Orgulho e preconceito | Carol Chiovatto

Orgulho e preconceito de Jane Austen está ligado a Carol Chiovatto por dois motivos: o primeiro é o fato de Carol ter feito o papel de Mary Bennet/Mrs. Gardiner na primeira peça baseada numa obra de Jane Austen encenada no Brasil.

Alguns leitores do blog assistiram a peça mas quem não teve a oportunidade convido para visitar a página que fiz especialmente para Orgulho e preconceito do Grupo Fora de Foco. O recital de Mary “Chiovatto” Bennet ainda faz eco nos meus ouvidos…

O segundo motivo é sua tradução de Orgulho e preconceito para a Giz Editorial. , incluindo notas e posfácio intitulado  “Feminino e sociedade em Jane Austen: casamento, afeto e sobrevivência”. Carol é tradutora e publicitária e também autora de vários contos já publicados. Suas primeiras leituras de Jane Austen foram Razão e sentimento e Emma. E obviamente Orgulho e preconceito quando atuou na peça. O quem mais me chamou a atenção em nossa conversa em São Paulo foi ver a alegria e o entusiasmo dela com a tradução e a pesquisa que envolve o trabalho.

A apresentação com o título “Orgulho e preconceito canônico até na cultura pop” é de Adriana Amaral, professora na Unisinos. E fã de Jane Austen! A capa é de Genildo Santana.

Antes de encerrar o post faço um pedido para a editora: a fonte das cartas ficou muito pequenina, que tal aumentar um bocadinho em próxima edição?!

Carol Chiovatto - Orgulho e preconceito Giz Editorial

Carol Chiovatto – Orgulho e preconceito Giz Editorial

 

Ivo Barroso: tradução de Razão e Sentimento

Já escrevi sobre a tradução de Razão e sentimento por Ivo Barroso, mas esta semana Ivo gravou um vídeo especial para explicar suas razões pela escolha do título para Sense and Sensibility no lançamento de um box com três obras da autora publicadas pela editora Nova Fronteira.

Vocês podem também reler a entrevista que fiz em 2010 sobre suas traduções: “Ivo Barroso: entrevista sobre Jane Austen”.

Há também uma deliciosa carta escrita pelo tradutor para Paulo Francis  sobre a tradução do título de Sense and Sensibility que Ivo me presenteou para publicar no Jane Austen em Português: “Ivo Barroso: as razões da tradução”.

Caso o vídeo deixe funcionar acesse o You Tube do Grupo Ediouro.

Jane Austen no Doce Viagem

Fui entrevistada por Tatiane Lima para falar sobre Jane Austen e também sobre  a fundação Jane Austen Literacy Foundation para um artigo em seu blog, o Doce Viagem: o melhor da vida na nuvem.

Vocês podem ler o artigo integral neste link: “Quando a paixão por Jane Austen mantém viva a paixão de Jane Austen”. E aproveitar e descobrir qual personagem de Jane Austen eu seria se possível fosse!

Agradeço a Tatiane a gentileza do convite e a delicadeza do título do artigo.

Blog Doce Viagem

Orgulho e Preconceito | Mariana Teixeira Marques

Mariana Teixeira MarquesGostei  muito da entrevista com a professora Mariana Teixeira Marques sobre Jane Austen, mais especificamente sobre o livro Orgulho e preconceito, no canal de literatura da Univesp.

Mariana é doutora em estudos linguísticos e literários em inglês pela USP e também professora de Letras da Universidade Federal de São Paulo, na unidade de Guarulhos.

Vídeo da entrevista no site da Univesp: Literatura Fundamental 80: Orgulho e Preconceito – Mariana Teixeira Marques.

Baile à moda Jane Austen na Hungria

Estamos sempre descobrindo novos admiradores de Jane Austen e a época que ela viveu, a Regência. Hoje apresento para vocês Zsuzsi Dingsdale professora de línguas e de dança. Zsuzsi promoverá um baile em agosto deste ano no palácio Festetics, na cidade de  Keszthely, na Hungria.

