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MISCELÂNEA

Entrevista: Gazeta do Povo de Curitiba

Entrevista concedida a jornalista Luciana Romagnolli para matéria sobre Jane Austen no jornal Gazeta do Povo (Curitiba, PR), em agosto de 2008. Foi publicado, tanto online como no papel, e excertos nesta página: “A razão vence o sentimento“.

Abaixo transcrevo na íntegra, perguntas e respostas.

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1. Qual a proposta do site Jane Austen em Português?
O Jane Austen em português é um blogue pessoal em que publico ou indico minhas leituras de Jane. Na maioria das vezes reconto ou traduzo pequenos trechos do que leio em  seus livros, ou em sites, blogues ou jornais em inglês, que são minhas fontes de referência e inspiração, pois há muito pouco em português na internet sobre Jane. Meu blogue é mais vontade do que proposta. Vontade de compartilhar minha admiração por Jane e sua obra.

2. A obra da escritora está suficientemente traduzida para o português?
Os seis livros completos já foram traduzidos por tradutores respeitados como Ivo Barroso, Lúcio Cardoso, Rachel de Queiróz e Lêdo Ivo, para citar alguns. Mas ainda não temos as obras incompletas – SanditonThe Watsons e Lady Susan – e textos da juvenília, como a divertida história da Inglaterra escrita por Jane Austen aos 16 anos. Sem falar nas cartas e alguma biografia, das tantas que existem. A Landmark lançou recentemente Orgulho e preconceito e Persuasão em edições bilíngües e promete o restante da obra. Sou da opinião de que sempre podemos ter mais traduções, e fico sonhando com uma edição, em português naturalmente, como a Popular Classics da Penguin e seus preços verdadeiramente populares.

3. Os livros de Jane Austen datam da virada do século 18 para o 19, ambientadas em uma Inglaterra agrícola, aristocrata, patriarcal. Ainda assim, não apenas continuam a ser lidos, como influenciam outras obras, a exemplo dos recentes filmes O Clube da Leitura de Jane Austen (em que os personagens unem-se em um clube de leitura dos romances de Austen, o que os ajuda a lidar com relações contemporâneas), que chegou às locadoras em junho, e Becoming Jane – Amor e Inocência (um romance histórico que funde biografia e obra da autora, colocando-a como protagonista de um romance – malogrado – ao estilo Lizzy-Darcy), ou mesmo de adaptações para o cinema como Orgulho e Preconceito. Na sua opinião, o que torna a obra da autora atual, capaz de repercutir ainda hoje?

Ao longos dos últimos séculos os costumes mudaram bastante, mas nossos sentimentos, razões e preocupações básicas continuam os mesmos. Quem nunca se apaixonou como Marianne, ou precisou mudar drasticamente de vida como as Dashwood? Quem não conhece um bajulador profissional como o senhor Collins ou uma arrogante como Lady De Bourgh (”que se acha”, como dizemos hoje)? Quem não imaginou histórias mirabolantes como Catherine Morland (vejam os nossos meninos e meninas góticos)? Quem não gostaria de ter a habilidade e rapidez das respostas de Elizabeth Bennet em situações que nos afrontam?
O que mantém a obra atual é a sofisticação – com perspicácia, simplicidade e humor – com que Jane escreveu sobre pessoas reais.

3. b) Para você, Jane Austen é ainda fonte para tratar da feminilidade, do lugar da mulher na sociedade, de seus sentimentos?
Nunca li ou percebi a obra de Jane Austen em termos de feminilidade e cito partes de seus livros para exemplificar.
Em Razão e sentimento, quando dá a palavra a Willoughby para apresentar seus motivos e arrependimentos pela maneira como agiu com Marianne não tem um discurso feminino, tanto que quase ficamos com pena dele.
Em Persuasão, a carta de amor mais doce de todos seus romances é escrita pelo viril capitão Wentworth: “Já não posso mais ouvir em silêncio. Preciso falar-lhe pelo único meio de que disponho. Desse modo você fere minha alma. Sou metade agonia, metade esperança.”.
E sabia ser ser dura como ninguém, como quando se referiu ao filho dos Musgroves, também em Persuasão: […] tiveram a triste sina de ter um filho incorrigível, e a sorte de perdê-lo antes de chegar aos vinte anos.[…] Raramente se ouvia falar dele e pouco lamentaram quando, dois anos antes chegara a Uppercross a notícia de sua morte no exterior.”*
Quanto ao lugar da mulher na sociedade acho difícil fazer comparações. As mudanças econômicas, sociais e por fim de comportamento sexual nos distanciaram muito daquela época. Mas os sentimentos, como já mencionei, continuam os mesmos.

