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LIVROS JANE AUSTEN,  MISCELÂNEA,  Orgulho e preconceito

O vinho do Porto em Orgulho e Preconceito

Mês passado quando bebi um Porto lembrei vagamente de ter lido um menção a este vinho em Jane Austen, mas não tinha certeza em qual dos livros. Quando terminanos o precioso conteúdo passei a mão na garrafa e trouxe para casa para fotografar e disposta a pesquisar. Como sempre, demorei um pouquinho para escrever, mas cá está!

O vinho do Porto tornou-se muito popular na Inglaterra depois do Tratado de Methuen, em 1703, que permitia a importação com custo menor dos vinhos portugueses já que os vinhos franceses eram proibitivos devido a guerra com a França. A história do vinho do Porto é muito antiga e a data de surgimento imprecisa, mas sua designação como “do Porto” iniciou no século dezessete, derivando do nome da cidade de onde é exportado, a cidade do Porto em Portugal. Para saber mais sobre esse vinho especial recomendo o ótimo site do Instituto do Vinho do Porto.

A única menção que encontrei ao vinho do Porto na obra de Jane Austen foi em Orgulho e Preconceito, no capítulo 16, que transcrevo a seguir tanto no original como em três traduções brasileiras e uma portuguesa, de 1949, feita por Leyguarda Ferreira para a editora Romano Torres.

The officers of the —–shire were in general a very creditable, gentlemanlike set, and the best of them were of the present party; but Mr. Wickham was as far beyond them all in person, countenance, air, and walk, as they were superior to the broad-faced stuffy uncle Philips, breathing port wine, who followed them into the room.
| Chapter 16, Pride and Prejudice |

Os oficiais do regimento eram todos perfeitos rapazes, mas Wickham excedia-os em distinção, na elegância do andar e dos gestos,  na expressão agradável do semblante e nem podia ser comparado com o tio Philips, com as faces balofas, cheirando a vinho do Porto.
| trad. Leyguarda Ferreira, 1949 | Tradução portuguesa |

Os oficiais do condado de… eram todos pessoas muito distintas e os melhores dentre eles estavam presentes; mas Mr. Wickham ultrapassava a todos em aspecto, maneiras, modo de andar, do mesmo modo que eles, os oficiais, eram superiores ao gorducho tio Philips, com o seu rosto redondo e o seu hálito cheirando a vinho do Porto.
| trad. Lúcio Cardoso, 1940 |

Os oficiais de …shire formavam em geral um grupo de cavalheiros muito agradáveis, e os melhores  entre eles estavam presentes; mas o sr. Wickham era tão superior a todos em aparência, atitude, postura e modo de andar quanto eles, superavam o o bochechudo e aborrecido tio Philips, recendendo a vinho do Porto, que os acompanhou ao salão.
| trad. Celina Portocarrero, 2010 |

Os oficiais do condado eram em geral um grupo de homens bastante confiáveis, cavalheirescos, e os melhores deles estavam ali presentes; mas o senhor Wickham era muito superior a todos eles em modos, no semblante, na aparência e no andar, assim como eles por sua vez eram superiores ao gorducho tio Philips, de cara redonda e com hálito de vinho do Porto, que os seguia pela sala.
| trad. Alexandre Barbosa de Souza |

Pela descrição de Jane podemos comprovar quão popular era este vinho na Inglaterra daquela época, pois o tio Phillips, que não era exatamente um homem abastado, bebia-o, ao que tudo indica, em quantidades razoáveis.

Outro detalhe curioso é a grafia do original: “port wine”, tudo em minúsculas, que parece contradizer a designação que já seria consagrada como “vinho do Porto”. Não consigo atinar o motivo.

E por fim a coincidência do nome da tradutora com nome da casa produtora do vinho que bebi: Ferreira!

 

 

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Um comentário

  • Leticia

    Você sabe que até hoje não me atino direito com o racional da CxA ou cxb dessas denominações.

    Hífen, se havia, tornou-se questão obsoleta com a nova ortografia, menos chapéu-panamá (não me pergunte por quê).

    Claro que os termos atinentes a botânica e zoologia continuam com hífen e cxb, como tigre-de-bengala, castanha-do-pará, e tal.

    Mas e bolsa Chanel, vinho do Porto, sapato Oxford, estampa Liberty, tecido Oxford, fio Escócia, xadrez Vichy?

    Não chega a ser um tormento do ofício, porque sempre há fontes, dicionários, e tal. Mas por que não uniformizam a grafia dessas coisas?