A Viagem: Virginia Woolf e Jane Austen

A Viagem: Virginia Woolf e Jane Austen
por Mell Siciliano¹

Gosto bastante de Jane Austen, então quando vi foi irresistível. Seguem os trechos em que a personagem Clarissa Dalloway fala sobre Jane Austen em A viagem (The Voyage Out):

Wuthering Heights! Ah – that’s more in my line. I really couldn’t exist without the Brontes! Don’t you love them? Still, on the whole, I’d rather live without them than without Jane Austen (…) “Jane Austen? I don’t like Jane Austen,” said Rachel. “You monster!” Clarissa exclaimed. “I can only just forgive you. Tell me why?” “She’s so – so – well, so like a tight plate,” Rachel floundered. “ah – I see what you mean. But I don’t agree, And you won’t when you’re older. At your age I only liked Shelley.”

Persuasion,” announced Richard, examining the volume. “That’s for Miss Vinrace,” said Clarissa. “She can’t bear our beloved Jane.” “That – if I may say so – is because you have not read her,” said Richard. “She is incomparably the greatest female writer we possess.” “She is the greatest,”, he continued, “and for this reason: she does not attempt to write like a man. Every other woman does. On that account, I don’t read’em”

Tradução:

Morro dos Ventos Uivantes! Ah! – isso é mais o meu tipo. Eu realmente não poderia existir sem as Brontes! Você não simplesmente as ama? Ainda assim, em geral, eu preferiria viver sem elas do que sem Jane Austen (…) “Jane Austen? Eu não gosto de Jane Austen,” disse Rachel. “Seu monstro!” Clarissa exclamou. “Eu posso apenas te perdoar. Diga-me, por que?” “Ela é tão – tão – bem, tão como uma chapa lisa” Rachel hesitou. “ah – Eu entendo o que quer dizer. Mas eu não concordo, e você não vai concordar quando for mais velha. Na sua idade eu gostava somente de Shelley.”

Persuasão“, anunciou Richard, examinando o volume. “Isso é para a Miss Vinrace,” disse Clarissa. “Ela não pode suportar a nossa amada Jane.” “Isso – se assim posso dizer – é porque você ainda não a leu”, disse Richard. “Ela é incomparavelmente a maior escritora do sexo feminino que possuímos.” “Ela é a maior”, continuou ele, “e por esta razão: ela não tenta escrever como um homem. Qualquer outra mulher o faz. E, por conta disso, eu não as leio”

The Voyage Out Virginia Woolf

A viagem – The Voyage Out Virginia Woolf


¹Artigo publicado originalmente no blog Caderneta Livresca de Mell Siciliano
²Foto do site TBCL Rare Books acrescentada por Jane Austen em Português.

Jane Austen, editora?

Jane Austen, editora?
por Mell Siciliano

Jane Austen, editora, será? Abaixo segue a definição de editor do dicionário Aurélio (2010):

e.di.tor [ Lat. editore] adj. 1. Que edita. 2. Quem edita. 3. O responsável pela supervisão, preparação de textos especializados, etc., em jornal, revista, etc.

Traduzindo para vida prática, o(a) editor(a) é aquela pessoa que trabalha com a supervisão de todo o processo para a publicação de um conteúdo, um texto, um livro, etc ou/e aquele que trabalha diretamente na preparação do texto, observando não só questões gramaticais como também de adequação do conteúdo ao objetivo fim, muitas vezes propondo alterações substanciais no conteúdo final.

E o que tudo isso tem a ver com Jane Austen? Bem, lendo suas cartas descobri duas coisas: a primeira é que sua sobrinha Anna Austen (depois Lefroy) também escrevia, e a segunda é que em suas cartas para sua tia ela pedia por conselhos sobre seus escritos!

E Jane não se resumia a dar opiniões, ela indicava alterações no texto, de forma que sua sobrinha pudesse passar mais claramente – ou da maneira mais adequada – aquilo que ela gostaria de passar. Separei alguns exemplos pra vocês:

Carta 103, para Anna Austen, Junho de 1814

A few verbal corrections were all that I felt tempted to make – the principal of them is a speech of St. Julians to Lady Helena – which you will see I have presumed to alter. – As Lady H. is Cecilia’s superior, it would not be correct to talk of her being introduced; Cecilia must be the person introduced.
Algumas correções de discurso foram tudo o que eu me senti tentada a fazer – a principal delas é uma fala de St. Julians para Lady Helena – você verá que eu ousei alterar. – Como Lady H. é superior a Cecília, não seria correto falar dela ser introduzida; Cecilia deve ser a pessoa introduzida.

