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Cartas de Jane Austen: Miss Austen Regrets

Cartas de Jane Austen: Miss Austen Regrets
por Mell Siciliano

Cuidado! Este post contém spoilers da adaptação Miss Austen Regrets!

A adaptação da BBC Miss Austen Regrets cobre os últimos anos da vida de Jane Austen e, como o título sugere, os seu possíveis arrependimentos. Chamo de adaptação pois esse filme foi livremente inspirado nas cartas da autora. Em algumas cenas, inclusive, passagens exatas das cartas são ditas. Entretanto, quase nessa adaptação é contado por cartas, e sim através da interação entre as pessoas.

Pra quem nunca viu, Miss Austen Regrets começa com uma introdução, em 1802, no famoso episódio do pedido de casamento de Harris Bigg; pedido esse que Jane aceita e logo depois recusa. A história então pula para os anos 1812-1817; cobrindo os seguintes acontecimentos: o namoro de sua sobrinha Fanny com Mr. Plumtree, a publicação de Emma (e toda a trama da dedicatória para o príncipe regente), a escrita de Persuasão, a doença de Henry, o médico Charles Haden e a morte de Jane.

Miss Austen Regrets
Cartas de Jane Austen: Miss Austen Regrets

Mas o que é verdade e o que ficção nessa adaptação?  Separei alguns acontecimentos que mais me chamaram atenção em Miss Austen Regretspara comentar. Vamos lá?

Harry Bigg
Harry Bigg

1802 – O pedido de casamento de Harris Bigg  – Sim, Harris Bigg pediu Jane Austen em casamento. Suas irmãs eram amigas das meninas Austen (Jane e Cassandra) e as cartas de Jane dão a entender que de alguma maneira elas encorajaram o irmão a fazer o pedido. A adaptação nos leva a crer que Cassandra influenciou Jane a recusar o pedido; entretanto nas cartas não encontrei nada que sugerisse tal coisa. Mas, de maneira geral, verdade.

1812 – Namoro de Fanny e Mr. Plumtree – Por volta de 1812 a sobrinha de Jane – Fanny – conheceu Mr. Plumtree. Como a mãe de Fanny já havia falecido, ela viu na sua Jane Austen uma fonte de conselhos. Na adaptação, Jane está por perto para aconselhar Fanny, mas na vida real esse aconselhamento aconteceu por cartas. Fanny não sabia o que fazer, na verdade, ela não sabia se amava ou não o seu pretendente. No filme ela culpa Jane quando o namoro se desfaz. Nas cartas é possível perceber um certo ressentimento da parte de Fanny, mas nada tão explosivo como no filme. Jane nunca ousou, nas cartas, a dar conselhos assertivos, do tipo: case ou não case. Ao invés disso, ela ponderava sobre vantagens e desvantagens de se casar sem afeição, de se casar com um homem na posição de Mr. Plumtree e que tipo de consequências poderiam surgir de quaisquer decisões de Fanny. Novamente, de maneira geral, verdade.

1812 – Mr. Bridges – A família Bridges de modo geral era amiga da família Austen. Jane cita diversas vezes o Reverendo John Bridges em suas cartas, sempre de maneira muito afetuosa. No filme, ele representa um dos arrependimentos. John teria feito um pedido de casamento que Jane recusou. Porém, nada (nada nada mesmo) em suas cartas dá a entender que algo do gênero aconteceu. Podemos ter certeza? Não, porque Cassandra queimou diversas cartas. Mas se pensarmos assim, podemos imaginar o que bem quisermos para as cartas destruídas, e ainda sim nunca saberemos. Portanto, ficção.

Charles Haden
Charles Haden

1815 – Mr. Charles Haden – Na adaptação, é sugerida uma atração de Jane pelo médico de seu irmão, o Mr. Charles Haden. Inclusive, é proposta uma tensão entre Jane, Fanny e Mr. Haden. Nada disso é certo. Pelas cartas, temos certeza que tanto Fanny quanto Jane gostavam muito dele, e Jane ainda escreve para sua irmã Cassandra algo que é usado na adaptação como uma espécie de declaração: “He is a Haden, nothing but a Haden, a sort of wonderful nondescript creature on two legs, something between a man and an angel.” (Tradução: Ele é um Haden, nada além de um Haden, uma espécie de indescritível criatura maravilhosa sob duas pernas, algo entre um homem e um anjo). Esse tipo de ‘declaração’ realmente dá asas a imaginação, não é mesmo? Mas, como não temos nada de concreto, classificarei como ficção. Pra quem ainda não viu a série, é toda essa dinâmica com Haden que gera uma das mais bonitas cenas, uma conversa entre Jane e a empregada de seu irmão Charles.

