Jane Austen coleção Clássicos Para Todos

Jane Austen está também na coleção Clássicos Para Todos da editora Saraiva. As traduções são as mesmas da Nova Fronteira, de Lúcio Cardoso para Orgulho e preconceito e de Ivo Barroso para Razão e sentimento.

São edições em materiais mais modestos, capa mole por exemplo, mas sempre com a qualidade do texto. Ambos , no final do texto, trazem uma nota “Sobre a autora”. Orgulho e preconceito tem como introdução a “Nota do tradutor” e Razão e sentimento o artigo que escrevi para a edição comemorativa, “Devotos sem pregações”.

Com os dois exemplares aqui em casa agora me resta esperar que lancem Emma em breve!

A coleção Clássicos Para Todos tem não só clássicos mundiais mas também nacionais. Entre os nacionais meus cobiçados são, A Moreninha de Joaquim Manuel de Macedo e o adorável O Alienista de Machado de Assis. Deste último tenho um volume muito feinho e preciso trocar urgente!

Importante: venda exclusiva na livraria Saraiva. Para quem não tem uma loja física próxima a compra pode se efetuada no site da Saraiva, que tem ótimas promoções.

Jane Austen Clássicos Para Todos Editora Saraiva

Jane Austen Clássicos Para Todos Editora Saraiva

Jane Austen na editora Nova Fronteira

A editora Nova Fronteira publicou Jane Austen este ano duas vezes como vocês já leram aqui no blog: sobre as Novelas inacabadas: Os Watsons e Sanditon e a edição comemorativa ilustrada de Razão e sentimento e por último sobre as  capas de nova caixa com três romances de Austen, sobre a qual darei mais detalhes neste post.

Ontem recebi o última caixa, ou box como queiram chamar, com os três romances completos de Jane Austen que fazem parte do acervo de traduções da editora: Orgulho e preconceito na tradução de Lúcio Cardoso e Razão e sentimento e Emma, ambos traduções de Ivo Barroso.

Vamos aos detalhes pois o capricho da editora é um dos destaques desta nova caixa em papelão duro e muito bem acabado. As ilustrações das capas e das folhas opostas aos frontispícios são de Rafael Nobre. E creio que as guardas, que ilustram as lombadas e estão belíssimas, sejam dele também.

Projeto gráfico de miolo e diagramação são detalhes que mais prezo nos livros e o da Filigrana está discreto e elegante. Não adianta belas imagens se o miolo for algo difícil para os olhos.

As textos adicionais em Razão e sentimento são:  “Ironias e tramas de uma artistas da palavra” de Leonardo Fróes, “O suposto formato epistolar de Razão e sentimento” de D. W. Harding e “Devotos sem pregações” de Raquel Sallaberry Brião, essa que vos fala.

Emma tem somente uma nota biográfica da autora, como em todos os outros. Orgulho e preconceito traz a “Nota do Tradutor”que tem sido publicada desde a sua primeira edição em 1940.

A caixa está na pré-venda com previsão de entrega para 26 de junho. Está com ótimo preço na Amazon e em também na Saraiva e na Livraria da Folha.

Jane Austen Nova Fronteira Box com três livros

Jane Austen Nova Fronteira Box com três livros

Jane Austen Nova Fronteira guardas ilustradas

Jane Austen Nova Fronteira guardas ilustradas

Os livros não são ilustrados. As únicas imagens do miolo são as das folhas opostas ao frontispícios, que são as mesmas das capas. Imagem abaixo .

Caixa Jane Austen Nova Fronteira imagens opostas ao frontispício

Caixa Jane Austen Nova Fronteira imagens opostas ao frontispício

 

Carta de Cassandra Austen para Fanny Knight

O Museu Jane Austen, em Chawton, está fazendo uma campanha para receber doações de modo que possa adquirir o original de uma carta escrita por Cassandra, irmã de Jane Austen. A carta que foi escrita logo após a morte da autora, e endereçada para a sobrinha Fanny Knight, está atualmente à mostra no museu mas na condição de empréstimo.

O museu já conseguiu £ 30,000 com o Heritage Lottery Fund’s Collecting Cultures para compra mas precisa ainda de £ 10.000, que terá que ser de doações particulares.