Carta 104, para Anna Austen, Junho de 1814

(…) We have just finished the first part of the 3 books I had the pleasure of receiving yesterday; I read it aloud – & we were all very much amused, & like the work quite as well as ever. (…) My corrections have not been more important than before; – here and there, we have thought the sense might be expressed in fewer words (…) Lyme will not do. Lyme is towards 40 miles distance from Dawlish & would not be talked of there. I have put Starcross indeed. – If you prefer Exter, that must be always safe.
(…) Let the Portmans go to Ireland, but as you know nothing of the manners there, you had better not go with them. You will be in danger of giving false representations. Stick to Bath & the Foresters. There you will be quite at home.

(…) Nós acabamos de terminar a primeira parte dos 3 livros que tive o prazer de receber ontem; eu li em voz alta – e todos nós ficamos muito entretidos, e gostamos do livro tanto quanto antes. (…) As minhas correções não foram mais importante do que antes; – Aqui e acolá, pensamos
que o sentido poderia ser expressado em menos palavras (…) Lyme não servirá. Lyme fica a 40 milhas de distância de Dawlish e não seria falada por lá. Eu coloquei Starcross, de fato. – Se você preferir Exter, tal opção será sempre segura.
(…) Deixe os Portmans irem para a Irlanda, mas como você não sabe nada sobre os costumes de lá, o melhor a fazer é não ir com eles. Você correrá o risco de dar falsas representações. Mantenha-se em Bath e com os Foresters. Lá você estará em casa.

Existem ainda várias cartas que tratam dessas edições de texto. Como a numeração que tenho é a do meu livro, indico esse site caso queiram ler todas. As cartas que lá estão são de outra edição, a de Brabourne, mas o conteúdo é o mesmo.

Agora vocês devem estar se perguntando: mas cadê o livro da Anna pra gente conhecer St. Julians e Lady Helena e Cecilia? Devo dizer que, infelizmente, ele não foi publicado. Na verdade, ele nem foi terminado. Segundo as informações do livro, as obrigações de Anna após o casamento a deixaram com pouco tempo disponível para escrever. Além disso, a morte de Jane em 1817 privou Anna da sua maior incentivadora. Após guardar o manuscrito por muitos anos, Anna decidiu queimá-lo. Uma pena, pois – como expressado no próprio livro – mesmo sendo um livro incompleto, as edições indicadas por Jane tornariam o manuscrito muito valioso.

Termino a postagem com uma resposta para a pergunta proposta no título. Jane Austen, editora? SIM. Apesar da profissão na época ser exercida somente por homens e de ainda não existir um curso que cuidasse da formação acadêmica de tal profissional, o que Jane fazia com os escritos de Anna era edição pura.

Austen Editora | Captura de tela do filme Becoming Jane (Amor e inocência)

Austen editora | Captura de tela do filme Becoming Jane (Amor e inocência)

Doctor Who e Jane Austen

Eu nunca assisti Doctor Who da BBC mas semana passada li sobre a série no blog da Mell Siciliano, a Caderneta Livresca.

Foi assim que iniciei este post em 30 de novembro de 2015 e que atualizo para este ano de 2017, agora com o artigo integral de Mell que está encerrando as atividades de seu blog e gentilmente ofereceu seus posts sobre Jane Austen para serem publicados aqui no Jane Austen em Português. Outros serão atualizados ou publicados até o final de 2017.


Jane Austen e Doctor Who
por Mell Siciliano

Jane Austen e Doctor Who? Hã?

Uma pequena introdução pra quem não conhece: Doctor Who é uma série de ficção científica britânica produzida pela BBC que traz as aventuras de um peculiar alienígena de aparência humanoide chamado Doctor. O Doctor se parece muito com um humano, poderia até ser um, não fossem algumas diferenças: ele vem de um planeta chamado Gallifrey – portanto é um Time Lord (Senhor do Tempo) – e viaja no tempo e espaço com a sua nave, a TARDIS (abreviação para “Time and Relative Dimensions in Space”, em português seria “Tempo e Dimensões Relativas no Espaço”). Além disso ele tem dois corações e não morre; ao invés de morrer ele se regenera. Essa regeneração permite que periodicamente sejam mudados os atores que encarnam o Doctor.

Peter Capaldi como Doctor Who

Peter Capaldi como Doctor Who

A série começou em 1963, e tinha como principal objetivo ensinar história e ciências. O Doctor sempre viaja com uma ou algumas pessoas em sua nave, que chamamos de companions (companheiros). Os primeiros companheiros eram sua neta Susan, e dois professores da escola Coal Hill School, professores de história e de ciências, o que reforçava o caráter educativo da série. Ao longo dos anos, porém, a coisa foi ficando muito mais ficção científica do que o inicialmente planejado (os episódios de viagens na história do planeta Terra, por exemplo, ficaram mais escassos). Nos anos 80 a série foi descontinuada, nos anos 90 fizeram um filme, e em 2005 eis que Doctor Who volta às telinhas britânicas.

