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LIVROS JANE AUSTEN,  MISCELÂNEA,  Orgulho e preconceito

Orgulho e preconceito · Leitura comparada Brasil-Portugal · Capítulos 1 a 5

My dear Mr. Bennet, how can you be so tiresome?

Antes de iniciar quero deixar claro que esta leitura comparada não é uma leitura acadêmica, e sim uma leitura amadora e amorosa da obra de Jane Austen.

Cheia de ironia, a frase inicial de Orgulho e preconceito é uma das mais conhecidas do mundo. Sempre que a leio em inglês me pergunto se em outras línguas terá o mesmo sabor. E outra pergunta surge: e as diferentes traduções na mesma língua? Aqui começam as dúvidas e minha leitura, sempre me perguntado qual será a interpretação de Cátia pois não trocamos uma palavra sobre a leitura antes de publicarmos as respectivas experiências. Avante!

It is a truth universally acknowledged, that a single man in possession of a good fortune must be in want of a wife.

É uma verdade universalmente aceite que um homem solteiro na posse de uma fortuna avultada necessita de uma esposa. PT

É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de uma esposa. BR

Para mim, e isto de ironias e coisas engraçadas são muito particulares, a graça desta desta frase está no “deve estar necessitado” com ênfase no “deve”, e assim sendo o “necessita” sozinho, da tradução portuguesa me parece muito desenxabido.

Don’t keep coughing so, Kitty, for heaven’s sake! Have a little compassion on my nerves. You tear them to pieces.

Não tussas dessa maneira, Kitty, pelo o amor de Deus! Tem alguma compaixão pelos os meus nervos. Pões-mos em franjas. PT

Não tussa desse modo, pelo amor de Deus, Kitty. Tenha um pouco de piedade dos meus nervos… Você os está dilacerando! BR

Uma das alegrias destas leituras comparadas são as palavras e expressões diferentes da nossa língua portuguesa. Um exemplo está na reprimenda feita pela senhora Bennet a Kitty, que não para de tossir. Não conhecia esta expressão, “por-se em franjas”. Achei divertidíssima e muito apropriada para a senhora Bennet!

What say you, Mary? for you are a young lady of deep reflection I know, and read great books, and make extracts.

Que pensas disto, Mary? Bem sei que és uma jovem de profunda introspecção, que lê bons livros e deles extrais ensinamentos. PT

O que acha, Mary? Sei que é uma moça de juízo; lê grandes livros e faz resumos de tudo que lê. BR

Quando Mr Bennet diz que Mary lê “great books” e “make extracts”, a minha leitura é que ele está fazendo chacota com a filha e querendo dizer que ela lê livros de grande tamanho e que seus resumos são inúteis. Deste modo, mesmo não estando errada, com a tradução de “great books” por “bons livros”, perde-se a piada. Quanto ao “make extracts” não faz sentido traduzir por “extrais ensinamentos”, não nesta frase.

She is tolerable; but not handsome enough to tempt me;

É sofrível, mas não suficientemente bela para me tentar. PT

É tolerável, mas não tem beleza suficiente para tentar-me. BR

A tradução portuguesa de “tolerable” por “sofrível” é correta mas para mim é como se tivesse dizendo algo sem pé nem cabeça! Estou curiosíssima para saber a opinião de Cátia neste caso. (Repete-se também no capítulo 5 quando rememoram o fato ocorrido no baile.)

Mary had heard herself mentioned to Miss Bingley as the most accomplished girl in the neighbourhood;

Mary ouvira alguém descrevê-la à menina Bingley como a rapariga mais prendada da comarca. PT

Mary ouvira o seu nome mencionado por Miss Bingley como sendo o da moça mais dotada da reunião. BR

Mary foi mencionada “para” e não “por” Miss Bingley e portanto a tradução brasileira não está correta e talvez por esse motivo a adaptação de “neighbourhood” por “reunião”. Me parece também que a tradução portuguesa por “comarca” abrange uma área muito maior do que a vizinhança.

Then, the two third he danced with Miss King, and the two fourth with Maria Lucas, and the two fifth with Jane again, and the two sixth with Lizzy, and the Boulanger –”

Depois, dançou com a menina King, e a seguir com Maria Lucas; e depois novamente com Jane e em seguida com Lizzy, e a boulangerPT

Depois dançou com Miss King as duas terceiras, com Maria Lucas as duas quartas, e as duas quintas com Jane novamente, as duas sextas afinal com Lizzy e a Boulanger. BR

A senhora Bennet, logo que voltou do baile, passou a enumerar todas moças que dançaram com Mr. Bingley. O texto original que estou usando aqui é do site Mollands e vê-se claramente que Mrs. Bennet foi interrompida (pelo uso do travessão) pelo Mr. Bennet que já não aguentava a tagarelice da esposa.

Lúcio Cardoso traduziu precisamente os detalhes das danças mas se perdeu quando supôs que Boulanger fosse o nome de uma moça, quando na verdade é nome de uma dança. E qual seria o motivo dessa confusão quando o original parece tão claro? Encontrei a resposta no meu exemplar em de 1907 que termina a frase do modo que Cardoso a terminou: “and the two six with Lizzie and the Boulanger”.

E para encerrar, duas observações. A primeira sobre a expressão usada por Bingley ao conversar com Mr. Darcy “for a kingdom!” foi traduzida apenas na versão portuguesa como “Valha-nos Deus!”. E a segunda, apenas para registro pois pretendo escrever um post separado, sobre o uso de Lizzie e Lizzy, que na tradução portuguesa está presente com as duas grafias e na brasileira, até o momento, somente Lizzy.

