Jane Austen a torto e a direito na alt-right

Quando li que a  alt-right teria se “apropriado” de Jane Austen logo pensei: lá vai Jane, a torto e a direito mais uma vez! Para quem não sabe, como eu não sabia, alt-right é a denominação abreviada da direita alternativa, uma corrente política nos Estados Unidos.

Vamos ao fato que desencadeou a notícia: Milo Yiannopoulos,  militante da alt-right, parafraseou ou tentou parafrasear a mais famosa frase de Austen como se segue:

Como uma romancista vitoriana poderia ter posto, é uma verdade universalmente reconhecida que é muito mais provável uma mulher feia ser uma feminista do que uma bonitona.

Podemos ver que o rapaz, como muitas admiradoras sinceras de Jane, acha que a escritora é da época vitoriana, até aí novidade alguma. Mas o que marcou foi a grosseria sobre as mulheres e que na minha opinião foi de propósito para ser notícia. Conseguiu.

Nicole M. Wright escreveu no The Chronicle Higuer Education o artigo “Alt-Right Jane Austen” onde coloca que o apreço da extrema direita por Austen seria a possibilidade de minimizar suas ideias extremistas imiscuindo-se no mundo dos romances da autora e tornando-as mais palatáveis, principalmente para as pessoas comuns. Ela diz também,

“Talvez Yiannopoulos tenha olhado para o título do romance mais famoso de Austen e tenha presumido que Orgulho e preconceito era uma corroboração do orgulho “branco” e do preconceito contra as minorias étnicas.”

Não creio… Para mim foi de caso pensado mesmo. Jane Austen vende muito bem, inclusive idéias malucas. Estarei vendo Mad Men demais?

Na página em inglês do Deutsche Welle temos o artigo de  Rachel Stewart, “White pride and prejudice: Why the alt-right has adopted Jane Austen”, que menciona o de Nicole Wright e como vocês podem ver pelo título também fala sobre a adoção de Jane pela alt-right. O artigo diz que Yiannopoulos escreveu, em 2016, que os alt-right seriam “perigosamente brilhantes”, muito mais inteligentes do que outros grupos, também da extrema direita. Ah! Vaidade o pecado favorito vocês sabem de quem.

Devoney Looser, professora e autora do livro The Making of Jane Austen, dá sua opinião no artigo dizendo algo que acho fundamental e que muitas pessoas parecem esquecer, “Austen escreveu ficção, não tratados formais”. Menciona também que a discussão sobra a obra de Austen ser conservadora ou liberal é antiga. A referência que ela encontrou é de 1872 quando membros do parlamento britânico evocaram o nome de Austen, em lados opostos da mesma questão, a expansão do direito de voto das mulheres”:

“Um parlamentar conservador sugeriu que Austen nunca teria querido tal coisa, porque ela estaria firmemente do lado do papel tradicional de gênero, mas um parlamentar liberal disse que certamente Austen estaria do lado das mulheres instruídas da sua época [ano de 1872] que procuravam expandir o direito de voto.”

Nestes quase nove anos do Jane Austen em Português tenho lido as mais variada opiniões sobre Austen e sua obra. Às vezes Jane é feminista e logo adiante é anti-feminista; na política cobre quase todo o espectro da esquerda à direita passando por todos os tons de cinza do centro. Mas também há quem a considere uma alienada na política pois não colocou nada em seus livros sobre governos, guerras e que tais. Ela era grande admiradora do abolicionista Thomas Clarkson, fato este registrado em carta mas muitos não a perdoam por não ter sido explícita sobre a escravidão em Mansfield Park.

Os exemplos são muitos e sem levar em conta anacronismos de algumas opiniões, cada leitor tem um pouco de razão em sua interpretação de Austen portanto não há com o que se preocupar. Jane Austen não é de ninguém, nem dos malucos, nem de nós que a amamos. Ela é dona si mesma, sempre foi.

Jane Austen a torto e a direito na alt-right

Jane Austen a torto e a direito na alt-right

Edições francesas de Jane Austen: de 1815 a 2007

O livro Les Éditions françaises de Jane Austen 1815-2007, de Lucile Trunel, traz um estudo da história de edições francesas para a compreensão da recepção da obra de Jane Austen na França.

Para vocês terem uma idéia do livro traduzi, com o meu parco francês, a apresentação do editor:

A história das edições francesas de Jane Austen, desde 1815, fornece uma visão essencial para a recepção da escritora na França. Embora seus seis romances (Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade, A abadia de Northanger, Emma, Mansfield Park, Persuasão) fossem publicadas desde o início de francês, o que quase nunca deixou de ser, há um grande fosso entre a sua fama na França e na Grã-Bretanha, onde é considerada um das maiores escritoras britânica. Deste lado do Canal, que eleaé apresentaao como uma romancista “sentimental”, portanto, avaliadas, principalmente, pelos leitores do sexo feminino, o que pode ser explicado pela má qualidade das edições francesa publicados nos séculos XIX e XX. Embora muitas, especialmente nos últimos trinta anos, essas traduções de fato oferecem uma imagem distorcida da obra de Jane Austen.

