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LIVROS JANE AUSTEN,  MISCELÂNEA,  Orgulho e preconceito

Orgulho e preconceito · Leitura comparada Brasil-Portugal · Capítulos 11 a 15

Orgulho e preconceito, aquarelas C. E. BrockNestes cinco capítulos assinalei muitos dados mas comentarei apenas parte deles ou o texto ficaria longo demais para um post. E sempre conto com a leitura da Cátia que descobre outro tanto!

No capítulo 11, quando Mr. Darcy chega na sala (em Netherfield), onde se encontram as senhoras, vocês podem notar que a tradução brasileira, mesmo não mencionando a distância percorrida por Mr. Darcy, ainda assim transmite a ansiedade de Caroline Bingley em mantê-lo o mais distante possível das irmãs Bennet. O que não logrou pois Mr. Darcy se dirigiu amavelmente para Jane.

Miss Bingley’s eyes were instantly turned towards Darcy, and she had something to say to him before he had advanced many steps.  He addressed himself directly to Miss Bennet, with a polite congratulation;

Os olhos da menina Bingley viraram-se imediatamente para Darcy, e ela tinha algo para lhe dizer antes que esse se aproximasse demasiado. Ele, contudo, dirigiu-se à menina Bennet [Jane] felicitando-a cordialmente. PT

Os olhos de Miss Bingley se voltaram imediatamente para Darcy; e ela encontrou logo o que dizer. Ele se dirigiu para Miss Bennet, dando-lhe amavelmente os parabéns;  BR

Um exemplo da dificuldade de traduzir algo que não faz parte de nossa cultura, e mesmo onde fazia parte é atualmente desconhecido, é a chamada White Soup, que foi traduzido por “sopa branca” (PT) e “preparativos culinários” (BR). Sobre este prato especial vocês podem ler no blog Austenonly, “The Interesting History of  White Soup

Jane e Elizabeth decidem partir de Netherfiel pois sua estada já ultrapassou os limites da hospitalidade e a reação do pessoal da casa foram variados: Caroline Bingley deu graças aos céus por se livrar de Elizabeth, Mr. Darcy ficou aliviado pelo mesmo motivo pois já havia percebido quão fascinante era Elizabeth, e Mr. Bingley estava sinceramente pesaroso com a partida de Jane. Então o resultado da comunicação da partida, na tradução de Lucio Cardoso me pareceu severa demais com a expressão pura formalidade.

The communication excited many professions of concern; and enough was said of wishing them to stay at least till the following day, to work on Jane; and till the morrow their going was deferred.

A comunicação provocou diversas manifestações de preocupação, e os seus anfitriões exprimiram repetidamente os seus desejos para que ficassem, atendendo o estado de saúde de Jane, pelo menos, até o dia seguinte. Assim, a partida ficou adiada para a manhã seguinte. PT

A notícia arrancou muitos protestos de pura formalidade. E tanto insistiram para que as moças ficassem ao menos até o dia seguinte que Jane cedeu. E a partida foi adiada para a manhã seguinte. BR

Há uma expressão que a senhora Bennet usa quando imagina que Jane está escondendo alguma boa notícia proveniente de Netherfield e que acho muito engraçada e gostei muito das duas traduções:

It is Mr. Bingley, I am sure. Why Jane — you never dropt a word of this; you sly thing!

É o senhor Bingley, tenho a certeza! E tu Jane, sem nos dizeres nada, sua malandra! PT

Então é Mr. Bingley… Jane, e você nada disse! Pequena astuciosa! BR

No capítulo 14, ficamos sabendo dos detalhes do primeiro jantar de Mr. Collins em Longbourn e de como Mr. Bennet conduziu seu divertimento dando trela para o primeiro. E o que me chamou a atenção foi tradução coloquial de Lúcio Cardoso:

During dinner, Mr. Bennet scarcely spoke at all; but when the servants were withdrawn, he thought it time to have some conversation with his guest,[…]

Durante o jantar, o senhor Bennet raramente proferiu uma palavra. Porém, quando os criados se retiraram, achou que era altura de conversar com seu hóspede, […] PT

Durante o  jantar quase não abriu a boca. Mas, depois que os criados tiraram a mesa, achou que era tempo de palestrar com o hóspede. BR

Orgulho e preconceito, aquarelas C. E. BrockComo todos sabemos, Mr. Collins é uma criatura prática. Em todas situações, incluindo a escolha de uma noiva.

