Dorothy Whipple, uma Jane Austen do século XX?

O escritor J. B. Priestley comentou que a autora inglesa Dorothy Whipple (1893-1966) teria sido a Jane Austen do século XX. Com vocês uma resenha do caro amigo e leitor, Enzo Potel, do livro Someone at a Distance para vocês conhecerem a escritora e descobrir se concordamos com o elogio de Priestley.

“UMA EDITORA, UM LIVRO, UMA COMPARAÇÃO”
Enzo Potel
A Letra Escargot

UMA EDITORA, UM LIVRO, UMA COMPARAÇÃO

Dorothy WhippleDividi esse texto em três partes para que você possa ir direto ao que interessar. A primeira parte é um comentário sobre a editora Persephone Books para quem nunca ouviu falar (ou para quem já está viciado nas capas cinzas que abarrotam o instagram e o booktube em língua inglesa!), a segunda é sobre minha leitura de Someone at a Distance, da Dorothy Whipple, e a última é sobre a comparação de que a Whipple seria a Jane Austen do século XX.

A EDITORA

A Persephone Books já existe há uns quinze anos. É uma editora inglesa, que tem até loja própria em Londres, e que publica (em geral) livros escritos por mulheres, ou melhor: coloca de volta no mercado bons livros escritos em língua inglesa por mulheres do século passado e que acabaram caindo no esquecimento. Romances, volumes de contos, diários, memórias, livros feministas, livros de receitas, e várias outras preciosidades. A qualidade física do objeto também cativa: os livros seguem um padrão de capa cinza elegante, com uma estampa colorida interna específica para cada título. E dos mais de cem títulos, há uma seleção dos onze mais vendidos, que ganharam capas com alguma pintura, seguindo uma linha bookshop-friendly. O site da Persephone também é uma maravilha à parte: não só bonito, mas muito funcional e cheio de diálogo entre editora >livro >leitor >editora.

O tipo de história que você encontra nos livros da Persephone vai desde, por exemplo, Harriet de Elizabeth Jenkins – livro de 1934 que recria a história real da moça que abandonou a família rica para viver com um homem que a fez morrer de fome em 1877 – até um volume de poemas como It’s Hard to Be Hip Over Thirty (1968) de Judith Viorst. Vale comentar que Elizabeth Jenkins escreveu uma biografia de Jane Austen, publicada em 1936. Mas o forte mesmo me parece a ficção inglesa amplamente consumida na primeira metade do século XX, cujos títulos não sejam “nem literários demais, nem comerciais demais”, e nisso você encontra autoras como a sufragista Cicely Hamilton, a jornalista Mollie Panter-Downes, a romancista Monica Dickens (bisneta de Charles Dickens) e a incrível Marghanita Laski (que além de preciosidades como Little Boy Lost e The Victorian Chaise-Longue publicou Jane Austen and Her World em 1969).

O LIVRO

Someone at a Distance, Dorothy Whipple

O primeiro livro pelo qual me interessei da Persephone foi Someone at a Distance (1953), da Dorothy Whipple.

A história é tão simples que só um gênio faria bem: a desintegração de um casamento feliz depois que o marido abandona esposa e filhos para viver com uma moça vinte anos mais jovem.

Eu comprei esse livro duas vezes, porque a primeira extraviou, e isso gerou vários meses de incerteza entre uma compra e outra. Nesse meio tempo li muitos textos online sobre a obra, até com o objetivo de imaginar que talvez não perdi grande coisa. Alguém fez um vídeo no youtube dizendo que o livro parecia Cranford, da Gaskell, e me deu um certo AFF (foi o único da Gaskell que tentei, e abandonei, acho que no quarto capítulo). Havia resenhas na internet dizendo que Someone at a Distance era bom porém escrito de maneira démodé, e que a protagonista era irritantemente boazinha. Quando experimentei um pouco do primeiro capítulo online na Amazon, não gostei.

Mesmo assim, não matei, ou não morreu, o desejo de ler o livro.

E eis que ele chegou, e eis que em mãos eu senti um terremoto diante da excelência do primeiro capítulo. Aquela minha primeira leitura foi muito mal influenciada por outras coisas, e logo percebi que era impossível que o livro virasse um Cranford quando já bateu em mim tão diferente, e a minha Gaskell nunca vai ser a mesma Gaskell de outra pessoa – talvez nem de mim mesmo daqui uns anos.

Como a Whipple escreve bem. Como as coisas brilham quando aproximadas ou distanciadas – uma frase de cair o queixo aqui, uma informação escondida durante vários capítulos ali. Os personagens são quase tateáveis, e no prefácio diz que a Whipple confessou certa vez: “Eu não gosto de planejar tramas, eu gosto é de construir pessoas”.