Por que e por quem ela foi traduzida? Quando e por iniciativa de quais os editores? Este livro revela a qualidade das traduções, mas situa acima de todas as edições francesa em um contexto histórico e literário. Ele destaca as razões pelas quais Jane Austen foi publicada, ao lado de que outros autores, em quais coleções, especialmente para o público. Assim, pode-se identificar a imagem da romancista desenhada pelo mundo da edição francesa para os seus leitores.

Na tradição da bibliografia material, o “livro objeto” constituí um material de estudo importante, e todo o paratexto, primeira e quarta capas, apresentações, posfácios, ilustrações – são todos pistas valiosas para esclarecer como a romancista foi, ao longo do tempo, sendo “apresentado” aos leitores por seus editores, tradutores ou prefácio.

Próximo à linha dos “romancistas ingleses” ou entre as mulheres autoras “menores”, ela raramente é vista como um escritora de gênio, enquanto que no mundo de língua Inglêsa, a figura popular de Jane Austen, que hoje está se desenvolvendo dramaticamente está claramente dissociada de seu reconhecimento de longa data no mundo das letras. No entanto, parece que a evolução ocorreu na percepção francesa de seus romances, particularmente desde o final do século XX, que viu a “redescoberta” de Austen, o editor Christian Bourgois em particular, enquanto em paralelo paratextos acadêmicos de crítica ganharam maior importância. No entanto, a inflação de edições de bolso de baixa qualidade – muitas vezes impulsionado pela saída de adaptações para o cinema – mostra que a recepção de Jane Austen na França continua a se construir, e que esta grande escritora permanece subestimado por aqueles que leem traduções francesas.

Onde comprar: Amazon França.

Sobre as traduções francesas de Jane Austen, principalmente as primeiras que saíram ainda em vida da autora já as mencionei em dois posts:

O Quinze e uma citação. Será Jane Austen?

Terminei de ler O Quinze, romance de Rachel de Queiróz, tradutora da primeira edição de Mansfield Park no Brasil (1942). Gostei muito do romance mas não é este motivo do post e sim uma citação que me remeteu a Jane Austen.

O Quinze, Rachel de QueirózRachel assim como Jane Austen era muito jovem quando em 1930 escreveu O Quinze, título que se refere à grande seca de 1915 no nordeste brasileiro. As duas personagens principais são Mãe Nácia, dona de uma fazenda e avó da protagonista, Conceição, que mora em Fortaleza onde trabalha como professora mas sempre visita a avó nas férias. A moça gosta do primo Vicente, também filho de fazendeiro e que diferente do irmão com cargo de promotor, tornou-se um dedicado vaqueiro. Conceição é uma moça moderna, culta e cheia de idéias na cabeça e Vicente um rapaz de ótimo caráter mas sua vida é a fazenda. O amor dos primos é difícil.

Quando chega a seca, aquela seca de abrasar a terra, todos que podem vão para as cidades, incluindo os pobres como Chico Bento e sua família que acabam num Campo de Concentração (conhecido como currais) onde recebiam parca ajuda do governo e a caridade de particulares. Nesse local Conceição ajudava usando todo seu ordenado com alimentos e remédios para os doentes e sua vó a reprendia pelo excesso de zelo:

[…] ela respondia, rindo: – Mãe Nácia, eu digo como a heroína de um romance que li outro dia: ”Não sei amar com metade do coração…” Ao que a avó respondia, aborrecida: – Pois vá-se guiando por heroína de romance, e depois não acabe tísica… Mas apesar de censurar os exageros da neta, seu coração de velha avó todo se confrangia e mortificava com a mortandade horrorosa que aquele novembro impiedoso ia espalhando debaixo dos cajueiros do Campo.

Quando li a citação da heroína, de imediato lembrei de Marianne Dashwood e corri para a primeira tradução, a de Dinah Silveira de Queiroz, capítulo 50:

Mariana nunca poderia amar por meio termo; e em tempo, o seu coração foi tão dedicado a seu marido como havia sido outrora a Wiloughby.

