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LIVROS JANE AUSTEN,  MISCELÂNEA,  Razão e sentimento Razão e sensibilidade

Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – parte III

No capítulo 37 que abre o terceiro tomo, levando em consideração a publicação original de Sense and Sensibility, temos Mrs. Jennings contando como “casualmente” soube do namoro secreto de Lucy Steel e Edward Ferrars. E com sua falta de sensibilidade ela diz para Elinor:

There’s for you, my dear!
Veja lá, minha querida!… |PT|
Veja só, minha querida!… |BR|

Não há nada de errado ou estranho com as traduções da exclamação acima. O único detalhe é aquela tradução que faço no  automático quando leio o original e imagino que vocês também o façam.

Nessa exclamação, por exemplo, traduzi mentalmente, “Tenho algo para você, minha querida!” e logo em seguida imaginei mais coloquial ainda: “Esta é para você, minha querida!”.

Após a descoberta do namoro de Edward e Lucy, Elinor conta a verdade para Marianne, mas não quer magoá-la com a realidade ou mesmo sugerir que a irmã se comportasse como ela própria.

She was very far from wishing to dwell on her own feelings, or to represent herself as suffering much, any otherwise than as the self-comand she had practised since her first knowledge of Edward´s engagement might suggest a hint of what was practicable to Marianne.
Não queria acreditar nos seus próprios sentimentos nem mostrar-se muito magoada, como se o controlo que praticara desde que tivera conhecimento no namoro de Edward pudesse sugerir a Marianne a sua praticabilidade. |PT|
Estava longe de querer repisar seus próprios sentimentos, ou de apresentar-se muito sofredora, nem permitiria que o auto-domínio praticado desde que tivera conhecimento do compromisso de Edward pudesse insinuar a Marianne o que ela teria podido fazer. |BR|

Nesta frase tenho duas dúvidas. A primeira é sobre a tradução portuguesa de “She was very far from wishing to dwell on her own feelings”, como “Não queria acreditar nos seus próprios sentimentos” que para mim não fez sentido para mim. Será só uma questão de interpretação de minha parte?

A segunda é o trecho “a hint of what was practicable to Marianne” apesar das diferentes traduções ambas mostram como Marianne deveria proceder: como a prática Elinor. Neste ponto minha dúvida é sobre qual momento Marianne teria que ter sido prática e controlada. Quando soube sobre o noivado de Willoughby ou no presente momento ao saber de Lucy e Edward?

Agora um exemplo das diferenças das traduções, a portuguesa concisa e a brasileira mais explicativa. Talvez por costume, prefiro a segunda.

Marianne’s feelings had then broken in, and put an end to all regularity of detail;
Os sentimentos de Marianne não aguentaram mais e cortou todos os pormenores. |PT|
Os sentimentos de Marianne não haviam aguentado, cortando a regularidade da narrativa; |BR|

Marianne comportou-se admiravelmente bem depois de passado o primeiro impacto da novidades sobre Lucy e Edward e Elinor por sua vez fica contente ao perceber seu comportamento mais comedido. Neste caso a tradução portuguesa me pareceu mais próximo do meu entendimento do original.

Such advances towards heroism in her sister made Elinor feel equal to any thing herself.
Tais passos de sua irmã em direcção ao heroísmo, fizeram que Elinor a sentisse igual a si própria. |PT|
Tais conquistas heróicas de sua irmã fizeram com que Elinor se tornasse mais forte do que nunca. |BR|

No capítulo 38 Lucy Steel já havia assegurado o casamento com Edward Ferrars, mas como sempre, precisa mandar recados para Elinor. Para esse fim usa a irmã, Nancy, que supostamente teria escutado atrás da porta as conversas do casal e para justificar tal ato conta que Lucy também era adepta de tal prática e já havia escutado conversas entre e ela e a amiga Martha Sharpe.

[…] she never made any bones of hiding in a closet, or behind a chimney-board, on purpose to hear what we said.
[…] ela não se importou de se esconder num armário ou atrás da chaminé para ouvir o que dizíamos. |PT|
[…] ela não se incomodou de esconder-se num armário ou atrás da lareira para ouvir o que dizíamos! |BR|

Fiquei intrigada para saber como Lucy se esconderia atrás de uma chaminé, mesmo sendo de uma lareira como está na tradução brasileira. Encontrei a resposta no original que traz uma nota de rodapé identificando chimney-board como uma tela colocada em frente à lareira durante os meses de verão. O que equivale dizer que os leitores de língua inglesa, pelo menos para os americanos (a edição que estou usando é da Barnes and Noble), o termo chimney-board também é desconhecido. Só lamento não ter  encontrado uma imagem dessa peça.

