As primeiras traduções de Jane Austen no Brasil | Pride and Possibilities 19

As primeiras traduções de Jane Austen no Brasil foram publicadas muito tempo depois de sua publicação na Inglaterra, para ser precisa, 129 anos depois.

A primeira tradução brasileira de Jane Austen foi Orgulho e preconceito (Pride and Prejudice) feita pelo escritor Lúcio Cardoso e publicada em 1940 pela editora José Olympio. Acredito que foi movida pela sucesso da adaptação cinematográfica com Laurence Olivier e Greer Garson pois na orelha do livro tem o seguinte anúncio, “Este romance foi filmado pela Metro-Goldwyn-Mayer e será apresentado no Brasil com o título ‘Orgulho’”. O filme foi exibido com o título original completo.

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil - Orgulho e preconceito

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil – Orgulho e preconceito

Em 1942 foi a vez de Mansfield Park que foi traduzido pela escritora Rachel de Queiroz e publicada pela mesma editora de Orgulho e preconceito. A tradutora era certamente leitora de Austen pois em seu primeiro livro, O Quinze, escrito em 1930, colocou sua heroína dizendo: “Não sei amar com metade do coração…”, claramente inspirada em Marianne Dashwood. Desta tradução consegui para meu acervo apenas uma segunda edição.

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil - Mansfield Park

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil – Mansfield Park

O livro seguinte,  Razão e sentimento (Sense and Sensibility), completa os três livros de Jane Austen que foram publicados pela editora José Olympio e foi traduzido pela escritora Dinah Silveira de Queiroz em 1944. Exemplares desta edição, assim como de Mansfield Park são raros de se encontrar. Sense and Sensibility aqui no Brasil, como em vários outros países, tem duas traduções para o título: Razão e sentimento e Razão e sensibilidade, sendo esta última a única utilizada nas traduções de filmes e séries de TV.

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil - Razão e sentimento

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil – Razão e sentimento

No mesmo ano de 1944 foi publicada pela editora Panamericana a tradução de A Abadia de Northanger (Northanger Abbey). O tradutor foi o poeta e escritor Lêdo Ivo. Estas edições dos anos 1940 foram todas impressas em papel de baixa qualidade devido a escassez do período da Segunda Guerra Mundial e por esse motivo livros se encontram em estado bastante precário.

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil - A abadia de Northanger

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil – A abadia de Northanger

Passaram-se quase trinta anos para que em 1971 finalmente  Persuasão (Persuasion) fosse publicado pela editora Bruguera com tradução da escritora Luiza Lobo. Persuasão teve duas edições e praticamente desapareceu do mercado. Emma levou mais de duas décadas depois de Persuasão, sendo publicado em 1996 com tradução do poeta e escritor Ivo Barroso, que também traduziu Razão e sentimento, em 1982, pois a tradução de Dinah Silveira de Queiroz era impossível de encontrar.

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil - Emma e Persuasão

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil – Emma e Persuasão

Em 2014 as duas novelas inacabadas,  Os Watsons (The Watsons) e Sanditon foram traduzidas também por Ivo Barroso e com introduções minhas. Todas as traduções de Ivo Barroso foram publicadas pela editora Nova Fronteira. Lady Susan foi publicado por duas editoras, Pedrazul e Zahar no ano de 2012 e a Juvenília em 2014 pela editora Companhia das Letras.

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil - Os Watsons, Sanditon, Lady Susan

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil – Os Watsons, Sanditon, Lady Susan

Esta foi a trajetória das primeiras traduções de Jane Austen no Brasil e que atualmente, graças aos filmes e principalmente a internet se popularizou imensamente.

Para se ter uma ideia do alcance de Jane Austen neste ano de 2017, a maior emissora de televisão do país, a Rede Globo, lançou uma novela chamada Novo Mundo que conta a história de uma dama de companhia da esposa do príncipe Dom Pedro, a princesa Leopoldina com quem ele se casara em 1817. A dama de companhia é cortejada por um capitão inglês que entre galanteios e tentativas de conquista dá-lhe de presente um exemplar de Pride and Prejudice. Para a alegria das Janeites brasileiras, é claro!

A personagem foi levemente inspirada na inglesa Maria Dundas Graham Callcott² que de fato esteve no Brasil e foi tutora de uma das filhas da Princesa Leopoldina. Maria Graham  como era mais conhecida escreveu livros sobre o Brasil, e para minha surpresa, foi publicada por John Murray, o mesmo editor de Jane Austen!


