Caio Fernando Abreu e Jane Austen

Caio Fernando Abreu, escritor e jornalista gaúcho, citou Jane Austen em uma de suas cartas. Ele estava em Londres em janeiro de 1991 quando escreveu para sua amiga, Jacqueline Cantore. Falava sobre seu modo vida londrino e sobre escrever cartas quando mencionou Austen:

Escrever cartas é algo que, no estrangeiro, tem outro gosto. Muito melhor. Um tanto Jane Austen, concordo. E receber então?

É inegável que ele gostava de escrever e receber cartas. E era inclusive melhor esse enviar e receber de cartas no exterior.

Mas, como o diabo mora nos detalhes, fiquei pensando na expressão “um tanto Jane Austen”, seria um elogio ou um certo desdém pelo estilo de Austen?

Agora me digam vocês, estou vendo significados onde não existem?

Caio Fernando Abreu Cartas

Caio Fernando Abreu Cartas – ebook na Amazon Organização de Ítalo Moriconi

Jane Austen, editora?

Jane Austen, editora?
por Mell Siciliano

Jane Austen, editora, será? Abaixo segue a definição de editor do dicionário Aurélio (2010):

e.di.tor [ Lat. editore] adj. 1. Que edita. 2. Quem edita. 3. O responsável pela supervisão, preparação de textos especializados, etc., em jornal, revista, etc.

Traduzindo para vida prática, o(a) editor(a) é aquela pessoa que trabalha com a supervisão de todo o processo para a publicação de um conteúdo, um texto, um livro, etc ou/e aquele que trabalha diretamente na preparação do texto, observando não só questões gramaticais como também de adequação do conteúdo ao objetivo fim, muitas vezes propondo alterações substanciais no conteúdo final.

E o que tudo isso tem a ver com Jane Austen? Bem, lendo suas cartas descobri duas coisas: a primeira é que sua sobrinha Anna Austen (depois Lefroy) também escrevia, e a segunda é que em suas cartas para sua tia ela pedia por conselhos sobre seus escritos!

E Jane não se resumia a dar opiniões, ela indicava alterações no texto, de forma que sua sobrinha pudesse passar mais claramente – ou da maneira mais adequada – aquilo que ela gostaria de passar. Separei alguns exemplos pra vocês:

Carta 103, para Anna Austen, Junho de 1814

A few verbal corrections were all that I felt tempted to make – the principal of them is a speech of St. Julians to Lady Helena – which you will see I have presumed to alter. – As Lady H. is Cecilia’s superior, it would not be correct to talk of her being introduced; Cecilia must be the person introduced.
Algumas correções de discurso foram tudo o que eu me senti tentada a fazer – a principal delas é uma fala de St. Julians para Lady Helena – você verá que eu ousei alterar. – Como Lady H. é superior a Cecília, não seria correto falar dela ser introduzida; Cecilia deve ser a pessoa introduzida.

Carta 104, para Anna Austen, Junho de 1814

(…) We have just finished the first part of the 3 books I had the pleasure of receiving yesterday; I read it aloud – & we were all very much amused, & like the work quite as well as ever. (…) My corrections have not been more important than before; – here and there, we have thought the sense might be expressed in fewer words (…) Lyme will not do. Lyme is towards 40 miles distance from Dawlish & would not be talked of there. I have put Starcross indeed. – If you prefer Exter, that must be always safe.
(…) Let the Portmans go to Ireland, but as you know nothing of the manners there, you had better not go with them. You will be in danger of giving false representations. Stick to Bath & the Foresters. There you will be quite at home.

(…) Nós acabamos de terminar a primeira parte dos 3 livros que tive o prazer de receber ontem; eu li em voz alta – e todos nós ficamos muito entretidos, e gostamos do livro tanto quanto antes. (…) As minhas correções não foram mais importante do que antes; – Aqui e acolá, pensamos
que o sentido poderia ser expressado em menos palavras (…) Lyme não servirá. Lyme fica a 40 milhas de distância de Dawlish e não seria falada por lá. Eu coloquei Starcross, de fato. – Se você preferir Exter, tal opção será sempre segura.
(…) Deixe os Portmans irem para a Irlanda, mas como você não sabe nada sobre os costumes de lá, o melhor a fazer é não ir com eles. Você correrá o risco de dar falsas representações. Mantenha-se em Bath e com os Foresters. Lá você estará em casa.