Quem quiser contribuir poderá acessar a página JustGiving Cassandra’s Letter. As doações podem ser tão modestas como 5 libras apenas.

carta_cassandra_fanny

Traduzi a carta para que vocês possam apreciar e ver como era profunda a amizade das irmãs Austen, Cassandra e Jane.

29 de julho de 1817
Chawton, terça-feira

Minha queridíssima Fanny,

acabei de ler sua carta pela terceira vez e agradeço sinceramente por cada gentileza para comigo, e ainda mais calorosamente por seus louvores a ela que acredito era mais conhecida por você do que qualquer outro ser humano além de mim. Nada desse tipo poderia ter sido mais gratificante para mim do que a maneira pela qual você escreve sobre ela, e se o querido Anjo pode saber o que se passa aqui, e não estiver acima dos sentimentos deste mundo, ela talvez possa receber com prazer o fato de ser tão pranteada. Tivesse sido ela a sobrevivente posso imaginá-la falando sobre você quase nos mesmos termos. Há certamente muitos pontos fortes de semelhança em suas personalidades; na intimidade entre vocês, e na forte e mútua afeição vocês eram idênticas.

Quinta-feira não foi um dia tão terrível como você imaginou. Havia tantas coisas necessárias a fazer que não houve tempo para infelicidade adicional. Tudo foi conduzido com a maior tranquilidade, e exceto que eu estava determinada que veria até o final, portanto estava na escuta, eu não deveria ter sabido quando eles saíram de casa. Assisti o pequeno cortejo, do comprimento da rua, passar; e quando desapareceu de minha vista eu a tinha perdido para sempre, mesmo nesse momento eu não fiquei subjugada, nem muito agitada como estou agora em escrever isto. Nunca houve um ser humano mais sinceramente pranteado, por aqueles que atenderam seu velório, do que foi esta querida criatura. Possa a tristeza com que ela partiu com da terra ser um prognóstico da alegria com a qual ela será saudada no céu!

Eu continuo toleravelmente bem, muito melhor do que se poderia supor possível, porque certamente tenho tido um cansaço considerável no corpo como também uma angustia mental faz meses; mas estou realmente bem e espero estar devidamente agradecida ao Todo-Poderoso por ter sido apoiada. Sua avó, também, está muito melhor do que quando cheguei em casa.

Não acho que seu querido papai pareça indisposto e creio que ele me parece muito mais confortável depois de seu retorno de Winchester do que antes. Não preciso dizer para você que ele foi um grande conforto para mim; de fato, eu nunca poderei dizer o suficiente da bondade que recebi dele e de todos outros amigos.

Eu tenho saído e me ocupado. É claro que essas ocupações se adequam melhor quando me deixam livre para pensar nela, a quem perdi, e realmente penso nela na mais variadas circunstâncias. Em nossas horas felizes de conversas confidenciais, nas animadas festas familiares que ela tanto adornava, em seu quarto de doente, em seu leito de morte, e (espero) como habitante dos céus. Ah, se eu puder um dia me reunir a ela lá! Sei que virá o tempo em que minha mente não ficará tão absorvida dela, mas eu não gosto de pensar sobre isso. Se penso nela menos na terra, que Deus garanta que eu nunca cesse de refletir sobre ela como uma habitante do céu, e nunca cesse meus humildes esforços (quando isto for do agrado de Deus) de juntar me a ela.

Olhando uns poucos e preciosos papeis os quais são agora minha propriedade, achei alguns memorandos, entre os quais ela quer que uma de suas correntes de ouro seja dada a sua afilhada Louisa, e uma mecha de seus cabelo seja destinada a você. Você não necessita de nenhuma garantia, minha querida Fanny, de que cada pedido de sua amada tia será sagrado para mim. Assim sendo me diga se você prefere um broche ou anel. Deus abençoe você, minha querida Fanny.

Acredite-me, mais carinhosamente sua,
Cass. Elizth. Austen

Prateleiras para Jane Austen

Cada vez que faço uma limpeza nos meus livros acabo levando um tempo enorme pois paro e fico lendo um trecho, pesquisando algum dado ou simplesmente folheando aleatoriamente por puro prazer. Quem não faz isso?!