O programa do baile e os passeios opcionais estão na página . Não deixem de assistir o vídeo sobre o palácio, que tem uma biblioteca de fazer gosto a Mr. Darcy.

E para maiores detalhes uma micro entrevista com Zsuzsi, que me foi apresentada por Rita Watts, amiga e leitora do blog, e que tornou possível este contato. (Obrigada, querida!)

Zsuzsi Dingsdale

Zsuzsi me fale um pouco de você.

Nasci na Hungria mas morei na Inglaterra os últimos 32 anos pois me casei com um Britânico, Alan. Sou professora de Línguas Modernas. Agora estou aposentada e divido meu tempo entre a Hungria e Inglaterra trabalhando em cruzeiros como professores de dança. Também sou uma terapeuta comportamental o que não atrapalha em nada pois posso trabalhar por telefone ou Skype.

Quando e onde começou a ler Jane Austen?

Eu comecei a ler Jane Austen quando tinha 10 anos de idade e me apaixonei imediatamente. Eu amo o que ela escreve e admiro a riqueza de sua prosa. Eu conheço todos os livros de cor e salteado e possuo pelo menos um DVD de cada adaptação de seus livros.

Qual é o seu livro favorito de Austen?

Não sei dizer se tenho um favorito. Gosto de todos eles. Posso dizer que tenho trechos favoritos, como por exemplo, quando o Mr. Darcy diz ‘’ Meditava, por exemplo, no imenso prazer que um lindo par de olhos no rosto de uma mulher bonita podem conceder.’’ Tão diferente do homem moderno diria.

Como e quando você se envolveu com a dança?

Sempre adorei dançar. Na verdade, hoje em dia acredito que escolhi a carreira errada e que não deveria ser professora de idiomas e sim de dança. Tenho praticado dança de salão com meu marido já há 20 anos e English Country Dancing, a dança típica da época de Austen, há 10 anos. Assim que comecei a pesquisar Jane Austen e suas cenas de baile. Daí em diante fui só me especializando. Um dia pensei – porque não introduzir esse mundo na Hungria também? Comecei a dar aulas e organizei o primeiro baile de estilo Regência na Hungria em homenagem a Jane Austen em outubro do ano passado. Foi um sucesso tão grande que já planejei outro para agosto deste ano.

O que você está planejando para agosto?

Ano passado o baile foi numa casa antiga e para poucas pessoas. Este ano escolhi um lugar maravilhoso no palácio Festetics em Keszthely, Hungria. O palácio fica às margens do lago Balaton que é um lugar turístico muito famoso em meu país. Os participantes irão se vestir em estilo Regência durante o final de semana. Teremos uma degustação de vinhos e jantar na adega do palácio. Após o jantar, um tour romântico à luz de velas pelo palácio. No sábado, teremos um passeio de carruagens (originais do séc. XVIII) do próprio palácio, pela beira do lago, seguido de um passeio de barco. Durante à tarde teremos um chá no parque ao som de música barroca e para terminar o Grande Baile com jantar no sábado à noite.

Galeria de fotos com Zsuzsi e seu esposo no palácio Festetics

Entrevista | Diário de Pernambuco

Entrevista minha concedida à jornalista Raquel Lima para o jornal Diário de Pernambuco (online): Mais um fôlego para a longeva obra de Jane Austen

Vejam também arquivo com “Carta para Jane Austen” por Carina Rissi, autora do livro Perdida e entrevista com Rodrigo Breunig, tradutor de A abadia de Northanger, Razão e sentimento e Mansfield Park pela editora L&PM.

Entrevista: L&PM

Entre­vista (na ínte­gra) con­ce­dida a Carolina Marquis para editora L&PM: “Uma conversa com Raquel Sallaberry, dona do maior blog sobre Jane Austen no Brasil”.