Mas construir pessoas é contar histórias, e esse livro é uma teia magnificamente bem tramada. Eu vou mencionar aqui só o nome dos três personagens principais: Ellen é a esposa, Avery é o marido, e Louise é a moça francesa que, depois de alguns caprichos do destino, vai parar na casa deles no interior da Inglaterra. O livro tem 400 páginas e exatamente na metade da narrativa é que está o olho do furacão – Ellen e a filha encontram Avery aos beijos com Louise na sala de estar –, entretanto o deleite em se ler as duzentas primeiras páginas é exatamente testemunhar todos os pequenos e grandes acontecimentos que os personagens podiam ou não ter evitado até que se chegasse àquele momento. E as duzentas páginas posteriores prendem pela escolha (ou não) dos personagens em se atolar mais ainda em erros por causa de um.

Há capítulos maçantes? Sim, são poucos, mas existem. O capítulo dez, com suas quinze páginas sobre uma noite de Natal que não teve nada de especial, me irritou profundamente. Mas como não extasiar-se com o capítulo em que a Louise fica sozinha na casa pela primeira vez, com todo o tempo do mundo para bisbilhotar e invejar o quarto do casal. Quando Ellen e Avery voltam horas depois, Louise está contemplativa fumando um cigarro no jardim e “she was as full of information as a cat of stolen cream and showed as little trace of it.

Essa personagem, Louise, é tão astuta, tão autoconfiante, que acho difícil o leitor não admirá-la em vários momentos. Uma das maiores maravilhas desse livro é que todos os personagens recebem luz da autora, o leitor consegue acessar até a vida dos pais da moça lá na França. E essa proeza – não fazer com que a história da Ellen seja a única interessante do livro – vai ser fundamental para a gente ver a humanidade de cada personagem no antes, no durante e no depois. Até o incrível capítulo 24, onde o sócio do Avery descobre que ele abandonou Ellen e eles têm uma discussão feroz – onde profissionalismo e intimidade são inseparáveis e vão quebrando paredes um do outro –, fica engrandecido pelo fato de que a gente já teve contato com aquele personagem, sua história, sua presença.

Eu poderia continuar aqui por linhas e linhas tentando traduzir para vocês a grandeza e importância dessa obra, e consequentemente a grandeza e a importância da Persephone Books por nos resgatar essa e tantas lindezas literárias, mas vou para um comentário final: Someone at a Distance foi publicado na década de 50 mas ignorado porque, como disse o editor para a escritora, “editors are going mad for action and passion”. O gosto do público mudou depois da 2ª Grande Guerra: as histórias que trabalham o mistério do dia-a-dia, os tormentos mais sutis, não interessavam mais. Whipple era uma best-seller antes, Someone at a Distance foi imediatamente percebido como sua obra-prima, mas depois desse vento novo do mercado a Whipple não publicou qualquer outro romance até sua morte (acredito que só alguns livros infantis).  

A COMPARAÇÃO

Houve um tempo em que comparar um escritor com outro era algo que me irritava demais (por exemplo: dizer que Alice Munro é o Tchekov do Canadá), mas aos poucos considerei que é uma forma de chamar a atenção para um autor ou autora que, provavelmente, sustenta-se por si próprio – e muito. Então quando eu li em algum lugar que Dorothy Whipple era a Jane Austen do século XX, eu considerei aquilo mais um convite do que uma comparação.

Da Whipple eu só li um romance, da Austen três (e a biografia escrita pelo James Edward Austen-Leigh). O que eu já posso avistar de similar entre as duas? Mulheres, inglesas, romancistas, com uma tendência para escrever histórias com protagonistas femininas, que se passam fora de centros urbanos, cuja interação entre famílias e estranhos (ou famílias estranhas) cria toda a mecânica dos romances.

Outro aspecto que pode ter gerado a comparação: a editora inglesa Virago, que nasceu em 1973 com o objetivo de publicar somente mulheres (novos ou antigos nomes), ficou na dúvida se colocaria de volta ao mercado os livros da Whipple. Acabou não publicando. A ideia da editora era publicar material que mostrasse novas formas de ver e ser mulher, e os livros da Whipple trabalham a mulher sob um papel social ao qual estamos já bastante acostumados. Eu acho que essa perspectiva faz uma ponte firme com os textos da Austen.