Depois me dei conta que a tradução de Razão e sentimento de Dinah foi publicado em 1944 e O quinze em 1930. De todo modo o sentido é esse mesmo e transcrevo o original e a tradução de 1982 de Ivo Barroso que se aproxima mais do texto do livro de Rachel:

Marianne could never love by halves; and her whole heart became, in time, as much devoted to her husband, as it had once been to Willoughby. cap  50

Marianne não sabia amar pela metade e todo seu coração veio, com o tempo, a devotar-se ao marido, como se havia outrora devotado a Willoughby. (trad.  Ivo Barroso)

A alegria de imaginar que Jane Austen já estava sendo lida no Brasil bem antes de 1940, quando foi publicado a primeira tradução, (Orgulho e preconceito) foi imensa, mas a lógica continua a fazer e refazer a pergunta: será mesmo  uma referência à obra de Jane Austen?

Pensem comigo: não é a heroína, Marianne Dashwood, que diz que não sabe amar pela metade, mas a narradora onisciente. Esse detalhe será irrelevante como citação? Poderá ser outro livro, outra heroína, que terá dito a mesma coisa ou algo semelhante?

Se alguém conhece outra heroína que também não sabe amar pela metade, por favor, me avisem!

Dorothy Whipple, uma Jane Austen do século XX?

O escritor J. B. Priestley comentou que a autora inglesa Dorothy Whipple (1893-1966) teria sido a Jane Austen do século XX. Com vocês uma resenha do caro amigo e leitor, Enzo Potel, do livro Someone at a Distance para vocês conhecerem a escritora e descobrir se concordamos com o elogio de Priestley.

“UMA EDITORA, UM LIVRO, UMA COMPARAÇÃO”
Enzo Potel
A Letra Escargot

UMA EDITORA, UM LIVRO, UMA COMPARAÇÃO

Dorothy WhippleDividi esse texto em três partes para que você possa ir direto ao que interessar. A primeira parte é um comentário sobre a editora Persephone Books para quem nunca ouviu falar (ou para quem já está viciado nas capas cinzas que abarrotam o instagram e o booktube em língua inglesa!), a segunda é sobre minha leitura de Someone at a Distance, da Dorothy Whipple, e a última é sobre a comparação de que a Whipple seria a Jane Austen do século XX.

A EDITORA

A Persephone Books já existe há uns quinze anos. É uma editora inglesa, que tem até loja própria em Londres, e que publica (em geral) livros escritos por mulheres, ou melhor: coloca de volta no mercado bons livros escritos em língua inglesa por mulheres do século passado e que acabaram caindo no esquecimento. Romances, volumes de contos, diários, memórias, livros feministas, livros de receitas, e várias outras preciosidades. A qualidade física do objeto também cativa: os livros seguem um padrão de capa cinza elegante, com uma estampa colorida interna específica para cada título. E dos mais de cem títulos, há uma seleção dos onze mais vendidos, que ganharam capas com alguma pintura, seguindo uma linha bookshop-friendly. O site da Persephone também é uma maravilha à parte: não só bonito, mas muito funcional e cheio de diálogo entre editora >livro >leitor >editora.

O tipo de história que você encontra nos livros da Persephone vai desde, por exemplo, Harriet de Elizabeth Jenkins – livro de 1934 que recria a história real da moça que abandonou a família rica para viver com um homem que a fez morrer de fome em 1877 – até um volume de poemas como It’s Hard to Be Hip Over Thirty (1968) de Judith Viorst. Vale comentar que Elizabeth Jenkins escreveu uma biografia de Jane Austen, publicada em 1936. Mas o forte mesmo me parece a ficção inglesa amplamente consumida na primeira metade do século XX, cujos títulos não sejam “nem literários demais, nem comerciais demais”, e nisso você encontra autoras como a sufragista Cicely Hamilton, a jornalista Mollie Panter-Downes, a romancista Monica Dickens (bisneta de Charles Dickens) e a incrível Marghanita Laski (que além de preciosidades como Little Boy Lost e The Victorian Chaise-Longue publicou Jane Austen and Her World em 1969).

O LIVRO

Someone at a Distance, Dorothy Whipple

O primeiro livro pelo qual me interessei da Persephone foi Someone at a Distance (1953), da Dorothy Whipple.

A história é tão simples que só um gênio faria bem: a desintegração de um casamento feliz depois que o marido abandona esposa e filhos para viver com uma moça vinte anos mais jovem.

Eu comprei esse livro duas vezes, porque a primeira extraviou, e isso gerou vários meses de incerteza entre uma compra e outra. Nesse meio tempo li muitos textos online sobre a obra, até com o objetivo de imaginar que talvez não perdi grande coisa. Alguém fez um vídeo no youtube dizendo que o livro parecia Cranford, da Gaskell, e me deu um certo AFF (foi o único da Gaskell que tentei, e abandonei, acho que no quarto capítulo). Havia resenhas na internet dizendo que Someone at a Distance era bom porém escrito de maneira démodé, e que a protagonista era irritantemente boazinha. Quando experimentei um pouco do primeiro capítulo online na Amazon, não gostei.

