Trabalhos de conclusão de cursos sobre Jane Austen

Desde que iniciei o blog, em 2008, tenho recebido pedidos de ajuda em relação aos TCCs (trabalhos de conclusão de curso), sejam eles monografias, teses ou dissertações sobre Jane Austen e sua obra e por esse motivo resolvi fazer este post para tentar resumir no que posso efetivamente ajudar.

Antes de mais nada é preciso deixar claro que todos os textos escritos por mim no blog Jane Austen em Português são a minha opinião de leitora da obra de Jane Austen e não trabalhos acadêmicos. O que não impede de serem citados – mas não copiados integralmente – com o devido crédito. Há também alguns artigos de leitores convidados e que seguem as mesmas normas.

Voltando aos pedidos de ajuda: percebi que muitas vezes a pessoa gosta muito de Jane Austen mas não sabe exatamente o que fazer. Sobre essa questão somente os professores podem orientar para decidir afinal qual será o tema de estudo para dar início à pesquisa.

Acredito, e sempre digo para todos que me perguntam sobre trabalhos e pesquisas, que o principal é ler a obra de Jane Austen, se possível no original, e a partir dessa leitura certamente descobrirá o objeto de seu estudo. Mesmo que pretenda fazer um trabalho sobre filmes e séries inspirados na obra de Jane Austen é necessário ler pelo menos o livro do filme em questão.

A primeira leitura que recomendo no blog é o ÍNDICE, onde indico posts e páginas, além da listas com livros e filmes. Outra leitura importante é a página “Traduções brasileiras que recomendo de Jane Austen”.

Boa sorte com os trabalhos!

(Este post será atualizado sempre que houver novidades.)

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Lendo Mansfield Park pela primeira vez

Esta resenha de Mansfield Park é a primeira leitura de Fernanda Huguenin, leitora e amiga que já escreveu outros textos aqui no Jane Austen em Português .

Fernanda leu a tradução de Rodrigo Breunig de Mansfield Park, publicada pela L&PM e como todos sabem um dos livros que aos admiradores de Jane Austen tem maior dificuldade de se identificar ou melhor dizendo, simpatizar com os personagens, principalmente pela pequena Fanny Price.


Lendo Mansfield Park pela primeira vez

Mansfield Park, editora L&PM

Lendo Mansfield Park pela primeira vez

“Todos temos em nós mesmos um conselheiro melhor do que qualquer outra pessoa poderá ser.”

Mansfield Park é conhecido como o romance mais controverso de Jane Austen, o mais sério (e melancólico). O livro tem uma narrativa bem descritiva e lenta (assim como Emma) e cuja protagonista é muitas vezes taxada como a mais fraca já criada por Austen, muitas vezes sendo vista como uma santa pelos fãs.

Fanny Price é diferente das heroínas mais populares criadas por Jane Austen. Fanny é frágil, tímida, sensível e muito prestativa para com os outros, a ponto de ser opressivo para ela.

Na minha visão Fanny passa longe de ser santa, pois mesmo tendo consciência de que é desprezada por boa parte da família Bertram ela tem seus momentos de raiva e inveja por sofrer injustiças enquanto seus primos Maria, Julia e Tom são mimados ao extremo sem merecer.

Fanny, no seu papel de  observadora constante, analisa as atitudes ao seu redor, muitas vezes achando defeitos (existentes) e as falhas de caráter que são deixadas de lado pelos bajuladores, já que o que importa é o sobrenome e as milhares de libras que a pessoa possui.

Mesmo passando por situações embaraçosas em Mansfield Park, sua nova casa, Fanny consegue viver feliz e tranquila, sendo tratada como a parenta pobre e recebendo uma atenção fria porém educada da família Bertram, tendo como único amigo e confidente seu primo Edmund Bertram.

Como leitora, Fanny me cativou com seu jeito delicado e silencioso de ser, mesmo ela sendo forçada a sempre ser tolerante com certos tratamentos injustos, ela demonstrou ter uma personalidade muito forte e criteriosa para diferenciar o certo do errado, coisa que seus parentes não tinham. E como todo personagem de Austen, mostra ser muito inteligente, coisa que é totalmente ignorada pelas suas primas esnobes Maria e Julia Bertram, que a acham uma menina estúpida.