Semana passada me dei conta que meus livros de Jane já ocupam duas prateleiras com dez compartimentos no total e mesmo assim estou colocando livros deitados sobre os outros. Sem contar uns álbuns que estou montando e que ficarão muito altos. Só me pergunto onde vou colocar mais um móvel.

Alguma sugestão de móveis práticos e baratos e que resistam ao peso de livros?

Com com vocês as prateleiras que ficaram mais arrumadinhas e uma delas com as rosinhas que ganhei de minha irmã!

Prateleira Jane Austen

Tradução das Novelas inacabadas de Jane Austen indicada ao Prêmio Jabuti

A tradução das Novelas inacabadas de Jane Austen: Os Watsons e Sanditon feita pelo poeta Ivo Barroso, com apresentação minha, foi indicada para o Prêmio Jabuti de 2014 na categoria “Tradução de Obra Literaria Inglês-Português”.

Não preciso dizer o quanto estou feliz!

Entrevista | Diário de Pernambuco

Entrevista minha concedida à jornalista Raquel Lima para o jornal Diário de Pernambuco (online): Mais um fôlego para a longeva obra de Jane Austen

Vejam também arquivo com “Carta para Jane Austen” por Carina Rissi, autora do livro Perdida e entrevista com Rodrigo Breunig, tradutor de A abadia de Northanger, Razão e sentimento e Mansfield Park pela editora L&PM.

Entrevista: L&PM

Entre­vista (na ínte­gra) con­ce­dida a Carolina Marquis para editora L&PM: “Uma conversa com Raquel Sallaberry, dona do maior blog sobre Jane Austen no Brasil”.

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ENTREVISTA

Raquel Sallaberry é apaixonada por livros. Sua vida gira em torno deles. É diagramadora, restauradora e leitora voraz, como não poderia deixar de ser. O encanto que sente é ainda maior quando o assunto é Jane Austen, a escritora inglesa que viveu entre 1775 e 1817.

Raquel, quando começou a procurar informações sobre a escritora, surpreendeu-se com o pouco que encontrou sobre ela. Querendo reverter a situação, pôs-se a trabalhar e hoje é dona do Jane Austen em Português, um blog através do qual se comunica com amantes da autora de Orgulho e Preconceito no mundo inteiro.

Veja a entrevista que Raquel concedeu à L&PM Editores.

L&PM Editores – Qual foi o primeiro livro de Jane Austen que você leu?
Raquel Sallaberry – Li “Orgulho e preconceito” quando jovem. A obra completa, e aqui me refiro aos seis livros principais, só li muito tempo depois.

L&PM – Qual foi o impacto que o livro lhe causou?
Raquel – Lembro de ter tomado o partido de Mr. Darcy desde as primeiras linhas e ter dado boas risadas com Mr. Collins e Mr. Bennet. Meu humor começou a mudar a partir dessa leitura. Percebi que chatos e rabugentos podem ser muito divertidos.

L&PM – O que, na sua opinião, faz com que os livros e histórias de Jane Austen sejam universais?
Raquel – A sofisticação de sua escrita – simplicidade, perspicácia e humor – é o que torna suas histórias universais e atemporais, pois os costumes mudam, mas os sentimentos continuam os mesmos.

L&PM – Qual é o seu livro preferido da Jane Austen?
Raquel – Gosto de todos os livros de Jane Austen e quando preciso escolher fico dividida entre “Orgulho e preconceito” e “Persuasão”. Mas não posso deixar de mencionar alguns personagens queridos de outros livros: os sacripantas irmãos Mary e Henry Crawford de Mansfield Park; o corretíssimo Mr. Knightley de Emma; o rapaz mais divertido das redondezas, Henry Tilney d’A Abadia de Northanger e a discreta Elinor Dashwood  de “Razão e sentimento”.

L&PM – O que você acha das traduções brasileiras?
Raquel – Tem traduções ótimas e outras lamentáveis. Não nomearei as primeiras para não cometer injustiças e as últimas para não dar publicidade.

