web analytics
Emma,  LIVROS

Emma e suas traduções

Vejo o tempo escorrer pelos meus olhos, mas não consigo ler Emma (estou lendo a tradução de Ivo Barroso) sem de vez em quando consultar o original e a outra tradução (de Therezinha Monteiro Deutsch).

Como já escrevi aqui não sou expert em Jane Austen, traduções, crítica literária ou coisa que o valha, mas não posso deixar de me surpreender quando comparo. Vou citar duas partes e comentar a tradução com sentido oposto e omissões, como já escrevi no post Emma, Emma, Emma!.

CAPÍTULO 5 – O senhor Knightley conversa com a senhora Weston sobre Emma.

ORIGINAL

Emma has been meaning to read more ever since she was twelve years old. I have seen a great many lists of her drawing up at various time of books that she meant to read regularly through – and very good lists they are – very well choosen, and very neatly arranged – sometimes alphabetically, and sometimes by some other rule.” […]

THEREZINHA M. DEUTSCH

Emma lê bastante desde os doze anos de idade. Com o passar do tempo pude ver várias listas de livros que ela se dispunha a ler regularmente. Era ótimas listas, com livros muito bem escolhidos, e bem organizados, às vezes seguindo ordem alfabética, outras com diferentes critérios. […]

IVO BARROSO

Emma está ameaçando ler mais desde quando tinha doze anos. Já vi muitas listas, em várias ocasiões, relacionando os livros que tencionava ler regularmente então; listas bem elaboradas, livros bem escolhidos, em bela disposição, às vezes em ordem alfabética, às vezes em outra ordem qualquer. […]

A primeira frase (em negrito) na tradução de Therezinha Deutsch mudou o significado do texto original e na continuação perdeu-se a ironia do senhor Knightley sobre as pretensões de Emma como grande leitora. A palavra “ameaçando” de Ivo Barroso está perfeita.

CAPÍTULO 18 – O senhor Knightley conversa com Emma sobre Frank Churchill.

ORIGINAL

[…] “His letters disgust me”.
“Your fellings are singulars. They seems to satisfy every body else.”
“I suspect they do not satisfy Mrs. Weston. They hardly can satisfy a woman of her good sense and quick feellings: standing in a mother’s place, but without a mother’s affection to blind her.  It is on her account that attention to Randalls is doubly due, and she must doubly feel de omission. Had she been a person of consequence herself, he would have come I dare say; and it would not have signified whether he did or no. Can you think your friend behind-hand in these sort of considerations? Do you supose she does not often say all this to herself? “[…]

THEREZINHA M. DEUTSCH

[…] As cartas dele me repugnam.
— Sua reação é muito estranha: todos gostaram delas!
— Desconfio de que a senhora Weston não gostou. Essas cartas não poderiam contentar uma mulher com a sensibilidade e o bom senso que ela tem; encontra-se no lugar de mãe, porém não tem a afeição maternal para cegá-la. Ela deve ter percebido que Frank Churchill faltou duas vezes com o respeito a Randalls e deve ter sentido duplamente a omissão. Se ele fosse realmente uma pessoa de caráter, teria vindo; quer dizer, deveria ter vindo de qualquer maneira. Pode imaginar a sua amiga debatendo-se entre essas considerações? Acredita que ela não tenha dito essas coisas muitas vezes a si mesma? […]

IVO BARROSO

[…] Suas cartas me enojam.
— Seus sentimentos são singulares. Parecem satisfazer a todos mais.
— Suspeito que não satisfaçam à sra. Weston. Dificilmente poderiam satisfazer a uma mulher de seu bom-senso e perspicácia: colocando-se no papel de mãe, mas sem a afeição maternal para cegá-la. É em consideração a ela que a atenção a Randalls é duplamente devida, e ela deve ter sentido a omissão em dobro. Se ela fosse uma pessoa de importância, ouso dizer que ele teria vindo! E tanto lhe faria se ele viesse ou não. Você acha que seu amigo iria atrasar-se num caso desses? Não acha que ela amiúde diz tudo isso a si mesma? […]

Ao não traduzir “Had she been a person of consequence herself” e resumir(?) em “Se ele fosse realmente uma pessoa de caráter, teria vindo”, como fez Therezinha M. Deutsch, não ficamos sabendo qual a falha de caráter do senhor Frank Churchill. A solução de Ivo Barroso fiel ao texto, “Se ela fosse uma pessoa de importância”, nos mostra a medida exata do caráter de Frank.