Serei sincera, o defeito da Fanny é ser respeitosa demais com os parentes ricos, ela tem receio de parecer ingrata para com eles. Esse defeito é algo ruim e bom ao mesmo tempo. Pelo lado negativo ela sempre será o bode expiatório de alguns e pelo lado positivo ninguém, exceto a sra.Norris, pode culpá-la por alguma falta que ela faz. Esse jeito passivo da Fanny é o que incomoda muitas fãs da Austen. Também me incomodou quando li os trechos de injustiças mas depois, quando parei para analisar, vi que sendo a família de Sir Thomas Bertram, na sua maior parte formada por pessoas orgulhosas, sensíveis à censuras e prontas para criticar e castigar Fanny pela sua “ingratidão”, acabei vendo que se a pobre srta.Price tentasse reclamar de algo só iria piorar as coisas para si mesma.

Fanny não faz parte dos personagens que precisam fazer alarde para impor suas opiniões e vontades para os que a cercam (isso muitas vezes soa infantil), ela guarda suas opiniões para si mesma (já que poucos ligam para o que ela pensa), afinal seu pensamentos são seus melhores amigos e devem ser mostrados apenas para os que merecem e querem escutar (Edmund e seu irmão William Price).

A rotina é completamente mudada quando o libertino Henry Crawford e sua mundana irmã Mary se mudam para a casa de sua irmã casada, a sra.Grant que mora nas vizinhanças e tornam-se visitantes assíduos em Mansfield Park.

Antes de ler Mansfield Park, já conhecia certas opiniões sobre o sr.Henry Crawford, que muitas fãs argumentavam que teria sido um melhor par para a Fanny do que Edmund Bertram. Durante a leitura ,achei o amor de Henry por Fanny mais como algo de posse do que amor de um modo puro. Seria algo do tipo “essa dama é diferente das outras, preciso tê-la!”. Sem contar que os princípios morais do rapaz serem completamente diferentes dos de Fanny. Henry Crawfordele se mostra vaidoso demais e acho que se ele realmente amasse Fanny teria feito algo melhor do que o desfecho que ele teve. Assim como Willoughby, sua fraqueza foi o orgulho.

Simpatizei com Edmund no início da leitura mas comecei a ficar chateada com a paixão dele pela leviana e intrigante Mary Crawford, não querendo ver seu modo egoísta e desrespeitoso e pelos pesares que criou na pobre Fanny. Mas entendo que no calor da emoção ficou empolgado demais. Se isso acontece na vida real imagine se não ocorreria nos livros da srta. Austen, vide o caso de Marianne Dashwood, em Razão e sentimento.

E finalizando, não acredito que o amor do Edmund por Fanny foi algo de repente ou por conformismo. Como leitora de Jane Austen sei muito bem que a escritora não tinha o hábito de detalhar muito o começo do afeto dos protagonistas – talvez para evitar que ficasse meloso e longo demais (será?), como podemos ver no trecho abaixo a voz da narradora:

“Eu propositadamente me abstenho de datas nessa ocasião, de maneira que cada um pode ter a liberdade de fixar sua própria época, ciente de que a cura das paixões inconquistáveis e a transferência de afeições imutáveis sempre variam muito quanto a passagem do tempo, de pessoa para pessoa.”

Mas Jane mostra rotina do futuro casal, como eles passavam o tempo e como acabavam se aproximando até chegar ao matrimônio, como a percepção de Edmund em relação à Mary Crawford no final do romance:

“… tinha defeitos de princípios,de delicadeza embotada e de uma mente viciada e corrompida.”

E como acabou se apegando mais a prima ao perceber que

“… a própria Fanny estivesse se tornando tão querida, tão importante para ele,com todos os seus sorrisos e todos os seus modos,quanto Mary Crawford jamais tinha sido.”

Começou a amar Fanny mais do que como prima, a ver o quão ideal ela era para sua felicidade e também ficou inseguro se ele era digno de estar com Fanny já que durante toda a história ela foi a única que não se deixou iludir pelos modos agradáveis dos Crawford. E no final foi uma união feliz porque ambos se amavam.