O que distancia as duas? Algumas escolhas no estilo da escrita deixam clara a diferença: os diálogos da Austen me parecem impecáveis, muito bem manipulados, e a Whipple às vezes parece usar o diálogo para criar atmosfera (e pode ser cansativo se for longo demais). Porém a Whipple é extraordinária na maneira como direciona o olhar dos personagens, e como ela usa isso para mostrar o interior de quem observa e de quem é observado. Até os objetos, seja uma cadeira vazia ou pratos, são enquadrados de maneira a revelar algo sobre pessoas. Essa aptidão da Whipple pode ter a ver com o fato de ela ter nascido no século do cinema – eu senti isso por exemplo na página 87, onde um diálogo termina assim: “I´m so very glad”, Madame Lanier´s voice could be heard diminishing into the house, “about the Ventre de Charité”. Como assim a voz diminuindo enquanto ela entra pela casa?! O narrador não pode acompanhá-la para onde ela está indo? Parece que a câmera ficou na sala vazia.

Séculos à parte, se eu comparar Razão e Sentimento com Someone at a Distance (que título maravilhoso, não?) temos duas obras extraordinárias, sólidas, delicadas, escritas sob o espírito de quem domina a arte do romance – que é o funcionamento do passar do tempo. E a esperança. As duas tem os pés num amanhã possível.

 

7 comentários sobre “Dorothy Whipple, uma Jane Austen do século XX?

  1. Raquel Sallaberry Brião disse:

    Enzo,

    a editora está me parecendo um luxo, mas xô satanás, que tenho que comprar quatro livros da Folio Society este ano.

    Bate aqui: também parei com Cranford e olha que estava lendo num pocket lindinho de capa dura e ilustrado que comprei só porque sou doente e já tinha três livros Jane dessa coleção.

    O detalhe da comparação, também não gosto mas visto por seu modo, concordo. Uma homenagem.

    Fiquei curiosa, quais foram os livros de Austen que você leu?

    Muito obrigada, meu querido, por mais esta resenha apaixonada, especial para o Jane Austen em Português!

  2. Enzo disse:

    Dear Raquel,

    eu cheguei ao ponto de ficar monitorando diariamente na Abebooks os preços de alguns livros da Persephone que estão na mira. Acabei de comprar dois deles a um dólar (+6 de frete)! Mesmo se o dólar estiver a quatro reais, vou pagar 28 reais por um livro importado em excelente estado e que não é paperback.

    Foi aqui no seu site que eu conheci os livros da Folio, e o queixo caiu. Estou começando a cogitar “To The Lighthouse”, da Woolf, na edição deles (embora a capa não seja muito bonita, deve ser uma delícia de ler e manusear).

    Da Austen eu li Orgulho e Preconceito, Razão e Sentimento e Emma. Acho que cheguei em Emma esperando uma coisa e encontrando outra, foi uma leitura um pouco problemática, arrastada. Mas eu sinto que Mansfield Park e Persuasão estão no meu horizonte, só não é o momento.

    E muito de nada!

    bjones

    • Raquel Sallaberry Brião disse:

      Enzo,
      Não posso monitorar preço de livro senão infarto.
      A Fólio é a mais completa perdição é mais não digo…
      Persuasão é dos melhores d de Jane e Mansfield vale pelos Crawford e a bruaca da tia Morris. A abadia de Northanger é muito divertido.
      Depois falo dos Watson e Sanditon pois responder via celular digitando com um dedo só dá gasturá.

    • Enzo disse:

      Aline, eu to na mesma viu? Aliás, quando eu vou falar, eu não falo em inglês, eu gaguejo em inglês.

      Eu comecei a ler livros em inglês há alguns anos, quando percebi que certos títulos (de autores pelos quais eu sou/era apaixonado) nunca seriam traduzidos no Brasil. Era dicionário do lado e uma fome de acessar aquelas narrativas, muito maior do que a dúvida se eu era capaz ou não.

      Há autores ou livros mais fáceis, e outros impossíveis até pro leitor comum lá na Inglaterra ou EUA. A Whipple tem uma línguagem tranquilíssima, mas talvez seja um livro muito longo pra um começo. Que tal começar com contos? Eu fui assim. Um romance em inglês com mais de 200 páginas me era incogitável. E essa semana eu encomendei “The Priory”, da Whipple, sem medo de suas 536 páginas. : )

      Ler, mesmo que na nossa própria língua, é sempre um esforço de interpretação, e se você quiser entrar na jornada de ler livros no original, te digo: é um caminho delicioso e sem volta!

      • Raquel Sallaberry Brião disse:

        Enzo, sei que a resposta é para a Aline, mas preciso dizer que concordo completamente com você!

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