Mesmo assim, não matei, ou não morreu, o desejo de ler o livro.

E eis que ele chegou, e eis que em mãos eu senti um terremoto diante da excelência do primeiro capítulo. Aquela minha primeira leitura foi muito mal influenciada por outras coisas, e logo percebi que era impossível que o livro virasse um Cranford quando já bateu em mim tão diferente, e a minha Gaskell nunca vai ser a mesma Gaskell de outra pessoa – talvez nem de mim mesmo daqui uns anos.

Como a Whipple escreve bem. Como as coisas brilham quando aproximadas ou distanciadas – uma frase de cair o queixo aqui, uma informação escondida durante vários capítulos ali. Os personagens são quase tateáveis, e no prefácio diz que a Whipple confessou certa vez: “Eu não gosto de planejar tramas, eu gosto é de construir pessoas”.

Mas construir pessoas é contar histórias, e esse livro é uma teia magnificamente bem tramada. Eu vou mencionar aqui só o nome dos três personagens principais: Ellen é a esposa, Avery é o marido, e Louise é a moça francesa que, depois de alguns caprichos do destino, vai parar na casa deles no interior da Inglaterra. O livro tem 400 páginas e exatamente na metade da narrativa é que está o olho do furacão – Ellen e a filha encontram Avery aos beijos com Louise na sala de estar –, entretanto o deleite em se ler as duzentas primeiras páginas é exatamente testemunhar todos os pequenos e grandes acontecimentos que os personagens podiam ou não ter evitado até que se chegasse àquele momento. E as duzentas páginas posteriores prendem pela escolha (ou não) dos personagens em se atolar mais ainda em erros por causa de um.

Há capítulos maçantes? Sim, são poucos, mas existem. O capítulo dez, com suas quinze páginas sobre uma noite de Natal que não teve nada de especial, me irritou profundamente. Mas como não extasiar-se com o capítulo em que a Louise fica sozinha na casa pela primeira vez, com todo o tempo do mundo para bisbilhotar e invejar o quarto do casal. Quando Ellen e Avery voltam horas depois, Louise está contemplativa fumando um cigarro no jardim e “she was as full of information as a cat of stolen cream and showed as little trace of it.

Essa personagem, Louise, é tão astuta, tão autoconfiante, que acho difícil o leitor não admirá-la em vários momentos. Uma das maiores maravilhas desse livro é que todos os personagens recebem luz da autora, o leitor consegue acessar até a vida dos pais da moça lá na França. E essa proeza – não fazer com que a história da Ellen seja a única interessante do livro – vai ser fundamental para a gente ver a humanidade de cada personagem no antes, no durante e no depois. Até o incrível capítulo 24, onde o sócio do Avery descobre que ele abandonou Ellen e eles têm uma discussão feroz – onde profissionalismo e intimidade são inseparáveis e vão quebrando paredes um do outro –, fica engrandecido pelo fato de que a gente já teve contato com aquele personagem, sua história, sua presença.

Eu poderia continuar aqui por linhas e linhas tentando traduzir para vocês a grandeza e importância dessa obra, e consequentemente a grandeza e a importância da Persephone Books por nos resgatar essa e tantas lindezas literárias, mas vou para um comentário final: Someone at a Distance foi publicado na década de 50 mas ignorado porque, como disse o editor para a escritora, “editors are going mad for action and passion”. O gosto do público mudou depois da 2ª Grande Guerra: as histórias que trabalham o mistério do dia-a-dia, os tormentos mais sutis, não interessavam mais. Whipple era uma best-seller antes, Someone at a Distance foi imediatamente percebido como sua obra-prima, mas depois desse vento novo do mercado a Whipple não publicou qualquer outro romance até sua morte (acredito que só alguns livros infantis).  

A COMPARAÇÃO

Houve um tempo em que comparar um escritor com outro era algo que me irritava demais (por exemplo: dizer que Alice Munro é o Tchekov do Canadá), mas aos poucos considerei que é uma forma de chamar a atenção para um autor ou autora que, provavelmente, sustenta-se por si próprio – e muito. Então quando eu li em algum lugar que Dorothy Whipple era a Jane Austen do século XX, eu considerei aquilo mais um convite do que uma comparação.

Da Whipple eu só li um romance, da Austen três (e a biografia escrita pelo James Edward Austen-Leigh). O que eu já posso avistar de similar entre as duas? Mulheres, inglesas, romancistas, com uma tendência para escrever histórias com protagonistas femininas, que se passam fora de centros urbanos, cuja interação entre famílias e estranhos (ou famílias estranhas) cria toda a mecânica dos romances.