Eu comecei a ver a série nessa retomada de 2005, ainda não tive tempo/coragem de começar a empreitada dos episódios antigos. Pois bem, desde a retomada da série tivemos personalidades literárias em alguns episódios, como por exemplo Charles Dickens, Shakespeare e Agatha Christie.

Eu queria – muito – que tivesse algum episódio com a nossa querida Jane, mas os episódios desse tipo sumiram quando houve uma mudança nos roteiristas da série. Mas, apesar de não me darem um episódio com a Jane, eles plantaram ideias maravilhosas de possíveis aventuras com ela. A série é conduzida de maneira que, para o espectador, existe a ciência de que não vemos todas as aventuras do Doctor, e volta e meia eles fazem menção a algo que aconteceu quando não estávamos vendo.

Como eu disse anteriormente, o Doctor sempre viaja com uma companheira, e a atual é a linda da Clara Oswald. Clara, além de viajar nas mais loucas aventuras com o Doctor é professora de literatura na Coal Hill School. E ela mencionou em dois episódios Jane Austen. Não poderíamos esperar diferente de uma professora de literatura inglesa, concordam?

Jenna Coleman | Clara Oswald

Jenna Coleman | Clara Oswald

A primeira menção foi no sexto episódio da oitava temporada, The Caretaker (em português seria O Zelador). Clara está tranquilamente dando uma aula sobre Orgulho e Preconceito, e escreveu no quadro o ano em que o livro foi escrito (segundo ela, 1797), quando o Doctor a interrompe (pela janela da sala de aula) e o seguinte diálogo acontece:

The Doctor: Jane Austen wrote Pride and Prejudice in 1796.
Clara: This is Mr. Smith, the temporary caretaker, and he’s a bit confused.
The Doctor: Not in 1797, because she didn’t have the time. She was so busy doing all the—
Clara: Oh, what? And I suppose, what, she was your bezzie mate, was she? And you went on holidays together and then you got kidnapped by boggons* from space and then you all formed a band and met Buddy Holly!
The Doctor: No, I read the book. There’s a bio at the back.
Clara: Get down.
The Doctor: Boggons*?
Clara: Go!

Tradução:

The Doctor: Jane Austen escreveu Orgulho e Preconceito em 1796.
Clara: Esse é o Sr. Smith, o zelador temporário, e ele está um pouco confuso.
The Doctor: Não em 1797, porque ela não tinha tempo. Ela estava muito ocupada fazendo todas —
Clara: Oh, o quê? Suponho então que ela era sua melhor amiguinha, é isso? E vocês viajaram juntos em feriados e então você foi raptado por boggons* do espaço e então todos vocês formaram juntos uma banda e conheceram Buddy Holly!
The Doctor: Não, eu li o livro. E há uma biografia no verso.
Clara: Se abaixe.
The Doctor: Boggons*?
Clara: Vá!

Acredito que a Clara ficou com uma ponta de inveja ao pensar que o Doctor voltou no tempo e conheceu Jane Austen e ela não. Eu também ficaria! Mas agora, quem está certo? O Doctor ou a Clara? Na verdade, os dois. Orgulho e Preconceito foi escrito entre outubro de 1796 e agosto de 1797.

A segunda menção acontece no primeiro episódio da nona temporada, The Magician’s Apprentice (O Aprendiz do Mago), em que Clara, novamente lecionando sobre Jane e após uma breve interrupção devido a um evento estranho que ela vê pela janela, afirma:

Clara: Right. Now where was I? Jane Austen. Amazing writer, a brilliant comic observer, and—strictly amongst ourselves—a phenomenal kisser.

Tradução

Clara: Certo. Onde eu estava? Jane Austen. Maravilhosa escritora, uma brilhante observadora cômica e estritamente entre nós – beijava de maneira fenomenal.

Ou seja, podemos inferir que de uma temporada para a outra Clara não só conheceu Jane Austen como também a beijou!

Além dessa referências, temos uma aventura em áudio em que Jane aparece! O universo de Doctor Who é composto por muitas outras narrativas além da série. Existem livros, quadrinhos e aventuras em áudio que fazem parte da história oficial e podem até interferir ou serem referenciados nos episódios. Mesmo entre os anos 80 e 2005 essas aventuras continuaram sendo escritas. Ao pesquisar para esse post, descobri que Jane já apareceu em uma aventura em áudio, chamada Frostfire, com o primeiro Doctor. Nessa aventura Jane o ajuda a salvar Londres. Na ocasião, o Doctor diz que tem bastante admiração pelos seus livros, o que a deixa muito surpresa pois ela havia somente publicados dois livros, e de maneira anônima.
Eu sei que tudo isso me deu mais vontade ainda de ver Jane em Doctor Who! Tenho plena consciência, entretanto, de que não será nessa temporada – e nem com a Clara – mas sigo aguardando! No décimo episódio da temporada – Face the Raven – Clara mencionou Jane Austen novamente!