Elinor, no capítulo 40, depois de ofertar em nome do Coronel Brandon a paróquia de Delaford para Edward, especula se os rendimentos oferecidos pelo Coronel, e considerados por este último como muito poucos para um casal, seriam suficientes para Lucy e Edward. A senhora Jennings depois de falar sobre as condições da casa paroquial completa muito sabiamente:

The colonel is a ninny, my dear; because he has two thousand a year himself, he thinks that nobody else can marry on less.
O coronel é um palerma, minha querida. Porque tem duas mil libras por ano, pensa que mais ninguém se pode casar com menos. |PT|
O coronel é um anjo, minha querida; porque tem rendimento de duas mil libras anuais, acha que ninguém consegue casar-se com menos do que isso. |BR|

Os significados que encontrei para a palavra ninny foram: pateta, tolo e bobo. Mas concordo com ambos tradutores, o Coronel Brandon é um anjo palerma!

Na segunda visita de Mr. Harris, o farmacêutico, no capítulo 43, ficou desapontado pois Marianne não havia melhorado com suas medicações:

His medicines had failed; the fever was unabated; and Marianne only more quiet — not more herself — remained in a heavy stupor.
Os seus remédios tinha falhado… a febre não diminuíra; e Marianne apenas mais calada — menos ela própria –, continuava numa forte apatia. |PT|
Os remédios não fizeram efeito; a febre persistia; e Marianne apenas um pouco mais calma — já não mais ela — permanecia num pesado estupor. |BR|

No primeiro momento que li “menos ela própria”, na tradução portuguesa, me pareceu uma contradição ao “Marianne apenas mais calada” e pensei que se referia a outra pessoa.

Tudo ficou claro quando a segunda tradução “já não mais ela”. Mais um exemplo do estranhamento, creio eu, quando leio o português de Portugal.

Willoughby visita Cleveland quando sabe que Marianne está muito mal e tenta se redimir contando para Elinor detalhes de sua vida. Elinor, relutante quer se livrar o mais rápido possível dele e fica de pé e pede que ele seja rápido e menos violento.

Ele então quase ordena:

Sit down, and I will be both.
Sente-se, e sê-lo-ei. |PT|
Permita-me sentar, que farei o possível. |BR|

Aqui temos uma escolha na tradução: a ordem direta em inglês “sit down” é traduzida literalmente na portuguesa, já a brasileira permitiu-se a uma elegância por parte de Willoughby.

Os cavalheiros costumavam sentar-se somente depois das damas e no momento que Willoughby pede permissão, fica evidente que ele espera que Elinor sente-se primeiro.

Assumindo sua culpa Willoughby fala da carta, ditada por sua noiva na época, Miss Grey,

My business was to declare myself a scoundrel; and whether I did it with a bow or a bluster was of little importance.
Competia declarar-me um patife, se o fazia com uma vénia ou com uma bofetada, isso não tinha importância… |PT|
Competia-me declarar-me um patife e pouca diferença havia se o fizesse com uma vênia ou com um insulto. |BR|

Fiquei assustada com a violência das palavras da tradução portuguesa ou será minha parcialidade com Willougby?

Uma bofetada, mesmo sendo perfeitamente cabível, me pareceu pesada nos lábios do patife arrependido. Um insulto ficou mais suave e me pareceu mais indicado. Fui então para o original, “bluster” e encontrei vários significados: tumulto, barulho, com estrépito, jactância, violência e como verbo, vociferar. De fato uma bofetada é uma forma de violência.

Quando as Dashwood recebem a notícia que o senhor Ferrars havia se casado, pelo o criado da casa, no capítulo 48, temos a descrição das reações de Marianne e Elinor.

Marianne gave a violent start, fixed her eyes upon Elinor, saw her turning pale, and fell back in her chair in hysterics.
Marianne endireitou-se abruptamente, fixou os seu olhos em Elinor, viu-a tornar-se pálida e caiu da sua cadeira, histérica. |PT|
Marianne estremeceu violentamente, fixou os olhos em Elinor, viu que sua face empalidecia, reclinava-se na cadeira como se tivesse se sentindo mal. |BR|

Esta frase me deixou confusa e para explicar melhor vou traduzir o que entendi diretamente do original:

Marianne logo que ouviu a notícia e viu Elinor empalidecendo teve imediatamente uma reação violenta, jogou-se para trás na cadeira sob forte emoção.

