Cartas de Jane Austen: Tom Lefroy

Cartas de Jane Austen: Tom Lefroy
por Mell Siciliano

Para todos aqueles que gostam de Jane Austen o nome Tom Lefroy1 é bem familiar. Pois bem, nossa querida Jane menciona algumas vezes em suas cartas o tão famoso quase namorado Tom Lefroy. Separei os trechos em que isso acontece. Não colocarei as cartas inteiras, somente as partes em que ele é citado. Atenção: as traduções foram feitas por mim. ”

Tom Lefroy

Tom Lefroy

Carta 1, para Cassandra Austen, Janeiro de 1776 (Jane tinha 20 anos)

In the first place I hope you will live twenty-three years longer. Mr. Tom Lefroy’s birthday was yesterday, so that you are very near of an age. […]
You scold me so much in the nice long letter which I have this moment received from you, that I am almost afraid to tell you how my Irish3 friend and I have behaved. Imagine to yourself everything most profligate and shocking in the way of dancing and sitting down together. I can4 expose myself, however, only once more, because he leaves the country soon after next Friday, on which day we are to have a dance at Ashe after all. He is a very gentlemanlike, good-looking, pleasant young man, I assure you. But as to our having ever met, except as the three last balls, I cannot say much; for he is so excessively laughed at about me at Ashe, that he is ashamed of coming to Steventon, and ran away when we called on Mrs. Lefroy a few days ago. […]
After I had written the above, we received a visit from Mr. Tom Lefroy and his cousin George. The latter is really very well-behaved now; as for the other, he has but one fault, which time will, I trust, entirely remove –  it is that his morning coat is a great deal too light. He is a very great admirer of Tom Jones and therefore wears the same coloured clothes, I imagine,  which he did when he was wounded5.

Primeiramente espero que você viva mais vinte e três anos. O aniversário do Sr. Tom Lefroy foi ontem, o que significa que você está chegando perto de uma certa idade2.[…]
Você me repreendeu tanto nesta deliciosa longa carta que eu agora recebi que estou com medo de contar como eu e o meu amigo Irlandês3 nos comportamos. Imagine tudo de mais libertino e chocante na maneira de dançar e sentar juntos. Eu ainda posso4 me expor, entretanto, somente mais uma vez, pois ele irá deixar o país logo após a próxima sexta-feira, dia no qual nos teremos um baile em Ashe. Ele é um jovem muito cavalheiro, bonito e agradável, lhe asseguro. Mas como nunca nos encontramos antes, além dos últimos três bailes, não posso dizer muito; ele foi motivo de tantas risadas por minha causa em Ashe que está envergonhado de vir a Steventon, e fugiu quando visitamos a Sra. Lefroy alguns dias atrás. […]
Depois do que eu escrevi acima, nos recebemos uma visita de Sr. Lefroy e seu primo George. O último está muito bem comportado agora; quanto ao outro ele tem apenas um defeito, que o tempo irá, eu acredito, remover completamente – seu casaco matutino é excessivamente claro. Ele é um grande admirador de Tom Jones, e portanto usa as mesmas cores de roupas, eu imagino, que eleusava quando foi ferido5.

Carta 2, para Cassandra Austen, Janeiro de 1776 (Jane tinha 20 anos)

Our party to Ashe to-morrow night will consist of Edward Cooper, James (for a Ball is nothing without him), Buller, who is now staying with us, & I – I look forward with great impatience to it, as I rather expect to receive an offer from my friend in the course of the evening. I shall refuse him, however, unless he promises to give away his white Coat. […]
Tell Mary that I make over Mr. Heartley and all his estate to her for her sole use and benefit in future, and not only him, but all my other admirers into the bargain wherever she can find them, even the kiss which C. Powlett wanted to give me, as I mean to confine myself in future to Mr. Tom Lefroy, for whom I don’t care sixpence. Assure her also, as a last and indubitable proof of Warren’s indifference to me, that he actually drew that gentleman’s picture for me, and delivered it to me without a sigh. […]
Friday.6 – At length the day is come on which I am to flirt my last with Tom Lefroy, and when you receive this it will be over. My tears flow as I write at the melancholy idea.7