E essa foi minha última leitura inédita da Srta Jane Austen, e é claro que vai entrar na minha lista de favoritos da escritora!

Morte em Pemberley | Resenha e sorteio

O livro Morte em Pemberley, da aclamada escritora inglesa de romances policiais, P. D. James, pelo que podemos deduzir fez bastante sucesso desde seu lançamento em 2011 pois já está em fase de produção uma minissérie em três capítulos pela BBC.

Death Comes to Pemberley, título original em inglês, foi traduzido por Sonia Moreira para Cia. das Letras e para apresentar o enredo, a sinopse da página da editora:

O ano é 1803. Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy já estão casados, tiveram dois filhos e sua felicidade na imponente propriedade rural de Pemberley parece inabalável. Mas a paz do lugar é ameaçada quando, na noite da véspera do baile anual de Pemberley, Lydia, uma das irmãs Bennet, chega à mansão gritando que o marido, George Wickerman, foi assassinado na floresta.
| Leiam também um trecho do livro neste link. |

Transcrevo também a nota da autora pois a considero muito simpática e foi umas das causas que me levaram a ler o livro:

Peço desculpas ao espírito de Jane Austen por envolver sua estimada Elizabeth no trauma da investigação de um assassinato, principalmente considerando que no último capítulo de Mansfield Park a srta. Austen deixou sua posição bastante clara: “Que outras penas se debrucem sobre coisas como culpa e pesar. Eu abdico de assuntos odiosos como esses assim que posso, ansiosa para restituir todos os que nada tenham feito de muito grave a um tolerável conforto e para deixar de lado os outros.” Sem dúvida, ela teria respondido ao meu pedido de desculpas dizendo que, se desejasse se debruçar sobre assuntos odiosos como esses, ela própria teria escrito esta história, e melhor. P. D. James, 2011

Morte em Pemberley, sorteio

Antes de mais nada esclareço que o livro fotografado (acima) no meu matinho particular de Pemberley, não é o que será sorteado.  O exemplar do vencedor está bem limpinho e sequinho e pronto para ser enviado. Continuemos.

Confesso que a leitura do prólogo não chegou a me entusiasmar mas a medida que avançava na leitura, ajudada por uma tendinite das boas que me afastou do computador, comecei a ficar curiosa para saber afinal quem havia cometido o assassinato e principalmente saber os motivos pois tudo parecia sem nexo. No quesito de romance policial o livro já cumpria com seu objetivo que é saciar nossa curiosidade aos poucos.

No caso de leitores de Jane Austen sempre podemos acrescentar a ansiedade para vermos o que farão com nossos queridos personagens. Neste ponto posso afirmar que os personagens não sofreram distorções em relação aos originais. Muito pelo contrário, podemos perceber em cada detalhe o cuidado com a construção dos fatos narrados para manter a coerência com a história original.

Os casais Darcy e Bingley levam suas vidas como era de esperar, felizes e tranquilos com seus filhos e muitos outros personagens aparecem de modo pontual. As novidades ficam por conta de Georgiana que que apesar de continuar a morando em Pemberley tem vida própria, e do simpático Coronel Fitzwilliam, primo de Darcy.

A menção de personagens de dois outros romances de Jane Austen, que não nomearei para não estragar a surpresa de vocês quando lerem o livro, me fizeram sorrir e dizer em voz alta o que imagino vocês também dirão, “mas olha só quem está aqui!”.

Não sou boa em resenhas, fico logo com vontade de contar tudo para todos. Resumindo: não é Jane Austen, como muito bem colocou a autora, mas é uma boa leitura sim. Ler um livro de mistério, bem escrito, acompanhado de pessoas que conhecemos de longa data é um prazer. Os personagens de Jane Austen para nós admiradores há muito deixaram de ser personagens, passaram para a categoria “pessoas amigas”!

Um detalhe: a capa de Elisa von Randow tem a imagem de um castelo em meio a um nevoeiro, que as fotos do livro na internet não fazem justiça em seu belo verde turquesa.