Clara: Sometimes Jane Austen and I prank each other. Oh she’s the worst! I love her! Take that how you like…

Tradução:

Clara: Às vezes Jane Austen e eu pregamos peças uma na outra. Ah, ela é a melhor! Eu a amo! Entenda isso como quiser…

Entenda isso como quiser? Será que rolou alguma coisa entre as duas? Eu aposto que sim!

notas

Tony Grant na Inglaterra de Jane Austen

Tony Grant faz passeios pela Inglaterra de Jane Austen e documenta seus textos com fotos maravilhosas de locais vistados por Jane Austen e/ou citados em seus livros. Sempre indico seus posts sobre Jane no blog Lodon Calling, mas havia uma dificuldade, a língua. Não há mais. No  seu último post, A Visit to Bath, conversei com Tony sobre essa dificuldade e ele colocou  o Google Translator. Thank you so much, Tony!

Fica aqui a sugestão de boa leitura para quem não participa dos festejos de Carnaval: agora com a facilidade da tradução automática, e o Google está bem melhor nesse quesito, listo alguns link de posts mais antigos que fiz indicando os artigos de Tony.

Para lustrar este post uma foto de Tony da Milsom Street, que é mencionada três vezes em Persuasão. Transcrevo trecho do original em inglês, do capítulo 19, a que mais gosto. E traduzo também.

“They were in Milsom Street. It began to rain, not much, but enough to make shelter desirable for women […]”

Eles estavam em MIlsom Street. Começou a chover, não muito, mas o suficiente para que um abrigo fosse conveniente para as mulheres.

Milson Street, Bath | Foto de Tony Grant

Milson Street, Bath | Foto de Tony Grant

Dorothy Whipple, uma Jane Austen do século XX?

O escritor J. B. Priestley comentou que a autora inglesa Dorothy Whipple (1893-1966) teria sido a Jane Austen do século XX. Com vocês uma resenha do caro amigo e leitor, Enzo Potel, do livro Someone at a Distance para vocês conhecerem a escritora e descobrir se concordamos com o elogio de Priestley.

“UMA EDITORA, UM LIVRO, UMA COMPARAÇÃO”
Enzo Potel
A Letra Escargot

UMA EDITORA, UM LIVRO, UMA COMPARAÇÃO

Dorothy WhippleDividi esse texto em três partes para que você possa ir direto ao que interessar. A primeira parte é um comentário sobre a editora Persephone Books para quem nunca ouviu falar (ou para quem já está viciado nas capas cinzas que abarrotam o instagram e o booktube em língua inglesa!), a segunda é sobre minha leitura de Someone at a Distance, da Dorothy Whipple, e a última é sobre a comparação de que a Whipple seria a Jane Austen do século XX.

A EDITORA

A Persephone Books já existe há uns quinze anos. É uma editora inglesa, que tem até loja própria em Londres, e que publica (em geral) livros escritos por mulheres, ou melhor: coloca de volta no mercado bons livros escritos em língua inglesa por mulheres do século passado e que acabaram caindo no esquecimento. Romances, volumes de contos, diários, memórias, livros feministas, livros de receitas, e várias outras preciosidades. A qualidade física do objeto também cativa: os livros seguem um padrão de capa cinza elegante, com uma estampa colorida interna específica para cada título. E dos mais de cem títulos, há uma seleção dos onze mais vendidos, que ganharam capas com alguma pintura, seguindo uma linha bookshop-friendly. O site da Persephone também é uma maravilha à parte: não só bonito, mas muito funcional e cheio de diálogo entre editora >livro >leitor >editora.

O tipo de história que você encontra nos livros da Persephone vai desde, por exemplo, Harriet de Elizabeth Jenkins – livro de 1934 que recria a história real da moça que abandonou a família rica para viver com um homem que a fez morrer de fome em 1877 – até um volume de poemas como It’s Hard to Be Hip Over Thirty (1968) de Judith Viorst. Vale comentar que Elizabeth Jenkins escreveu uma biografia de Jane Austen, publicada em 1936. Mas o forte mesmo me parece a ficção inglesa amplamente consumida na primeira metade do século XX, cujos títulos não sejam “nem literários demais, nem comerciais demais”, e nisso você encontra autoras como a sufragista Cicely Hamilton, a jornalista Mollie Panter-Downes, a romancista Monica Dickens (bisneta de Charles Dickens) e a incrível Marghanita Laski (que além de preciosidades como Little Boy Lost e The Victorian Chaise-Longue publicou Jane Austen and Her World em 1969).

O LIVRO

Someone at a Distance, Dorothy Whipple

O primeiro livro pelo qual me interessei da Persephone foi Someone at a Distance (1953), da Dorothy Whipple.