Até os próximos capítulos!

∞ ∞ ∞

LEITURA DE CÁTIA

Leitura Comparada Orgulho e Preconceito – Portugal (1-5)

ILUSTRAÇÕES

Aquarelas de C. E. Brock da minha coleção “The Series of English Idylls”

“My dear Mr. Bennet, how can you be so tiresome?” Capítulo 1
“Come, Darcy,” said he, “I must have you dance.” Capítulo 3

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15 Comentários

  • valeria

    “A Moça mais dotada da Comarca”, com certeza é um superlativo bem mais profundo do que ser somente “a mais dotada da Reunião”, aqui onde eu moro é comarca que ab range , além do municipio que eu moro, mais dois outros o que daria aí umas 200.000 pessoas, mas antes já foi maior e abrangia uma área de 07 municipios, ou seja Mary era absolutamente a mais dotada de todas.

    • Raquel Sallaberry

      Valéria,

      eu que achei exagerado o uso da palavra comarca, lendo teu comentário começo a perceber que é possível que a tenham usado justamente para ver o ridículo da coisa!

  • Letícia

    Também se,pre tive essa dúvida é Lizzy ou Lizzie? Aproveitei que você postou eu pergunto…
    E sofrível em vez de tolerável? Ficou sem pé nem cabeça mesmo..
    Mas é portugal, e lá o português é diferente do daqui.

    • Raquel Sallaberry

      Leticia,

      eu também estou descobrindo uma porção de detalhes, entre eles a grafia Lizzie/Lizzy, que prometo quando tiver todos os dados escreverei um post.

  • Orquidea

    Na minha humilde opinião, as traduções portuguesas são melhores. Gosto simplesmente…
    Mas, se é “uma verdade universal” para que o “conhecida”??
    Retire essa última palavra e não fica já com sentido??
    Tradução portuguesa mais perto do texto da JA.
    Abç ae
    e boas leituras!!

    • Raquel Sallaberry

      Orquidea,

      creio que o conhecida é para exagerar e desse modo aumentar a graça da frase.

  • catiagp

    Olá Raquel, bom dia! O que eu acho de tão maravilhoso na nossa leitura é o facto dos nossos olhos sempre repousarem em diferentes aspectos! :)) Maravilhoso! Ao ler o resultado da tua leitura, fiquei com vontade imediata de reler os trechos que citaste, para comparar e ver nas outras traduções 🙂
    Um beijo grande!

    • Raquel Sallaberry

      Catia,

      não fosse meu tempo curto, eu leria todas as outras traduções. Preciso me segurar! Também notei que estamos olhando partes diferentes e isso é maravilhoso.

  • Júnior

    Raquel, também acho que o “deve estar necessitado” faz toda a diferença na tradução, exatamente pelo “deve estar”, pois reforça o sentido. Sobre a tradução de “tolerable” por sofrível na edição portuguesa é meio complicado entender o motivo pelo qual o tradutor se distanciou do sentido mais óbvio, quando poderia ter ido pelo caminho mais simples (tolerable = tolerável).

    Creio que Mary ficaria exultante (claro, nos limites da sua personalidade) em ser mencionada por Miss Bingley como “moça mais dotada da reunião”. Pena que tudo não passou de um equívoco da tradução brasileira.

    • Raquel Sallaberry

      Júnior,

      no caso do sofrível, se você procurar em dicionário brasileiro é uma das traduções de tolerable. Tentei imaginar uma frase em português com esse sentido e confesso que não achei.

      Pobre Mary, não tenha dúvida de como ficaria orgulhosa, segundo a definição dela, de um elogio vindo da bruaca!

      Querido não deixe de ver os pontos destacados por Cátia em sua leitura: DESAFIO | Bicentenário “Orgulho e Preconceito” #1

  • Elaine Dashwood

    Concordo com você, Raquel, o “deve estar necessitado” fica muito mais perto do original, porque aponta o que as pessoas acham que o tal solteirão rico tem que querer (uma esposa), enquanto que “necessita” já assume que esse é um desejo natural dele.

    Mas esse erro da tradução brasileira ficou até engraçado: vê lá se Miss Bennet iria tecer qualquer elogio à Mary ou a qualquer pessoa daquela vizinhança… A não ser que estivesse sendo irônica!

    E sou contra o termo “sofrível” da versão portuguesa, pois não vejo sentido algum na frase (mesmo que seja uma tradução válida do termo “tolerable”). Vejamos: “É sofrível, mas não suficientemente bela para me tentar”. O que faz a frase ficar estranha é justamente a conjunção adversativa “mas”, pois supõe que há algo de belo em Lizzy, MAS não o suficiente para tentar o Mr. Darcy, ao passo que uma pessoa sofrível nunca teria nada de belo nela.

  • Marcia Caetano

    Raquel, agradeço se você fizer um post sobre o Lizzy/Lizzie. Eu mesma já escrevi ora de um jeito, ora de outro. Na Penguin, dentro do texto ela é Lizzie, mas no prefácio de Vivien Jones da mesma edição, ela é Lizzy. Tenho a sensação de que Lizzie é mais correto do que Lizzy, mas não sei explicar porquê. Aguardarei o seu post.

    • Raquel Sallaberry

      Marcia,

      ainda não consegui uma edição essencial para saber o certo. Me diga qual sua edição da Penguin, o ano?