Agora vamos a habitual pergunta, que não tem resposta certa ou errada, mas que precisa ser respondida de modo que possa participar do sorteio:

Quem vocês imaginam que possa ter cometido o crime em Pemberley?

NORMAS DO SORTEIO

♦ Sorteio de 26 de maio a 8 de junhoResultado: 9 de junho
 É permitido apenas um (1) comentário por participante
♦ Se um grupo usar o mesmo computador para comentar, o que levará a IPs iguais, avise no próprio comentário para não ser desclassificado
♦ Use seu mail verdadeiro e apenas no formulário. Não coloque email no corpo do comentário
♦ Lembrem-se: todos os comentários são moderados e podem levar um tempo para serem publicados
♦ Qualquer um pode comentar mas somente quem tiver um endereço no Brasil concorrerá ao presente

PS: Peço, por favor, para os que já leram o livro e que mesmo assim queiram participar que comentem sem revelar a trama. Obrigada.

 

O mundo de Orgulho e preconceito

“O mundo de Orgulho e Preconceito”
por Marcia Caetano
Na Linha

Um texto literário tem uma particularidade.  Se por um lado, ele ultrapassa o seu tempo e o mundo que o cerca, por outro, está intrinsecamente ligado às circunstâncias que o geraram.  A independência do texto é sempre relativa, pois sem certas informações precisas, sobretudo no que se refere a um romance escrito dois séculos antes do nosso, o alcance do sentido de passagens senão do livro todo pode ficar comprometido.    O bicentenário da publicação de Orgulho e Preconceito – o livro foi publicado em janeiro de 1813 – merece, portanto, um olhar sobre alguns dos aspectos que possibilitaram a sua existência.

Observação importante: usei exclusivamente a edição de Orgulho e Preconceito da Penguin/Cia. das Letras e as análises críticas de Vivien Jones e Tony Tanner contidas nele.

As casas

As casas onde vive a maioria dos personagens de Jane Austen são enormes para nossos padrões.  Em geral, Jane Austen não fornece muita descrição sobre as residências, a não ser nos casos em que, por alguma razão especial, o imóvel se destaca na narrativa.  Esse é o caso de Pemberley, a morada de Darcy em Orgulho e Preconceito, em que a cena da visita de Elizabeth é de fundamental importância na narrativa.  Ali, possivelmente, ela percebeu o poder de Darcy e desejou fazer parte dele.  “Eu podia ser senhora deste lugar” ( V.III, cap. I, p.374), é o que diz a si mesma ao visitar a mansão.

A casa reflete o proprietário, que é um rico herdeiro e descendente de uma antiga família rural, ligada à aristocracia através de parentes nobres.  Como membro desta classe, a riqueza de Darcy é baseada na propriedade de terras e traduzida em termos de uma renda anual.  Já Charles Bingley é herdeiro de uma família que ganhou muito dinheiro no comércio (atividade depreciada diversas vezes no livro, do mesmo modo que a classe das profissões liberais, como a advocacia).  Ele inicia o romance alugando uma propriedade chamada Netherfield, em Hertfordshire (hoje um subúrbio de Londres), na vizinhança onde moram as personagens principais, as irmãs Bennet, embora afirme ao longo da narrativa que pretendia comprar uma residência (e assim, seguir o caminho de ascensão da classe média que enriquece imitando o comportamento dos aristocratas, tornando-se proprietário rural).  Em um trecho, a irmã de Bingley sugere que ele construa uma casa tomando “Pemberley como uma espécie modelo” (OP, Vol I, cap. VIII, p.143).  De fato, é o que Bingley faz após o casamento com Jane, ele compra uma propriedade bem próxima da de Darcy e Elizabeth, em Derbyshire.