A história é tão simples que só um gênio faria bem: a desintegração de um casamento feliz depois que o marido abandona esposa e filhos para viver com uma moça vinte anos mais jovem.

Eu comprei esse livro duas vezes, porque a primeira extraviou, e isso gerou vários meses de incerteza entre uma compra e outra. Nesse meio tempo li muitos textos online sobre a obra, até com o objetivo de imaginar que talvez não perdi grande coisa. Alguém fez um vídeo no youtube dizendo que o livro parecia Cranford, da Gaskell, e me deu um certo AFF (foi o único da Gaskell que tentei, e abandonei, acho que no quarto capítulo). Havia resenhas na internet dizendo que Someone at a Distance era bom porém escrito de maneira démodé, e que a protagonista era irritantemente boazinha. Quando experimentei um pouco do primeiro capítulo online na Amazon, não gostei.

Mesmo assim, não matei, ou não morreu, o desejo de ler o livro.

E eis que ele chegou, e eis que em mãos eu senti um terremoto diante da excelência do primeiro capítulo. Aquela minha primeira leitura foi muito mal influenciada por outras coisas, e logo percebi que era impossível que o livro virasse um Cranford quando já bateu em mim tão diferente, e a minha Gaskell nunca vai ser a mesma Gaskell de outra pessoa – talvez nem de mim mesmo daqui uns anos.

Como a Whipple escreve bem. Como as coisas brilham quando aproximadas ou distanciadas – uma frase de cair o queixo aqui, uma informação escondida durante vários capítulos ali. Os personagens são quase tateáveis, e no prefácio diz que a Whipple confessou certa vez: “Eu não gosto de planejar tramas, eu gosto é de construir pessoas”.

Mas construir pessoas é contar histórias, e esse livro é uma teia magnificamente bem tramada. Eu vou mencionar aqui só o nome dos três personagens principais: Ellen é a esposa, Avery é o marido, e Louise é a moça francesa que, depois de alguns caprichos do destino, vai parar na casa deles no interior da Inglaterra. O livro tem 400 páginas e exatamente na metade da narrativa é que está o olho do furacão – Ellen e a filha encontram Avery aos beijos com Louise na sala de estar –, entretanto o deleite em se ler as duzentas primeiras páginas é exatamente testemunhar todos os pequenos e grandes acontecimentos que os personagens podiam ou não ter evitado até que se chegasse àquele momento. E as duzentas páginas posteriores prendem pela escolha (ou não) dos personagens em se atolar mais ainda em erros por causa de um.

Há capítulos maçantes? Sim, são poucos, mas existem. O capítulo dez, com suas quinze páginas sobre uma noite de Natal que não teve nada de especial, me irritou profundamente. Mas como não extasiar-se com o capítulo em que a Louise fica sozinha na casa pela primeira vez, com todo o tempo do mundo para bisbilhotar e invejar o quarto do casal. Quando Ellen e Avery voltam horas depois, Louise está contemplativa fumando um cigarro no jardim e “she was as full of information as a cat of stolen cream and showed as little trace of it.

Essa personagem, Louise, é tão astuta, tão autoconfiante, que acho difícil o leitor não admirá-la em vários momentos. Uma das maiores maravilhas desse livro é que todos os personagens recebem luz da autora, o leitor consegue acessar até a vida dos pais da moça lá na França. E essa proeza – não fazer com que a história da Ellen seja a única interessante do livro – vai ser fundamental para a gente ver a humanidade de cada personagem no antes, no durante e no depois. Até o incrível capítulo 24, onde o sócio do Avery descobre que ele abandonou Ellen e eles têm uma discussão feroz – onde profissionalismo e intimidade são inseparáveis e vão quebrando paredes um do outro –, fica engrandecido pelo fato de que a gente já teve contato com aquele personagem, sua história, sua presença.

Eu poderia continuar aqui por linhas e linhas tentando traduzir para vocês a grandeza e importância dessa obra, e consequentemente a grandeza e a importância da Persephone Books por nos resgatar essa e tantas lindezas literárias, mas vou para um comentário final: Someone at a Distance foi publicado na década de 50 mas ignorado porque, como disse o editor para a escritora, “editors are going mad for action and passion”. O gosto do público mudou depois da 2ª Grande Guerra: as histórias que trabalham o mistério do dia-a-dia, os tormentos mais sutis, não interessavam mais. Whipple era uma best-seller antes, Someone at a Distance foi imediatamente percebido como sua obra-prima, mas depois desse vento novo do mercado a Whipple não publicou qualquer outro romance até sua morte (acredito que só alguns livros infantis).  