Existem ainda várias cartas que tratam dessas edições de texto. Como a numeração que tenho é a do meu livro, indico esse site caso queiram ler todas. As cartas que lá estão são de outra edição, a de Brabourne, mas o conteúdo é o mesmo.

Agora vocês devem estar se perguntando: mas cadê o livro da Anna pra gente conhecer St. Julians e Lady Helena e Cecilia? Devo dizer que, infelizmente, ele não foi publicado. Na verdade, ele nem foi terminado. Segundo as informações do livro, as obrigações de Anna após o casamento a deixaram com pouco tempo disponível para escrever. Além disso, a morte de Jane em 1817 privou Anna da sua maior incentivadora. Após guardar o manuscrito por muitos anos, Anna decidiu queimá-lo. Uma pena, pois – como expressado no próprio livro – mesmo sendo um livro incompleto, as edições indicadas por Jane tornariam o manuscrito muito valioso.

Termino a postagem com uma resposta para a pergunta proposta no título. Jane Austen, editora? SIM. Apesar da profissão na época ser exercida somente por homens e de ainda não existir um curso que cuidasse da formação acadêmica de tal profissional, o que Jane fazia com os escritos de Anna era edição pura.

Austen Editora | Captura de tela do filme Becoming Jane (Amor e inocência)

Austen editora | Captura de tela do filme Becoming Jane (Amor e inocência)

Três casais Darcy brasileiros

Já podemos nos vangloriar que temos três casais Darcy brasileiros! Numa peça de teatro, num musical e agora numa novela da Rede Globo: Orgulho e paixão.

O primeiro casal foi da peça Orgulho e preconceito apresentada por o Grupo Fora de Foco. Guilherme Magalhães e Alice Martins fizeram Mr. Darcy e Elizabeth Bennet e tive prazer de assistir uma apresentação e conhecer toda trupe!

Grupo Fora de Foco - Guilherme Magalhães e Alice Martins

Grupo Fora de Foco – Guilherme Magalhães e Alice Martins – Foto Yuri Palaro

No musical Nuvem de Lágrimas o casal foi representado por Gabriel Sater e Lucy Alves, ambos cantores e atores. Eram respectivamente o advogado Darcy que trabalhava para uma grande fazenda e Bete Borba, gerente de uma cooperativa agrícola, que sonhava ser cantora.

Nuven de Lágrimas - Gabriel Sater e Lucy Alves

Nuvem de Lágrimas – Gabriel Sater e Lucy Alves – Foto divulgação

E agora temos os atores Thiago Lacerda e Nathalia Dill, em Orgulho e Paixão. Pelo que li até o momento o personagem de Thiago manterá o nome (ou sobrenome) Darcy e será um empresário importante que tomará parte na construção de uma ferrovia. Nathalia será uma das filhas de produtores de café e até o momento temos o nome como Elizabeta. Já li comentários de quem não gostou muito da adaptação do nome mas segundo um site, a personagem é adepta do  “sincericídio”, portanto é nossa Lizzy, não importa o nome!

Assim que que tivermos o casal Darcy de Orgulho e Paixão em foto devidamente caracterizado prometo novo post só com eles!

Casais Darcy brasileiros Novela Orgulho e Paixão oThiago Lacerda e Nathalia Dill

Casais Darcy brasileiros – Novela Orgulho e Paixão – Thiago Lacerda e Nathalia Dill

Orgulho e preconceito | Guerra e Paz

A editora portuguesa Guerra e Paz lança nova tradução de Orgulho e preconceito no bicentenário da morte de Jane Austen. O livro chegará às livrarias a partir de 6 de setembro. O tradutor é Diogo Ourique.

Tomei conhecimento desta edição lendo os comentários de Vera Santos, do Jane Austen Portugal e que já escreveu como leitora-convidada aqui no Jane Austen em Português. Vera não gostou nem um bocadinho da capa.