Long Gallery, Sudbury Hall, Derbyshire

Sudbury Hall, Derbyshire
As cenas interiores de P&P 1995 de Pemberley foram filmadas em Sudbury
Imagem: © Andreas von Einsiedel

A cena em que Elizabeth Bennet visita Pemberly é crucial no processo de mudança da imagem que ela faz de Darcy no decorrer da narrativa.  Como Tonny Tanner ressalta na Introdução das edições Penguin, tudo na casa reverbera a personalidade do proprietário e, quanto mais Elizabeth se aproxima do interior, melhor é a visão que ela tem de Darcy.  Um detalhe importante é o fato de que há dois retratos de Darcy: um pequeno, no andar de baixo, e outro bem maior, no andar de cima, indicando que quanto mais perto do interior das pessoas, melhor é percepção que temos delas.  Tanner mostra que Jane faz uma analogia entre a precisão do quadro maior e a proximidade com o próprio modelo, que ela encontrará logo a seguir, inesperadamente.

Ficou parada por alguns minutos diante da pintura (de Darcy) em penhorada contemplação e ainda voltou ao quadro antes que saíssem da galeria.  {…} Certamente, neste instante, na mente de Elizabeth, havia mais delicadeza para com o original do que jamais sentira mesmo no auge de sua relação. (OP, Vol III, cap. I, p. 379)

Inclusive, concordo com a interpretação de Tanner sobre a famosa frase de Elizabeth à Jane, situando o momento em que começou a se apaixonar por Darcy na ocasião em que visitou Pemberley pela primeira vez, de que foi ali que ela pode conhecer melhor o caráter de Darcy – e não que ela fosse alguém exclusivamente venal e interessada na riqueza dele, como a frase pode sugerir.

Foi acontecendo de modo tão gradual, mal sei dizer quando começou.  Mas creio que a data precisa seja a primeira vez que vi a sua bela propriedade em Pemberley. (V.III, cap. XVII, p.516)

Outra mansão esplêndida no romance é a residência da tia de Darcy, Lady Catherine De Bourgh, a Rosings Park, em cujo presbitério reside o primo das irmãs Bennet, o sr. Collins e sua esposa, Charlotte.  A mansão é considerada “moderna” no livro, o que significava para Jane Austen que fora construída na segunda metade do século XVIII.  Deirdre Le Faye, no livro Jane Austen – The world of her novels nos informa que o mais provável é que tanto Rosings Park quanto Pemberly fossem pintadas no interior, já que a pintura era um procedimento mais caro na época do que o papel de parede.  Entretanto, a diferença entre as duas residências é observada pela própria Elizabeth, quando visita Pemberley e nota no seu interior que ali “não havia nada de excessivo ou despropositadamente fino; havia menos esplendor, e mais da verdadeira elegância do que na mobília de Rosings” (V.III, cap.I).  O que permite inferir que Rosings Park, como a sua proprietária, exalava luxo e ostentação.

O presbitério em que reside o sr. Collins e esposa é descrito de maneira não muito específica, sabemos apenas que a morada é pequena, mas confortável (possivelmente é do tamanho de uma casa de classe média hoje).  Conta com um pequeno jardim , que recebe uma observação gentil do sr. Darcy na ocasião em que ficou hospedado em Rosings Park com seu primo, o coronel Fitzwilliam, e ambos vão visitar o presbitério, onde está hospedada Elizabeth.

Como Orgulho e Preconceito é narrado a partir do ponto de vista de Elizabeth, não há descrições da casa dos Bennet, porque não faria sentido, já que ela reside ali.  A família mora em Longbourn, no vilarejo homônimo, próximo da cidade imaginária de Meryton.  Segundo Deirdre Le Faye, o senhor Bennet poderia ter um terreno de mil acres, o que no período era considerada a média de um pequeno proprietário rural, como era o caso dele.  As terras produziam duas mil libras por ano e, como ele só teve filhas mulheres, seriam herdadas por um sobrinho, o sr.Collins.  Deirdre faz um levantamento do staff da casa Bennet: a governanta sra. Hill, a cozinheira, duas empregadas, um mordomo e um rapaz de recados que possivelmente age também como valet do sr. Bennet.  A equipe externa consistia em um cocheiro e, por consequência, alguns ajudantes de estábulo, que também eram utilizados na fazenda (fato comentado no livro pelo sr. Bennet).  Também haveria trabalhadores contratados para atuar nos campos e um guarda-caças, pois a senhora Bennet se dirige a Bingley em certa ocasião convidando-o a ir a Longbourn quando tiver matado todas as suas aves, para atirar em quantas quiser na propriedade do senhor Bennet (V. III, cap. XI, pp.472-473).