3. c) Se você teve a oportunidade de assistir a algum desses filmes, por favor, gostaria de sua opinião se fazem justiça à vida/obra de Austen.
Clube de Leitura Jane Austen é um exemplo bem-humorado de como nossos sentimentos continuam os mesmos descritos nas obra de Jane. Já Becoming Jane tem paisagens e atores lindos, mas o mote central do filme, um suposto romance entre Jane e Thomas Langlois Lefroy, perdeu-se como biografia e ficou confuso como ficção.
Das adaptações de Orgulho e preconceito que já vi, achei no geral todas boas. Acredito que, por ser o livro mais lido de Jane Austen, ninguém arrisca inovar muito no roteiro. Eu sou da opinião que qualquer filme que leve alguém a ler o livro em que foi baseado já valeu a pena.

4. Os enredos de Austen são folhetinescos, histórias de garotas que vão ao encontro de um marido, mas seus livros destacam-se pela análise de caráter e pela linguagem crítica, irônica. Pelo seu conhecimento da (escassa) biografia da autora, o que teria permitido que ela avançasse em relação às realizações que “cabiam” a uma mulher do seu tempo e se destacasse na literatura?
Apesar de aparentar um tom folhetinesco, os livros de Jane são histórias complexas em que as mulheres, por questões de costumes da época, precisavam esperar o primeiro movimento do homem; só depois podiam prosseguir suas vidas. Essa espera cheia de regras e etiquetas e das quais dependiam suas vidas, pois quase não haviam empregos dignos, pelos padrões da época, para mulheres, é analisada com profundidade, ironia e elegância por Jane Austen. Outras mulheres escreveram com sucesso na mesma época (Fanny Burney, Mary Wollstonecraft, Ann Radcliffe) e em condições similares. Resta apenas uma  explicação para o destaque de Jane: excepcional acuidade na percepção do comportamento humano e talento, que é raro em qualquer época.

5. Austen é comumente citada como a segunda autora mais importante de língua inglesa, abaixo apenas de Shakespeare. No seu ponto de vista, o que a distingue entre outros grandes nomes da literatura anglicana*?
Aprecio muitos autores ingleses e gosto especialmente de Jane Austen, mas não sou especialista em literatura inglesa nem costumo comparar autores. Sei que Walter Scott, Henry James, G. K. Chesterton, Harold Bloom e muitos outros escreveram com grande admiração sobre a obra dela, mas acredito que o mérito de Jane é vir mantendo os leitores interessados há quase duzentos anos sem precisar de agentes literários ou resenhas em jornais.

6. Na sua opinião, qual a melhor obra da escritora? Por quê?
Orgulho e preconceito. Por seus personagens e o humor delicioso. Mas preciso mencionar Persuasão, uma pequena jóia, publicada postumamente, que ficou pronta mas faltou lapidar, como Jane certamente teria feito.

6. b) E sua personagem preferida?
Elizabeth Bennet e o senhor Darcy… confesso também meu fraco por Henry Crawford e pelo queridíssimo senhor Collins.

* Acredito que ela quis dizer inglesa

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4 Comentários

  • Felicia

    Cara Raquel
    Admiro muito seu site desde que o conheci e prabenizo seu valioso trabalho. poder falar de uma escritora como Jane Austen já a faz competente ao meus olhos.
    Gostaria de lhe apresentar o trabalho de minha equipe.
    Somos as victorians, mulheres loucas por uma época maravilhosa onde as mulheres podiam falar através dos sentimentos.
    Traduzimos e legendamos tudo a respeito de Jane Austen.Postaremos um documentário da BBC, Pride & Prejudice-Having a Ball. E se for de seu interesse poderia indicar e seu site.
    Abraços

    • Raquel Sallaberry Brião

      Felicia,

      muito obrigada! Você não disse o nome de seu blog ou site.