“O artifício das cartas em Orgulho e Preconceito”
por Gisele Cano de Oliveira
Uma de minhas coisas preferidas nas obras de Jane Austen são as correspondências trocadas entre os personagens.
Numa época em que eram o principal meio de comunicação, é comum que as cartas apareçam frequentemente na literatura, mas especificamente nas obras da autora, são um importante recurso na descrição dos personagens, na exploração de seu caráter e na demonstração dos sentimentos, normalmente reprimidos nos encontros sociais.
Como não se lembrar da emoção de Anne Elliot (e de nós leitores) ao ler a carta deixada cuidadosamente pelo Capitão Wentworth já no final do livro, quando Anne imagina não haver mais esperanças. É, em minha opinião, um dos momentos mais emocionantes da literatura.
Em Orgulho e Preconceito a carta de Mr.Darcy para Lizzie é o mote para a reviravolta nos sentimentos da personagem, não só por ser o recurso usado para esclarecer todos os mal entendidos, mas por que finalmente este, até então quase sempre monossilábico, demonstra com essa atitude o quanto preza Lizzie ao ponto de dar-lhe explicações, algo que, dada sua posição social, não tinha obrigação de fazer.
No seu prefácio para a edição de 2010 de Orgulho e Preconceito, Ivo Barroso descreveu muito bem a importância das cartas na obra da autora: “Mas que maneira espantosa de reproduzir tais diálogos ou de escrever tais cartas! Por eles, Jane Austen nos permite avaliar o grau de educação ou a ignorância do personagem e situá-lo na escala social”
Se me permitem fazer aqui uma analogia, acredito que podemos comparar as cartas de ontem com nossos smartphones de hoje. Se atualmente tiramos fotos de algo ou alguém para mostrar e comentar com os amigos se aquilo/aquele era bonito ou feio, bem ou mal vestido, então dependiam somente do interlocutor e sua visão do fato e até mesmo que tipo de mensagem este procurava passar ao destinatário, real ou manipulada. É possível perceber isso nas diferentes interpretações que Jane e Lizzie fazem do conteúdo das cartas de Caroline Bingley. A primeira, inocente e sempre vendo somente o lado bom das pessoas, e a segunda apontando as reais intenções no texto de Miss Bingley.
Comparo ainda as cartas de então com nosso contato pela internet de hoje, é muito mais fácil pôr no papel o que se sente do que dizer ao vivo; a internet, o email e as redes sociais nos dão uma sensação maior de coragem de dizer o que pensamos, para bem e para mal. Como não observar que, na carta enviada a Lizzie, Mr.Darcy ‘disse’ mais que em todo o restante da história!
Numa época em que as notícias chegavam a cavalo, as cartas eram ansiosamente aguardadas. Quase consigo imaginar a emoção em receber uma delas, o ato de lê-las lentamente para que a novidade perdurasse por um momento mais.
Hoje são tão raras, deixadas em segundo plano e quase que completamente substituídas por outros meios de comunicação mais ágeis como os emails, as mensagens de texto, os ‘twitts’ e os posts nas redes sociais. Pessoalmente não cheguei a fazer muito uso das cartas, no máximo enviei cartões em datas comemorativas, mas já moça, troquei muitos emails com meu marido (então namorado); eram loooongos, cheios de sentimento e ansiosamente aguardados; nem de longe demoravam tanto para chegar quanto às cartas de antigamente, mas eram lidos com o mesmo entusiasmo.
Uma pena que cada vez menos compreendamos a importância que as cartas um dia tiveram na vida das pessoas, numa época em que não havia TV, rádio, telefone, onde a distração eram os livros e a interação com as mesmas pessoas de sempre, eventualmente alguém novo nos bailes e jantares. Uma carta podia não só ser um alento ao trazer notícias dos entes queridos há muito distantes, mas também uma forma de descrever uma sociedade e até de registrar fatos que hoje consideramos históricos.
É interessante observar como, apesar dos meios de comunicação terem mudado e se modernizado, Orgulho e Preconceito se mantém tão atual e adorado por tantos leitores, acredito que, pela forma que a autora encontrou de, simplesmente, falar de pessoas.
Igualmente o mundo, pode ter evoluído, a sociedade avançado tecnologicamente, mas as pessoas persistem, no fundo, com as mesmas ambições e desejos. Enquanto o ser humano existir, sempre haverá a moça interesseira que procura um marido rico, o rapaz que se julga melhor que os outros por sua posição social, a jovem que sempre vê o lado bom das pessoas e nunca deixa de ser otimista diante da vida, em contrapartida o pessimista que reclama de tudo, o adulador, a mãe que quer casar bem a filha…
Todos esses tipos atrelados à capacidade de Jane Austen de descrever uma sociedade de forma totalmente universal, é o que motiva essa obra a continuar angariando novos fãs a cada dia e faz deste um dos livros mais queridos de todos os tempos, com certeza o meu preferido!
Além do livro, me inspirei na versão de 1995 com Colin Firth como Mr.Darcy (me perdoe Mr. McFadyen, só dessa vez, rs) e Jennifer Ehle como Lizzie para escrever esse texto, e nos extras do DVD a produtora da série, Sue Birtwistle, diz algo muito interessante: que toda vez que lê a obra torce para que Darcy e Lizzie fiquem juntos, como se já não soubesse o final, tão empolgante e viva é a narrativa de Jane Austen.
E é exatamente assim como me sinto quando releio suas obras, a emoção pode não ser tão intensa como a de quem lê pela primeira vez, mas está lá pulsante, e acredito ser o motivo de ter essa história se tornado um clássico.
NOTA
Livro usado para este artigo: Orgulho e preconceito, tradução de Celina Portocarrero, editora L&PM,
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