A casa em si provavelmente é uma pequena propriedade rural, com uma entrada frontal para carruagens e um vestíbulo na entrada que dá para uma sala de café da manhã.  Também no térreo ficam a biblioteca do sr. Bennet, um quarto de desenho e uma ampla sala de jantar apropriada para festas.  No andar de cima, há uma pequena sala de refeições e uma pequenina saleta, de onde as irmãs Bennet podem dar uma espiada no sr. Bingley, na ocasião em que ele visita à casa.  O casal Bennet provavelmente tem quartos separados e Deirdre acredita que cada uma das cinco moças tenha o seu próprio quarto, além de pelo menos mais um quarto de hóspedes, onde o sr. Collins fica hospedado.  Mary provavelmente conta com uma sala separada de música.  Os empregados também precisariam de alojamentos, que geralmente eram situados no porão ou em casas do lado de fora, ou os dois.

A vida das mulheres em Orgulho e Preconceito

No tempo de Orgulho e Preconceito, as filhas de famílias rurais recebiam o mínimo de educação formal antes de sair de casa para casar, o que ocorria, em muitos casos, durante a adolescência (assim é o caso de Marianne Dashwood, por exemplo, de Razão e Sentimento).  A maioria era educada em casa pelos pais ou por governantas e aprendiam trabalhos de costura, noções de matemática, caligrafia, música, desenho, algumas fábulas francesas, a bíblia, Sheakespeare e alguma outra literatura.  Eventualmente, as moças eram enviadas para escolas, para complementar a educação recebida em casa.  As irmãs Bingley, por exemplo, estudaram em uma das melhores escolhas da época.

Já as irmãs Bennet receberam uma educação bastante precária, sem o auxílio de nenhuma governanta ou tutora e de acordo com suas inclinações pessoais.  Há uma discussão interessante sobre o assunto no livro, quando Elizabeth está hospedada em Netherfield, juntamente com Jane que está adoentada.  Nela, Caroline Bingley afirma que, para ser considerada talentosa, uma mulher deve “ter amplo conhecimento de música, do canto, do desenho e das línguas modernas”, ao que o sr. Darcy acrescenta “o aperfeiçoamento de suas qualidades intelectuais por meio de muito leitura”.  Sobre o que Elizabeth conclui, decididamente: “nunca vi uma mulher assim, nunca vi tamanha capacidade, fineza, dedicação e elegância, como você descreve, reunidas em uma só pessoa” (Vol I, cap.VIII, p.144).

A vida dos homens

Os garotos recebiam nesse tempo uma educação bastante limitada, comparando aos nossos padrões.  Eles aprendiam a ler, escrever e recebiam noções de matemática em casa, através dos pais ou de governantas e alguns poderiam ir morar em alguma residência de um tutor pago (função exercida pelo pai de Jane Austen em muitas ocasiões).  O currículo consistia em latim, grego, textos clássicos, noções de geografia e história moderna.  Francês e italiano eram matérias “extras”, assim como caligrafia, dança, desenho e uma miscelânea de outros tópicos.  Em certos casos, os meninos poderiam ser enviados para escolas primárias dos oito aos treze anos, seguidos de cinco anos em uma escola pública e, enfim, a universidade (para alguns).  Deirdre Le Faye considera muito provável que Darcy tenha ido para Cambridge (e não Westminster, onde os personagens considerados maus ou tolos de Jane Austen foram, como Henry Crawford, de Mansfield Park, e Robert Ferrars, de Razão e Sentimento).

Como recreação, entre setembro a abril, os homens do campo geralmente passavam o tempo praticando esportes de caça.  Em Orgulho e Preconceito, parece que Darcy é fã da pesca, já que convida o sr. Gardiner para usar o rio de trutas de Pemberley para pescar e oferece todos os apetrechos necessários para tal.