Não creio que Marianne tivesse literalmente caído da cadeira. No final da frase a palavra “hysterics” está mais para uma reação emocional muito forte do que um ataque histérico no estilo Fanny Dashwood.

A parte final da frase, apesar de me parecer que se refere a Marianne e não a Elinor, como na tradução brasileira, pode ser qualquer uma das irmãs, pois apenas o pronome (her) deixa o sentido vago. Some-se a isso o fato da senhora Dashwood, no parágrafo seguinte, não sabe qual filha confortar primeiro, pois ambas estão muito abaladas.

A senhora Jennings, no capítulo 49, escreve para Elinor contando sobre o casamento de Lucy Steel com Robert Ferrars e de como ela não suspeitava de nada mesmo tendo conversado com a própria Lucy um dia antes do casamento. A tradução portuguesa optou por omitir um pequeno trecho da carta que, na minha opinião, acrescenta mais um dado no caráter de Lucy, além de não ter consideração com a própria irmã: a vaidade de parecer o que não é.

Not a soul suspected any thing of the matter, not even Nancy, who, poor soul! Came crying to me the day after, in a great fright for fear Mrs. Ferrars, as well as not knowing how to get to Plymouth; for Lucy, it seems, borrowed all her money before she went off to be married, on purpose, we suppose, to make a show with, and poor Nancy had not seven shillings in the world; […]

Ninguém suspeitava do assunto, nem mesmo Nancy, que, pobrezinha!, veio ter comigo a chorar, no dia seguinte, com um enorme receio de Mrs. Ferrars, e também sem saber como iria para Plymouth, pois parece que Lucy lhe pedira todo o seu dinheiro emprestado antes de partir para casar e a pobre Nancy nem sequer tinha uma moeda com ela… |PT|

Ninguém suspeitava absolutamente de nada, nem mesmo Nancy, pobrezinha!, que veio ter comigo a chorar no dia seguinte, a morrer de medo da reação da sra. Ferrars, e sem saber como ir a Plymouth, pois Lucy ao que parece lhe pediu todo dinheiro emprestado antes de casar-se, com o fim evidente de fazer figura, e a pobre Nancy ficou sem nada. |BR|

Notei também que ambos tradutores preferiram não mencionar a expressão “not seven shillings in the world”. Procurei por essa expressão e também não achei, se alguém souber, por favor, nos conte!

Edward, no último capítulo (50), mesmo tendo sido admitido na casa de sua mãe depois de tantas reviravoltas, está temeroso em anunciar seu noivado com Elinor. Apesar da ironia da expressão inicial “being allowed once more to live” acredito que a tradução portuguesa de “his constitution” por “sua integridade física” ficou um tanto exagerada para uma possível represália, mesmo por parte da desalmada senhora Ferrars!

In spite of his being allowed once more to live, however, he [Edward] did not feel the continuance of his existence secure till he had revealed his present engagement; for the publication of that circumstance, he feared, might give a sudden turn to his constitution, and carry him off as rapidly as before.
Contudo, apesar de lhe ser permitido viver mais uma vez, ele não sentia segura a continuação da sua existência até que tivesse revelado o seu actual noivado; receava que o conhecimento dessa circunstância pudesse modificar rapidamente a sua integridade física, fazendo-o desaparecer tão rapidamente como antes. |PT|
Contudo, apesar de lhe ter sido permitido viver outra vez, Edward não sentia segura a continuidade de sua existência enquanto não revelasse à mãe o seu atual noivado; pois a divulgação dessa ocorrência, conforme receava, podia implicar uma reviravolta da situação, provocando um novo afastamento. |BR|

No antepenúltimo parágrafo de Razão e sentimento onde ficamos sabendo de um sentimento de Willhoughby que o acompanhou para sempre, em relação à Marianne, descobri dois detalhes.

Sempre li as traduções do primeiro negrito (abaixo) como sendo de Marianne a rudeza ou a indelicadeza (modo ironia ligado) em sobreviver ao perder Willoughby. Somente agora ao ler o original percebi que a falta de civilidade em sobreviver fora de Willoughby ao perder Marianne! Ah! Os benditos pronomes…

A segunda questão também está na minha leitura das traduções. Lendo o original e a tradução de Ivo Barroso – o segundo negrito – entendo perfeitamente que Willoughby não podia ver uma mulher bonita que de imediato já pensava em Marianne e a considerava sempre a mais bonita dentre todas.

Mas ao ler a tradução portuguesa fiquei cismando que mais do que olhar e comparar Marianne com outras mulheres, o nosso patife mais simpático continuava um namorador, isso sim!