¹O artigo “Jane Austen: primeiras traduções no Brasil” foi escrito por mim para o periódico online Pride and Possibilities da Jane Austen Literacy Foundation, sob o título ISSUE 19: THE FIRST BRAZILIAN TRANSLATIONS e traduzido para o inglês por Rita L. Watts.

²Maria Graham Wikipedia – https://en.wikipedia.org/wiki/Maria_Graham

Orgulho e preconceito | Carol Chiovatto

Orgulho e preconceito de Jane Austen está ligado a Carol Chiovatto por dois motivos: o primeiro é o fato de Carol ter feito o papel de Mary Bennet/Mrs. Gardiner na primeira peça baseada numa obra de Jane Austen encenada no Brasil.

Alguns leitores do blog assistiram a peça mas quem não teve a oportunidade convido para visitar a página que fiz especialmente para Orgulho e preconceito do Grupo Fora de Foco. O recital de Mary “Chiovatto” Bennet ainda faz eco nos meus ouvidos…

O segundo motivo é sua tradução de Orgulho e preconceito para a Giz Editorial. , incluindo notas e posfácio intitulado  “Feminino e sociedade em Jane Austen: casamento, afeto e sobrevivência”. Carol é tradutora e publicitária e também autora de vários contos já publicados. Suas primeiras leituras de Jane Austen foram Razão e sentimento e Emma. E obviamente Orgulho e preconceito quando atuou na peça. O quem mais me chamou a atenção em nossa conversa em São Paulo foi ver a alegria e o entusiasmo dela com a tradução e a pesquisa que envolve o trabalho.

A apresentação com o título “Orgulho e preconceito canônico até na cultura pop” é de Adriana Amaral, professora na Unisinos. E fã de Jane Austen! A capa é de Genildo Santana.

Antes de encerrar o post faço um pedido para a editora: a fonte das cartas ficou muito pequenina, que tal aumentar um bocadinho em próxima edição?!

Carol Chiovatto - Orgulho e preconceito Giz Editorial

Carol Chiovatto – Orgulho e preconceito Giz Editorial

 

Ivo Barroso: tradução de Razão e Sentimento

Já escrevi sobre a tradução de Razão e sentimento por Ivo Barroso, mas esta semana Ivo gravou um vídeo especial para explicar suas razões pela escolha do título para Sense and Sensibility no lançamento de um box com três obras da autora publicadas pela editora Nova Fronteira.

Vocês podem também reler a entrevista que fiz em 2010 sobre suas traduções: “Ivo Barroso: entrevista sobre Jane Austen”.

Há também uma deliciosa carta escrita pelo tradutor para Paulo Francis  sobre a tradução do título de Sense and Sensibility que Ivo me presenteou para publicar no Jane Austen em Português: “Ivo Barroso: as razões da tradução”.

Caso o vídeo deixe funcionar acesse o You Tube do Grupo Ediouro.

Razão e sentimento: doença red gum

Em Razão e sentimento, no capítulo 37, ficamos sabendo que o bebê do casal Palmer está com red gum, uma doença comum em recém-nascidos. Charlotte, mãe de primeira viagem fica muito aflita mas a senhora Jennings, sua mãe, tenta acalmá-la dizendo que não é nada demais.

Razão e Sentimento bebê Palmer

Razão e Sentimento Bebê Palmer – Ilustração de Hugh Thomson

Segue o texto em inglês desse episódio para que vocês possam comparar as sete traduções que tenho no meu acervo e no final responder para a leitora Dandara Machado o que descobri sobre a doença e as diferentes traduções.

When I got to Mr. Palmer’s, I found Charlotte quite in a fuss about the child. She was sure it was very ill–it cried, and fretted, and was all over pimples. So I looked at it directly, and, ‘Lord! my dear,’ says I, ‘it is nothing in the world, but the red gum–‘ and nurse said just the same. But Charlotte, she would not be satisfied, so Mr. Donavan was sent for; and luckily he happened to just come in from Harley Street, so he stepped over directly, and as soon as ever he saw the child, be said just as we did, that it was nothing in the world but the red gum, and then Charlotte was easy. (Grifos meus)

As duas traduções, as mais antigas, de Dinah Silveira de Queiroz (1944) e de Mário da Costa Pires de (1961), optaram por erupção natural em recém-nascidos ou simplesmente erupção na pele.