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ENTREVISTA

Raquel Sallaberry é apaixonada por livros. Sua vida gira em torno deles. É diagramadora, restauradora e leitora voraz, como não poderia deixar de ser. O encanto que sente é ainda maior quando o assunto é Jane Austen, a escritora inglesa que viveu entre 1775 e 1817.

Raquel, quando começou a procurar informações sobre a escritora, surpreendeu-se com o pouco que encontrou sobre ela. Querendo reverter a situação, pôs-se a trabalhar e hoje é dona do Jane Austen em Português, um blog através do qual se comunica com amantes da autora de Orgulho e Preconceito no mundo inteiro.

Veja a entrevista que Raquel concedeu à L&PM Editores.

L&PM Editores – Qual foi o primeiro livro de Jane Austen que você leu?
Raquel Sallaberry – Li “Orgulho e preconceito” quando jovem. A obra completa, e aqui me refiro aos seis livros principais, só li muito tempo depois.

L&PM – Qual foi o impacto que o livro lhe causou?
Raquel – Lembro de ter tomado o partido de Mr. Darcy desde as primeiras linhas e ter dado boas risadas com Mr. Collins e Mr. Bennet. Meu humor começou a mudar a partir dessa leitura. Percebi que chatos e rabugentos podem ser muito divertidos.

L&PM – O que, na sua opinião, faz com que os livros e histórias de Jane Austen sejam universais?
Raquel – A sofisticação de sua escrita – simplicidade, perspicácia e humor – é o que torna suas histórias universais e atemporais, pois os costumes mudam, mas os sentimentos continuam os mesmos.

L&PM – Qual é o seu livro preferido da Jane Austen?
Raquel – Gosto de todos os livros de Jane Austen e quando preciso escolher fico dividida entre “Orgulho e preconceito” e “Persuasão”. Mas não posso deixar de mencionar alguns personagens queridos de outros livros: os sacripantas irmãos Mary e Henry Crawford de Mansfield Park; o corretíssimo Mr. Knightley de Emma; o rapaz mais divertido das redondezas, Henry Tilney d’A Abadia de Northanger e a discreta Elinor Dashwood  de “Razão e sentimento”.

L&PM – O que você acha das traduções brasileiras?
Raquel – Tem traduções ótimas e outras lamentáveis. Não nomearei as primeiras para não cometer injustiças e as últimas para não dar publicidade.

L&PM – A BBC de Londres fez em 2003 uma pesquisa que consagrou Orgulho e preconceito como sendo o livro mais amado pelos leitores do Reino Unido. O que há, afinal, de tão apaixonante nesta história?
Raquel – Há tanta coisa! Mr. Darcy, o herói rude, mas correto – não esquecendo naturalmente de Pemberley e sua bela renda anual. Elizabeth Bennet, a heroína inteligente e respeitadora das normas, mas que não se cala – imaginem a delícia de falar a verdade para uma arrogante como Lady Catherine de Bourgh. A fina ironia de Mr. Bennet, que muitos dizem ser a personificação de Jane Austen. Mr. Collins, a criatura mais obsequiosa que conheço – dono absoluto do meu bom humor. A nervosíssima senhora Bennet – tentem imaginá-la hoje, com as filhas na balada…
Muito mais haveria para falar sobre o livro que Jane considerava seu “filho amado”, mas vou guardar um pouco do assunto para 2013 quando ele completará duzentos anos de publicação.

L&PM – Para os fãs de um autor, é sempre motivo de angústia assistir a um filme cuja história é baseada no livro. O que você acha dos filmes baseados nas obra de Jane Austen?
Raquel – As séries lançadas pela BBC são muito boas. Entre elas destaco Orgulho e preconceito de 1995, com Colin Firth e Jennifer Ehle, um sucesso até hoje. As versões de Mansfield Park servem muito bem para ilustrar os tipos de filmes. A versão de 1999, de Patricia Rozema com o título Palácio das ilusões (no Brasil) é muito bonita mas a heroína, Fanny Price, e alguns personagens são quase o oposto do original. Em 2007 teve uma nova versão da ITV , também sofrível em termos de roteiro e interpretações. Apesar de antiga e mais teatral a versão de 1986 da BBC é a  melhor até hoje. Há também versões não muito fiéis, mas engraçadas como Northanger Abbey 1986ePersuasion 1971 (ambas da BBC). A grande maioria se não me encanta, me diverte.

