Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – parte III

No capítulo 37 que abre o terceiro tomo, levando em consideração a publicação original de Sense and Sensibility, temos Mrs. Jennings contando como “casualmente” soube do namoro secreto de Lucy Steel e Edward Ferrars. E com sua falta de sensibilidade ela diz para Elinor:

There’s for you, my dear!
Veja lá, minha querida!… |PT|
Veja só, minha querida!… |BR|

Não há nada de errado ou estranho com as traduções da exclamação acima. O único detalhe é aquela tradução que faço no  automático quando leio o original e imagino que vocês também o façam.

Nessa exclamação, por exemplo, traduzi mentalmente, “Tenho algo para você, minha querida!” e logo em seguida imaginei mais coloquial ainda: “Esta é para você, minha querida!”.

Após a descoberta do namoro de Edward e Lucy, Elinor conta a verdade para Marianne, mas não quer magoá-la com a realidade ou mesmo sugerir que a irmã se comportasse como ela própria.

She was very far from wishing to dwell on her own feelings, or to represent herself as suffering much, any otherwise than as the self-comand she had practised since her first knowledge of Edward´s engagement might suggest a hint of what was practicable to Marianne.
Não queria acreditar nos seus próprios sentimentos nem mostrar-se muito magoada, como se o controlo que praticara desde que tivera conhecimento no namoro de Edward pudesse sugerir a Marianne a sua praticabilidade. |PT|
Estava longe de querer repisar seus próprios sentimentos, ou de apresentar-se muito sofredora, nem permitiria que o auto-domínio praticado desde que tivera conhecimento do compromisso de Edward pudesse insinuar a Marianne o que ela teria podido fazer. |BR|

Nesta frase tenho duas dúvidas. A primeira é sobre a tradução portuguesa de “She was very far from wishing to dwell on her own feelings”, como “Não queria acreditar nos seus próprios sentimentos” que para mim não fez sentido para mim. Será só uma questão de interpretação de minha parte?

A segunda é o trecho “a hint of what was practicable to Marianne” apesar das diferentes traduções ambas mostram como Marianne deveria proceder: como a prática Elinor. Neste ponto minha dúvida é sobre qual momento Marianne teria que ter sido prática e controlada. Quando soube sobre o noivado de Willoughby ou no presente momento ao saber de Lucy e Edward?

Agora um exemplo das diferenças das traduções, a portuguesa concisa e a brasileira mais explicativa. Talvez por costume, prefiro a segunda.

Marianne’s feelings had then broken in, and put an end to all regularity of detail;
Os sentimentos de Marianne não aguentaram mais e cortou todos os pormenores. |PT|
Os sentimentos de Marianne não haviam aguentado, cortando a regularidade da narrativa; |BR|

Marianne comportou-se admiravelmente bem depois de passado o primeiro impacto da novidades sobre Lucy e Edward e Elinor por sua vez fica contente ao perceber seu comportamento mais comedido. Neste caso a tradução portuguesa me pareceu mais próximo do meu entendimento do original.

Such advances towards heroism in her sister made Elinor feel equal to any thing herself.
Tais passos de sua irmã em direcção ao heroísmo, fizeram que Elinor a sentisse igual a si própria. |PT|
Tais conquistas heróicas de sua irmã fizeram com que Elinor se tornasse mais forte do que nunca. |BR|

No capítulo 38 Lucy Steel já havia assegurado o casamento com Edward Ferrars, mas como sempre, precisa mandar recados para Elinor. Para esse fim usa a irmã, Nancy, que supostamente teria escutado atrás da porta as conversas do casal e para justificar tal ato conta que Lucy também era adepta de tal prática e já havia escutado conversas entre e ela e a amiga Martha Sharpe.

[…] she never made any bones of hiding in a closet, or behind a chimney-board, on purpose to hear what we said.
[…] ela não se importou de se esconder num armário ou atrás da chaminé para ouvir o que dizíamos. |PT|
[…] ela não se incomodou de esconder-se num armário ou atrás da lareira para ouvir o que dizíamos! |BR|

Fiquei intrigada para saber como Lucy se esconderia atrás de uma chaminé, mesmo sendo de uma lareira como está na tradução brasileira. Encontrei a resposta no original que traz uma nota de rodapé identificando chimney-board como uma tela colocada em frente à lareira durante os meses de verão. O que equivale dizer que os leitores de língua inglesa, pelo menos para os americanos (a edição que estou usando é da Barnes and Noble), o termo chimney-board também é desconhecido. Só lamento não ter  encontrado uma imagem dessa peça.

Elinor, no capítulo 40, depois de ofertar em nome do Coronel Brandon a paróquia de Delaford para Edward, especula se os rendimentos oferecidos pelo Coronel, e considerados por este último como muito poucos para um casal, seriam suficientes para Lucy e Edward. A senhora Jennings depois de falar sobre as condições da casa paroquial completa muito sabiamente:

The colonel is a ninny, my dear; because he has two thousand a year himself, he thinks that nobody else can marry on less.
O coronel é um palerma, minha querida. Porque tem duas mil libras por ano, pensa que mais ninguém se pode casar com menos. |PT|
O coronel é um anjo, minha querida; porque tem rendimento de duas mil libras anuais, acha que ninguém consegue casar-se com menos do que isso. |BR|

Os significados que encontrei para a palavra ninny foram: pateta, tolo e bobo. Mas concordo com ambos tradutores, o Coronel Brandon é um anjo palerma!

