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Mr. Collins e a arte do elogio

Não lembro se comentei aqui no blogue mas já escrevi no twitter, “Quando o elogio é demais eu não desconfio. Tenho certeza.”

Esta semana, lendo o ótimo post Você é ‘o cara’”? no Flanela Paulistana, lembrei imediatamente do meu querido Mr. Collins e fiquei tentando imaginar em qual categoria ele se enquadraria. Fiquei entre as modalidades, caipira e social.

Reproduzo abaixo uma das partes de Orgulho e preconceito que considero das mais inspiradas do livro. Uma conversa entre Mr. Bennet e Mr. Collins, no capítulo 14. Mr. Bennet, que sempre se diverte com a estupidez humana, resolve dar trela para Mr. Collins após o jantar. Ele tem certeza que o primo não lhe falhará como divertimento. O assunto gira em torno de Lady Catherine de Bourgh e sua filha Anne, que é muito adoentada (e tenho pra mim que era feiota também…), e por esses motivos não frequenta a Corte. Mas o nosso querido clérigo sempre tem uma palavrinha aqui e acolá para deixá-la(s) feliz(es)

— Seu estado de saúde infelizmente não permite que ela resida na cidade. Como eu disse a Lady Catherine certa vez , essas circunstâncias privaram a Corte inglesa do seu mais brilhante ornamento. Sua senhoria pareceu ter ficado muito contente com a ideia. E o senhor pode imaginar que me sinto feliz em oferecer de vez em quando esses pequenos cumprimentos delicados que as senhoras tanto apreciam. Mais de uma vez observei a Lady Catherine que sua graciosa filha parecia ter nascido para ser uma duquesa, e que essa honra, a mais alta que pode ser conferida, em vez de lhe dar importância, seria, ao contrário, adornada por ela. Esses são os pequenos tributos que agradam a sua senhoria, e que eu me considero obrigado a prestar.

— O senhor tem toda razão — disse o senhor Bennet. — E, felizmente para o senhor, possui o talento de lisonjear com delicadeza. Poderia lhe perguntar se essas agradáveis atenções procedem de um impulso momentâneo ou são o resultado de um cálculo prévio?

— Elas se originam principalmente do que ocorre no momento. Embora eu às vezes me divirta arranjando e polindo esses pequenos galanteios a ser empregados em certas ocasiões, procuro sempre lhes dar um ar tão espontâneo quanto possível.
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trad. Lúcio Cardoso |

“Her indifferent state of health unhappily prevents her being in town; and by that means, as I told Lady Catherine myself one day, has deprived the British court of its brightest ornament. Her ladyship seemed pleased with the idea, and you may imagine that I am happy on every occasion to offer those little delicate compliments which are always acceptable to ladies. I have more than once observed to Lady Catherine that her charming daughter seemed born to be a duchess, and that the most elevated rank, instead of giving her consequence, would be adorned by her. — These are the kind of little things which please her ladyship, and it is a sort of attention which I conceive myself peculiarly bound to pay.”

“You judge very properly,” said Mr. Bennet, “and it is happy for you that you possess the talent of flattering with delicacy. May I ask whether these pleasing attentions proceed from the impulse of the moment, or are the result of previous study?”

“They arise chiefly from what is passing at the time, and though I sometimes amuse myself with suggesting and arranging such little elegant compliments as may be adapted to ordinary occasions, I always wish to give them as unstudied an air as possible.”

Para ilustrar este post utilizo uma captura de tela da série da BBC (1995) com o ator David Bamber, fabuloso como Mr. Collins. Acredito que consegui captar o exato momento em que ele se permite uma dúvida: estariam os Bennets, pai e filha, fazendo pouco dele?

mr_collins_elogios

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11 Comentários

  • Leticia

    Bravo Mr. Collins, que expõe e assume pra quem quiser ver sua bancada de instrumentais!

    Obrigada pelo link, bjs!

    • Raquel

      Leticia,
      Mr. Collins é mesmo atrevido! Precisamos marcar para assistir a série de 1995. David Bamber está maravilhoso como Mr. Collins.

  • Júnior

    Quando assisti ao filme de 2005 dirigido por Joe Wright no qual Mr. Collins é interpretado pelo ótimo ator Tom Hollander simpatizei com o personagem de cara, apesar das suas maneiras e manias de elogios repetitivos e pomposos. Mas ao ler o capítulo 48 do livro, confesso que fiquei um tanto impressionado e estupefato com a sua atitude, na qual ele diz o seguinte através de uma carta a Mr. Bennet: “A morte da sua filha seria uma benção em comparação com o que sucede agora”(referindo-se a fuga de Lydia com Wickham). É claro que os personagens possuem defeitos e qualidades, mas essa atitude de Mr. Collins diminuiu bastante a simpatia que tinha para com ele… (parece até que estou falando de uma pessoa real, rsrsrs).
    No filme de 2005 a fala de Mr. Bennet no livro passou a ser de Elizabeth, o que na minha opinião deixou a cena mais interessante e engraçada.

    • Raquel

      Júnior,

      os elogiadores profissionais não são inofensivos, como bem você observou pela carta sobre a fuga de Lydia. Ele sentiu-se seguro para tripudiar. Eu gosto muito do Tom Hollander mas ainda prefiro David Bamber e o sorriso da Jenifer Ehle a cena de 2005.

  • Nina Vieira

    Mr. Collins é, sem dúvida, um dos personagens mais divertidos que jane já criou. Ele consegue ser vítima e manipulador da sociedade ao mesmo tempo. É praticamente uma piada pronta!
    Beijos!

  • Heloísa

    Mr.Collins é um dos melhores personagens de Austen! Adoro todos esses “foras” que ele dá, e sua “falta de completa lucidez dos fatos”, assim por dizer.

    (Por causa dele que não acredito em elogio algum e não elogio a ninguém)

  • Rony.

    Oh, Deus, como detesto Mr. Collins. É o pior tipo de pessoa para mim. E como castigo, conheço vários…

    Acho a interpretação do Tom Hollander mais parecida com a ideia que tenho do personagem do livro. O David Bamber, apesar de muito engraçado, ficou caricato demais.

    • Raquel

      Rony,
      eu gosto do Tom mas prefiro David Bamber. E Mr. Collins é impagável.

  • Cacá

    Raquel,

    Vc bem sabe que sou apaixonada pelo Mr. Collins, mas sei que vc prefere o da serie e eu o do filme, assim nos entendemos melhor. (risos). Até parece que existe 2!! (risos)
    ….

    Eu gosto muito dos “foras” que o Mr. Collins dá, mas também sinto certa sinceridade embrulhada em elogios. As vezes ele usa de um cinismo autênico e até perverso para atingir as pessoas. Para mim a serie de 1995 mostrou melhor este lado do personagem que as vezes era engraçado, atrapalhado e as vezes um pouco maldoso.
    Já no filme de 2005 Mr. Collins se resume muito a comédia e, mesmo os que detestam o personagem, certamene não coseguem ter este sentimento por ele no filme.