L&PM – Como surgiu a ideia de fazer o blog Jane Austen?
Raquel – Tudo começou quando procurei na internet por traduções de Jane Austen e percebi que pouco ou quase nada havia de relevante sobre o tema. Quando descobri que o domínio “janeausten.com.br” estava disponível resolvi então fazer o blog. Já havia feito outros blogs sobre leituras, livros e tipografia e imaginei que seria do mesmo estilo. Isto até dar-me conta do número de visitas e do interesse dos leitores, quando passei a publicar com mais frequência.

L&PM – Como é a sua relação com os fãs de Jane Austen no Brasil e em outros países? Um blog é realmente uma janela para o mundo?
Raquel – Já perdi a conta do número de pessoas com as quais conversei e dei risadas lendo seus comentários. Com exceção de um ou dois stalkers, me considero privilegiada com meus leitores e leitoras, todos educados e sobretudo bem-humorados. Eu diria que o blog é uma porta para o mundo. Eu mesma escrevo, há quase um ano, como blogueira-convidada no blog da americana Vic Sanborn. Não nos conhecemos pessoalmente, mas a admiração por Jane Austen, uma língua em comum e a Web, possibilitaram o conhecimento mútuo e minha participação semanal no Jane Austen Today.

L&PM – De que forma a Jane Austen está em seu dia-a-dia?
Raquel – Como não tenho horários rígidos para trabalhar posso dizer que Jane Austen perpassa todos os meus dias. As leituras, as traduções, os filmes, a preparação do blog e por fim a correspondência com os leitores são entremeados pelos meus afazeres.

L&PM – Se você pudesse fazer uma pergunta para Jane Austen, qual seria?
Raquel – “Você me concederia uma entrevista?”

L&PM – A L&PM está em processo de lançar as obras completas de  Jane Austen em formato pocket. O que você acha disso?
Raquel – Eu acho ótimo, pois o processo teve início no Jane Austen em Português!

A Coleção L&PM POCKET lançará Persuasão, de Jane Austen, em abril de 2011.

NOTAS

  • Esta entrevista foi publicada no site da editora L&PM em fevereiro de 2011, e no blog Lendo Jane Austen em 30 de Junho de 2011.
  • Nesta data, 10 de outubro de 2013, que republico a entrevista no Jane Austen em Português, a editora já publicou 5 livros de Jane Austen: Orgulho e preconceito, Razão e sentimento, Mansfield Park, Persuasão e A abadia de Northanger. Falta apenas Emma que tem previsão para o ano de 2014.

Entrevista: Revista Platero

Entrevista (na íntegra) concedida a jornalista Lays Sayon Saade em agosto de 2010 para Revista Platero da Livraria Martins Fontes para um artigo sobre Jane Austen, “A escritora inglesa que cativou o mundo”.

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ENTREVISTA

Revista Platero: Como você definiria a literatura e o estilo de Jane Austen?

Raquel Sallaberry Brião: Jane Austen é única e praticamente não se enquadra nos estilos literários de sua época, o neoclasssismo e préromantismo, como bem a definiu Otto Maria Carpeaux* ao falar sobre a arte novelística desse período: “Jane Austen é libertada do seu isolamento histórico; continua, porém, isolada em função de seu gênio; não se pretenderá transformar o fenômeno individual em movimento literário, por meio de aproximações artificiais.”

RP: Que livros dela você destacaria e qual o maior encanto desses romances?

