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Queen Mab, razões, sentimentos e sonhos

Queen Mab é o nome da linda égua que Willoughby pretendia presentear Marianne Dashwood.

Queen Mab

O presente, como sabemos, foi recusado por ser impróprio. Uma moça solteira receber um presente tão valioso de um rapaz que sequer era seu noivo, era de uma impropriedade a toda prova. E para completar as Dashwoods não tinham recursos para manter um cavalo.

Willoughby, ao saber da recusa, consola Marianne:

“But, Marianne, the horse is still yours, though you cannot use it now. I shall keep it only till you can claim it. When you leave Barton to form your own establishment in a more lasting home, Queen Mab shall receive you.”

Mas, Marianne, o cavalo continua a seu dispor mesmo que não venha a recebê-lo agora. Fica sob a minha guarda até quando você puder reclamá-lo. Quando deixar esta casa para se instalar na sua definitiva, Queen Mab estará à sua espera.
(trad. Ivo Barroso, Razão e sentimento)

Mas, Marianne, o cavalo será sempre seu, apesar de não o poder usar agora. Apenas o conservarei até que o possa receber. Quando deixar Barton para se fixar numa casa definitivamente, Queen Mab estará à sua espera.
(trad. Maria Luisa Ferreira da Costa, Sensibilidade e bom senso)

Esta fala de Willoughby é dúbia. Não sabemos se naquele momento pensava verdadeiramente casar com Marianne ou queria apenas consolá-la com a possibilidade do casamento.

No final, o presente, fazendo jus ao nome, não passou de sonho e quase virou um pesadelo. Queen Mab aparece em várias obras da literatura inglesa e ficou mais conhecida pelo monólogo do personagem Mercúcio de Shakespeare, em Romeu e Julieta.

No primeiro ato, cena quatro, Romeu discute a veracidade dos sonhos com seu amigo Mercúcio que inicia um longo monólogo onde menciona a rainha Mab, a parteira das fadas. Coloco apenas parte do texto pois somente em inglês está no domínio público, mas acredito que dá para entender a escolha de Jane Austen para o nome do presente de Willoughby para Marianne.

O, then, I see Queen Mab hath been with you.
She is the fairies’ midwife, and she comes
In shape no bigger than an agate-stone
On the fore-finger of an alderman,
Drawn with a team of little atomies
Athwart men’s noses as they lie asleep;
[…]
This is that very Mab
That plats the manes of horses in the night,
And bakes the elflocks in foul sluttish hairs,
Which once untangled, much misfortune bodes:
This is the hag, when maids lie on their backs,
That presses them and learns them first to bear,
Making them women of good carriage:
This is she—
Romeo and Juliet, Shakespeare, 1594 – Act I, Scen IV

Mercúcio – É a parteira das fadas, que o tamanho
não chega a ter de uma preciosa pedra
no dedo indicador de alta pessoa.
Viaja sempre puxada por parelha
de pequeninos átomos, que pousam
de través no nariz dos que dormitam.
[…]
[…] É a mesma Rainha Mab
que a crina dos cavalos enredada
deixa de noite e a cabeleira grácil
dos elfos muda em sórdida melena
que, destrançada, augura maus eventos,
Essa é a bruxa que, estando as raparigas
de costas, faz pressão no peito delas,
ensinando-as, assim, como mulheres,
a aguentar todo o peso dos maridos.
É ela, ainda…
(trad. Carlos Alberto Nunes, Biblioteca Folha, 1998)

UPDATE: Recebi do poeta Ivo Barroso um excerto da linda tradução de Onestaldo de Pennafort

Pelo que vejo, foste visitado
pela rainha Mab. Ela é a parteira
entre as fadas. E é tão pequenininha
como a ágata do anel que os conselheiros
usam no indicador. Puxada por parelhas
de minúsculos átomos passeia
por cima do nariz dos dorminhocos.
Feitos de pernas longas de tarântulas
são os raios das rodas de seu carro;
de asas de gafanhotos, a coberta;
as rédeas são da teia de uma aranha;
de úmidos raios de luar, o arreio;

de osso de grilo, o cabo do chicote
e o rebenque de um fio de cabelo.
O seu cocheiro, de libré cinzenta,
é um mosquitozinho duas vezes
menor do que o bichinho redondinho
tirado com uma agulha do dedinho
das criadas preguiçosas; a carruagem
é uma metade de avelã vazia
e toda trabalhada, obra de entalhe
devida ao mestre-entalhador esquilo,
ou talvez seja mesmo do caruncho,
velho segeiro imemorial das fadas.
Nessa equipagem é que ela galopa
todas as noites através do cérebro
dos amantes, que então sonham com o amor.

A melhor interpretação para o monólogo que encontrei foi a do ator John McEnery, naversão de Franco Zefileri, 1968.

  • Apesar da belíssima filmagem de 2008, no livro Marianne nunca chega a conhecer o presente
  • Há também um poema de Percy Bysshe Shelley (1792-1822): Queen Mab: A Philosophical Poem
  • Texto publicado originalmente em 21 de fevereiro de 2011 no meu blog Lendo Jane Austen.

 

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