Na segunda visita de Mr. Harris, o farmacêutico, no capítulo 43, ficou desapontado pois Marianne não havia melhorado com suas medicações:

His medicines had failed; the fever was unabated; and Marianne only more quiet — not more herself — remained in a heavy stupor.
Os seus remédios tinha falhado… a febre não diminuíra; e Marianne apenas mais calada — menos ela própria –, continuava numa forte apatia. |PT|
Os remédios não fizeram efeito; a febre persistia; e Marianne apenas um pouco mais calma — já não mais ela — permanecia num pesado estupor. |BR|

No primeiro momento que li “menos ela própria”, na tradução portuguesa, me pareceu uma contradição ao “Marianne apenas mais calada” e pensei que se referia a outra pessoa.

Tudo ficou claro quando a segunda tradução “já não mais ela”. Mais um exemplo do estranhamento, creio eu, quando leio o português de Portugal.

Willoughby visita Cleveland quando sabe que Marianne está muito mal e tenta se redimir contando para Elinor detalhes de sua vida. Elinor, relutante quer se livrar o mais rápido possível dele e fica de pé e pede que ele seja rápido e menos violento.

Ele então quase ordena:

Sit down, and I will be both.
Sente-se, e sê-lo-ei. |PT|
Permita-me sentar, que farei o possível. |BR|

Aqui temos uma escolha na tradução: a ordem direta em inglês “sit down” é traduzida literalmente na portuguesa, já a brasileira permitiu-se a uma elegância por parte de Willoughby.

Os cavalheiros costumavam sentar-se somente depois das damas e no momento que Willoughby pede permissão, fica evidente que ele espera que Elinor sente-se primeiro.

Assumindo sua culpa Willoughby fala da carta, ditada por sua noiva na época, Miss Grey,

My business was to declare myself a scoundrel; and whether I did it with a bow or a bluster was of little importance.
Competia declarar-me um patife, se o fazia com uma vénia ou com uma bofetada, isso não tinha importância… |PT|
Competia-me declarar-me um patife e pouca diferença havia se o fizesse com uma vênia ou com um insulto. |BR|

Fiquei assustada com a violência das palavras da tradução portuguesa ou será minha parcialidade com Willougby?

Uma bofetada, mesmo sendo perfeitamente cabível, me pareceu pesada nos lábios do patife arrependido. Um insulto ficou mais suave e me pareceu mais indicado. Fui então para o original, “bluster” e encontrei vários significados: tumulto, barulho, com estrépito, jactância, violência e como verbo, vociferar. De fato uma bofetada é uma forma de violência.

Quando as Dashwood recebem a notícia que o senhor Ferrars havia se casado, pelo o criado da casa, no capítulo 48, temos a descrição das reações de Marianne e Elinor.

Marianne gave a violent start, fixed her eyes upon Elinor, saw her turning pale, and fell back in her chair in hysterics.
Marianne endireitou-se abruptamente, fixou os seu olhos em Elinor, viu-a tornar-se pálida e caiu da sua cadeira, histérica. |PT|
Marianne estremeceu violentamente, fixou os olhos em Elinor, viu que sua face empalidecia, reclinava-se na cadeira como se tivesse se sentindo mal. |BR|

Esta frase me deixou confusa e para explicar melhor vou traduzir o que entendi diretamente do original:

Marianne logo que ouviu a notícia e viu Elinor empalidecendo teve imediatamente uma reação violenta, jogou-se para trás na cadeira sob forte emoção.

Não creio que Marianne tivesse literalmente caído da cadeira. No final da frase a palavra “hysterics” está mais para uma reação emocional muito forte do que um ataque histérico no estilo Fanny Dashwood.

A parte final da frase, apesar de me parecer que se refere a Marianne e não a Elinor, como na tradução brasileira, pode ser qualquer uma das irmãs, pois apenas o pronome (her) deixa o sentido vago. Some-se a isso o fato da senhora Dashwood, no parágrafo seguinte, não sabe qual filha confortar primeiro, pois ambas estão muito abaladas.

A senhora Jennings, no capítulo 49, escreve para Elinor contando sobre o casamento de Lucy Steel com Robert Ferrars e de como ela não suspeitava de nada mesmo tendo conversado com a própria Lucy um dia antes do casamento. A tradução portuguesa optou por omitir um pequeno trecho da carta que, na minha opinião, acrescenta mais um dado no caráter de Lucy, além de não ter consideração com a própria irmã: a vaidade de parecer o que não é.

Not a soul suspected any thing of the matter, not even Nancy, who, poor soul! Came crying to me the day after, in a great fright for fear Mrs. Ferrars, as well as not knowing how to get to Plymouth; for Lucy, it seems, borrowed all her money before she went off to be married, on purpose, we suppose, to make a show with, and poor Nancy had not seven shillings in the world; […]

Ninguém suspeitava do assunto, nem mesmo Nancy, que, pobrezinha!, veio ter comigo a chorar, no dia seguinte, com um enorme receio de Mrs. Ferrars, e também sem saber como iria para Plymouth, pois parece que Lucy lhe pedira todo o seu dinheiro emprestado antes de partir para casar e a pobre Nancy nem sequer tinha uma moeda com ela… |PT|

Ninguém suspeitava absolutamente de nada, nem mesmo Nancy, pobrezinha!, que veio ter comigo a chorar no dia seguinte, a morrer de medo da reação da sra. Ferrars, e sem saber como ir a Plymouth, pois Lucy ao que parece lhe pediu todo dinheiro emprestado antes de casar-se, com o fim evidente de fazer figura, e a pobre Nancy ficou sem nada. |BR|

Notei também que ambos tradutores preferiram não mencionar a expressão “not seven shillings in the world”. Procurei por essa expressão e também não achei, se alguém souber, por favor, nos conte!