Agora queria saber se alguém mais viu essa série e detectou mais alguma coisa. Em caso afirmativo, conta pra gente!

Cartas de Jane Austen: Tom Lefroy

Cartas de Jane Austen: Tom Lefroy por Mell Siciliano. Para todos aqueles que gostam de Jane Austen o nome Tom Lefroy é bem familiar.

Para quem Jane Austen escrevia suas cartas?

Para quem Jane Austen escrevia suas cartas? Para sua família e amigos mas a maioria das cartas que sobreviveram foram escritas para sua irmã Cassandra.

Cartas de Jane Austen | Deirdre Le Faye

Cartas de Jane Austen | Deirdre Le Faye
por Mell Siciliano

“Where shall I begin? Which of all my important nothings shall I tell you first?”¹

Quantas vezes lemos um livro e nos perguntamos: o que será que o autor estava pensando neste momento? Ou ainda: será que essa personagem é inspirada em alguém?

Quando o autor do livro em questão está vivo se torna mais fácil responde-las, e não é raro encontrar entrevistas em que ele responde justamente aquilo que queríamos tanto saber. Mas o que fazer quando o autor está morto? Não podemos perguntar diretamente a ele o que queremos saber.

Pior, e quando o autor nunca deu nenhuma entrevista sequer sobre seus livros, e nem sobre si mesmo? Pois esse é o caso de Jane Austen. O que fazemos então?

Pesquisadores ao longo da história chegaram à uma simples solução: ler as suas cartas. E então, esses pesquisadores, aqui e ali, foram juntando cartas por vezes dispersas, e montando um grande quebra-cabeças de informações, que hoje chegam a nós assim, mastigadinhas.

Nós responderemos a todas as nossas perguntas? Não. E talvez nunca. Algumas coisas ficarão para sempre no campo da suposição. Ainda mais no caso da nossa querida Jane Austen, visto que sua irmã queimou parte de suas cartas. Mas se algumas coisas nós poderemos ter certeza; outras nós poderemos completar como bem quisermos em nossa imaginação, transformando Jane Austen também em uma personagem encantadora, como todas aquelas que ela escreveu.

Entretanto, precisamos separar o que é verdade do que é imaginação, suposição. O trabalho feito por Deirdre Le Faye em Jane Austen’s Letters foi belíssimo. Ao longo do livro temos inúmeras notas que nos ajudam a contextualizar cada carta; ela explica as referências que Jane faz à pessoas e lugares, a livros e peças e à outras inúmeras coisas que sem as notas explicativas seriam impossíveis de compreendermos. Isso sem contar as notas que explicam a origem das cartas, bem como o estado em que foram encontradas.

Ler o livro Jane Austen’s Letters foi uma aventura incrível no tempo e na vida de uma autora que está ainda hoje muito presente. Através dessa leitura pude conhecer a Jane autora que tanto admiro, inteligente, profissional e cuidadosa com aquilo que faz. Mas também entrei em contato
com a Jane irmã, a Jane tia que era toda carinho mas também exigente, a Jane mulher com seus affairs e decepções, a Jane “mulherzinha” que gastava longas cartas falando de luvas e tecidos, entra tantas outras. Como todos nós ela tinha muitas facetas. E ler as suas cartas nos mostra o quanto é impossível separar uma faceta da outra.

“Nobody ever feels or acts, suffers or enjoys, as one expects!”²

Por fim, só tenho a acrescentar que espero encarecidamente que alguma editora brasileira traduza essas cartas com a mesma qualidade e esmero que constam em sua publicação original. Os fãs da autora aqui no Brasil merecem esse presente.


Notas
¹ Por onde começo? Qual dos meus importantes nadas devo contar primeiro?
² Ninguém sente ou age, sofre ou aprecia da maneira que esperamos

Cartas de Jane Austen | Deirdre Le Faye
Cartas de Jane Austen | Deirdre Le Faye