Como o filho primogênito geralmente era o herdeiro (embora Lady Catherine De Bourgh ressalte que nem sempre as filhas possam ser desprovidas de posses, como é o caso dela própria e da filha – Vol.II, cap. VI, p.285), os mais jovens tinham que seguir profissões.  A carreira eclesiástica, a rigor, não obedecia a nenhuma “vocação” particular, mas era, essencialmente, um emprego como outro qualquer.  Outras profissões desses filhos podem incluir a advocacia (em níveis diversos, dependendo da classe social do indivíduo), o exército ou marinha e, como existe no círculo de Orgulho e Preconceito, o comércio (caso dos tios de Elizabeth, os Gardiner) e outras profissões liberais.  Os trabalhadores manuais e serviçais estão excluídos do meio social frequentado pelas Bennet.  E, por fim, assim como para as mulheres, o casamento também pode ser considerado uma “profissão” para jovens sem fortuna, principalmente aqueles que têm algum nome respeitável ou título de nobreza.  Há uma conversa sobre esse assunto entre Elizabeth e o coronel Fitzwilliam, na ocasião em que ela está hospedada na casa dos Collins.  Ele conta a Lizzy que, como filho caçula de um conde, ele deve “se preparar para o sacrifício e a dependência”, pois “não há muitos em minha posição que possam se permitir casar sem pensar no dinheiro” (V.II, cap. X, pp.306-307).  Ao que Elizabeth pergunta: “Diga-me, quanto costuma custar o caçula de um conde? A não ser que o primogênito seja muito fraco, vocês não devem sair por mais de cinquenta mil” (V.II, cap. X, p. 307).  Vê-se que não eram apenas as mulheres que buscavam a salvação financeira no casamento.

Kedleston Hall and Park

Kedleston, Derbyshire.
A sala de jantar de Rosings Park pode ser imaginada dessa maneira, pois era grande e moderna.
Imagem: © Nadia Mackenzie

A vida social da época

Com empregados se ocupando de todo o trabalho manual, os proprietários de terras e suas famílias podiam passar uma boa parte de seu tempo em atividades recreativas (já que a educação formal de homens e, principalmente, mulheres, terminava bem cedo na vida de um/a jovem).  Entre essas atividades, a principal é a dança, pois era uma das poucas formas de os jovens se conhecerem para se casarem.  Não à toa, há cenas de dança importantíssimas nos livros de Jane Austen e Orgulho e Preconceito conta com alguns dos melhores diálogos entre Elizabeth e Darcy durante tais ocasiões.  O nome country-dance, explica Deirdre, não significa dança camponesa, mas é uma adaptação do francês contre-danse, uma modalidade em que os dançarinos são alinhados frente a frente, homens de um lado e mulheres do outro (Le Faye, p.104).  As danças podiam ser executadas em locais públicos ou, o mais comum no campo, em bailes privados, ou mesmo em pequenas reuniões em que alguma moça provesse o ambiente de música em um piano.  Além desse instrumento, as mulheres também podiam aprender a toca a harpa, o cravo e o violão.  E os rapazes, o violino, a flauta e o violoncelo.  O canto era praticado por ambos.

O teatro também era uma atividade muito exercida e apresentações teatrais amadoras nas residências era um fato corriqueiro.  Havia igualmente um grande número de jogos de mesa, além do baralho e bilhar, para os homens.

E, por fim, em um âmbito bastante relevante, estavam os livros.  Os romances tinham a mesma importância de entretenimento que hoje se dá às novelas e séries televisivas e nem todos consideravam uma atividade louvável a leitura deles (esse definitivamente não é o caso de Elizabeth Bennet, que adorava ler, e de Darcy, que continuava a acrescentar livros à biblioteca enorme que herdou).  Havia também a leitura de jornais e revistas femininas, alguns muito populares na época.

A escrita era também uma ocupação importante do cotidiano das pessoas.  Era comum separar uma hora do dia para escrever longas cartas ou diários pessoais.  O desenho, a pintura e os trabalhos de bordado e costura preenchiam bastante o tempo das mulheres.

O relacionamento entre homens e mulheres é muito formal e mesmo casais se tratam pelo nome de família, pelo menos em público – esse é o caso do senhor e da senhora Bennet.  Rapazes e moças em idade de se casar não podiam trocar correspondências, como demonstra o caso de Jane Bennet, que não pode escrever à Bingley, informando que chegou à Londres, mas apenas às suas irmãs.  Nesse sentido, a carta de Darcy se explicando à Elizabeth pode ser considerada uma exceção, justificada pela ofensa que o falso julgamento dela infligiu a ele.