RSB: Difícil destacar um pois gosto de todos os livros de Jane Austen. Reconheço, porém, que Orgulho e preconceito é o mais lido e admirado. A própria Jane o considerava seu “filho amado”. Nele encontramos personagens adoráveis e atuais como Elizabeth Bennet, a heroína inteligente e respeitadora das normas, mas não dominada por elas; Mr. Darcy um herói um pouco arrogante, como devem ser os heróis; o senhor Bennet e sua fina ironia; e meu personagem preferido, o obsequioso clérigo Mr. Collins, dono absoluto de minhas risadas. Outro livro pouco mencionado mas muito engraçado é aAbadia de Northanger, em que a autora satiriza os livros góticos e os romances de modo geral, e que tem o mais alegre de seus heróis, Mr. Tilney. Persuasão, o último livro que completou, tem o encanto da maturidade.

As observações mordazes sobre os sentimentos humanos:

“[Os Musgroves] tiveram a triste sina de ter um filho incorrigível, e a sorte de perdê-lo antes de chegar aos vinte anos.[…] Raramente se ouvia falar dele e pouco lamentaram quando, dois anos antes chegara a Uppercross a notícia de sua morte no exterior.” (trad. Luiza Lobo)

E a ternura de um romance maduro e creio eu a mais linda carta de amor que Jane escreveu:

“Não posso mais ouvir em silêncio. Preciso falar com você pelos os meios de que disponho neste momento. Você fendeu minha alma. Sou metade agonia, metade esperança. Não me diga que é tarde demais, que sentimentos tão preciosos foram-se para sempre. Ofereço-me para você de novo com um coração muito mais seu do que quando você quase o despedaçou há oito anos e meio atrás.  Não se atreva a dizer que o homem esquece mais rápido do que a mulher, que seu amor morre mais cedo. Eu tenho amado somente você, mais ninguém. Injusto posso ter sido, fraco e ressentido também, mas nunca inconstante. Você, apenas você trouxe-me para Bath. Faço planos pensando somente em você. Você não ainda percebeu? Terá você falhado em entender meus desejos? Eu não teria esperado nem estes dez dias se tivesse podido ler seus sentimentos como eu penso que você penetrou nos meus. Quase não posso escrever. A todo instante ouço alguma coisa que me atordoa. Você abaixa sua voz, mas eu posso distinguir seus tons mesmo quando perdidos em meio aos outros. Boníssima e excelente criatura! Você nos faz justiça, deveras. Você crê que há afeto verdadeiro e constância entre os homens. Creia “nisto” mais fervoroso e constante em
F. W.
Devo partir – incerto de minha sorte –, mas voltarei aqui ou irei para sua festa, assim que possível. Uma palavra, um olhar, será o suficiente para que eu decida entrar na casa de seu pai esta noite, ou nunca.” (trad. minha)
* Seus livros são um retrato da sociedade daquela época? Quais os romances em que isso é mais evidente, pode citar alguma passagem ilustrativa?
Os livros de Jane Austen são o retrato de sua época dentro de seu mundo, as gentry, uma espécie de classe média alta, raramente ricos, mas com posses para uma vida respeitável e principalmente conscientes de sua importância política e cultural.

Um exemplo, em Orgulho e preconceito, a discussão entre Lady Catharine de Bourgh e Elizabeth Bennet sobre o provável noivado da primeira com o sobrinho da segunda,

” — […] Minha filha e meu sobrinho são feitos um para o outro. Descendem os dois pelo lado materno, da mesma linhagem nobre; e ele do paterno, de famílias respeitáveis, honradas e antigas, embora sem títulos. Sua fortuna, de ambos os lados, é esplêndida. Estão destinados um ao outro pela voz de todos os membros das respectivas casas;  e o que há entre eles? As presunçosas pretensões de uma jovem sem família sem relações e sem fortuna. Pode ser algo assim tolerado? Para o seu próprio bem, não deveria desejar deixar a classe na qual foi criada.
— Casando-me com o seu sobrinho, eu não me consideraria deixando essa classe. Ele é um cavalheiro; eu sou a filha de um cavalheiro; assim sendo, somos iguais.” (trad. Celina Portocarrero)

RP: Quais as críticas mais apuradas que ela faz aos costumes e aos valores da sociedade? Pode mencionar alguns exemplos significativos?