L&PM – A BBC de Londres fez em 2003 uma pesquisa que consagrou Orgulho e preconceito como sendo o livro mais amado pelos leitores do Reino Unido. O que há, afinal, de tão apaixonante nesta história?
Raquel – Há tanta coisa! Mr. Darcy, o herói rude, mas correto – não esquecendo naturalmente de Pemberley e sua bela renda anual. Elizabeth Bennet, a heroína inteligente e respeitadora das normas, mas que não se cala – imaginem a delícia de falar a verdade para uma arrogante como Lady Catherine de Bourgh. A fina ironia de Mr. Bennet, que muitos dizem ser a personificação de Jane Austen. Mr. Collins, a criatura mais obsequiosa que conheço – dono absoluto do meu bom humor. A nervosíssima senhora Bennet – tentem imaginá-la hoje, com as filhas na balada…
Muito mais haveria para falar sobre o livro que Jane considerava seu “filho amado”, mas vou guardar um pouco do assunto para 2013 quando ele completará duzentos anos de publicação.

L&PM – Para os fãs de um autor, é sempre motivo de angústia assistir a um filme cuja história é baseada no livro. O que você acha dos filmes baseados nas obra de Jane Austen?
Raquel – As séries lançadas pela BBC são muito boas. Entre elas destaco Orgulho e preconceito de 1995, com Colin Firth e Jennifer Ehle, um sucesso até hoje. As versões de Mansfield Park servem muito bem para ilustrar os tipos de filmes. A versão de 1999, de Patricia Rozema com o título Palácio das ilusões (no Brasil) é muito bonita mas a heroína, Fanny Price, e alguns personagens são quase o oposto do original. Em 2007 teve uma nova versão da ITV , também sofrível em termos de roteiro e interpretações. Apesar de antiga e mais teatral a versão de 1986 da BBC é a  melhor até hoje. Há também versões não muito fiéis, mas engraçadas como Northanger Abbey 1986ePersuasion 1971 (ambas da BBC). A grande maioria se não me encanta, me diverte.

L&PM – Como surgiu a ideia de fazer o blog Jane Austen?
Raquel – Tudo começou quando procurei na internet por traduções de Jane Austen e percebi que pouco ou quase nada havia de relevante sobre o tema. Quando descobri que o domínio “janeausten.com.br” estava disponível resolvi então fazer o blog. Já havia feito outros blogs sobre leituras, livros e tipografia e imaginei que seria do mesmo estilo. Isto até dar-me conta do número de visitas e do interesse dos leitores, quando passei a publicar com mais frequência.

L&PM – Como é a sua relação com os fãs de Jane Austen no Brasil e em outros países? Um blog é realmente uma janela para o mundo?
Raquel – Já perdi a conta do número de pessoas com as quais conversei e dei risadas lendo seus comentários. Com exceção de um ou dois stalkers, me considero privilegiada com meus leitores e leitoras, todos educados e sobretudo bem-humorados. Eu diria que o blog é uma porta para o mundo. Eu mesma escrevo, há quase um ano, como blogueira-convidada no blog da americana Vic Sanborn. Não nos conhecemos pessoalmente, mas a admiração por Jane Austen, uma língua em comum e a Web, possibilitaram o conhecimento mútuo e minha participação semanal no Jane Austen Today.

L&PM – De que forma a Jane Austen está em seu dia-a-dia?
Raquel – Como não tenho horários rígidos para trabalhar posso dizer que Jane Austen perpassa todos os meus dias. As leituras, as traduções, os filmes, a preparação do blog e por fim a correspondência com os leitores são entremeados pelos meus afazeres.

L&PM – Se você pudesse fazer uma pergunta para Jane Austen, qual seria?
Raquel – “Você me concederia uma entrevista?”

L&PM – A L&PM está em processo de lançar as obras completas de  Jane Austen em formato pocket. O que você acha disso?
Raquel – Eu acho ótimo, pois o processo teve início no Jane Austen em Português!

A Coleção L&PM POCKET lançará Persuasão, de Jane Austen, em abril de 2011.