Há inúmeros outros detalhes sobre o universo de Orgulho e Preconceito, muito úteis para uma compreensão mais abrangente do texto, mas que não caberiam detalhar aqui.  O que eu posso concluir é com um conselho aos leitores: embora seja muito útil ler o livro em PDF (eu mesma o reli pela milésima vez no meu celular) ou em outro formato eletrônico, nada como uma boa edição com notas explicativas e introduções esclarecedoras.  Uma visão verdadeiramente crítica – como a–própria Jane Austen nos ensina em seu livro – jamais pode seguir apenas os critérios das “primeiras impressões” (título original do livro), mas deve surgir da comparação com outros pontos de vista, com informações acessórias e tudo o mais que possa contribuir para o nosso melhor entendimento.

Cumberland House

Cumberland House, Hertfodshire, serve como um modelo comparativo a Longbourn,
a residência dos Bennet, segundo Deirdre Le Faye. Imagem: © Frank Warner

BIBLIOGRAFIA

  • AUSTEN, Jane, Orgulho e Preconceito, Peguin/Cia. das Letras, trad.Alexandre B de Souza. São Paulo, 2011.
  • Prefácio e notas Viven Jones, Introdução de Tony Tanner.
  • AUSTEN, Jane.  Letters of Jane Austen, vol.I. Cambridge University Press, Cambridge, 2009.
  • LE FAYE, Deirdre.  Jane Austen – The world of her novels.  Frances Lincoln, Londres, 2003.

Jane Austen e a Teoria dos Jogos

Revista Época, 782Ao que tudo indica o livro Jane Austen, Game Theorist de Michael Suk-Young Chwe está chamando atenção e nesta semana saiu uma reportagem na revista Época. Aliás são duas matérias sobre o mesmo assunto, ambas assinadas por Marcelo Moura. A primeira é uma entrevista com o autor e está na revista online com livre acesso ao público, com o título A Teoria dos Jogos nos livros de Jane Austen.

A segunda matéria, na coluna “Mestre e Gurus” da revista impressa, discorre sobre o livro e sobre como Chwe, ao assistir o filme As Patricinhas de Bervely Hills (baseado em Emma), percebeu que a história se encaixava na Teoria dos Jogos. A teoria de autoria do matemático John Von Neumann e do economista Oskar Morgenstern, tenta entender como as pessoas atuam em grupos.

Michael Suk-Young Chwe analisou então a obra de Jane Austen e chegou a conclusão que a autora “dominava a teoria, um século antes de sua formulação”.

Uma ótima matéria que recomendo e faço apenas um aparte onde menciona que Jane era “filha de uma família humilde”. A família de Jane Austen não era rica, mas era sim uma família abastada. A renda da senhora Austen e das filhas diminuiu após a morte do reverendo Austen, mas mesmo nessa situação não podemos dizer que se tornaram uma família humilde.

 

 

Elizabeth Bennet, sempre notícia!

Seria apenas mais um artigo sobre Orgulho e preconceito neste ano de homenagens ao bicentenário mas me chamou a atenção pelo parágrafo inicial e a graciosa ilustração de Elizabeth e Mr. Darcy de Kagan McLeod. Então quem quiser ler em inglês ou arriscar com as traduções online, recomendo.

Elizabeth Bennet, Kagan McLeodEla não era nem a mais bonita das irmãs – Jane, claramente, era “a beleza da família” – nem a mais velha; Jane era isso também. Nem a mais inteligente – que era Mary – e nem mesmo a mais animada pois Lydia levava o prêmio neste quesito. Sua educação era descuidada e, devido as desagradáveis e chauvinistas leis de herança, sua renda era de apenas £ 50 por ano. Como então, a senhorita Elizabeth Bennet veio a ser a mais amada heroína na história da ficção?

O artigulo completo (em inglês):
Newsmaker: Elizabeth Bennet
Mark McGuinness | The National