A COMPARAÇÃO

Houve um tempo em que comparar um escritor com outro era algo que me irritava demais (por exemplo: dizer que Alice Munro é o Tchekov do Canadá), mas aos poucos considerei que é uma forma de chamar a atenção para um autor ou autora que, provavelmente, sustenta-se por si próprio – e muito. Então quando eu li em algum lugar que Dorothy Whipple era a Jane Austen do século XX, eu considerei aquilo mais um convite do que uma comparação.

Da Whipple eu só li um romance, da Austen três (e a biografia escrita pelo James Edward Austen-Leigh). O que eu já posso avistar de similar entre as duas? Mulheres, inglesas, romancistas, com uma tendência para escrever histórias com protagonistas femininas, que se passam fora de centros urbanos, cuja interação entre famílias e estranhos (ou famílias estranhas) cria toda a mecânica dos romances.

Outro aspecto que pode ter gerado a comparação: a editora inglesa Virago, que nasceu em 1973 com o objetivo de publicar somente mulheres (novos ou antigos nomes), ficou na dúvida se colocaria de volta ao mercado os livros da Whipple. Acabou não publicando. A ideia da editora era publicar material que mostrasse novas formas de ver e ser mulher, e os livros da Whipple trabalham a mulher sob um papel social ao qual estamos já bastante acostumados. Eu acho que essa perspectiva faz uma ponte firme com os textos da Austen.

O que distancia as duas? Algumas escolhas no estilo da escrita deixam clara a diferença: os diálogos da Austen me parecem impecáveis, muito bem manipulados, e a Whipple às vezes parece usar o diálogo para criar atmosfera (e pode ser cansativo se for longo demais). Porém a Whipple é extraordinária na maneira como direciona o olhar dos personagens, e como ela usa isso para mostrar o interior de quem observa e de quem é observado. Até os objetos, seja uma cadeira vazia ou pratos, são enquadrados de maneira a revelar algo sobre pessoas. Essa aptidão da Whipple pode ter a ver com o fato de ela ter nascido no século do cinema – eu senti isso por exemplo na página 87, onde um diálogo termina assim: “I´m so very glad”, Madame Lanier´s voice could be heard diminishing into the house, “about the Ventre de Charité”. Como assim a voz diminuindo enquanto ela entra pela casa?! O narrador não pode acompanhá-la para onde ela está indo? Parece que a câmera ficou na sala vazia.

Séculos à parte, se eu comparar Razão e Sentimento com Someone at a Distance (que título maravilhoso, não?) temos duas obras extraordinárias, sólidas, delicadas, escritas sob o espírito de quem domina a arte do romance – que é o funcionamento do passar do tempo. E a esperança. As duas tem os pés num amanhã possível.

 

Os mistérios de Udolpho – O gótico no seu apogeu

Ainda não li Os Mistérios de Udolpho pois quero fazê-lo sem pressa e, infelizmente, este tempo é um luxo que não tenho no momento. Mas vocês, leitores do Jane Austen em Portugês, não ficarão sem uma indicação de peso. Claire Scorzi de quem já tenho publicado o artigo “Jane Austen e os movimentos literários” e o vídeo “Jane Austen”.nos autorizou graciosamente a publicação de sua resenha sobre Os Mistérios de Udolpho que foi lançado, em dois volumes, pela editora Pedrazul.

“Os mistérios de Udolpho – O gótico no seu apogeu”
por Claire Scorzi

Ann Radcliffe ficou conhecida por este e outros romances góticos – livros de mistério, suspense, ambientados em geral fora da Inglaterra (aqui, França e Itália) o que devia dar uma atmosfera “exótica” ao público leitor inglês, e quem sabe a ideia de que tais horrores não aconteceriam em solo britânico…

Otto Maria Carpeaux (História da Literatura Ocidental) escreveu que Radcliffe tinha certo talento literário, mas que hoje não a leríamos mais. Esta é uma das vezes em que discordo do grande Carpeaux. Embora eu não tenha como saber, ainda, se Radcliffe escreveu uma “obra” que permanecerá – só li este – apreciei muito descobrir que Ann Radcliffe tinha, de fato, talento literário:

Usa o gótico com discernimento, sem exagerar nas cenas e optando sempre pelo gótico fundamentado na razão – todos os “eventos estranhos” tem explicação racional – e criando boas cenas de suspense;

a atmosfera da narrativa é cuidada, sem transições abruptas e superficiais;

um possível feminismo – só possível! rs – na sua heroína, Emily, cuja firmeza moral é a sua única “arma” contra Montoni, mas que a autora consegue tornar admirável em mais de um episódio de confronto entre os dois personagens;

ausência do cinismo e irreverência tão comuns na literatura inglesa do século XVIII – ou seja, nada de Fielding – sem, contudo, abrir mão de um humor discreto;

frases de personagens memoráveis (inclusive algumas de Emily enfrentando Montoni);

personagens de apoio simpáticos (Annette e Ludovico, para citar só dois);

esforço de análise psicológica, o que me fez suspeitar que Radcliffe tinha certa familiaridade com a literatura francesa da época.