Eu confesso que não me desagradou e que já vi capas de arrepiar os cabelos. Aguardemos para ver o que as meninas de Portugal dirão desta nova tradução.

Eis a capa, o que vocês acham?

Orgulho e preconceito Guerra e Paz

Orgulho e preconceito Guerra e Paz

 

Coleção Mulheres na Literatura – Persuasão

A coleção Mulheres na Literatura da Folha de São Paulo/UOL publicará Persuasão de Jane Austen. Alvíssaras! Até que enfim teremos um outro livro que não seja o meu amado Orgulho e preconceito. A tradução é a de Mariana Menezes Neumann, tradução esta que já foi publicada pela BestBolso Persuasão será o sexto volume e estará nas bancas no dia 17 de setembro.

Os primeiros três livros da coleção já estão nas bancas: Perto do coração selvagem de Clarice Lispector; Poemas escolhidos de Emily Dickson e a Casa dos espíritos de Isabel Allende já estão nas bancas.

Já estou doida para comprar, não digo a coleção completa, mas certamente comprarei Rachel de Queiróz, Edith Warthon, Fannie Flag e melhor terminar esta sentença com um etc!

Detalhes do projeto e tradutores quando cabíveis verei ao longo da semana e coloco aqui no post. Com vocês a lista completa para já ficar com vontade…

  1. Clarice Lispector – Perto do coração selvagem
  2. Emily Dickinson – Poemas escolhidos (trad. Ivo Bender)
  3. Isabel Allende – A casa dos espíritos  (trad. Carlos Martins Pereira)
  4. Simone de Beauvoir – Mal-entendido em Moscou  (trad. Stella Maria da Silva Bertaux)
  5. Virginia Woolf – Cenas londrinas  (trad. Myriam Campelo)
  6. Jane Austen – Persuasão (trad. Mariana Menezes Neumann)
  7. Jeannette Walls – O castelo de vidro
  8. Lya Luft – Perdas e ganhos
  9. Herta Müller – Depressões (trad. Ingrid Ani Assmann)
  10. Rachel de Queiroz – Dôra, Doralina
  11. Agatha Christie – E não sobrou nenhum (trad. Renato Marques de Oliveira)
  12. Nélida Piñon – Vozes do deserto
  13. Mary Shelley – Frankstein (trad. Irineu Franco Perpetuo)
  14. Fannie Flagg – Tomates verdes fritos (trad.  a conferir)
  15. Madame de Lafayette – A princesa de Clèves (trad. Léo Schlafman)
  16. Maria Adelaide Amaral – Tarsila
  17. Florbela Espanca – Poemas
  18. Françoise Sagan – Bom dia, tristeza (trad. Sieni Marla Campos)
  19. Katherine Mansfield – 15 contos escolhidos (trad. ?)
  20. Thays Martinez – Minha vida com Boris
  21. Emily Brontë – O morro dos ventos uivantes (trad. Rachel de Queiroz)
  22. Louisa May Alcott – Mulherzinhas (trad. ?)
  23. Anna Gavalda – Eu a amava (trad. Procópio Abreu)
  24. Thrity Umrigar – A distância entre nós (trad. ?)
  25. Alice Munro – Fugitiva (trad. ?)
  26. Edith Wharton – A época da inocência (trad. ?)
  27. Wendy Holden – Os bebês de Auschwitz (trad. ?)
  28. Charlotte Brontë – Jane Eyre (trad. ?)
  29. Jhumpha Lahiri – Aguapés (trad. ?)
  30. Agustina Bessa-Luís – A sibila
Mulheres na Literatura_- Persuasão

Coleção Mulheres na Literatura – Persuasão

As primeiras traduções de Jane Austen no Brasil | Pride and Possibilities 19

As primeiras traduções de Jane Austen no Brasil foram publicadas muito tempo depois de sua publicação na Inglaterra, para ser precisa, 129 anos depois.

A primeira tradução brasileira de Jane Austen foi Orgulho e preconceito (Pride and Prejudice) feita pelo escritor Lúcio Cardoso e publicada em 1940 pela editora José Olympio. Acredito que foi movida pela sucesso da adaptação cinematográfica com Laurence Olivier e Greer Garson pois na orelha do livro tem o seguinte anúncio, “Este romance foi filmado pela Metro-Goldwyn-Mayer e será apresentado no Brasil com o título ‘Orgulho’”. O filme foi exibido com o título original completo.