RSB: Jane Austen era conservadora e suas críticas são mais sobre as atitudes individuais.
Em Mansfield Park, o seu livro mais severo, os irmãos Crawford são criticados por terem tido uma criação liberal demais; em Razão e sentimento há críticas sobre Mrs.Dashwood, mãe das heroínas, por ser romântica e pouco prática. Em Emma: Mr. Knightley reprova as atitudes de Mr. Frank Churchill:

“Há uma coisa, Emma, que um homem sempre pode fazer se assim quiser, que é cumprir o seu dever; não através de subterfúgios ou meandros, mas com vigor e decisão.” (trad. Ivo Barroso)

RP: Por que ela é tão querida pelos ingleses?

RSB: Os ingleses, talvez por se reconhecerem perfeitamente em seus personagens, percebam mais rapidamente sua técnica, que vai muito além do romance agradável. Tanto que a comparam a Shakespeare.

RP: Em que momento é possível perceber claramente o espírito inglês presente em seus romances?

RSB: Na sátira discreta mas contundente.

RP: O que a consagrou como uma escritora universal? O que a torna tão atual duzentos anos após sua morte, levando seus livros a ganharem seguidas reedições, traduções e versões para o cinema?

RSB: O que a consagrou como escritora universal e a mantém tão atual é a sofisticação – com perspicácia, simplicidade e humor – com que escreveu sobre pessoas reais.

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ARTIGO NA REVISTA PLATERO

 

Entrevista: Gazeta do Povo de Curitiba

Entrevista concedida a jornalista Luciana Romagnolli para matéria sobre Jane Austen no jornal Gazeta do Povo (Curitiba, PR), em agosto de 2008. Foi publicado, tanto online como no papel, e excertos nesta página: “A razão vence o sentimento“.

Abaixo transcrevo na íntegra, perguntas e respostas.

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1. Qual a proposta do site Jane Austen em Português?
O Jane Austen em português é um blogue pessoal em que publico ou indico minhas leituras de Jane. Na maioria das vezes reconto ou traduzo pequenos trechos do que leio em  seus livros, ou em sites, blogues ou jornais em inglês, que são minhas fontes de referência e inspiração, pois há muito pouco em português na internet sobre Jane. Meu blogue é mais vontade do que proposta. Vontade de compartilhar minha admiração por Jane e sua obra.

2. A obra da escritora está suficientemente traduzida para o português?
Os seis livros completos já foram traduzidos por tradutores respeitados como Ivo Barroso, Lúcio Cardoso, Rachel de Queiróz e Lêdo Ivo, para citar alguns. Mas ainda não temos as obras incompletas – SanditonThe Watsons e Lady Susan – e textos da juvenília, como a divertida história da Inglaterra escrita por Jane Austen aos 16 anos. Sem falar nas cartas e alguma biografia, das tantas que existem. A Landmark lançou recentemente Orgulho e preconceito e Persuasão em edições bilíngües e promete o restante da obra. Sou da opinião de que sempre podemos ter mais traduções, e fico sonhando com uma edição, em português naturalmente, como a Popular Classics da Penguin e seus preços verdadeiramente populares.