Edward, no último capítulo (50), mesmo tendo sido admitido na casa de sua mãe depois de tantas reviravoltas, está temeroso em anunciar seu noivado com Elinor. Apesar da ironia da expressão inicial “being allowed once more to live” acredito que a tradução portuguesa de “his constitution” por “sua integridade física” ficou um tanto exagerada para uma possível represália, mesmo por parte da desalmada senhora Ferrars!

In spite of his being allowed once more to live, however, he [Edward] did not feel the continuance of his existence secure till he had revealed his present engagement; for the publication of that circumstance, he feared, might give a sudden turn to his constitution, and carry him off as rapidly as before.
Contudo, apesar de lhe ser permitido viver mais uma vez, ele não sentia segura a continuação da sua existência até que tivesse revelado o seu actual noivado; receava que o conhecimento dessa circunstância pudesse modificar rapidamente a sua integridade física, fazendo-o desaparecer tão rapidamente como antes. |PT|
Contudo, apesar de lhe ter sido permitido viver outra vez, Edward não sentia segura a continuidade de sua existência enquanto não revelasse à mãe o seu atual noivado; pois a divulgação dessa ocorrência, conforme receava, podia implicar uma reviravolta da situação, provocando um novo afastamento. |BR|

No antepenúltimo parágrafo de Razão e sentimento onde ficamos sabendo de um sentimento de Willhoughby que o acompanhou para sempre, em relação à Marianne, descobri dois detalhes.

Sempre li as traduções do primeiro negrito (abaixo) como sendo de Marianne a rudeza ou a indelicadeza (modo ironia ligado) em sobreviver ao perder Willoughby. Somente agora ao ler o original percebi que a falta de civilidade em sobreviver fora de Willoughby ao perder Marianne! Ah! Os benditos pronomes…

A segunda questão também está na minha leitura das traduções. Lendo o original e a tradução de Ivo Barroso – o segundo negrito – entendo perfeitamente que Willoughby não podia ver uma mulher bonita que de imediato já pensava em Marianne e a considerava sempre a mais bonita dentre todas.

Mas ao ler a tradução portuguesa fiquei cismando que mais do que olhar e comparar Marianne com outras mulheres, o nosso patife mais simpático continuava um namorador, isso sim!

For Marianne, however, in spite of his incivility in surviving her loss, he always retained that decided regard which interested him in every thing that befell her, and made her his secret standard of perfection in woman: and many a rising beauty would be slighted by him in after-days as bearing no comparison with Mrs. Brandon.
Contudo, por Marianne – apesar de sua rudeza em sobreviver à sua perda – conservou sempre aquela afeição decidida, que o interessava por tudo o que lhe acontecia e fazia dela seu modelo secreto de perfeição feminina… e, muitas vezes, quando lhe aparecia uma rapariga bonita, ela era negligenciada dentro de alguns dias, por não ter qualquer comparação com Mrs. Brandon. |PT|
Por Marianne, entretanto – apesar de sua indelicadeza em sobreviver à sua perda –, conservou sempre aquela afeição marcante que o fazia interessar-se por tudo que lhe dizia respeito, tornando-a seu modelo secreto de perfeição feminina… e muitas beldades futuras haveria de olhar com desdém quando as comparava com a sra. Brandon. |BR|

E com o lindo sorriso de Hattie Morahan, a Elinor Dashwood de 1988, termino a leitura comparada das traduções brasileira e portuguesa de Razão e sentimento eSensibilidade e bom senso, traduzidas respectivamente por Ivo Barroso e Maria Luísa Ferreira da Costa.

Muitíssimo obrigada, Catia Pereira! E já fica aqui o convite para o bicentenário deOrgulho e preconceito!

Abaixo todos os links da leitura comprara e textos anexos.

  • Abreviações usadas nos textos:|1| Capítulo do livro |PT| Tradução portuguesa |BR| Tradução brasileira
  • Texto publicado originalmente em 3 de maio de 2012 no meu blog Lendo Jane Austen.
  • PROGRAMAÇÃO DA  LEITURA COMPARADA: links no primeiro artigo

Sense and Sensibility Brasil-Portugal – parte II

 

Retomo a leitura comparada de Razão e sentimento e Sensibilidade e bom senso – Sense and Sensibility – no capítulo 23 no qual Elinor pondera sobre os fatos que levaram Lucy Steel a revelar seu relacionamento com Edward Ferrars. Ela chega a conclusão que este tivera uma paixoneta |PT|, ou como dizemos no Brasil, uma paixonite por Lucy. Na tradução brasileira esse termo está como “arroubos juvenis”.

As irmãs Dashwood estão prestes a partir para Londres e Elinor está ansiosa para finalmente desvendar o caráter de Willoughby e neste ponto a tradução portuguesa me parece que excluiu o conhecimento de terceiros (grifos meus):

|26[…] and Elinor was resolved not only upon gaining every new light as to his character which her own observation or the intelligence of others could give her, […]
|PT| […] e Elinor estava decidida não apenas a adquirir nova luz sobre os seu caráter,mais através da sua própria observação do que através da dos outros, […]
|BR| e Elinor estava decidida não apenas a fazer nova avaliação de seu caráter, através da sua própria análise ou do conhecimento de outros […]

Assim que chegaram a Londres, Elinor desconfiou que a carta que Marianne escrevera era para Willoughby, não só pela letra W que ela vislumbrou, mas também por ter dado sido enviada para two-penny post (dois centavos) uma agência postal para correspondências dentro da própria cidade. Esta informação, apesar não ser essencial pois já sabemos da letra W, não consta na tradução brasileira.

|26[…] and no sooner was it complete than Marianne, ringing the bell, requested the footman who answered it to get that letter conveyed for her to the two-penny post. This decided the matter at once.
|PT| logo que o completou, Marianne, tocando a campanhia, pediu ao criado que a atendeu para enviar aquela carta para o correio, com um selo de dois pennys… Isto clarificou imediatamente o assunto.
|BR| Mal acabou de escrever, Marianne tocou a campanhia, pedindo ao criado que veio atender que a [carta] levasse imediatamente ao correio. Isso definiu perfeitamente o assunto.