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil - Orgulho e preconceito

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil – Orgulho e preconceito

Em 1942 foi a vez de Mansfield Park que foi traduzido pela escritora Rachel de Queiroz e publicada pela mesma editora de Orgulho e preconceito. A tradutora era certamente leitora de Austen pois em seu primeiro livro, O Quinze, escrito em 1930, colocou sua heroína dizendo: “Não sei amar com metade do coração…”, claramente inspirada em Marianne Dashwood. Desta tradução consegui para meu acervo apenas uma segunda edição.

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil - Mansfield Park

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil – Mansfield Park

O livro seguinte,  Razão e sentimento (Sense and Sensibility), completa os três livros de Jane Austen que foram publicados pela editora José Olympio e foi traduzido pela escritora Dinah Silveira de Queiroz em 1944. Exemplares desta edição, assim como de Mansfield Park são raros de se encontrar. Sense and Sensibility aqui no Brasil, como em vários outros países, tem duas traduções para o título: Razão e sentimento e Razão e sensibilidade, sendo esta última a única utilizada nas traduções de filmes e séries de TV.

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil - Razão e sentimento

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil – Razão e sentimento

No mesmo ano de 1944 foi publicada pela editora Panamericana a tradução de A Abadia de Northanger (Northanger Abbey). O tradutor foi o poeta e escritor Lêdo Ivo. Estas edições dos anos 1940 foram todas impressas em papel de baixa qualidade devido a escassez do período da Segunda Guerra Mundial e por esse motivo livros se encontram em estado bastante precário.

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil - A abadia de Northanger

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil – A abadia de Northanger

Passaram-se quase trinta anos para que em 1971 finalmente  Persuasão (Persuasion) fosse publicado pela editora Bruguera com tradução da escritora Luiza Lobo. Persuasão teve duas edições e praticamente desapareceu do mercado. Emma levou mais de duas décadas depois de Persuasão, sendo publicado em 1996 com tradução do poeta e escritor Ivo Barroso, que também traduziu Razão e sentimento, em 1982, pois a tradução de Dinah Silveira de Queiroz era impossível de encontrar.

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil - Emma e Persuasão

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil – Emma e Persuasão

Em 2014 as duas novelas inacabadas,  Os Watsons (The Watsons) e Sanditon foram traduzidas também por Ivo Barroso e com introduções minhas. Todas as traduções de Ivo Barroso foram publicadas pela editora Nova Fronteira. Lady Susan foi publicado por duas editoras, Pedrazul e Zahar no ano de 2012 e a Juvenília em 2014 pela editora Companhia das Letras.

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil - Os Watsons, Sanditon, Lady Susan

Primeiras traduções de Jane Austen no Brasil – Os Watsons, Sanditon, Lady Susan

Esta foi a trajetória das primeiras traduções de Jane Austen no Brasil e que atualmente, graças aos filmes e principalmente a internet se popularizou imensamente.

Para se ter uma ideia do alcance de Jane Austen neste ano de 2017, a maior emissora de televisão do país, a Rede Globo, lançou uma novela chamada Novo Mundo que conta a história de uma dama de companhia da esposa do príncipe Dom Pedro, a princesa Leopoldina com quem ele se casara em 1817. A dama de companhia é cortejada por um capitão inglês que entre galanteios e tentativas de conquista dá-lhe de presente um exemplar de Pride and Prejudice. Para a alegria das Janeites brasileiras, é claro!

A personagem foi levemente inspirada na inglesa Maria Dundas Graham Callcott² que de fato esteve no Brasil e foi tutora de uma das filhas da Princesa Leopoldina. Maria Graham  como era mais conhecida escreveu livros sobre o Brasil, e para minha surpresa, foi publicada por John Murray, o mesmo editor de Jane Austen!