Outro aspecto que pode ter gerado a comparação: a editora inglesa Virago, que nasceu em 1973 com o objetivo de publicar somente mulheres (novos ou antigos nomes), ficou na dúvida se colocaria de volta ao mercado os livros da Whipple. Acabou não publicando. A ideia da editora era publicar material que mostrasse novas formas de ver e ser mulher, e os livros da Whipple trabalham a mulher sob um papel social ao qual estamos já bastante acostumados. Eu acho que essa perspectiva faz uma ponte firme com os textos da Austen.

O que distancia as duas? Algumas escolhas no estilo da escrita deixam clara a diferença: os diálogos da Austen me parecem impecáveis, muito bem manipulados, e a Whipple às vezes parece usar o diálogo para criar atmosfera (e pode ser cansativo se for longo demais). Porém a Whipple é extraordinária na maneira como direciona o olhar dos personagens, e como ela usa isso para mostrar o interior de quem observa e de quem é observado. Até os objetos, seja uma cadeira vazia ou pratos, são enquadrados de maneira a revelar algo sobre pessoas. Essa aptidão da Whipple pode ter a ver com o fato de ela ter nascido no século do cinema – eu senti isso por exemplo na página 87, onde um diálogo termina assim: “I´m so very glad”, Madame Lanier´s voice could be heard diminishing into the house, “about the Ventre de Charité”. Como assim a voz diminuindo enquanto ela entra pela casa?! O narrador não pode acompanhá-la para onde ela está indo? Parece que a câmera ficou na sala vazia.

Séculos à parte, se eu comparar Razão e Sentimento com Someone at a Distance (que título maravilhoso, não?) temos duas obras extraordinárias, sólidas, delicadas, escritas sob o espírito de quem domina a arte do romance – que é o funcionamento do passar do tempo. E a esperança. As duas tem os pés num amanhã possível.

 

Os mistérios de Udolpho – O gótico no seu apogeu

Ainda não li Os Mistérios de Udolpho pois quero fazê-lo sem pressa e, infelizmente, este tempo é um luxo que não tenho no momento. Mas vocês, leitores do Jane Austen em Portugês, não ficarão sem uma indicação de peso. Claire Scorzi de quem já tenho publicado o artigo “Jane Austen e os movimentos literários” e o vídeo “Jane Austen”.nos autorizou graciosamente a publicação de sua resenha sobre Os Mistérios de Udolpho que foi lançado, em dois volumes, pela editora Pedrazul.

“Os mistérios de Udolpho – O gótico no seu apogeu”
por Claire Scorzi

Ann Radcliffe ficou conhecida por este e outros romances góticos – livros de mistério, suspense, ambientados em geral fora da Inglaterra (aqui, França e Itália) o que devia dar uma atmosfera “exótica” ao público leitor inglês, e quem sabe a ideia de que tais horrores não aconteceriam em solo britânico…

Otto Maria Carpeaux (História da Literatura Ocidental) escreveu que Radcliffe tinha certo talento literário, mas que hoje não a leríamos mais. Esta é uma das vezes em que discordo do grande Carpeaux. Embora eu não tenha como saber, ainda, se Radcliffe escreveu uma “obra” que permanecerá – só li este – apreciei muito descobrir que Ann Radcliffe tinha, de fato, talento literário:

Usa o gótico com discernimento, sem exagerar nas cenas e optando sempre pelo gótico fundamentado na razão – todos os “eventos estranhos” tem explicação racional – e criando boas cenas de suspense;

a atmosfera da narrativa é cuidada, sem transições abruptas e superficiais;

um possível feminismo – só possível! rs – na sua heroína, Emily, cuja firmeza moral é a sua única “arma” contra Montoni, mas que a autora consegue tornar admirável em mais de um episódio de confronto entre os dois personagens;

ausência do cinismo e irreverência tão comuns na literatura inglesa do século XVIII – ou seja, nada de Fielding – sem, contudo, abrir mão de um humor discreto;

frases de personagens memoráveis (inclusive algumas de Emily enfrentando Montoni);

personagens de apoio simpáticos (Annette e Ludovico, para citar só dois);

esforço de análise psicológica, o que me fez suspeitar que Radcliffe tinha certa familiaridade com a literatura francesa da época.

Enfim: um romance que merece ser lido.

Os mistérios de Udolpho

Emma e o condado de Surrey

Os locais mencionados em Emma, o quarto livro publicado de Jane Austen, incluem lugares reais como Box Hill, o rio Mole, Richmond, Kingston, Weymouth, Cobham e Londres e sobre esses lugares que Tony Grant, escreve no blog da Vic, o Jane Austen’s World.

Tony não só escreve um texto cheio de possibilidades das inspirações de Jane como também ilustra com suas fotos dos lugares. E mesmo que você não saiba inglês, mesmo assim vale a visita no post: “Emma Woodhouse’s Surrey”.

