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Mary Bennet, como vocês sabem, tem poucos diálogos em Orgulho e preconceito, mas quando fala não deixa por menos!

Coloco aqui suas observações morais, sem comentários pois há muitas implicações que precisariam de pelo menos mais dois post. Todas as traduções são de Celina Portocarrero, da edição da L&PM.

Capítulo 5

Esta é, talvez, a mais conhecida citação de Mary – a diferença entre orgulho e vaidade – quando comenta sobre o orgulho ferido de Elizabeth por Mr. Darcy no baile de Meryton.

“Pride,” observed Mary, who piqued herself upon the solidity of her reflections, “is a very common failing I believe. By all that I have ever read, I am convinced that it is very common indeed, that human nature is particularly prone to it, and that there are very few of us who do not cherish a feeling of self-complacency on the score of some quality or other, real or imaginary. Vanity and pride are different things, though the words are often used synonimously. A person may be proud without being vain. Pride relates more to our opinion of ourselves, vanity to what we would have others think of us.”

O orgulho – observou Mary, que se envaidecia da solidez de suas reflexões – é uma falha muito comum, acredito. Por tudo que já li, estou convencida de que, na verdade,  é bastante frequente , de que a natureza humana é bastante propensa a ele e de que que há muito poucos entre nós que não acalentam um sentimento de autoadmiração em relação a alguma qualidade, real ou imaginária. Vaidade e orgulho são coisa diferentes, embora as palavras sejam com frequência usadas como sinônimo. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho tem mais a ver com nossa opinião a respeito de nós mesmos, a vaidade, com o que desejamos que os outros pensem de nós.

Capítulo 7

Elizabeth está disposta a caminhar milhas no barro para ver Jane que está acamada em Netherfield, mesmo contra a vontade de sua mãe.

“I admire the activity of your benevolence,” observed Mary, “but every impulse of feeling should be guided by reason; and, in my opinion, exertion should always be in proportion to what is required.”

“Admiro a extensão de sua boa vontade – observou Mary –,  mas todo o impulso emocional deveria ser guiado pela razão e, na minha opinião,  o esforço deveria ser sempre proporcional à necessidade.

Capítulo 17

Mary também está entusiasmada com o baile em Netherfield mas prefere dizer que é uma exigência da sociedade.

” Society has claims on us all; and I profess myself one of those who consider intervals of recreation and amusement as desirable for every body.”

A vida social nos faz exigências, e admito estar entre os que consideram intervalos de recreação e diversão desejáveis para todos.

Capítulo 39

Mary, como já desconfiávamos, deixa entrever nesta fala como se julga superior!

“Far be it from me, my dear sister, to depreciate such pleasures. They would doubtless be congenial with the generality of female minds. But I confess they would have no charms for me. I should infinitely prefer a book.”

— Longe de mim, querida irmã, depreciar tais prazeres! São, sem dúvida, adequados à maioria das mentes femininas. Mas confesso que não teriam para mim quaisquer encantos, eu preferiria mil vez um livro

Capítulo 47

Adoro esta parte quando Mary tenta consolar as irmãs depois do affair Lydia/Wickham, parece Mr. Collins fazendo um sermão!

“This is a most unfortunate affair; and will probably be much talked of. But we must stem the tide of malice, and pour into the wounded bosoms of each other the balm of sisterly consolation.”
[…]
“Unhappy as the event must be for Lydia, we may draw from it this useful lesson: that loss of virtue in a female is irretrievable — that one false step involves her in endless ruin — that her reputation is no less brittle than it is beautiful, — and that she cannot be too much guarded in her behaviour towards the undeserving of the other sex.”

Por mais infeliz que seja tal evento para Lydia, podemos extrair dele esta proveitosa lição: que a perda da virtude em uma mulher é irrecuperável; que um passo em falso a envolve em infinita ruína; que a sua reputação não é menos frágil do que bela; e que ela nunca será suficientemente cautelosa em seu comportamento perante a indignidade do outro sexo.
[…]
— Este assunto é muito desagradável e talvez ainda seja objeto de muita discussão. Mas devemos combater a maré de hostilidade e deixar fluir em nossos corações feridos o bálsamo do consolo fraterno.

Para querida Mary Bennet um marcador de páginas para usar no livro Sermons to Young Women [Sermões para jovens mulheres] de James Fordyce.

À venda no Elo7

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10 comentários

    1. Mell,

      estou percebendo que há muita gente que gosta de Mary. Acho que acabarei fazendo um post com o título “Quem vai ficar com Mary”, versão século 10, é claro!

  1. Essa é uma das características que mais admiro em Austen, até os personagens mais “chatinhos” tornam-se adoráveis!
    Adorei o “Quem vai ficar com Mary?”. Teria de ser um “nerd” como ela, mas poderia ter o humor do Mr. Tilney… 😉

    1. Carol,
      acho que a Mary faria bom casamento seria mesmo com o Mr. Collins!

  2. Pois é Raquel, eu pensei nisso. Mas as conversas deles demorariam hooooras… e não no bom sentido, cada um com as citações. Se bem que a Mary iria gostar dos elogios previamente escolhidos… (a maioria de nós vive sem nem mesmo estes! hahaha) Além de ter permissão p praticar no piano da governata! 🙂

  3. Excelente post, Raquel. Pessoalmente, acho que Mary Bennet tem razão em algumas de suas colocações, especialmente as dos capítulos 5 e 7.
    Sobre Mary praticar no piano da governanta de Rosings, concordo com a Carol, afinal, “ela não incomodaria ninguém naquela parte da casa”. Contanto que ela não se ponha a cantar…

    Mas será que Lady Catherine iria aprová-la como esposa de Mr. Collins?

    1. Júnior,

      é verdade… se ela começar a cantar como na versão 1995 acredito que não seria bem-vinda em Rosings!

  4. Essa reflexão sobre a diferença entre vaidade e orgulho parece querer indicar que a pobre Mary tinha uma boa capacidade intelectual, mas era entulhada do moralismo da educação e da literatura da época. O que eu acho interessante, também, é como aquilo que ela diz é solenemente ignorado por todos. Pelo menos não lembro de alguma observação dela ter gerado alguma conversa, ter sido aproveitada para algo. É como semear no deserto. Queria saber em que medida a Mary é autobiográfica. Imagino a Jane moça um pouco assim, tendo seu cérebro pisoteado pelo moralismo e vivendo em meio a futilidades.

    Na tradução do capítulo 7 tá faltando o “mas”. Se não for erro de digitação, é um erro grave de tradução, pois tira o sentido da frase.

    Raquel, tomei a liberdade de inserir um link para o Jane Austen em Português no artigo de Jane Austen da Wikipedia. Parece que deu certo. Tá lá o link. Olha lá.

    1. Rubens,

      já corrigi o “mas”, foi erro de digitação meu. Sim, a pobre Mary parece que pregava no deserto! Hoje, assistindo pela enésima vez os extras de P&P 1995 para fazer mais um post sobre Mary descobri mais detalhes sobre quais personagens eram mais parecidos com Jane. Devo-te um mail, fica para amanhã. Meus neurônios já foram dormir! beijos

      PS: deve ser por esse motivo que vem tantas visitas da Wiki…

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