Enfim: um romance que merece ser lido.

Os mistérios de Udolpho

Florais de Bach para os personagens de Jane Austen

Em 2013 a leitora e amiga Rebeca Miscow publicou aqui no blog sobre florais de Bach e os personagens de Orgulho e preconceito. Este ano Rebeca voltou ao assunto e desta vez pretende abranger um número maior de personagens de Jane Austen.

Os quatro primeiros posts já estão disponível no seu novo blog, o Luz do Feminino:

Já que estamos falando de flores, cá está a floração de orquídeas deste ano aqui de casa para ilustrar o post.

orquideas

Miss Austen Regrets: fatos e ficção

Eu adoraria ter escrito sobre “os pesares de Jane Austen”, como gosto de traduzir o título do filme Miss Austen Regrets. Mas não fui eu e sim Mell Siciliano que está lendo as cartas de Jane Austen e colocando em seu blog, Caderneta Livresca, suas impressões.

Com a devida permissão de Mell, um pequeno trecho:

A adaptação da BBC Miss Austen’s Regrets cobre os últimos anos da vida de Jane Austen e, como o título sugere, os seu possíveis arrependimentos. Chamo de adaptação pois esse filme foi livremente inspirado nas cartas da autora. […]
Mas o que é verdade e o que é ficção nessa adaptação?  Separei alguns acontecimentos que mais me chamaram atenção em Miss Austen Regrets para comentar.

A partir daqui vocês podem ler o post completo na Caderneta de Mell: “Diário de leitura – Jane Austen’s Letters #10: Miss Austen Regrets”.

Miss Austen Regrets

Lendo as cartas de Jane Austen | Caderneta Livresca

Estou aqui morrendo de inveja da querida Mell Siciliano, leitora do blog, que conheci pessoalmente no lançamento das Novelas Inacabadas e que lamento muito não termos tido tempo de conversarmos mais na ocasião.

Brincadeiras à parte, fico muito contente que uma Janeite do quilate de Mell esteja lendo as cartas de Jane de Austen e compartilhando conosco suas descobertas. Ela iniciou comentado as menções a “Tom Lefroy” e agora está fazendo uma lista comentada sobre os livros que Jane menciona.

Já foram publicados dois posts sobre as leituras de Jane Austen: “Livros que Jane leu – parte 1” e “Livros que Jane leu – parte 2“. Como, certamente, Mell terá outras tantas novidades ao longo de sua leitura recomendo que vocês acompanhem seu blog, o Caderneta Livresca.

PS: Mell, se você quiser acrescentar ou corrigir algum detalhe neste post, por favor, esteja à vontade.

Caderneta Livresca

Lendo Mansfield Park pela primeira vez

Esta resenha de Mansfield Park é a primeira leitura de Fernanda Huguenin, leitora e amiga que já escreveu outros textos aqui no Jane Austen em Português .

Fernanda leu a tradução de Rodrigo Breunig de Mansfield Park, publicada pela L&PM e como todos sabem um dos livros que aos admiradores de Jane Austen tem maior dificuldade de se identificar ou melhor dizendo, simpatizar com os personagens, principalmente pela pequena Fanny Price.


Lendo Mansfield Park pela primeira vez

Mansfield Park, editora L&PM

Lendo Mansfield Park pela primeira vez

“Todos temos em nós mesmos um conselheiro melhor do que qualquer outra pessoa poderá ser.”

Mansfield Park é conhecido como o romance mais controverso de Jane Austen, o mais sério (e melancólico). O livro tem uma narrativa bem descritiva e lenta (assim como Emma) e cuja protagonista é muitas vezes taxada como a mais fraca já criada por Austen, muitas vezes sendo vista como uma santa pelos fãs.

Fanny Price é diferente das heroínas mais populares criadas por Jane Austen. Fanny é frágil, tímida, sensível e muito prestativa para com os outros, a ponto de ser opressivo para ela.

Na minha visão Fanny passa longe de ser santa, pois mesmo tendo consciência de que é desprezada por boa parte da família Bertram ela tem seus momentos de raiva e inveja por sofrer injustiças enquanto seus primos Maria, Julia e Tom são mimados ao extremo sem merecer.

Fanny, no seu papel de  observadora constante, analisa as atitudes ao seu redor, muitas vezes achando defeitos (existentes) e as falhas de caráter que são deixadas de lado pelos bajuladores, já que o que importa é o sobrenome e as milhares de libras que a pessoa possui.

Mesmo passando por situações embaraçosas em Mansfield Park, sua nova casa, Fanny consegue viver feliz e tranquila, sendo tratada como a parenta pobre e recebendo uma atenção fria porém educada da família Bertram, tendo como único amigo e confidente seu primo Edmund Bertram.