¹O artigo “Jane Austen: primeiras traduções no Brasil” foi escrito por mim para o periódico online Pride and Possibilities da Jane Austen Literacy Foundation, sob o título ISSUE 19: THE FIRST BRAZILIAN TRANSLATIONS e traduzido para o inglês por Rita L. Watts.

²Maria Graham Wikipedia – https://en.wikipedia.org/wiki/Maria_Graham

Signature Editions na Biblioteca Jane Austen

Finalmente coloquei os livros da Signature Editions na Biblioteca Jane Austen. Publicar na  Biblioteca parece simples e na verdade é simples mas escanear cada capa e depois colocar os dados com muita atenção toma um tempo considerável. Sem contar o upload com a minha conexão da era da pedra lascada.

Mencionei os livros da Signature pela primeira vez na Gazeta de Meryton de março de 2014 por indicação de Mell Siciliano e depois em dezembro de 2015 quando me dei a coleção de presente e contei alguns detalhes sobre os livros.

Mas ficou faltando a informação sobre as pinturas que estampam as jaquetas e também a autoria das notas e introduções de cada um dos seis livros. Pois bem, todos esses dados da coleção estão na Biblioteca dividido em sete posts.

Não resisti e fiz uma foto para este post com os novos filtros do meu celular!

Signature Editions Jane Austen

Signature Editions Jane Austen

 

Jane Austen: comum e extraordinária

Extraordinária e comum, é o que é Jane Austen como bem diz o título do livro de Deborah Hopkinson,  Ordinary, Extraordinary Jane Austen, com o subtítulo que esclarece se tratar dos seis romances, três cadernos (suponho que sejam os da juvenília), uma caixa de escrever e um garota esperta. O livro com capa dura e 40 páginas é ilustrado por Qin Leng. como podemos ver pelo tamanho é infanto-juvenil.

O livro está na pré-venda na Amazon. Traduzo parte da sinopse que achei muito simpática:

É uma verdade universalmente reconhecida que Jane Austen é um das nossas maior escritoras. Mas antes disso ela era apenas um garota comum.
De fato, a jovem Jane  era um tanto quieta e tímida; se você tivesse a encontrado na época, possivelmente não a teria notado. Mas ela teria notado você. Jane via e escutava tudo que as pessoas ao redor dela faziam e gravava essas observações mantendo-as na memória.
Jane também adorava ler. Ela devorava todos os livros da biblioteca de seu pai, isso bem antes de começar a criar suas próprias histórias. Na sua época, os livros mais populares eram sobre grandes aventuras e romances, mas Jane queria seguir seu próprio caminho… e seguiu em frente para inventar um tipo inteiramente novo de romance.

Extraordinaria Jane Austen | Ordinary, Extraordinary Jane Austen por Deborah Hopkinson

Extraordinaria Jane Austen | Ordinary, Extraordinary Jane Austen por Deborah Hopkinson

 

 

Doctor Who e Jane Austen

Eu nunca assisti Doctor Who da BBC mas semana passada li sobre a série no blog da Mell Siciliano, a Caderneta Livresca.

Foi assim que iniciei este post em 30 de novembro de 2015 e que atualizo para este ano de 2017, agora com o artigo integral de Mell que está encerrando as atividades de seu blog e gentilmente ofereceu seus posts sobre Jane Austen para serem publicados aqui no Jane Austen em Português. Outros serão atualizados ou publicados até o final de 2017.


Jane Austen e Doctor Who
por Mell Siciliano

Jane Austen e Doctor Who? Hã?

Uma pequena introdução pra quem não conhece: Doctor Who é uma série de ficção científica britânica produzida pela BBC que traz as aventuras de um peculiar alienígena de aparência humanoide chamado Doctor. O Doctor se parece muito com um humano, poderia até ser um, não fossem algumas diferenças: ele vem de um planeta chamado Gallifrey – portanto é um Time Lord (Senhor do Tempo) – e viaja no tempo e espaço com a sua nave, a TARDIS (abreviação para “Time and Relative Dimensions in Space”, em português seria “Tempo e Dimensões Relativas no Espaço”). Além disso ele tem dois corações e não morre; ao invés de morrer ele se regenera. Essa regeneração permite que periodicamente sejam mudados os atores que encarnam o Doctor.

