Querida Jane…

No ano passado li, com o coração pequenino, o início do primeiro capítulo da biografia de Jane Austen, de John Halperin. Hoje, 18 de julho de 2009, 192 anos da morte de Jane Austen, compartilho com vocês a passagem que me emocionou.

Early on the morning of Friday, 18 July 1817, in a house in college Street in the city of Winchester, a woman lay dying. She was forty-one, and she was dying painfully. She had lived in Steventon, in Hampshire; in Bath and Southampton; in Chawton, also in Hampshire; and she had visited a good deal in London and in Kent: never had she been out of England. She had six brothers and a sister and a host of nieces and nephews, some cousins and a mother living – but no children of her own. She had never married.

Her sister Cassandra asked her if she wanted anything. “Nothing but death,” was the clear reply: “God great me patience, Pray for me, oh, pray for me.” Her physician gave her something to relieve the pain: half an hour later she was unconscious. “During that half-hour was her struggle, poor soul!” Cassandra wrote two days later. “She said she could not tell us what she suffered, though she complained of little fixed pain.” The sufferer reached a state of quiet insensibility, scarcely moving a limb. Except for a slight movement each time she drew breath, she lay still. Her head, nearly off the bed on which she reposed, rested on a pillow on her sister’s lap. “There was nothing convulsed or which gave the idea of pain in her look; on the contrary… she gave me the idea of a beautiful statue,” Cassandra said later. At 4:30 that morning, in Cassandra’s arms, her sister’s struggles came to an end. Cassandra closed her eyes.

Cedo, na manhã de sexta-feira de 18 de Julho de 1817, em uma casa na College Street na cidade de Winchester, uma mulher estava morrendo. Ela tinha quarenta e um anos e estava morrendo de forma dolorosa. Ela morou em Steventon, em Hampshire; em Bath e Southampton; em Chawton, também no Hampshire, e que ela visitou muito de Londres e Kent: ela nunca esteve fora da Inglaterra. Ela tinha seis irmãos e uma irmã, numerosos sobrinhos e sobrinhas, alguns primos e a mãe ainda viva – mas ela própria não teve filhos. Ela nunca se casou.

Sua irmã Cassandra perguntou a ela se queria alguma coisa. “Nada exceto a morte”, foi a resposta clara: “Deus de-me paciência, Rezem por mim, oh, reze por mim.” Seu médico deu-lhe qualquer coisa para aliviar a dor e meia hora mais tarde ela estava inconsciente. “Essa meia hora foi sua luta, pobre alma!”, Cassandra escreveu dois dias depois. “Ela disse que não poderia nos dizer o que ela sofreu, embora ela se queixasse de uma pequena dor permanente.” A doente chegou a um estado de calma insensibilidade, dificilmente movendo qualquer membro. Exceto um ligeiro movimento cada vez que respirava, ela permanecia imóvel. Sua cabeça, quase fora da cama na qual estava, repousava sobre uma almofada no colo da irmã. “Não havia nada agitado ou que desse a idéia de dor em sua fisionomia, ao contrário … ela me deu a idéia de uma bela estátua,” Cassandra disse mais tarde. Às 4:30 daquela manhã, nos braços de Cassandra, a luta da irmã chegou ao fim. Cassandra fechou seus olhos. (trad. mea culpa)

  • The Life of Jane Austen – chapter 1, “The End, July 1817” , John Halperin, 1984, The Johns Hopkins University Press

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Nem todas as cartas são de amor

Todas nós lembramos da linda carta de amor do capitão Wentworth. Mas nem todas cartas são de amor, mesmo vindo de nossos amados(as). Ontem, lendo os feeds, encontro esta maravilha de carta no Chá com Hortelã e lembrei-me imediatamente da cartinha de Willoughby para Marianne.

“Bond Street, January.

My Dear Madam,

I have just had the honour of receiving your letter, for which I beg to return my sincere acknowledgments. I am much concerned to find there was anything in my behaviour last night that did not meet your approbation; and though I am quite at a loss to discover in what point I could be so unfortunate as to offend you, I entreat your forgiveness of what I can assure you to have been perfectly unintentional. I shall never reflect on my former acquaintance with your family in Devonshire without the most grateful pleasure, and flatter myself it will not be broken by any mistake or misapprehension of my actions. My esteem for your whole family is very sincere; but if I have been so unfortunate as to give rise to a belief of more than I felt, or meant to express, I shall reproach myself for not having been more guarded in my professions of that esteem. That I should ever have meant more you will allow to be impossible, when you understand that my affections have been long engaged elsewhere, and it will not be many weeks, I believe, before this engagement is fulfilled. It is with great regret that I obey your commands in returning the letters with which I have been honoured from you, and the lock of hair, which you so obligingly bestowed on me.

I am, dear Madam,
Your most obedient
humble servant,
John Willoughby”

Bond Street, janeiro.

Prezada Senhora,

Acabo de ter a honra de receber a sua carta, pela qual peço aceitar meus sinceros agradecimentos. Estou muito preocupado por saber que houve algo em meu comportamento da noite anterior que não mereceu a sua aprovação; e se bem não consiga atinar em que ponto a minha atitude a houvesse ofendido, venho pedir-lhe perdão para o que lhe posso assegurar não terá passado de um gesto inintencional. Não consigo lembrar-me do excelente convívio que ive com sua família em Devonshire ultimamente sem que o faça com o maior prazer, e muito aspiro não venha sofrer qualquer desgaste por algum equívoco ou mal-entendido decorrente de meus atos. Minha consideração por toda a sua família é deveras sincera; mas, se tive a infelicidade de dar ensejo a que acreditasse em algo além do que eu realmente sentia, ou quisesse expressar, devo reprovar-me por não ter sido mais moderado na manifestação dessa estima.  Quanto a supor que eu quisesse significar algo mais, há de convir que me era impossível, quando souber que o meu afeto desde há muito se achava comprometido, sendo que dentro de algumas semanas tal compromisso será definitivamente selado. É com grande pesar que obedeço à sua ordem de lhe devolver suas cartas, com as quais fui profundamente distinguido, e o anel de cabelos, com que tão gentilmente me havia obsequiado.

De V. S,
o mais obediente e humilde servidor,
John Willoughby”

Marianne, depois de tal missiva, afirma,

“No, no,” cried Marianne, “misery such as mine has no pride. I care not who knows that I am wretched. The triumph of seeing me so may be open to all the world. Elinor, Elinor, they who suffer little may be proud and independent as they like–may resist insult, or return mortification–but I cannot. I must feel–I must be wretched–and they are welcome to enjoy the consciousness of it that can.”

— Não, não — exclamou Marianne. — Um desgosto como o meu não tem orgulho. Não me importa que saibam do meu infortúnio. O triunfo de me verem vencida será patente aos olhos do mundo. Elino, Elinor, os que p-ouco sofrem podem ser orgulhosos e independentes como quiserem… podem resistir aos insultos e esquecer o desespero… mas eu não. Tenho de sentir… que ser infeliz… e eles estão livres para ver que assumo o meu papel.

E nós o que faríamos? Ainda inspirada por Liliana, a Poderosa Afrodite, fica aqui uma receita!

  • Razão e sentimento, capítulo 29, trad. Ivo Barroso.

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