Box Hill, Surrey

Trabalhos de conclusão de cursos sobre Jane Austen

Desde que iniciei o blog, em 2008, tenho recebido pedidos de ajuda em relação aos TCCs (trabalhos de conclusão de curso), sejam eles monografias, teses ou dissertações sobre Jane Austen e sua obra e por esse motivo resolvi fazer este post para tentar resumir no que posso efetivamente ajudar.

Antes de mais nada é preciso deixar claro que todos os textos escritos por mim no blog Jane Austen em Português são a minha opinião de leitora da obra de Jane Austen e não trabalhos acadêmicos. O que não impede de serem citados – mas não copiados integralmente – com o devido crédito. Há também alguns artigos de leitores convidados e que seguem as mesmas normas.

Voltando aos pedidos de ajuda: percebi que muitas vezes a pessoa gosta muito de Jane Austen mas não sabe exatamente o que fazer. Sobre essa questão somente os professores podem orientar para decidir afinal qual será o tema de estudo para dar início à pesquisa.

Acredito, e sempre digo para todos que me perguntam sobre trabalhos e pesquisas, que o principal é ler a obra de Jane Austen, se possível no original, e a partir dessa leitura certamente descobrirá o objeto de seu estudo. Mesmo que pretenda fazer um trabalho sobre filmes e séries inspirados na obra de Jane Austen é necessário ler pelo menos o livro do filme em questão.

A primeira leitura que recomendo no blog é o ÍNDICE, onde indico posts e páginas, além da listas com livros e filmes. Outra leitura importante é a página “Traduções brasileiras que recomendo de Jane Austen”.

Boa sorte com os trabalhos!

(Este post será atualizado sempre que houver novidades.)

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Lendo Mansfield Park pela primeira vez

Esta resenha de Mansfield Park é a primeira leitura de Fernanda Huguenin, leitora e amiga que já escreveu outros textos aqui no Jane Austen em Português .

Fernanda leu a tradução de Rodrigo Breunig de Mansfield Park, publicada pela L&PM e como todos sabem um dos livros que aos admiradores de Jane Austen tem maior dificuldade de se identificar ou melhor dizendo, simpatizar com os personagens, principalmente pela pequena Fanny Price.


Lendo Mansfield Park pela primeira vez

Mansfield Park, editora L&PM

Lendo Mansfield Park pela primeira vez

“Todos temos em nós mesmos um conselheiro melhor do que qualquer outra pessoa poderá ser.”

Mansfield Park é conhecido como o romance mais controverso de Jane Austen, o mais sério (e melancólico). O livro tem uma narrativa bem descritiva e lenta (assim como Emma) e cuja protagonista é muitas vezes taxada como a mais fraca já criada por Austen, muitas vezes sendo vista como uma santa pelos fãs.

Fanny Price é diferente das heroínas mais populares criadas por Jane Austen. Fanny é frágil, tímida, sensível e muito prestativa para com os outros, a ponto de ser opressivo para ela.

Na minha visão Fanny passa longe de ser santa, pois mesmo tendo consciência de que é desprezada por boa parte da família Bertram ela tem seus momentos de raiva e inveja por sofrer injustiças enquanto seus primos Maria, Julia e Tom são mimados ao extremo sem merecer.

Fanny, no seu papel de  observadora constante, analisa as atitudes ao seu redor, muitas vezes achando defeitos (existentes) e as falhas de caráter que são deixadas de lado pelos bajuladores, já que o que importa é o sobrenome e as milhares de libras que a pessoa possui.

Mesmo passando por situações embaraçosas em Mansfield Park, sua nova casa, Fanny consegue viver feliz e tranquila, sendo tratada como a parenta pobre e recebendo uma atenção fria porém educada da família Bertram, tendo como único amigo e confidente seu primo Edmund Bertram.

Como leitora, Fanny me cativou com seu jeito delicado e silencioso de ser, mesmo ela sendo forçada a sempre ser tolerante com certos tratamentos injustos, ela demonstrou ter uma personalidade muito forte e criteriosa para diferenciar o certo do errado, coisa que seus parentes não tinham. E como todo personagem de Austen, mostra ser muito inteligente, coisa que é totalmente ignorada pelas suas primas esnobes Maria e Julia Bertram, que a acham uma menina estúpida.

Serei sincera, o defeito da Fanny é ser respeitosa demais com os parentes ricos, ela tem receio de parecer ingrata para com eles. Esse defeito é algo ruim e bom ao mesmo tempo. Pelo lado negativo ela sempre será o bode expiatório de alguns e pelo lado positivo ninguém, exceto a sra.Norris, pode culpá-la por alguma falta que ela faz. Esse jeito passivo da Fanny é o que incomoda muitas fãs da Austen. Também me incomodou quando li os trechos de injustiças mas depois, quando parei para analisar, vi que sendo a família de Sir Thomas Bertram, na sua maior parte formada por pessoas orgulhosas, sensíveis à censuras e prontas para criticar e castigar Fanny pela sua “ingratidão”, acabei vendo que se a pobre srta.Price tentasse reclamar de algo só iria piorar as coisas para si mesma.