Peter Capaldi como Doctor Who

Peter Capaldi como Doctor Who

A série começou em 1963, e tinha como principal objetivo ensinar história e ciências. O Doctor sempre viaja com uma ou algumas pessoas em sua nave, que chamamos de companions (companheiros). Os primeiros companheiros eram sua neta Susan, e dois professores da escola Coal Hill School, professores de história e de ciências, o que reforçava o caráter educativo da série. Ao longo dos anos, porém, a coisa foi ficando muito mais ficção científica do que o inicialmente planejado (os episódios de viagens na história do planeta Terra, por exemplo, ficaram mais escassos). Nos anos 80 a série foi descontinuada, nos anos 90 fizeram um filme, e em 2005 eis que Doctor Who volta às telinhas britânicas.

Eu comecei a ver a série nessa retomada de 2005, ainda não tive tempo/coragem de começar a empreitada dos episódios antigos. Pois bem, desde a retomada da série tivemos personalidades literárias em alguns episódios, como por exemplo Charles Dickens, Shakespeare e Agatha Christie.

Eu queria – muito – que tivesse algum episódio com a nossa querida Jane, mas os episódios desse tipo sumiram quando houve uma mudança nos roteiristas da série. Mas, apesar de não me darem um episódio com a Jane, eles plantaram ideias maravilhosas de possíveis aventuras com ela. A série é conduzida de maneira que, para o espectador, existe a ciência de que não vemos todas as aventuras do Doctor, e volta e meia eles fazem menção a algo que aconteceu quando não estávamos vendo.

Como eu disse anteriormente, o Doctor sempre viaja com uma companheira, e a atual é a linda da Clara Oswald. Clara, além de viajar nas mais loucas aventuras com o Doctor é professora de literatura na Coal Hill School. E ela mencionou em dois episódios Jane Austen. Não poderíamos esperar diferente de uma professora de literatura inglesa, concordam?

Jenna Coleman | Clara Oswald

Jenna Coleman | Clara Oswald

A primeira menção foi no sexto episódio da oitava temporada, The Caretaker (em português seria O Zelador). Clara está tranquilamente dando uma aula sobre Orgulho e Preconceito, e escreveu no quadro o ano em que o livro foi escrito (segundo ela, 1797), quando o Doctor a interrompe (pela janela da sala de aula) e o seguinte diálogo acontece:

The Doctor: Jane Austen wrote Pride and Prejudice in 1796.
Clara: This is Mr. Smith, the temporary caretaker, and he’s a bit confused.
The Doctor: Not in 1797, because she didn’t have the time. She was so busy doing all the—
Clara: Oh, what? And I suppose, what, she was your bezzie mate, was she? And you went on holidays together and then you got kidnapped by boggons* from space and then you all formed a band and met Buddy Holly!
The Doctor: No, I read the book. There’s a bio at the back.
Clara: Get down.
The Doctor: Boggons*?
Clara: Go!

Tradução:

The Doctor: Jane Austen escreveu Orgulho e Preconceito em 1796.
Clara: Esse é o Sr. Smith, o zelador temporário, e ele está um pouco confuso.
The Doctor: Não em 1797, porque ela não tinha tempo. Ela estava muito ocupada fazendo todas —
Clara: Oh, o quê? Suponho então que ela era sua melhor amiguinha, é isso? E vocês viajaram juntos em feriados e então você foi raptado por boggons* do espaço e então todos vocês formaram juntos uma banda e conheceram Buddy Holly!
The Doctor: Não, eu li o livro. E há uma biografia no verso.
Clara: Se abaixe.
The Doctor: Boggons*?
Clara: Vá!

Acredito que a Clara ficou com uma ponta de inveja ao pensar que o Doctor voltou no tempo e conheceu Jane Austen e ela não. Eu também ficaria! Mas agora, quem está certo? O Doctor ou a Clara? Na verdade, os dois. Orgulho e Preconceito foi escrito entre outubro de 1796 e agosto de 1797.