Marianne não podia ver um bilhete sequer chegando na casa de Mrs. Jennings que pensava que era para ela, e uma de suas observações dá o tom de atrevimento a que havia chegado nossa romântica heroína. Gostei das duas traduções.

|27But Marianne, not convinced, took it instantly up.
“It is indeed for Mrs. Jennings; how provoking!”
|PT| Mas Marianne não se convenceu e pegou nele imediatamente.
— É na verdade para Mrs. Jennings. Que ultrajante!
|BR| Sem se convencer disso, Marianne tomou-o, rápida.
— É mesmo para a sra. Jennings! Quem diria!

Ainda no capítulo 27 o Coronel Brandon fala do envolvimento de Marianne com Willoughby usando a palavra engagement. As traduções foram “namoro” |PT| e “noivado” |BR|. Mais adiante, no capítulo 29, Marianne usa o mesmo termo e a tradução fica “namoro” |PT| e “compromisso” |BR|. Todos os termos são corretos mas prefiro compromisso que me remeta melhora para a época de Jane Austen onde um simples namoro já era considerado um compromisso, e sério. A minha dúvida fica por conta do peso e significado da palavra “namoro” em Portugal, tanto na época como atualmente.

Window SeatsNesta leitura descobri as window-seats, “assentos de janela |PT| ou “conversadeiras” |BR| e gostei particularmente do nome dado no Brasil para tais cadeiras. Fico a imaginar tempo as mulheres ficavam na janela conversando, e talvez namorando,  naquela época. A imagem ao lado é de uma conversadeira do período da Regência, c. 1820.

Quando a senhora Jennings descobre que Willoughby está noivo de outra moça roga-lhe uma praga bastante severa, que na minha opinião, ficou branda na tradução portuguesa.

|30[…] and I wish with all my soul his wife may plague his heart out.
|PT| […] e desejo sinceramente que a sua mulher lhe desfaça a paciência.
|BR| […] e desejo do fundo de minha alma que sua mulher lhe faça da vida um inferno.

A diálogo de Elinor com o Coronel Brandon sobre a descoberta do envolvimento de Willoughby com a protegida do Coronel o e posterior encontro deles para um acerto de contas já narrei neste post: “O duelo de Razão e sentimento”, onde comparei as traduções de Ivo Barroso e Dinah Silveira de Queiroz. A diferença é a mesma nesta leitura comparada: a palavra duelo é mencionada apenas por Ivo Barroso.

|31| Have you,” she continued, after a short silence, “ever seen Mr. Willoughby since you left him at Barton?”
“Yes,” he replied gravely, “once I have. One meeting was unavoidable.”
Elinor, startled by his manner, looked at him anxiously, saying,
“What? have you met him to–”
“I could meet him no other way. Eliza had confessed to me, though most reluctantly, the name of her lover; and when he returned to town, which was within a fortnight after myself, we met by appointment, he to defend, I to punish his conduct. We returned unwounded, and the meeting, therefore, never got abroad.”
Elinor sighed over the fancied necessity of this; but to a man and a soldier she presumed not to censure it.
|PT| Viu — depois de um curto silêncio, continuou — mais uma vez Mr. Willoughby desde que deixou Barton?
— Sim, vi — replicou gravemente — uma vez. Um encontro era inevitável.
Elinor, espantada pelos seus modos, olhou-o ansiosamente, dizendo:
— O quê? Encontrou-o para…
—  Não podia encontrá-lo para outro fim. Eliza confessou-me com muita relutância o nome do seu amante; e quando ele regressou para a cidade, o que aconteceu quinze dias depois da minha vinda, marcámos um encontro, para ele se defender e para eu provar a sua conduta. Separámo-nos sem ressentimentos e portanto o encontro nunca se espalhou.
|BR| […] O senhor voltou a ver — perguntou ela a Brandon, após um breve silêncio — o sr. Willoughby, depois que deixou Barton?
— Voltei — replicou o coronel gravemente. — Uma única vez. Um encontro era inevitável.
— Como? Bateram-se em duelo?
— Não havia outra solução. Elisa, embora com relutância, confessou-me o nome de seu amante; e quando ele regressou a Londres, uns quisnze dias depois de eu próprio aqui chegar, marcamos um encontro, ele para defender sua conduta, e eu para castigá-la. Terminamos sem que nenhum saísse ferido, e o duelo nunca chegou a ter repercussão.
Elinor suspirou e duvidou da necessidade daquilo; mas a um homem e soldado presumiu que nada devia censurar.

No capítulo 30, Mrs. Jennings tenta curar os males de amor da Marianne com the finest old Constantia wine, ou  o “melhor vinho velho de Constantia” |PT| ou ainda o “excelente vinho de Constância” |BR| que hoje tem um similar da mesma região chamado Vin de Constance sobre o qual fiz um artigo: “O bom e velho Constância”.

NOTAS

  • Abreviações usadas nos textos:|1| Capítulo do livro |PT| Tradução portuguesa |BR| Tradução brasileira
  • Texto publicado originalmente em 7 de setembro de 2011 no meu blog Lendo Jane Austen.
  • PROGRAMAÇÃO DA  LEITURA COMPARADA: links no primeiro artigo

Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – parte I

Cátia, do Jane Austen Portugal eu, do Jane Austen Português, estamos lendo (sem comentarmos entre nós, de modo a não nos influenciarmos mutuamente) duas traduções, uma portuguesa e outra brasileira, de Sense and Sensibility. A leitura, que está sendo um aprendizado maravilhoso, é para comemorar o bicentenário da publicação de Sense and Sensibility, o primeiro livro publicado de Jane Austen.