Como leitora, Fanny me cativou com seu jeito delicado e silencioso de ser, mesmo ela sendo forçada a sempre ser tolerante com certos tratamentos injustos, ela demonstrou ter uma personalidade muito forte e criteriosa para diferenciar o certo do errado, coisa que seus parentes não tinham. E como todo personagem de Austen, mostra ser muito inteligente, coisa que é totalmente ignorada pelas suas primas esnobes Maria e Julia Bertram, que a acham uma menina estúpida.

Serei sincera, o defeito da Fanny é ser respeitosa demais com os parentes ricos, ela tem receio de parecer ingrata para com eles. Esse defeito é algo ruim e bom ao mesmo tempo. Pelo lado negativo ela sempre será o bode expiatório de alguns e pelo lado positivo ninguém, exceto a sra.Norris, pode culpá-la por alguma falta que ela faz. Esse jeito passivo da Fanny é o que incomoda muitas fãs da Austen. Também me incomodou quando li os trechos de injustiças mas depois, quando parei para analisar, vi que sendo a família de Sir Thomas Bertram, na sua maior parte formada por pessoas orgulhosas, sensíveis à censuras e prontas para criticar e castigar Fanny pela sua “ingratidão”, acabei vendo que se a pobre srta.Price tentasse reclamar de algo só iria piorar as coisas para si mesma.

Fanny não faz parte dos personagens que precisam fazer alarde para impor suas opiniões e vontades para os que a cercam (isso muitas vezes soa infantil), ela guarda suas opiniões para si mesma (já que poucos ligam para o que ela pensa), afinal seu pensamentos são seus melhores amigos e devem ser mostrados apenas para os que merecem e querem escutar (Edmund e seu irmão William Price).

A rotina é completamente mudada quando o libertino Henry Crawford e sua mundana irmã Mary se mudam para a casa de sua irmã casada, a sra.Grant que mora nas vizinhanças e tornam-se visitantes assíduos em Mansfield Park.

Antes de ler Mansfield Park, já conhecia certas opiniões sobre o sr.Henry Crawford, que muitas fãs argumentavam que teria sido um melhor par para a Fanny do que Edmund Bertram. Durante a leitura ,achei o amor de Henry por Fanny mais como algo de posse do que amor de um modo puro. Seria algo do tipo “essa dama é diferente das outras, preciso tê-la!”. Sem contar que os princípios morais do rapaz serem completamente diferentes dos de Fanny. Henry Crawfordele se mostra vaidoso demais e acho que se ele realmente amasse Fanny teria feito algo melhor do que o desfecho que ele teve. Assim como Willoughby, sua fraqueza foi o orgulho.

Simpatizei com Edmund no início da leitura mas comecei a ficar chateada com a paixão dele pela leviana e intrigante Mary Crawford, não querendo ver seu modo egoísta e desrespeitoso e pelos pesares que criou na pobre Fanny. Mas entendo que no calor da emoção ficou empolgado demais. Se isso acontece na vida real imagine se não ocorreria nos livros da srta. Austen, vide o caso de Marianne Dashwood, em Razão e sentimento.

E finalizando, não acredito que o amor do Edmund por Fanny foi algo de repente ou por conformismo. Como leitora de Jane Austen sei muito bem que a escritora não tinha o hábito de detalhar muito o começo do afeto dos protagonistas – talvez para evitar que ficasse meloso e longo demais (será?), como podemos ver no trecho abaixo a voz da narradora:

“Eu propositadamente me abstenho de datas nessa ocasião, de maneira que cada um pode ter a liberdade de fixar sua própria época, ciente de que a cura das paixões inconquistáveis e a transferência de afeições imutáveis sempre variam muito quanto a passagem do tempo, de pessoa para pessoa.”

Mas Jane mostra rotina do futuro casal, como eles passavam o tempo e como acabavam se aproximando até chegar ao matrimônio, como a percepção de Edmund em relação à Mary Crawford no final do romance:

“… tinha defeitos de princípios,de delicadeza embotada e de uma mente viciada e corrompida.”

E como acabou se apegando mais a prima ao perceber que

“… a própria Fanny estivesse se tornando tão querida, tão importante para ele,com todos os seus sorrisos e todos os seus modos,quanto Mary Crawford jamais tinha sido.”

Começou a amar Fanny mais do que como prima, a ver o quão ideal ela era para sua felicidade e também ficou inseguro se ele era digno de estar com Fanny já que durante toda a história ela foi a única que não se deixou iludir pelos modos agradáveis dos Crawford. E no final foi uma união feliz porque ambos se amavam.

E essa foi minha última leitura inédita da Srta Jane Austen, e é claro que vai entrar na minha lista de favoritos da escritora!