NOTAS

  • Esta entrevista foi publicada no site da editora L&PM em fevereiro de 2011, e no blog Lendo Jane Austen em 30 de Junho de 2011.
  • Nesta data, 10 de outubro de 2013, que republico a entrevista no Jane Austen em Português, a editora já publicou 5 livros de Jane Austen: Orgulho e preconceito, Razão e sentimento, Mansfield Park, Persuasão e A abadia de Northanger. Falta apenas Emma que tem previsão para o ano de 2014.

Entrevista: Revista Platero

Entrevista (na íntegra) concedida a jornalista Lays Sayon Saade em agosto de 2010 para Revista Platero da Livraria Martins Fontes para um artigo sobre Jane Austen, “A escritora inglesa que cativou o mundo”.

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ENTREVISTA

Revista Platero: Como você definiria a literatura e o estilo de Jane Austen?

Raquel Sallaberry Brião: Jane Austen é única e praticamente não se enquadra nos estilos literários de sua época, o neoclasssismo e préromantismo, como bem a definiu Otto Maria Carpeaux* ao falar sobre a arte novelística desse período: “Jane Austen é libertada do seu isolamento histórico; continua, porém, isolada em função de seu gênio; não se pretenderá transformar o fenômeno individual em movimento literário, por meio de aproximações artificiais.”

RP: Que livros dela você destacaria e qual o maior encanto desses romances?

RSB: Difícil destacar um pois gosto de todos os livros de Jane Austen. Reconheço, porém, que Orgulho e preconceito é o mais lido e admirado. A própria Jane o considerava seu “filho amado”. Nele encontramos personagens adoráveis e atuais como Elizabeth Bennet, a heroína inteligente e respeitadora das normas, mas não dominada por elas; Mr. Darcy um herói um pouco arrogante, como devem ser os heróis; o senhor Bennet e sua fina ironia; e meu personagem preferido, o obsequioso clérigo Mr. Collins, dono absoluto de minhas risadas. Outro livro pouco mencionado mas muito engraçado é aAbadia de Northanger, em que a autora satiriza os livros góticos e os romances de modo geral, e que tem o mais alegre de seus heróis, Mr. Tilney. Persuasão, o último livro que completou, tem o encanto da maturidade.

As observações mordazes sobre os sentimentos humanos:

“[Os Musgroves] tiveram a triste sina de ter um filho incorrigível, e a sorte de perdê-lo antes de chegar aos vinte anos.[…] Raramente se ouvia falar dele e pouco lamentaram quando, dois anos antes chegara a Uppercross a notícia de sua morte no exterior.” (trad. Luiza Lobo)

E a ternura de um romance maduro e creio eu a mais linda carta de amor que Jane escreveu:

“Não posso mais ouvir em silêncio. Preciso falar com você pelos os meios de que disponho neste momento. Você fendeu minha alma. Sou metade agonia, metade esperança. Não me diga que é tarde demais, que sentimentos tão preciosos foram-se para sempre. Ofereço-me para você de novo com um coração muito mais seu do que quando você quase o despedaçou há oito anos e meio atrás.  Não se atreva a dizer que o homem esquece mais rápido do que a mulher, que seu amor morre mais cedo. Eu tenho amado somente você, mais ninguém. Injusto posso ter sido, fraco e ressentido também, mas nunca inconstante. Você, apenas você trouxe-me para Bath. Faço planos pensando somente em você. Você não ainda percebeu? Terá você falhado em entender meus desejos? Eu não teria esperado nem estes dez dias se tivesse podido ler seus sentimentos como eu penso que você penetrou nos meus. Quase não posso escrever. A todo instante ouço alguma coisa que me atordoa. Você abaixa sua voz, mas eu posso distinguir seus tons mesmo quando perdidos em meio aos outros. Boníssima e excelente criatura! Você nos faz justiça, deveras. Você crê que há afeto verdadeiro e constância entre os homens. Creia “nisto” mais fervoroso e constante em
F. W.
Devo partir – incerto de minha sorte –, mas voltarei aqui ou irei para sua festa, assim que possível. Uma palavra, um olhar, será o suficiente para que eu decida entrar na casa de seu pai esta noite, ou nunca.” (trad. minha)
* Seus livros são um retrato da sociedade daquela época? Quais os romances em que isso é mais evidente, pode citar alguma passagem ilustrativa?
Os livros de Jane Austen são o retrato de sua época dentro de seu mundo, as gentry, uma espécie de classe média alta, raramente ricos, mas com posses para uma vida respeitável e principalmente conscientes de sua importância política e cultural.