Fanny não faz parte dos personagens que precisam fazer alarde para impor suas opiniões e vontades para os que a cercam (isso muitas vezes soa infantil), ela guarda suas opiniões para si mesma (já que poucos ligam para o que ela pensa), afinal seu pensamentos são seus melhores amigos e devem ser mostrados apenas para os que merecem e querem escutar (Edmund e seu irmão William Price).

A rotina é completamente mudada quando o libertino Henry Crawford e sua mundana irmã Mary se mudam para a casa de sua irmã casada, a sra.Grant que mora nas vizinhanças e tornam-se visitantes assíduos em Mansfield Park.

Antes de ler Mansfield Park, já conhecia certas opiniões sobre o sr.Henry Crawford, que muitas fãs argumentavam que teria sido um melhor par para a Fanny do que Edmund Bertram. Durante a leitura ,achei o amor de Henry por Fanny mais como algo de posse do que amor de um modo puro. Seria algo do tipo “essa dama é diferente das outras, preciso tê-la!”. Sem contar que os princípios morais do rapaz serem completamente diferentes dos de Fanny. Henry Crawfordele se mostra vaidoso demais e acho que se ele realmente amasse Fanny teria feito algo melhor do que o desfecho que ele teve. Assim como Willoughby, sua fraqueza foi o orgulho.

Simpatizei com Edmund no início da leitura mas comecei a ficar chateada com a paixão dele pela leviana e intrigante Mary Crawford, não querendo ver seu modo egoísta e desrespeitoso e pelos pesares que criou na pobre Fanny. Mas entendo que no calor da emoção ficou empolgado demais. Se isso acontece na vida real imagine se não ocorreria nos livros da srta. Austen, vide o caso de Marianne Dashwood, em Razão e sentimento.

E finalizando, não acredito que o amor do Edmund por Fanny foi algo de repente ou por conformismo. Como leitora de Jane Austen sei muito bem que a escritora não tinha o hábito de detalhar muito o começo do afeto dos protagonistas – talvez para evitar que ficasse meloso e longo demais (será?), como podemos ver no trecho abaixo a voz da narradora:

“Eu propositadamente me abstenho de datas nessa ocasião, de maneira que cada um pode ter a liberdade de fixar sua própria época, ciente de que a cura das paixões inconquistáveis e a transferência de afeições imutáveis sempre variam muito quanto a passagem do tempo, de pessoa para pessoa.”

Mas Jane mostra rotina do futuro casal, como eles passavam o tempo e como acabavam se aproximando até chegar ao matrimônio, como a percepção de Edmund em relação à Mary Crawford no final do romance:

“… tinha defeitos de princípios,de delicadeza embotada e de uma mente viciada e corrompida.”

E como acabou se apegando mais a prima ao perceber que

“… a própria Fanny estivesse se tornando tão querida, tão importante para ele,com todos os seus sorrisos e todos os seus modos,quanto Mary Crawford jamais tinha sido.”

Começou a amar Fanny mais do que como prima, a ver o quão ideal ela era para sua felicidade e também ficou inseguro se ele era digno de estar com Fanny já que durante toda a história ela foi a única que não se deixou iludir pelos modos agradáveis dos Crawford. E no final foi uma união feliz porque ambos se amavam.

E essa foi minha última leitura inédita da Srta Jane Austen, e é claro que vai entrar na minha lista de favoritos da escritora!

Morte em Pemberley | Resenha e sorteio

O livro Morte em Pemberley, da aclamada escritora inglesa de romances policiais, P. D. James, pelo que podemos deduzir fez bastante sucesso desde seu lançamento em 2011 pois já está em fase de produção uma minissérie em três capítulos pela BBC.