3. Os livros de Jane Austen datam da virada do século 18 para o 19, ambientadas em uma Inglaterra agrícola, aristocrata, patriarcal. Ainda assim, não apenas continuam a ser lidos, como influenciam outras obras, a exemplo dos recentes filmes O Clube da Leitura de Jane Austen (em que os personagens unem-se em um clube de leitura dos romances de Austen, o que os ajuda a lidar com relações contemporâneas), que chegou às locadoras em junho, e Becoming Jane – Amor e Inocência (um romance histórico que funde biografia e obra da autora, colocando-a como protagonista de um romance – malogrado – ao estilo Lizzy-Darcy), ou mesmo de adaptações para o cinema como Orgulho e Preconceito. Na sua opinião, o que torna a obra da autora atual, capaz de repercutir ainda hoje?

Ao longos dos últimos séculos os costumes mudaram bastante, mas nossos sentimentos, razões e preocupações básicas continuam os mesmos. Quem nunca se apaixonou como Marianne, ou precisou mudar drasticamente de vida como as Dashwood? Quem não conhece um bajulador profissional como o senhor Collins ou uma arrogante como Lady De Bourgh (”que se acha”, como dizemos hoje)? Quem não imaginou histórias mirabolantes como Catherine Morland (vejam os nossos meninos e meninas góticos)? Quem não gostaria de ter a habilidade e rapidez das respostas de Elizabeth Bennet em situações que nos afrontam?
O que mantém a obra atual é a sofisticação – com perspicácia, simplicidade e humor – com que Jane escreveu sobre pessoas reais.

3. b) Para você, Jane Austen é ainda fonte para tratar da feminilidade, do lugar da mulher na sociedade, de seus sentimentos?
Nunca li ou percebi a obra de Jane Austen em termos de feminilidade e cito partes de seus livros para exemplificar.
Em Razão e sentimento, quando dá a palavra a Willoughby para apresentar seus motivos e arrependimentos pela maneira como agiu com Marianne não tem um discurso feminino, tanto que quase ficamos com pena dele.
Em Persuasão, a carta de amor mais doce de todos seus romances é escrita pelo viril capitão Wentworth: “Já não posso mais ouvir em silêncio. Preciso falar-lhe pelo único meio de que disponho. Desse modo você fere minha alma. Sou metade agonia, metade esperança.”.
E sabia ser ser dura como ninguém, como quando se referiu ao filho dos Musgroves, também em Persuasão: […] tiveram a triste sina de ter um filho incorrigível, e a sorte de perdê-lo antes de chegar aos vinte anos.[…] Raramente se ouvia falar dele e pouco lamentaram quando, dois anos antes chegara a Uppercross a notícia de sua morte no exterior.”*
Quanto ao lugar da mulher na sociedade acho difícil fazer comparações. As mudanças econômicas, sociais e por fim de comportamento sexual nos distanciaram muito daquela época. Mas os sentimentos, como já mencionei, continuam os mesmos.

3. c) Se você teve a oportunidade de assistir a algum desses filmes, por favor, gostaria de sua opinião se fazem justiça à vida/obra de Austen.
Clube de Leitura Jane Austen é um exemplo bem-humorado de como nossos sentimentos continuam os mesmos descritos nas obra de Jane. Já Becoming Jane tem paisagens e atores lindos, mas o mote central do filme, um suposto romance entre Jane e Thomas Langlois Lefroy, perdeu-se como biografia e ficou confuso como ficção.
Das adaptações de Orgulho e preconceito que já vi, achei no geral todas boas. Acredito que, por ser o livro mais lido de Jane Austen, ninguém arrisca inovar muito no roteiro. Eu sou da opinião que qualquer filme que leve alguém a ler o livro em que foi baseado já valeu a pena.