Eu optei por uma breve introdução com as primeiras impressões, seguida das diferenças e/ou discrepâncias e dúvidas que encontrei na leitura até o capítulo 22. Na última parte – esta leitura será relatada em três partes –, tendo lido toda a obra nas duas traduções, darei minha opinião de leitora amadora de Jane Austen, pois esta não é uma leitura comparada acadêmica.

As traduções que estamos usando na leitura são: Sensibilidade e Bom Senso, edição Europa-América na tradução de Maria Luísa Ferreira da Costa e Razão e sentimento, edição Nova Fronteira na tradução de Ivo Barroso. O original para pesquisa, no meu caso, é a edição da Barnes and Noble.

Dentre as diferenças básicas que notei na leitura destes primeiros capítulos, uma delas foi o uso das abreviaturas de tratamento. A edição portuguesa manteve as abreviaturas em inglês: Mrs. e Mr. A brasileira optou por traduzir por “sra.” e “sr.”.

Outro detalhe foi  a tradução literal dos parentescos na edição portuguesa. Aqui cabe uma explicação. Quando uma moça ou rapaz se casavam passavam a ser considerados filhos das respectivas familias e eram mencionados como tal nos livros de Jane Austen (exemplo abaixo). O tradutor brasileiro optou por descrever o parentesco como usamos no Brasil, (Sobre essas designações e tratamentos leiam a entrevista de Ivo Barroso). Restou desta leitura uma pergunta: em Portugal, atualmente, usa-se essa forma de referir-se às noras e genros, como filhos e filhas?

|01|In the society of his nephew and his niece, and their children, the old gentleman´s days were confortably spent.
|PT| Os dias do velho senhor passaram-se agradavelmente na companhia do seu sobrinho, sobrinha e respectivas filhas.
|BR| Em companhia do sobrinho, sua mulher e os filhos do casal, o velho solteirão teve conforto no seu fim de vida.

A minha primeira estranheza foi na segunda frase do livro onde não entendi o uso da palavra mesmo (grifo meu). Será uma maneira portuguesa de escrever?

|01| Their state was large, and their residence was at Norland Park, in the centre of their property […]
|PT| A sua propriedade era grande e mesmono centro situava-se Norland Park, a sua residência […]
|BR| Suas terras eram extensas e a mansão de Norland Park ficava no meio da propriedade […]

A descrição de Margaret Dashwood na edição portuguesa, na minha interpretação, indica que a menina não teria possibilidade de igualar-se as irmãs no futuro; e na brasileira, que apenas não igualava-se no presente momento, pela diferença de idade em relação às irmãs. E finalmente, no original, também não consegui me decidir com o uso da expressão “bid fair“. Desigualdade no presente apenas, ou no futuro?

|01| Margaret, the other sister, was a good-humored, well-disposed girl; but as she had already imbibed a good deal of Marianne’s romance, without having much of her sense, she did not, at thirteen, bid fair to equal her sisters at a more advanced period of life. |PT| Margaret, a outra irmã, era uma rapariga simpática e bem-humorada, mas estava ainda influenciada em grande parte pelo romantismo de Marianne, e não possuindo a sua sensatez, não parecia, aos treze anos de idade, poder a vir igualar-se com as irmãs daqui a alguns anos. |BR| Margaret, a outra irmã, era uma jovem e bem-disposta, mas como absorvera uma boa parte do romantismo de Marianne, sem guardar muito de seu bom senso, não conseguia, aos treze anos, rivalizar com as irmãs que já estavam num período de vida mais avançado.

A idade de Marianne mencionada nos capítulos três, oito e dez, estão diferentes nas duas traduções (dezesseis e dezessete) e como para explicar foi preciso recorrer aos capítulos finais, farei um post “A idade de Marianne Dashwood” e colocarei na programação (abaixo).

A primeira visita de Willoughby, que abre o capítulo dez, na tradução portuguesa diz algo completamente diferente do original. Não consigo entender o que ocorreu com esta frase, é como se tivesse sido traduzida por outra pessoa, que não o tradutor.

|10| Marianne’s preserver, as Margaret, with more elegance than precision, styled Willoughby, called at the cottage early the next morning to make his personal enquiries.
|PT| Margaret como acompanhante de Marianne, com maior elegância que precisão, acalmou Willoughby, que viera cedo, na manhã seguinte à casa para saber pessoalmente como ela passava.
|BR| O guardião de Marianne, título que Margaret, com mais elegância que precisão, atribuíra a Willoughby, apareceu na manhã seguinte bem cedo à porta do chalé para saber pessoalmente do estado dela.

No capítulo dezessete, Elinor e Marianne conversam sobre dinheiro e casamento. A quantia que Marianne considera necessária para uma vida minimamente confortável é para Elinor uma vida de riqueza. Na tradução portuguesa ocorreu algo comum, pelo menos acontece comigo, que é a confusão quando menciona centena (hundred) e milhar (thousand). Neste caso a forma como foi colocado o primeiro valor, eighteen hundred (dezoito centos), levou erroneamente ao “cento e oitenta”. O certo é ”um mil e oitocentos”. E para que os valores ficassem equivalentes, acabou por traduzir two thuousand por “duzentos”!

|17| “About eighteen hundred or two thousand a year; not more than that.”
Elinor laughed. “Two thousand a year! One is my wealth! ” […]
|PT| — Cerca de cento e oitenta a duzentas libras por ano; não mais do que isso.
Elinor riu-se:
— Duzentas libras por ano! Cem eram a minha riqueza! […]
|BR| — Cerca de mil e oitocentas a duas mil libras anuais; nada mais do queisso.
Elinor riu.
— Duas mil libras por ano! Com mil eu estaria rica!