Um exemplo, em Orgulho e preconceito, a discussão entre Lady Catharine de Bourgh e Elizabeth Bennet sobre o provável noivado da primeira com o sobrinho da segunda,

” — […] Minha filha e meu sobrinho são feitos um para o outro. Descendem os dois pelo lado materno, da mesma linhagem nobre; e ele do paterno, de famílias respeitáveis, honradas e antigas, embora sem títulos. Sua fortuna, de ambos os lados, é esplêndida. Estão destinados um ao outro pela voz de todos os membros das respectivas casas;  e o que há entre eles? As presunçosas pretensões de uma jovem sem família sem relações e sem fortuna. Pode ser algo assim tolerado? Para o seu próprio bem, não deveria desejar deixar a classe na qual foi criada.
— Casando-me com o seu sobrinho, eu não me consideraria deixando essa classe. Ele é um cavalheiro; eu sou a filha de um cavalheiro; assim sendo, somos iguais.” (trad. Celina Portocarrero)

RP: Quais as críticas mais apuradas que ela faz aos costumes e aos valores da sociedade? Pode mencionar alguns exemplos significativos?

RSB: Jane Austen era conservadora e suas críticas são mais sobre as atitudes individuais.
Em Mansfield Park, o seu livro mais severo, os irmãos Crawford são criticados por terem tido uma criação liberal demais; em Razão e sentimento há críticas sobre Mrs.Dashwood, mãe das heroínas, por ser romântica e pouco prática. Em Emma: Mr. Knightley reprova as atitudes de Mr. Frank Churchill:

“Há uma coisa, Emma, que um homem sempre pode fazer se assim quiser, que é cumprir o seu dever; não através de subterfúgios ou meandros, mas com vigor e decisão.” (trad. Ivo Barroso)

RP: Por que ela é tão querida pelos ingleses?

RSB: Os ingleses, talvez por se reconhecerem perfeitamente em seus personagens, percebam mais rapidamente sua técnica, que vai muito além do romance agradável. Tanto que a comparam a Shakespeare.

RP: Em que momento é possível perceber claramente o espírito inglês presente em seus romances?

RSB: Na sátira discreta mas contundente.

RP: O que a consagrou como uma escritora universal? O que a torna tão atual duzentos anos após sua morte, levando seus livros a ganharem seguidas reedições, traduções e versões para o cinema?

RSB: O que a consagrou como escritora universal e a mantém tão atual é a sofisticação – com perspicácia, simplicidade e humor – com que escreveu sobre pessoas reais.

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ARTIGO NA REVISTA PLATERO

 

Entrevista: Gazeta do Povo de Curitiba

Entrevista concedida a jornalista Luciana Romagnolli para matéria sobre Jane Austen no jornal Gazeta do Povo (Curitiba, PR), em agosto de 2008. Foi publicado, tanto online como no papel, e excertos nesta página: “A razão vence o sentimento“.

Abaixo transcrevo na íntegra, perguntas e respostas.

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1. Qual a proposta do site Jane Austen em Português?
O Jane Austen em português é um blogue pessoal em que publico ou indico minhas leituras de Jane. Na maioria das vezes reconto ou traduzo pequenos trechos do que leio em  seus livros, ou em sites, blogues ou jornais em inglês, que são minhas fontes de referência e inspiração, pois há muito pouco em português na internet sobre Jane. Meu blogue é mais vontade do que proposta. Vontade de compartilhar minha admiração por Jane e sua obra.