“Can you think your friend behind-hand in these sort of considerations?” não poderia ser traduzida por “Pode imaginar a sua amiga debatendo-se entre essas considerações?” pois refere-se a Frank Churchill e não a senhora Weston. A palavra friend, sem gênero em inglês, é terrível, mas “behind-hand” que significa postergar em fazer alguma coisa ou fazer mais lentamente do que o esperado, nos leva ao único atrasadinho no caso, Frank, o mimadinho da titia! A tradução de Ivo Barroso não foi literal neste caso mas dá o significado exato: “Você acha que seu amigo iria atrasar-se num caso desses?”.

Volto para leitura de Emma, que começo finalmente a perceber e apreciar como a obra mais elaborada de Jane Austen, sem perder meu amor por Orgulho e preconceito e Persuasão. Fiquem à vontade para comentar, discordar, palpitar!

8 Comentários

  • Rebeca

    Nossa, Raquel, que maravilha vc estar lendo as traduções junto. Acho que na minha segunda leitura de EMMA (no futuro… )vou fazer isso. É um ótimo exercício do inglês e, tb, do português. Gostei muito das comparações!
    Bjos,
    Rebeca

  • R.Vinicius

    Ler as traduções juntamente com o texto original, em sua lingua materna, é incrível e cansativo, mas vale a pena. Fico contente e feliz por ter chego a tais passos, a encontrar o espaço de belas cores .. Li de igual maneira alguns livros, embora não o faça a muito tempo. Li Proust em Francês, Jane em Inglês, Cercantes em Espanhol, Dante em Italiano .. é cansativo e o dicionário sempre ajuda .. Eu tenho essa mania de querer saber de tudo um pouco e no fundo não sei nada.

    R.Vinicius

  • André

    Muito legal. Tem umas traduções que praticamente acabam com a genialidade do autor.

    Estou querendo dar uma olhada na tradução da Martin Claret de Orgulho e Preconceito, a editora é famosa por deformar (e piratear) traduções.

    Abraços

  • Raquel

    André,
    não vale a pena nem comprar essa da M.C.
    Procure pelo blogue Assinado:Tradutores – tem um bocado de informação sobre esse assunto.

  • Camila

    Começo a me sentir entristecida, pois parece que tenho a má fortuna de sempre escolher a “pior” tradução possível quando compro meus livros.

    A edição de Emma que tenho é justamente a com tradução da Therezinha Monteiro Deutsch, assim como minha versão de Razão e Sensibilidade.

    Já Orgulho e Preconceito, caso mais grave, é justamente a malfadada edição da Martin Claret (porém, nesse caso, posso me justificar. Era apenas iniciante na época e, após assistir o filme de 2005, senti uma necessidade real de ler o livro. Conhecia apenas a versão da Martin Claret, então comprei-a. Apenas agora, com alguma experiência, percebo o erro que cometi).

    É interessante ver as diferenças de tradução (porque elas chegam as ser assustadoras) em comparação com a obra original (embora meu inglês esteja muito aquém do recomendável).

    Belíssimo post, meus parabéns!!

    Beijoos!!

  • Raquel

    Camila,
    temos a má fortuna é de morar em um país onde a punição praticamente inexiste para esse crime e outros mais graves ainda! Essa Martin Claret jogue no lixo e compre uma edição usada com tradução de Lúcio Cardoso – você consegue por 10 pilas na Estante Virtual – ou espere a coleção da L&PM – torcida é tudo!