Quando cheguei em casa de Palmer encontrei Charlotte muito alarmada por causa do bebê. Tinha certeza de que estava doente… o pequeno chorava, estava irritado e cheio de bolhas. Ora, querida, disse-lhe eu, não é nada grave. É apenas uma erupção natural nos recém-nascidos, E a enfermeira também dizia o mesmo, Mas Charlotte não se deixava convencer. Mandou chamar o Dr. Donavan; felizmente ele acabava de sair de Harley-Street e atendeu logo. Assim que viu a criança, disse justamente o que tínhamos dito. Não era nada de grave. Então Charlotte ficou tranquila.
| Razão e sentimento, trad. Dinah Silveira de Queiroz. José Olympio, 1944.

Quando cheguei a casa de Mrs. Palmer encontrei a Charlotte num alvoroço por causa do filho., Tinha a certeza de que ele estava doente… e gritava e arrepelava-se que eram borbulhas. Olhei imediatamente para a criança e disse, «Senhor, minha querida, não passa de uma erupção na pele»; a ama disse o mesmo. Mas Charlotte não ficou convencida e mandou chamar Mr. Donavan; felizmente encontram-no quando vinha de Harley Street, por isso chegou imediatamente e logo que viu a criança diagnosticou o mesmo que nós , que não era outra coisa senão erupção na pele e Charlotte ficou descansada.
Razões do coração, trad. Mário da Costa Pires. Romano Torres, 1961.

As próximas três, de Ivo Barroso, Maria Luisa Ferreira da Costa e Therezinha Monteiro Deutsch foram traduzidas por sarampo.

Quando cheguei em casa de Charlotte, fui encontrá-la agitadíssima por causa da criança, que julgava estar muito mal, chorando, enjoadinha e cheia de bolhas. Fui olhando para ela e disse logo, “Ah! bom Deus! ainda bem que não passa de sarampo”; e a ama disse exatamente a mesma coisa. Mas Charlotte não ficou satisfeita e mandou chamar o Dr. Donavan, que por sorte vinha chegando na rua e entrou direto para ver a criança, confirmando o que eu dissera, que a história não passava de sarampo. Com isto, Charlotte ficou mais calma.
Razão e sentimento, trad. Ivo Barroso. Nova Fronteira, 1982.

Quando cheguei a casa de Mr. Palmer, encontrei Charlotte agitadíssima por causa da criança. Estava convencida de que ela estava muito doente… chorava, estava mal-disposta e cheia de bolhas, Olhei imediatamente para ela, «Santo Deus, minha querida!», disse eu.  «Não pode ser mais nada senão sarampo». E a enfermeira disse o mesmo exactamente o mesmo. Mas Charlotte não ficou satisfeita;  portanto, chamou-se o Dr. Donavan. Felizmente, ele acava de vir de Harley Street, por isso veio imediatamente e, logo que viu a criança, disse o mesmo que nós, que era sarampo apenas, e então Charlotte ficou descansada.
Sensibilidade e bom senso, trad, Maria Luisa Ferreira da Costa. Europa América, 2001

Quando cheguei à casa do sr. Palmer, encontrei Charlotte nervosíssima por causa da criança. Minha filha tinha a mais absoluta certeza de que o bebê estava muito doente… Ele chorava, agitava-se e estava todo coberto de pontinhos vermelhos, Olhei-o com atenção e disse: “Oh, Deus! Minha querida, isto não é  mais nada do que sarampo.”A enfermeira dissera a mesma coisa. No entanto, Charlotte não se conformava, por isso chamamos o Sr. Donavan. Felizmente ele estava chegando da Harley Street bem naquele momento e dirigiu-se para a casa dos Palmer sem demora; quando viu a criança disse o que havíamos dito, que nada mais era do que sarampo.
Razão e sensibilidade, trad. Therezinha Monteiro Deutsch. BestBolso, 2001.

As duas traduções mais recentes são parecidas mas não exatamente iguais. Rodrigo Breunig traduz a primeira ocorrência como erupção de gengiva inflamada e a seguinte como erupção em recém-nascido. Alexandre Barbosa de Souza traduz, com pequena variação nas duas ocorrências como, são apenas os dentes de leite e nada além dos dentes de leite.