2. A obra da escritora está suficientemente traduzida para o português?
Os seis livros completos já foram traduzidos por tradutores respeitados como Ivo Barroso, Lúcio Cardoso, Rachel de Queiróz e Lêdo Ivo, para citar alguns. Mas ainda não temos as obras incompletas – SanditonThe Watsons e Lady Susan – e textos da juvenília, como a divertida história da Inglaterra escrita por Jane Austen aos 16 anos. Sem falar nas cartas e alguma biografia, das tantas que existem. A Landmark lançou recentemente Orgulho e preconceito e Persuasão em edições bilíngües e promete o restante da obra. Sou da opinião de que sempre podemos ter mais traduções, e fico sonhando com uma edição, em português naturalmente, como a Popular Classics da Penguin e seus preços verdadeiramente populares.

3. Os livros de Jane Austen datam da virada do século 18 para o 19, ambientadas em uma Inglaterra agrícola, aristocrata, patriarcal. Ainda assim, não apenas continuam a ser lidos, como influenciam outras obras, a exemplo dos recentes filmes O Clube da Leitura de Jane Austen (em que os personagens unem-se em um clube de leitura dos romances de Austen, o que os ajuda a lidar com relações contemporâneas), que chegou às locadoras em junho, e Becoming Jane – Amor e Inocência (um romance histórico que funde biografia e obra da autora, colocando-a como protagonista de um romance – malogrado – ao estilo Lizzy-Darcy), ou mesmo de adaptações para o cinema como Orgulho e Preconceito. Na sua opinião, o que torna a obra da autora atual, capaz de repercutir ainda hoje?

Ao longos dos últimos séculos os costumes mudaram bastante, mas nossos sentimentos, razões e preocupações básicas continuam os mesmos. Quem nunca se apaixonou como Marianne, ou precisou mudar drasticamente de vida como as Dashwood? Quem não conhece um bajulador profissional como o senhor Collins ou uma arrogante como Lady De Bourgh (”que se acha”, como dizemos hoje)? Quem não imaginou histórias mirabolantes como Catherine Morland (vejam os nossos meninos e meninas góticos)? Quem não gostaria de ter a habilidade e rapidez das respostas de Elizabeth Bennet em situações que nos afrontam?
O que mantém a obra atual é a sofisticação – com perspicácia, simplicidade e humor – com que Jane escreveu sobre pessoas reais.

3. b) Para você, Jane Austen é ainda fonte para tratar da feminilidade, do lugar da mulher na sociedade, de seus sentimentos?
Nunca li ou percebi a obra de Jane Austen em termos de feminilidade e cito partes de seus livros para exemplificar.
Em Razão e sentimento, quando dá a palavra a Willoughby para apresentar seus motivos e arrependimentos pela maneira como agiu com Marianne não tem um discurso feminino, tanto que quase ficamos com pena dele.
Em Persuasão, a carta de amor mais doce de todos seus romances é escrita pelo viril capitão Wentworth: “Já não posso mais ouvir em silêncio. Preciso falar-lhe pelo único meio de que disponho. Desse modo você fere minha alma. Sou metade agonia, metade esperança.”.
E sabia ser ser dura como ninguém, como quando se referiu ao filho dos Musgroves, também em Persuasão: […] tiveram a triste sina de ter um filho incorrigível, e a sorte de perdê-lo antes de chegar aos vinte anos.[…] Raramente se ouvia falar dele e pouco lamentaram quando, dois anos antes chegara a Uppercross a notícia de sua morte no exterior.”*
Quanto ao lugar da mulher na sociedade acho difícil fazer comparações. As mudanças econômicas, sociais e por fim de comportamento sexual nos distanciaram muito daquela época. Mas os sentimentos, como já mencionei, continuam os mesmos.

3. c) Se você teve a oportunidade de assistir a algum desses filmes, por favor, gostaria de sua opinião se fazem justiça à vida/obra de Austen.
Clube de Leitura Jane Austen é um exemplo bem-humorado de como nossos sentimentos continuam os mesmos descritos nas obra de Jane. Já Becoming Jane tem paisagens e atores lindos, mas o mote central do filme, um suposto romance entre Jane e Thomas Langlois Lefroy, perdeu-se como biografia e ficou confuso como ficção.
Das adaptações de Orgulho e preconceito que já vi, achei no geral todas boas. Acredito que, por ser o livro mais lido de Jane Austen, ninguém arrisca inovar muito no roteiro. Eu sou da opinião que qualquer filme que leve alguém a ler o livro em que foi baseado já valeu a pena.

