Eu gosto muito de Jorge Luis Borges e não me recordava de ter lido menção alguma sobre Jane Austen em seus livros. Como não sou parenta de Funes, o Memorioso, e Borges cita toneladas de pessoas, recorri a São Google.
Achei dois textos: um no jornal The Spectator[1], onde o escritor argentino Alberto Manguel menciona alguns autores com os quais Borges não perdia seu tempo, entre eles, Jane Austen; o outro, no site Contracampo numa crítica sobre o filme As patricinhas de Bervely Hills[2] que cito abaixo o trecho referente a Borges:
Aqui, talvez seja pertinente dizer uma palavra sobre Jane Austen e seus escritos; ainda melhor, uma palavra de Jorge Luis Borges. Dizia o grande escritor argentino que “uma biblioteca sem livro algum seria ainda uma biblioteca de valor, posto que não possuiria nenhum livro de Jane Austen”. Pois é. De Borges se sabe que era um bocado radical, mas o que ele disse tem lá sua justificativa. Ora, Austen só é clássico porque tem atrás de si trezentos anos (vá lá, e dizem que porque foi a primeira a dar às suas heroínas algum cérebro).
Não duvidei que Borges pudesse ser autor do chiste acima, mas os “trezentos anos” levaram-me a procurar outras fontes. Lembrei-me então de Martín Hadis[3], escritor argentino, com quem já havia conversado sobre Jorge Luis Borges. Escrevi um e-mail perguntando se havia algum livro sobre o escritor com essa citação e brinquei dizendo que se essa “frase infame” fosse verdadeira eu já conseguia ouvir Jane falando sobre Borges: “Eu poderia facilmente perdoar seu orgulho se ele não tivesse ferido o meu”.
Martín informou-me que quem havia dito a frase era Mark Twain a quem Borges cita em sua autobiografia e passou-me o trecho do livro Borges, the Poet de Carlos Cortínez, onde Borges responde sobre autoras (suas preferências, provavelmente):
BORGES: Of course. Emily Dickinson, Lady Murasaki, Silvina Ocampo. Three. Jane Austen, no. My mother enjoyed her; I never could.
BORGES: É claro. Emily Dickinson, Lady Murasaki, Silvina Ocampo. Três. Jane Austen, não. Minha mãe gostava dela; eu nunca pude [gostar].
Bem, definitivamente Borges não morria de amores por Jane Austen, mas não era tão malvadinho como Mark Twain!
Muchas gracias, Martín!
[1] “Little time for Proust or Tolstoy”, The Spectator, 07/jun/2007
[2] As patricinhas de Bervely Hills, Contracampo
[3] Martín Hadis escreveu dois livros sobre Jorge Luis Borges: Literatos y excentricos: Los Ancestros Ingleses de Jorge Luis Borges e Curso de literatura inglesa, já traduzido para o português. Seu site Internetaleph, em inglês e espanhol, é uma fonte preciosa sobre Borges.
OBS: Os links acima infelizmente foram desativados (rev. 2024)
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