Nosso grupo para o baile em Ashe amanhã a noite consistirá de Edwar Cooper, James (pois um baile é nada sem ele), Buller, que está agora hospedado conosco & eu – eu aguardo o baile com grande impaciência, pois espero receber uma oferta de meu amigo durante a noite. Mas eu o recusarei, a não ser que ele prometa se desfazer de seu casaco branco. […]
Diga para Mary que eu deixo Sr. Heartley e todas as suas propriedades para seu uso único e exclusivo no futuro; incluo não somente ele como todos os meus outros admiradores na barganha, onde quer que ela os ache; deixo até mesmo o beijo que o C. Powlett queria me dar, pois pretendo me guardar para o Sr. Tom Lefroy, por quem eu não me importo nem um centavo. Garanta a ela, também, como uma última e irrefutável prova da indiferença de Warren por mim o fato de que ele fez um retrato daquele cavalheiro para mim, e me deu sem nem pensar duas vezes.[…]
Sexta.,6 – Finalmente chegou o dia no qual eu flertarei pela última vez com Tom Lefroy, e quando você receber esta carta tudo estará acabado. Minhas lágrimas escorrem enquanto escrevo diante desta melancólica ideia.7

Carta 11, para Cassandra Austen, Novembro de 1778 (Jane tinha 23 anos)

Mrs. Lefroy did come last Wednesday, and the Harwoods came likewise, but very considerately paid their visit before Mrs. Lefroy’s arrival, with whom, in spite of interruptions both from my father and James, I was enough alone to hear all that was interesting, which you will easily credit when I tell you that of her nephew8 she said nothing at all, and of her friend9 very little. She did not once mention the name of the former to me, and I was too proud to make any enquiries; but on my fathers afterwards asking where he was, I learnt that he was gone back to London in his way to Ireland, where he is called to the Bar10 and means to practise.

A Sra. Lefroy realmente veio quarta-feira passada, bem como também os Harwoods, que com muita consideração fizeram a sua visita antes da chegada da Sra. Lefroy, com a qual, apesar de interrupções tanto do meu pai quanto de James, eu fiquei sozinha tempo o bastante para ouvir tudo o que era interessante, e você facilmente acreditará quando eu disser que de seu sobrinho8 ela nada disse, e do seu amigo9 muito pouco. Ela nenhuma vez mencionou o nome do primeiro para mim, e eu fui muito orgulhosa para fazer quaisquer perguntas; mas quando meu pai depois perguntou onde ele estava, eu soube que ele voltou para Londres em seu caminho para a Irlanda, onde ele foi chamado para o Bar10 e começará a praticar.

Notas

1 Para quem quiser saber mais sobre Tom Lefroy recomendo a série de posts sobre o moço no Jane Austen em Português, Jane Austen e Tom Lefroy – parte 1parte 2parte 3parte 4parte 5parte 6parte 7Amor, inocência e pouco substantivo
2 Tom Lefroy era mais velho que Cassandra. Mas fazia aniversário um dia antes do dela, e é a isso que Jane se refere.
3 Tom era irlandês.
4 Grifo original.
5 Aqui Jane faz uma referência ao livro Tom Jones. The History of Tom Jones, a Foundling (1949), de Henry Fielding. A parte específica que ela faz referência é o seguinte trecho: “As soon as the sergeant was departed, Jones rose from his bed, and dressed himself entirely, putting on even his coat, which, as its colour was white, showed very visibly the streams of blood which had flowed down it.”
6 Naquela época eles escreviam a carta durante a semana, até o momento de postá-la. Logo, antes de escrever o parágrafo, Jane indica qual era o dia da semana.
7 Sinceramente, fiquei em dúvida se Jane estava sendo irônica ou não.
8 Tom Lefroy
9 Esse amigo era Samuel Blackall. Aparentemente a Sra. Lefroy envergonhou-se do seu sobrinho ter flertado tão claramente com Jane, mesmo sabendo que não poderia casar, e tentou conseguir um outro pretendente para a moça. Para saber mais sobre esse pretendente e outros, clique aqui (em inglês).
10 Não sei como traduzir isso, infelizmente. Mas Bar é o nome dado ao processo de se qualificar para advogar. Veja mais aqui (em inglês).

4 comentários sobre “Cartas de Jane Austen: Tom Lefroy

  1. Carin Gerber Kupske disse:

    Obrigada por compartilhar… Adoro como ela escreve… as cartas, para quem recebia, devia ser um deleite.

  2. Raquel Sallaberry Brião disse:

    Zaze,
    eu desconfiava que Bar era o correspondente de nossa OAB, mas como não entendo do assunto e não pesquisei, não comentei. Obrigada por esclarecer!

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