4. Os enredos de Austen são folhetinescos, histórias de garotas que vão ao encontro de um marido, mas seus livros destacam-se pela análise de caráter e pela linguagem crítica, irônica. Pelo seu conhecimento da (escassa) biografia da autora, o que teria permitido que ela avançasse em relação às realizações que “cabiam” a uma mulher do seu tempo e se destacasse na literatura?
Apesar de aparentar um tom folhetinesco, os livros de Jane são histórias complexas em que as mulheres, por questões de costumes da época, precisavam esperar o primeiro movimento do homem; só depois podiam prosseguir suas vidas. Essa espera cheia de regras e etiquetas e das quais dependiam suas vidas, pois quase não haviam empregos dignos, pelos padrões da época, para mulheres, é analisada com profundidade, ironia e elegância por Jane Austen. Outras mulheres escreveram com sucesso na mesma época (Fanny Burney, Mary Wollstonecraft, Ann Radcliffe) e em condições similares. Resta apenas uma  explicação para o destaque de Jane: excepcional acuidade na percepção do comportamento humano e talento, que é raro em qualquer época.

5. Austen é comumente citada como a segunda autora mais importante de língua inglesa, abaixo apenas de Shakespeare. No seu ponto de vista, o que a distingue entre outros grandes nomes da literatura anglicana*?
Aprecio muitos autores ingleses e gosto especialmente de Jane Austen, mas não sou especialista em literatura inglesa nem costumo comparar autores. Sei que Walter Scott, Henry James, G. K. Chesterton, Harold Bloom e muitos outros escreveram com grande admiração sobre a obra dela, mas acredito que o mérito de Jane é vir mantendo os leitores interessados há quase duzentos anos sem precisar de agentes literários ou resenhas em jornais.

6. Na sua opinião, qual a melhor obra da escritora? Por quê?
Orgulho e preconceito. Por seus personagens e o humor delicioso. Mas preciso mencionar Persuasão, uma pequena jóia, publicada postumamente, que ficou pronta mas faltou lapidar, como Jane certamente teria feito.

6. b) E sua personagem preferida?
Elizabeth Bennet e o senhor Darcy… confesso também meu fraco por Henry Crawford e pelo queridíssimo senhor Collins.

* Acredito que ela quis dizer inglesa

Jane Austen em Português, 5 anos

Cinco anos do Jane Austen em Português e eu me pergunto, como passou tão rápido?

Conversando com vocês leitores. E bota conversa nisso! Até este momento que escrevo são 20622 comentários.

Eu  havia planejado uma série de mudanças para o blog mas as minhas constantes viagens por compromissos pessoais não permitiram. Nada que nos impeça de comemorar, é claro! E vamos comemorar com presentinhos e conversa como sempre ocorre nos sorteios do Jane Austen em Português.

Serão 5 sorteados com os seguintes presentes:

  1. Surpresa com 5 presentinhos
  2. Caderno capa de veludo com casal Elizabeth Bennet e Mr. Darcy
  3. Caderno capa de veludo com casal Jane Bennet e Mr. Bingley
  4. Caderno Elizabeth Bennet capa de cetim
  5. Caderno Mr. Darcy em papel linho especial

A pergunta, que não tem resposta certa ou errada mas precisa ser respondida para participar do sorteio, é:

Quais assuntos/conversas vocês gostariam de ver com mais frequência no Jane Austen em Português?

Jane Austen em Português, 5 anos

NORMAS DO SORTEIO

♦ Sorteio de 21 de junho a 14 de julhoResultado: 15 de julho (Sorteio prorrogado!)
 É permitido apenas um (1) comentário por participante
♦ Se um grupo usar o mesmo computador para comentar, o que levará a IPs iguais, avise no próprio comentário para não ser desclassificado
♦ Use seu mail verdadeiro e apenas no formulário. Não coloque email no corpo do comentário
♦ Lembrem-se: todos os comentários são moderados e podem levar um tempo para serem publicados
♦ Qualquer um pode comentar mas somente quem tiver um endereço no Brasil concorrerá ao presente