Vocês devem ter percebido que ao fim e ao cabo tenho mais dúvidas do que explicações, mas creio que na troca de informações com os leitores boa parte delas serão esclarecidas.

NOTAS

A idade de Marianne Dashwood

A idade de Marianne Dashwood despertou minha curiosidade ao ler as traduções* deSense and Sensibility para o desafio do bicentenário da publicação do livro.

|3Remember, my love, that you are not seventeen.
|PT| — Lembra-te, minha querida, de que ainda não tens dezassete anos.
|BR| — Lembre-se, minha querida, de que você ainda não tem dezesseis anos.

No capítulo três, ainda em Norland Park, a senhora Dashwood diz para Marianne que ela é ainda muito nova para achar que jamais vai encontrar o companheiro ideal. Na tradução brasileira bastaria retirar o “não” e a frase ficaria perfeitamente correta: “Lembre-se, minha querida, de que você tem dezesseis anos.”

As Dashwoods ficaram por seis meses em Norland após a morte do pai. Minha dúvida: terá Marianne completado 17 anos antes de deixar Norland Park?

~~·~~

|8“Perhaps,” said Elinor, “thirty-five and seventeen had better not have any thing to do with matrimony together.
|PT| — Diz antes — disse Elinor — que trinta e cinco anos e dezassete anos é preferível nada terem em comum com um casamento
|BR| — Talvez — disse Elinor — trinta e cinco e dezesseis nada tenham a ver  em comum com o casamento.

Pela afirmação de Elinor, no oitavo capítulo, parece que Marianne já completara 17 anos e as insinuações de casamento feitas pela sra. Jennings a incomodavan por demais. E assim sendo a tradução brasileira não teria motivos por manter 16 anos.

~~·~~

|10Marianne began now to perceive that the desperation which had seized her at sixteen and a half, of ever seeing a man who could satisfy her ideas of perfection, had been rash and unjustifiable.
|PT| Marianne começava a perceber que o desespero, que a atingira aos dezasseis anos e meio, por pensar que nunca veria o homem que satisfizesse as suas noções de perfeição, fora apressado e injustificado.
|BR| Marianne começou a perceber que o desespero que dela se havia apossado, entre os dezesseis e os dezessete anos, quanto à possibilidade de encontrar na vida um homem capaz de corresponder ao seu ideal de perfeição era algo apressado e injustificável.

No capítulo nove, Marianne conhece Willoghby e no capítulo seguinte recorda seu tempo em Norland, quando tinha ainda 16 anos. Neste ponto fica claro que Marianne já estava com 17 anos quando encontrou Willoughby.

~~·~~

|49A three weeks’ residence at Delaford, where, in his evening hours at least, he had little to do but to calculate the disproportion between thirty-six and seventeen, brought him to Barton in a temper of mind which needed all the improvement in Marianne’s looks, all the kindness of her welcome, and all the encouragement of her mother’s language, to make it cheerful.
|PT| Uma estada de três semanas em Delaford onde, pelo menos durante os serões, pouco mais tinha a fazer do que calcular a despreocupação[¹] entre trinta e seis e dezassete, trouxe-o para Barton com uma disposição com uma disposição que bem necessitava de todo o benefício do olhar de Marianne, de toda a amabilidade das suas boas-vindas e de todo o encorajamento das palavras de sua mãe para o tornar alegre.
[¹] aqui a única palavra que faz sentido é desproporção.
|BR| Após ter permanecido três semanas em Delaford, onde, pelo menos à noite, pouco tinha a fazer senão calcular a desproporção entre os trinta e seis e os dezessete anos, o coronel retornou a Barton num estado de espírito tal que necessitou de todos os incentivos do olhar de Marianne, de toda gentileza de sua recepção, e de todo o estímulo das palavras de sua mãe para torná-lo alegre.

No capítulo 49, o Coronel Brandon começa a frequentar o chalé de Barton e diferença de idade entre ele e Marianne continua a atormentar seus pensamentos. A surpresa fica por conta da comparação: 36 e 17 anos. Se levarmos em conta as datas originais dos parágrafos anteriores, a comparação correta seria entre 35 e 17, ou então entre 36 e 18.

~~·~~

|50| She [Marianne] was born to overcome an affection formed so late in life as at seventeen, and with no sentiment superior to strong esteem and lively friendship, voluntarily to give her hand to another! — and that other, a man who had suffered no less than herself under the event of a former attachment, whom, two years before, she had considered too old to be married, […]
[…] she found herself at nineteen, submitting to new attachments, entering on new duties, placed in a new home, a wife, the mistress of a family, and the patroness of a village.
|PT| Nascera [Marianne] para vencer uma afeição que aparecera tão tarde na sua vida, aos dezassete anos, e para dar a sua mão a outro, pelo qual não sentia nada superior à forte estima e grande amizade!… E esse outro era um homem que não sofrera menos que ela por causa de uma afeição anterior, que dois anos antes ela considerara velho demais para casar […] encontrou-se aos dezanoveanos submetendo-se a novos afectos, iniciando novos deveres, instalada numa nova casa; era uma esposa, a senhora de uma família e a senhora de uma aldeia.
|BR| Nascera [Marianne] para superar uma afeição que aparecera em sua vida já aos dezessete anos, e, sem a ajuda do outro sentimento senão a da forte estima e uma viva amizade, voluntariamente dar a mão a outro!… e este outroera um homem que havia sofrido não menos que ela por causa de uma afeição anterior, e a quem, dois anos antes, ela havia considerado velho demais para casar-se…
[…] encontrou-se, aos dezenove anos, inclinada a novos afetos, encarregada em novos deveres, colocada num novo lar para ser a esposa, a mãe de uma família e a senhora de um padroado.