For Marianne, however, in spite of his incivility in surviving her loss, he always retained that decided regard which interested him in every thing that befell her, and made her his secret standard of perfection in woman: and many a rising beauty would be slighted by him in after-days as bearing no comparison with Mrs. Brandon.
Contudo, por Marianne – apesar de sua rudeza em sobreviver à sua perda – conservou sempre aquela afeição decidida, que o interessava por tudo o que lhe acontecia e fazia dela seu modelo secreto de perfeição feminina… e, muitas vezes, quando lhe aparecia uma rapariga bonita, ela era negligenciada dentro de alguns dias, por não ter qualquer comparação com Mrs. Brandon. |PT|
Por Marianne, entretanto – apesar de sua indelicadeza em sobreviver à sua perda –, conservou sempre aquela afeição marcante que o fazia interessar-se por tudo que lhe dizia respeito, tornando-a seu modelo secreto de perfeição feminina… e muitas beldades futuras haveria de olhar com desdém quando as comparava com a sra. Brandon. |BR|

E com o lindo sorriso de Hattie Morahan, a Elinor Dashwood de 1988, termino a leitura comparada das traduções brasileira e portuguesa de Razão e sentimento eSensibilidade e bom senso, traduzidas respectivamente por Ivo Barroso e Maria Luísa Ferreira da Costa.

Muitíssimo obrigada, Catia Pereira! E já fica aqui o convite para o bicentenário deOrgulho e preconceito!

Abaixo todos os links da leitura comprara e textos anexos.

  • Abreviações usadas nos textos:|1| Capítulo do livro |PT| Tradução portuguesa |BR| Tradução brasileira
  • Texto publicado originalmente em 3 de maio de 2012 no meu blog Lendo Jane Austen.
  • PROGRAMAÇÃO DA  LEITURA COMPARADA: links no primeiro artigo
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4 Comentários

  • Raquel Sallaberry Brião

    cátia pereira
    May 29, 2012 at 12:02 am
    Raquel,
    Destacaste imensos trechos que me passaram ao lado completamente!
    A questão da chaminé/lareira, é algo esquisito e que não me dei conta. Mas a chaminé está no telhado das casas e não é a mesma coisa que a lareira. Parece-me que a peça em destaque não é a lareira em si, mas uma grade que se coloca à frente da lareira para não saltar nem lenha nem faúlhas da mesma. Portanto, o que talvez Jane quisesse dizer, através deste trecho é que personagem se escondeu dentro da lareira, e tinha a sua frente a tal grade a tapá-la da visão dos outros 🙂
    No trecho Marianne “only more quiet — not more herself — remained in a heavy stupor” – que também me escapou na leitura – o que achei curioso ao ler é que aqui em Portugal a palavra “estupor” usada na tradução brasileira, é considerado um termo ofensivo. Chamar alguém de “estupor” é mais grave do que chamar alguém de reles e vil. É mais corrente usar o termo “torpor” ou “entorpecimento” para significar uma certa perda de sentidos. Sei que estupor também significa isso, mas aqui tem toda uma conotação de ofensa 😉
    Sobre a expressão “She was very far from wishing to dwell on her own feelings”, sabe que eu tive a mesma dúvida? Mas não consegui colocar na escrita tão bem como você fez 😉 )
    Ainda vou reler de novo porque realmente destacaste muitos aspectos que não me saltaram à vista mas parecem ser muito interessantes!
    Beijoca!
    Cátia

    • Raquel Sallaberry Brião

      Raquel Sallaberry Brião Post author
      May 29, 2012 at 10:59 pm
      Cátia,

      certamente muita coisa deve nos ter escapado… Eu, por exemplo, ia lendo e me entusiasmando com alguma aspecto do texto só depois dava-me conta que não era uma dúvida de tradução mas vontade de comentar o significado mais amplo do texto em si.

      De fato, esconder-se na chaminé seria impossível, mas também não creio que se escondesse dentro da lareira pois sairia tisnada, ficava somente atrás do tal chimney-board, pelo que entendo uma espécie de biombo para esconder a lareira no verão.

      Estupor por aqui, é torpor como aí, mas no sul do Brasil usamos “estopor” com a conotação de idiota, imbecil.

      Hoje, mais tarde e com calma lerei teu texto. Minha conexão está muito instável e preciso acertar os posts da semana Razão e sentimento.

      beijocas, milsssss para você!

  • Raquel Sallaberry Brião

    Ronaldo
    September 28, 2013 at 1:23 am
    Seu blogue é um verdadeiro presente para quem quer ser tradutor, e para os amantes de literatura em geral.