da paróquia, a casa senhorial e a reitoria ou casa do padre (e posteriormente do pastor protestante). Todas as três ainda estão aqui. A igreja é esta à direita, a Igreja de São Nicolau da Diocese de Winchester. O prédio original, que se queimou num incêndio em 1871, era muito antigo, datado de 1289. A maior parte do prédio que vemos aqui foi reconstruída em 1872, segundo o estilo gótico original.

Recentemente instalou-se aqui esta pequena estátua de Jane Austen, de olhos voltados para a casa dela.

Esta é Chawton House. Imponente, mas não se compara a muitas outras mansões rurais inglesas. Mas esta não era a única residência de Edward Knight, que morava principalmente em Kent. A renda anual de Edward era superior à de Mr. Darcy, o famoso e altivo gentleman de Orgulho e Preconceito.

Outro ângulo.

Hoje Chawton House abriga uma impressionante coleção de obras raras (todas publicadas antes de 1830), especialmente obras escritas por e sobre mulheres.

A imponente sala de jantar. Tinha de ser, já que Edward Knight tinha uma família numerosa.

De março a dezembro de 2019 a Chawton House oferece a exposição “Jane Austen’s Reading” (As leituras de Jane Austen). Os livros expostos são aqueles que Austen decerto ou provavelmente leu, em alguns casos as cópias exatas que ela leu. Eles provêm da coleção de obras escritas por mulheres da biblioteca ou da Knight Book Collection (https://chawtonhouse.org/the-library/library-collections/the-knight-collection/). Os painéis explicam o papel da leitura na vida de mulheres como a própria Austen, bem como as possibilidades que o conhecimento literário e a carreira de escritora criavam para essas mulheres, quando a maioria das outras carreiras ainda estava fechada a elas.

A mãe e a irmã de Austen (as “duas Cassandras”) estão enterradas nos fundos da igreja. Não é coincidência que a palavra “churchyard”, que nós traduzimos como “cemitério”, signifique literalmente “quintal de igreja”.

Já Jane Austen não está enterrada aqui, porque não morreu aqui. Ela adoeceu muito seriamente em 1816, e em 1817 teve de ser levada para a cidade de Winchester, a 25 quilômetros, para ficar mais perto de seu médico. Foi em Winchester que ela morreu. Nas próximas fotos vêem-se sua última casa e sua lápida funerária.

A última casa de Austen. A placa em cima da porta diz: “Nesta casa Jane Austen morou em seus últimos dias, e morreu em 17 de julho de 1817”.

E este é o túmulo de Austen, dentro da imponente Catedral de Winchester. Seu funeral foi celebrado aqui, às 8 da manhã de 24 de julho de 1817. Austen tinha meros 42 anos. Como no caso de Mozart, sua morte prematura nos privou de não sabemos que obras-primas.

Aqui, se crermos no que diz Sir Thomas Malory, ficava Camelot, a semilendária cidade do Rei Artur. O lugar tem as devidas proporções míticas para abrigar essa gigante personalidade das letras britânicas, mesmo que Austen tenha preferido o toque sutil do romance social às aventuras do gênero romanesco.


Este post, “Visitando a casa de Jane Austen”, foi publicado originalmente no Facebook por seu autor  Roger Maioli e com sua autorização publiquei aqui no Jane Austen em Português.

9 Comentários

  • Dandara Machado

    Amei! Post muito legal para aqueles que, como eu, ainda não tiveram a oportunidade de conhecer a casa de Jane pessoalmente.

  • Lena Alves

    Bonita homenagem! Eu até vou tomar notas de alguns roteiros aqui porque um dia eu também vou fazer essa viagem para poder estar bem mais perto de Austen…Adorei a reportagem!

  • Império das Palavras

    Que viagem maravilhosa estar no local onde foi criada as belas obras desta grande escritora, pude conhecer mais um pouco de Jane Austen obrigada.

  • Raquel Sallaberry

    O roteiro e a descrição de Roger nos passam uma ideia precisa da visita. Gostei do detalhe dos morcegos!
    Gostei muito de todas as fotos e imagino que ele foi em horário de pouco movimento e assim apreciamos a casa e arredores sem distrações.
    Mas tenho três favoritas, sendo uma delas o caminho para a casa grande, que pretendo um dia percorrer. A segunda, feita de dentro da bakehouse, que dá para ver os três andares da casa, que são desencontrados e não conseguimos perceber por as outras fotos externas, eu sempre imaginei que seria apenas o térreo e o andar de cima. E por último a foto da lápide, na catedral. Que belo ângulo!
    Mais uma vez, muito obrigada, Roger!

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