Que conheceu Willoughby aos dezessete anos e casou-se ao dezenove com o Coronel Brandon, não há dúvidas. Mesmo assim me pergunto: qual a idade do coronel quando se casou, 37 ou 38?

  • * Sen­si­bi­li­dade e Bom Senso, edi­ção Europa-América na tra­du­ção de Maria Luísa Fer­reira da Costa e Razão e sen­ti­mento, edi­ção Nova Fron­teira na tra­du­ção de Ivo Bar­roso.
  • “A Calendar For Sense and Sensibility” Precioso documento de autoria de Ellen Moody, publicado em 2000 no Philological Quarterly, 79.

A publicação de Sense and Sensibility – Parte 1

Em 1811 Jane Austen estava com 35 anos e finalmente seu primeiro livro seria publicado. Imagino a alegria e a apreensão de Jane, nesse início de ano, conferindo as provas e acertando os detalhes pedidos por seu editor, Thomas Egerton.

Jane Austen referiu-se a Sense and Sensibility – Razão e sentimento ou Razão e sensibilidade – em várias cartas, mas somente uma delas foi antes da publicação: a carta endereçada à irmã, Cassandra, em 25 de abril de 1811. Transcrevo abaixo apenas o trecho que se refere ao livro.

No indeed, I am never too busy to think of S&S [¹]. I can no more forget it, than a mother can forget her suckling child; & I am much obliged to you for your enquiries. I have had two sheets to correct, but the last only brings us to W.s [²] first appearance. Mrs. K [³] regrets in the most flattering manner that she must wait till May, but I have scarcely a hope of its being out in June. – Henry does not neglect it; he has hurried the Printer, & says he will see him again today. – It will not stand still during his absence, it will be sent to Eliza. – The Incomes remain as they were, but I will get them altered if I can. – I am very much gratified by Mrs. K.s interest in it; & whatever may be the event of it as to my credit with her, sincerely wish her curiosity could be satisfied sooner than is now probable. I think she will like my Elinor, but cannot build on anything else.
(Jane Austen’s Letters, Deidre Le Faye)

Claro que não, eu nunca estou ocupada demais para pensar em S&S [¹]. Não posso mais esquecê-lo, do mesmo modo que uma mãe não poderia esquecer de amamentar seu filho; e sou muito grata a você por seus questionamentos. Tive de corrigir duas folhas, mas apenas a última trata da primeira aparição de W. [²]. A sra. K [³] lamenta, e da forma mais lisonjeira, que ela tenha de esperar até maio, mas tenho poucas esperanças de que o livro seja publicado em junho. – Henry não descuida desse trabalho; ele tem apressado o impressor e diz que voltará a vê-lo hoje. – O texto não ficará parado durante sua ausência, e será enviado para Eliza. – Os rendimentos ficam como estavam, mas vou tentar alterá-los. – Sou muito grata à sra. K. por seu interesse no livro; e qualquer que seja o meu crédito com ela, desejo sinceramente que sua curiosidade possa ser satisfeita mais rápido do que agora é provável. Acho que ela gostará de minha Elinor, mas não posso especular sobre o que irá acontecer.
(trad. Rubens Enderle)

[¹] Sense and Sensibility
[²] Mrs. K. – senhora Knight, que adotou Edward, irmão de Jane Austen
[³] W.s – Willoughby

Alguns detalhes na carta me chamaram a atenção. O primeiro deles foi o agradecimento a irmã pelos questionamentos (dúvidas). Nesta frase podemos imaginar a influência de Cassandra no processo de revisão e mesmo elaboração dos livros de Jane Austen.

O empenho do irmão na publicação de Sense and Sensibility mostra que desde o primeiro livro Henry Austen participou ativamente da vida literária da irmã. O que não quer dizer que ela não tomasse parte no processo, como por exemplo, a tentativa de melhorar os rendimentos. Será que conseguiu?

Outro detalhe é a primeira menção a Willoughby que dá-se nas duas primeiras frases (abaixo), no capítulo 9:

A gentleman carrying a gun, with two pointers playing round him, was passing up the hill and within a few yards of Marianne, when her accident happened. He put down his gun and ran to her assistance. […] The gentleman offered his services; and perceiving that her modesty declined what her situation rendered necessary, took her up in his arms without farther delay, and carried her down the hill.

Um jovem, que trazia uma espingarda de caça e estava acompanhado por dois cães que brincavam em redor dele, passava pela encosta exatamente a poucos metros de Marianne, quando o acidente aconteceu. Pousou no chão a espingarda em correu em seu auxílio. […]  O senhor ofereceu-lhe seus préstimos, e percebendo que o recato da moça a levava a recusar o que a situação tornava necessário, tomou-a nos braços sem maiores delongas e carregou-a pela encosta abaixo.
(trad. Ivo Barroso)

Elinor and her mother rose up in amazement at their entrance, and while the eyes of both were fixed on him with an evident wonder and a secret admiration which equally sprung from his appearance, he apologized for his intrusion by relating its cause, in a manner so frank and so graceful that his person, which was uncommonly handsome, received additional charms from his voice and expression.