Quando cheguei à casa do sr. Palmer, encontrei Charlotte bastante atarantada em função da criança. Charlotte tinha certeza que ela estava muito mal, a criança chorava, e se atormentava e tinha a sua pele toda embolotada. Então olhei para ela de perto e “!Deus! Minha querida”, disse eu, “nada é nada grave, é somente uma erupção de gengiva inflamada, e a ama disse o mesmo. Mas não havia como deixar Charlotte satisfeita, então mandamos chamar o sr. Donavan; e felizmente ocorreu que ele acabava de chegar de Harley Street, de modo que veio logo em seguida, e no mesmo instante que botou os olhos na criança ele repetiu exatamente o que tínhamos dito, que não era nada grave, que era somente uma erupção de recém-nascido, e com isso Charlotte de acalmou.
Razão e sentimento, trad. Rodrigo Breunig. Editora L&PM, 2012

Quando cheguei à casa do sr. Palmer, achei Charlotte muito agitada com o bebê. Ela tinha certeza de que ele estava muito doente – ele chorava, estava irritadiço, e todo cheio de brotoejas. Então olhei bem para ele e “Santo Deus, minha cara” eu disse, “são apenas os dentes de leite”; e a babá achou a mesma coisa. Mas Charlotte não se deu por satisfeita, então chamamos o senhor Donavan; e, por sorte, ele tinha acabado de vir da Harley Street, de modo que foi diretamente para lá, e, assim que pôs os olhos no menino, disse o mesmo que nós, que não era nada além dos dentes de leite, e então Charlotte se acalmou,
Razão e sensibilidade, trad. Alexandre Barbosa de Souza. Cia. das Letras, 2012

Comecei a pesquisa nos dicionários onde a palavra gum é definida primeiro como “gengiva” e depois “goma” mas não encontrei a doença. Na busca da internet o termo completo remete para gengivite e dá exemplos de pessoas com dentição adulta.

Até este ponto as “erupções” e o “sarampo” me pareciam os termos mais corretos. Apesar da irritabilidade e choro do bebê, sintomas típicos da fase de dentição, seria pouco provável pois o bebê Palmer tinha apenas quinze dias de vida.

Lembrei então da minha edição anotada de Sense and Sensibility de David M. Shapard. E lá estavam as erupções  e novamente a dentição (teething), baseada na reação de choro e irritação da criança. Com estas novas informações as dúvidas voltaram.

Red Gum - Sense and Sensibility, David Shapard

Red Gum – Sense and Sensibility, David Shapard

Já conformada e acreditando que o pequeno Palmer só para irritar os pais começara a dentição precocemente, procurei o livro Jane Austen and Children de David Selwyn mencionado por Shapard. Em primeiro lugar a citação (abaixo) no livro de Selwyn é do obstetra Alexander Hamilton em seu livro A Treatise of Midwifery publicado em 1780. E para minha surpresa não tem referência aos dentes mas sim uma explicação interessante sobre o sarampo. Traduzo após box.

Red Gum - Jane Austen and Children, David Sewlyn

Red Gum – Jane Austen and Children, David Sewlyn

Red Gum – é uma erupção de pequenas brotoejas, como uma erupção cutânea, a qual, em muitas crianças surge em todo corpo logo após o nascimento; na maioria das vezes desaparece de repente sem causar qualquer inconveniência para a criança, vai e vem, enquanto a mãe estiver amamentando. Se diferencia do sarampo pela ausência dos sintomas e pelo tempo de duração do ataque de sarampo. Pouco há que se fazer, mais do que observar o estado da barriga e tomar cuidado para que o quarto ou as roupas da criança não estejam quentes demais.

A partir daí fui até os confins do Google onde encontrei uma ilustração no Pinterest com informações de uma doença chamada “Strophulus”, também conhecida como red gum e caracterizada por erupções, comum em crianças (só não mencionam a idade). Fonte original: Encyclopaedia Londinensis, or, Universal Dictionary of Arts, Sciences, and Literature, publicado em 1810.

A última pesquisa foi no site da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) onde diz que o sarampo também ocorre em recém-nascidos.

Eu descartaria o problema da dentição e gostaria muito de saber a opinião de um médico para ver se tem algum nome específico para essa doença, em português; se é um tipo de sarampo mais brando que só aparece em recém-nascidos; ou se é uma doença antiga que não ocorre mais.

Para encerrar é preciso que se diga que os tradutores tentam sempre a melhor tradução, e a melhor tradução é a que o leitor vai entender de pronto, ou eles teriam que colocar muitas notas de rodapé. Por exemplo, mesmo não sendo um tipo de sarampo, não perdemos o entendimento do texto, pois é uma doença de pele. Sem contar que até pouco tempo não tínhamos a internet para pesquisar. É vida de tradutor não é fácil!