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MISCELÂNEA

Jane Austen e Fernando Pessoa

Jane Austen e Fernando PessoaJane Austen e Fernando Pessoa é um post que eu deveria ter escrito em 2012 logo após escrever “Um namorado para Jane Austen”. Duas leitoras, Bianca Oliveira e Sara Figueiredo indicaram Fernando Pessoa como um bom candidato.

Naquela época, assistindo L&PM Web TV, fiquei sabendo do aniversário do poeta e de imediato lembrei do meu poema preferido de Fernando Pessoa, “Lisbon Revisited”, que ele assinou como Álvaro de Campos, o seu heterônimo mais rabugento!

E não demorei para juntar a célebre frase de Jane “I do not want people to be very agreeable, as it saves me the trouble of liking them a great deal.” (“Eu não quero que as pessoas sejam muito agradáveis, o que me poupa o problema de gostar muito delas.”) escrito numa carta que Jane escreveu para irmã Cassandra em 24 de dezembro de 1798.

Não faço a menor ideia se Pessoa leu Jane Austen mas amo rabugentos inteligentes!

LISBON REVISITED
(1923)

Não: não quero nada.

Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Para admiradores do poeta português segue o link da Casa Fernando Pessoa Digital.

4 Comentários

  • Nayla

    “Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. ”
    Tabacaria – Álvaro de Campos/ Fê Pessoa

    Gente, é ou não é a cara da Fanny Price?