Mr. Collins had only to change from Jane to Elizabeth — and it was soon done — done while Mrs. Bennet was stirring the fire. Elizabeth, equally next to Jane in birth and beauty, succeeded her of course.

Ao senhor Collins bastava mudar de Jane para Elizabeth, o que aconteceu rapidamente, enquanto a senhora Bennet mexia na lareira. Elizabeth, comparável a Jane em beleza e idade, sucedia-a naturalmente. PT

Mr. Collins, com a maior naturalidade, transferiu seu projeto de Jane para Elizabeth. E isso foi feito, enquanto Mrs. Bennet falava sobre o assunto. Elizabeth, que vinha logo em seguida a Jane, em idade e beleza, era a sucessora natural.

Acredito que por algum erro tipográfico esta frase na tradução portuguesa está toda em itálico. Mas não é este o motivo que me levou destacá-la e sim a tradução do original done while Mrs. Bennet was stirring the fire. A tradução portuguesa traduziu literalmente mas brasileira preferiu não mencionar o que ela fazia exatamente. Ambas as situações evidenciam a praticidade do assunto casamento tanto para Mr. Collins quanto para a senhora Bennet, somente não entendi a escolha de Lúcio Cardoso.

A partir do décimo primeiro capítulo comecei a perceber que a tradução brasileira, de Lúcio Cardoso, está mais concisa e em alguns casos não traduz pequenas partes do texto, mas nada que prejudique o entendimento até o momento.

∞∞∞

LEITURA DE CÁTIA

Leitura Comparada Orgulho e Preconceito – Portugal (11-15)

ILUSTRAÇÕES

Aquarelas de C. E. Brock da minha coleção “The Series of English Idylls”

He was full of joy and attention. Capítulo 11
She had even vouchsafed to suggest some shelves in the closets up stairs. Capítulo 14

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4 Comentários

  • Júnior

    Se “pura formalidade” se referisse somente a Caroline Bingley seria até aceitável, pois não seria surpresa que seus protestos contra a partida de Jane fossem apenas frutos das regras da boa educação. Mas como também está se referindo aos demais, realmente deu um tom severo demais.

    No outro caso, gostei mais da expressão “pequena astuciosa”. Não sei o motivo, mas não gosto das palavras “malandro” e “malandra”, mesmo quando não caracterizam algo ruim e sim sabido, esperto…

    Sobre o último trecho, a ocultação da menção à Mrs. Bennet mexendo na lareira não influencia na compreensão, mas bem que Lúcio Cardoso podia ter traduzido também este trecho. Não imagino motivos para excluir algo tão simples da narrativa.

    P.S.: Achei interessante o fato do tradutor português se referir às moças do livro como meninas: menina Bennet, menina Bingley.

    • Raquel Sallaberry Brião

      Júnior,

      nunca havia pensado nessa conotação de algo ruim para a palavra malandra ou malandro… mas concordo que pequena astuciosa é muito simpático!

      Também não entendi Lúcio Cardoso no último parágrafo. Não consegui encontrar nada que justificasse a escolha, por mínima que fosse.

      Em Portugal tinham e creio que tem até hoje o hábito de chamar a menina fulana, a menina beltrana. Creio que Cátia possa nos dizer se continua atual.

  • Dayana Costa

    Muito legal esse trabalho comparativo das traduções brasileira e portuguesa com o original.

    Pelo que você mostrou aqui neste post me pareceu que a versão portuguesa tenta ser mais fiel ao texto original enquando a brasileira parece adaptar mais os termos, interpretá-los…sei lá.

    • Raquel Sallaberry Brião

      Dayana,

      ainda estou nos primeiros capítulos mas parece que essa é a tendência da tradução brasileira: adaptação de alguns trechos.