4. Os enredos de Austen são folhetinescos, histórias de garotas que vão ao encontro de um marido, mas seus livros destacam-se pela análise de caráter e pela linguagem crítica, irônica. Pelo seu conhecimento da (escassa) biografia da autora, o que teria permitido que ela avançasse em relação às realizações que “cabiam” a uma mulher do seu tempo e se destacasse na literatura?
Apesar de aparentar um tom folhetinesco, os livros de Jane são histórias complexas em que as mulheres, por questões de costumes da época, precisavam esperar o primeiro movimento do homem; só depois podiam prosseguir suas vidas. Essa espera cheia de regras e etiquetas e das quais dependiam suas vidas, pois quase não haviam empregos dignos, pelos padrões da época, para mulheres, é analisada com profundidade, ironia e elegância por Jane Austen. Outras mulheres escreveram com sucesso na mesma época (Fanny Burney, Mary Wollstonecraft, Ann Radcliffe) e em condições similares. Resta apenas uma  explicação para o destaque de Jane: excepcional acuidade na percepção do comportamento humano e talento, que é raro em qualquer época.

5. Austen é comumente citada como a segunda autora mais importante de língua inglesa, abaixo apenas de Shakespeare. No seu ponto de vista, o que a distingue entre outros grandes nomes da literatura anglicana*?
Aprecio muitos autores ingleses e gosto especialmente de Jane Austen, mas não sou especialista em literatura inglesa nem costumo comparar autores. Sei que Walter Scott, Henry James, G. K. Chesterton, Harold Bloom e muitos outros escreveram com grande admiração sobre a obra dela, mas acredito que o mérito de Jane é vir mantendo os leitores interessados há quase duzentos anos sem precisar de agentes literários ou resenhas em jornais.

6. Na sua opinião, qual a melhor obra da escritora? Por quê?
Orgulho e preconceito. Por seus personagens e o humor delicioso. Mas preciso mencionar Persuasão, uma pequena jóia, publicada postumamente, que ficou pronta mas faltou lapidar, como Jane certamente teria feito.

6. b) E sua personagem preferida?
Elizabeth Bennet e o senhor Darcy… confesso também meu fraco por Henry Crawford e pelo queridíssimo senhor Collins.

* Acredito que ela quis dizer inglesa

Janeite: Marina Nunes

Janeite: Marina NunesNome: Marina Nunes

Colaboradora do Jane Austen Portugal

Cidade: Porto

Hobbies: O meu hobbie é a leitura e o cinema, coisas que com o nascimento do meu filho começaram a ter direito a menos tempo dedicação…

Marina, qual sua opinião sobre Sensibilidade e Bom Senso e sobre Orgulho e Preconceito?

A minha opinião sobre Sensibilidade e Bom Senso e Orgulho e Preconceito é muito diferente.

Conheci Orgulho e Preconceito através da serie da BBC. Comecei a ver por acaso e fiquei “apaixonada”. Colin Firth é para mim o Mr Darcy… Quando descobri que existia um livro exactamente com o mesmo titulo em que a serie era baseada pensei que tinha de o ler… Consegui que a mãe de uma colega da faculdade me emprestasse o livro e ADOREI… O livro é ainda melhor que a serie porque no livro conseguimos estar “dentro” dos personagens e “ler por dentro” o amor de Darcy e de Lizzy fascinou-me…

Sensibilidade e Bom Senso, o filme com Hugh Grant, foi o que vi a seguir. Sem ler a obra e com alta expectativa… mas admito que fiquei desiludida. Se O&P me “apaixonou” desde a primeira vez, Sensibilidade e Bom senso não. Achei Elinor e o seu amado demasiado racionais, demasiado conformados com a vida e achei Marianne demasiado apaixonada, demasiado romântica. Sensibilidade e Bom senso com a sua “racionalidade” em todas as relações e na maioria das relações entre os personagens (com excepção de Marianne, talvez) torna-se demasiado “sem emoção”. Mesmo a emoção de Elinor quando descobre que poderá viver o seu amor não consegue trazer para a historia o sentimento que Orgulho e Preconceito me traz.

Em Orgulho e Preconceito o amor de Darcy por Lizzy, o modo como esse amor o conduz para a conquista da amada, a forma como acaba por se fazer notar perante ela e entrar no seu coração, como luta contra todas as adversidades que aparecem no caminho desse seu amor faz-nos vibrar com ele e sorrir quando o seu amor vence.