A segunda menção acontece no primeiro episódio da nona temporada, The Magician’s Apprentice (O Aprendiz do Mago), em que Clara, novamente lecionando sobre Jane e após uma breve interrupção devido a um evento estranho que ela vê pela janela, afirma:

Clara: Right. Now where was I? Jane Austen. Amazing writer, a brilliant comic observer, and—strictly amongst ourselves—a phenomenal kisser.

Tradução

Clara: Certo. Onde eu estava? Jane Austen. Maravilhosa escritora, uma brilhante observadora cômica e estritamente entre nós – beijava de maneira fenomenal.

Ou seja, podemos inferir que de uma temporada para a outra Clara não só conheceu Jane Austen como também a beijou!

Além dessa referências, temos uma aventura em áudio em que Jane aparece! O universo de Doctor Who é composto por muitas outras narrativas além da série. Existem livros, quadrinhos e aventuras em áudio que fazem parte da história oficial e podem até interferir ou serem referenciados nos episódios. Mesmo entre os anos 80 e 2005 essas aventuras continuaram sendo escritas. Ao pesquisar para esse post, descobri que Jane já apareceu em uma aventura em áudio, chamada Frostfire, com o primeiro Doctor. Nessa aventura Jane o ajuda a salvar Londres. Na ocasião, o Doctor diz que tem bastante admiração pelos seus livros, o que a deixa muito surpresa pois ela havia somente publicados dois livros, e de maneira anônima.
Eu sei que tudo isso me deu mais vontade ainda de ver Jane em Doctor Who! Tenho plena consciência, entretanto, de que não será nessa temporada – e nem com a Clara – mas sigo aguardando! No décimo episódio da temporada – Face the Raven – Clara mencionou Jane Austen novamente!

Clara: Sometimes Jane Austen and I prank each other. Oh she’s the worst! I love her! Take that how you like…

Tradução:

Clara: Às vezes Jane Austen e eu pregamos peças uma na outra. Ah, ela é a melhor! Eu a amo! Entenda isso como quiser…

Entenda isso como quiser? Será que rolou alguma coisa entre as duas? Eu aposto que sim!

notas

Orgulho e Paixão novela da Globo inspirada em Orgulho e preconceito

A novela da Globo, Orgulho e Paixão, será inspirada em Orgulho e preconceito, o romance mais amado de Jane Austen. A boa notícia foi dada por Patrícia Kogut em sua coluna no jornal o Globo. A novela será escrita por Marcos Bernstein e tem estréia prevista para março ou abril de 2018, no horário das 18 horas. As gravações  que começam em janeiro próximo terão a direção de Fred Mayrink.

O foco principal será a história de uma família que mora no interior de São Paulo numa cidade fictícia chamada Vale do Café e cuja mãe sonha casar as cinco filhas. Neste ponto já podemos ver que manterão todas as irmãs como na história original. Claro que precisamos ter em mente que é uma adaptação e muito terá que ser introduzido pois é um programa de longa duração, em torno de cinco a seis meses. Tenho certeza que autor terá muita inspiração ao ler o livro e espero que tenha consigo uma boa tradução brasileira.

No primeiro momento que li a notícia comentei no Facebook que adoraria que fosse algo de época como a maravilhosa adaptação da Megera Domada de Shakespeare, o Cravo e a Rosa. Você lembram dessa novela das seis?

Pois bem,  será! Vai se passar no início do século 20 , na época áurea dos barões do café. Pelo título escolhido certamente terá um viés romântico, mas não podemos esquecer que as inúmeras fãs consideram os romances de Jane Austen, românticos.

Li também que Carolina Ferraz está cotada para o elenco e já estou tentando imaginar os outros personagens e os atores que os interpretarão. Acredito que Carolina seria uma boa senhora Bennet, que sempre foi representada por mulheres mais velhas do que a personagem que não teria ainda cinquenta anos.

Aproveitando a ocasião pergunto: quem vocês acham que ficaria bem no papel de Darcy e Elizabeth? E outros personagens também, como Mr. Collins, por exemplo?

Enquanto não temos imagens da novela propriamente dita ilustro o post com uma Elizabeth Bennet pensativa, retratada por C. E. Brock e com leve retoque meu.

ElizabethBennet pensando em Orgulho e Paixão

Elizabeth Bennet pensando em Orgulho e Paixão