Elinor e a mãe ergueram-se espantadas à entrada deles, e enquanto os olhos de ambas estavam fixados no homem com evidente surpresa e secreta admiração, que provinham igualmente de sua aparência, ele desculpou-se por sua intromissão, explicando-lhes a causa de maneira tão franca e graciaosa, que sua figura, invulgarmente atraente, ficou acrescida dos encantos de sua voz e expressão.
(trad. Ivo Barroso)

Eis Willoughby, cantado em prosa e imagem!

Receio que as modificações que Jane Austen fez na primeira aparição do rapaz nos levam hoje, duzentos anos depois, a simpatizar com este sacripanta!

  • Texto publicado originalmente em 13 de março de 2011 no meu blog Lendo Jane Austen.

Queen Mab, razões, sentimentos e sonhos

Queen Mab é o nome da linda égua que Willoughby pretendia presentear Marianne Dashwood.

Queen Mab

O presente, como sabemos, foi recusado por ser impróprio. Uma moça solteira receber um presente tão valioso de um rapaz que sequer era seu noivo, era de uma impropriedade a toda prova. E para completar as Dashwoods não tinham recursos para manter um cavalo.

Willoughby, ao saber da recusa, consola Marianne:

“But, Marianne, the horse is still yours, though you cannot use it now. I shall keep it only till you can claim it. When you leave Barton to form your own establishment in a more lasting home, Queen Mab shall receive you.”

Mas, Marianne, o cavalo continua a seu dispor mesmo que não venha a recebê-lo agora. Fica sob a minha guarda até quando você puder reclamá-lo. Quando deixar esta casa para se instalar na sua definitiva, Queen Mab estará à sua espera.
(trad. Ivo Barroso, Razão e sentimento)

Mas, Marianne, o cavalo será sempre seu, apesar de não o poder usar agora. Apenas o conservarei até que o possa receber. Quando deixar Barton para se fixar numa casa definitivamente, Queen Mab estará à sua espera.
(trad. Maria Luisa Ferreira da Costa, Sensibilidade e bom senso)

Esta fala de Willoughby é dúbia. Não sabemos se naquele momento pensava verdadeiramente casar com Marianne ou queria apenas consolá-la com a possibilidade do casamento.

No final, o presente, fazendo jus ao nome, não passou de sonho e quase virou um pesadelo. Queen Mab aparece em várias obras da literatura inglesa e ficou mais conhecida pelo monólogo do personagem Mercúcio de Shakespeare, em Romeu e Julieta.

No primeiro ato, cena quatro, Romeu discute a veracidade dos sonhos com seu amigo Mercúcio que inicia um longo monólogo onde menciona a rainha Mab, a parteira das fadas. Coloco apenas parte do texto pois somente em inglês está no domínio público, mas acredito que dá para entender a escolha de Jane Austen para o nome do presente de Willoughby para Marianne.

O, then, I see Queen Mab hath been with you.
She is the fairies’ midwife, and she comes
In shape no bigger than an agate-stone
On the fore-finger of an alderman,
Drawn with a team of little atomies
Athwart men’s noses as they lie asleep;
[…]
This is that very Mab
That plats the manes of horses in the night,
And bakes the elflocks in foul sluttish hairs,
Which once untangled, much misfortune bodes:
This is the hag, when maids lie on their backs,
That presses them and learns them first to bear,
Making them women of good carriage:
This is she—
Romeo and Juliet, Shakespeare, 1594 – Act I, Scen IV

Mercúcio – É a parteira das fadas, que o tamanho
não chega a ter de uma preciosa pedra
no dedo indicador de alta pessoa.
Viaja sempre puxada por parelha
de pequeninos átomos, que pousam
de través no nariz dos que dormitam.
[…]
[…] É a mesma Rainha Mab
que a crina dos cavalos enredada
deixa de noite e a cabeleira grácil
dos elfos muda em sórdida melena
que, destrançada, augura maus eventos,
Essa é a bruxa que, estando as raparigas
de costas, faz pressão no peito delas,
ensinando-as, assim, como mulheres,
a aguentar todo o peso dos maridos.
É ela, ainda…
(trad. Carlos Alberto Nunes, Biblioteca Folha, 1998)

UPDATE: Recebi do poeta Ivo Barroso um excerto da linda tradução de Onestaldo de Pennafort

Pelo que vejo, foste visitado
pela rainha Mab. Ela é a parteira
entre as fadas. E é tão pequenininha
como a ágata do anel que os conselheiros
usam no indicador. Puxada por parelhas
de minúsculos átomos passeia
por cima do nariz dos dorminhocos.
Feitos de pernas longas de tarântulas
são os raios das rodas de seu carro;
de asas de gafanhotos, a coberta;
as rédeas são da teia de uma aranha;
de úmidos raios de luar, o arreio;

de osso de grilo, o cabo do chicote
e o rebenque de um fio de cabelo.
O seu cocheiro, de libré cinzenta,
é um mosquitozinho duas vezes
menor do que o bichinho redondinho
tirado com uma agulha do dedinho
das criadas preguiçosas; a carruagem
é uma metade de avelã vazia
e toda trabalhada, obra de entalhe
devida ao mestre-entalhador esquilo,
ou talvez seja mesmo do caruncho,
velho segeiro imemorial das fadas.
Nessa equipagem é que ela galopa
todas as noites através do cérebro
dos amantes, que então sonham com o amor.

A melhor interpretação para o monólogo que encontrei foi a do ator John McEnery, naversão de Franco Zefileri, 1968.

  • Apesar da belíssima filmagem de 2008, no livro Marianne nunca chega a conhecer o presente
  • Há também um poema de Percy Bysshe Shelley (1792-1822): Queen Mab: A Philosophical Poem
  • Texto publicado originalmente em 21 de fevereiro de 2011 no meu blog Lendo Jane Austen.