Death Comes to Pemberley, título original em inglês, foi traduzido por Sonia Moreira para Cia. das Letras e para apresentar o enredo, a sinopse da página da editora:

O ano é 1803. Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy já estão casados, tiveram dois filhos e sua felicidade na imponente propriedade rural de Pemberley parece inabalável. Mas a paz do lugar é ameaçada quando, na noite da véspera do baile anual de Pemberley, Lydia, uma das irmãs Bennet, chega à mansão gritando que o marido, George Wickerman, foi assassinado na floresta.
| Leiam também um trecho do livro neste link. |

Transcrevo também a nota da autora pois a considero muito simpática e foi umas das causas que me levaram a ler o livro:

Peço desculpas ao espírito de Jane Austen por envolver sua estimada Elizabeth no trauma da investigação de um assassinato, principalmente considerando que no último capítulo de Mansfield Park a srta. Austen deixou sua posição bastante clara: “Que outras penas se debrucem sobre coisas como culpa e pesar. Eu abdico de assuntos odiosos como esses assim que posso, ansiosa para restituir todos os que nada tenham feito de muito grave a um tolerável conforto e para deixar de lado os outros.” Sem dúvida, ela teria respondido ao meu pedido de desculpas dizendo que, se desejasse se debruçar sobre assuntos odiosos como esses, ela própria teria escrito esta história, e melhor. P. D. James, 2011

Morte em Pemberley, sorteio

Antes de mais nada esclareço que o livro fotografado (acima) no meu matinho particular de Pemberley, não é o que será sorteado.  O exemplar do vencedor está bem limpinho e sequinho e pronto para ser enviado. Continuemos.

Confesso que a leitura do prólogo não chegou a me entusiasmar mas a medida que avançava na leitura, ajudada por uma tendinite das boas que me afastou do computador, comecei a ficar curiosa para saber afinal quem havia cometido o assassinato e principalmente saber os motivos pois tudo parecia sem nexo. No quesito de romance policial o livro já cumpria com seu objetivo que é saciar nossa curiosidade aos poucos.

No caso de leitores de Jane Austen sempre podemos acrescentar a ansiedade para vermos o que farão com nossos queridos personagens. Neste ponto posso afirmar que os personagens não sofreram distorções em relação aos originais. Muito pelo contrário, podemos perceber em cada detalhe o cuidado com a construção dos fatos narrados para manter a coerência com a história original.

Os casais Darcy e Bingley levam suas vidas como era de esperar, felizes e tranquilos com seus filhos e muitos outros personagens aparecem de modo pontual. As novidades ficam por conta de Georgiana que que apesar de continuar a morando em Pemberley tem vida própria, e do simpático Coronel Fitzwilliam, primo de Darcy.

A menção de personagens de dois outros romances de Jane Austen, que não nomearei para não estragar a surpresa de vocês quando lerem o livro, me fizeram sorrir e dizer em voz alta o que imagino vocês também dirão, “mas olha só quem está aqui!”.

Não sou boa em resenhas, fico logo com vontade de contar tudo para todos. Resumindo: não é Jane Austen, como muito bem colocou a autora, mas é uma boa leitura sim. Ler um livro de mistério, bem escrito, acompanhado de pessoas que conhecemos de longa data é um prazer. Os personagens de Jane Austen para nós admiradores há muito deixaram de ser personagens, passaram para a categoria “pessoas amigas”!

Um detalhe: a capa de Elisa von Randow tem a imagem de um castelo em meio a um nevoeiro, que as fotos do livro na internet não fazem justiça em seu belo verde turquesa.

Agora vamos a habitual pergunta, que não tem resposta certa ou errada, mas que precisa ser respondida de modo que possa participar do sorteio:

Quem vocês imaginam que possa ter cometido o crime em Pemberley?

NORMAS DO SORTEIO

♦ Sorteio de 26 de maio a 8 de junhoResultado: 9 de junho
 É permitido apenas um (1) comentário por participante
♦ Se um grupo usar o mesmo computador para comentar, o que levará a IPs iguais, avise no próprio comentário para não ser desclassificado
♦ Use seu mail verdadeiro e apenas no formulário. Não coloque email no corpo do comentário
♦ Lembrem-se: todos os comentários são moderados e podem levar um tempo para serem publicados
♦ Qualquer um pode comentar mas somente quem tiver um endereço no Brasil concorrerá ao presente

PS: Peço, por favor, para os que já leram o livro e que mesmo assim queiram participar que comentem sem revelar a trama. Obrigada.

 

O mundo de Orgulho e preconceito

“O mundo de Orgulho e Preconceito”
por Marcia Caetano
Na Linha

Um texto literário tem uma particularidade.  Se por um lado, ele ultrapassa o seu tempo e o mundo que o cerca, por outro, está intrinsecamente ligado às circunstâncias que o geraram.  A independência do texto é sempre relativa, pois sem certas informações precisas, sobretudo no que se refere a um romance escrito dois séculos antes do nosso, o alcance do sentido de passagens senão do livro todo pode ficar comprometido.    O bicentenário da publicação de Orgulho e Preconceito – o livro foi publicado em janeiro de 1813 – merece, portanto, um olhar sobre alguns dos aspectos que possibilitaram a sua existência.

Observação importante: usei exclusivamente a edição de Orgulho e Preconceito da Penguin/Cia. das Letras e as análises críticas de Vivien Jones e Tony Tanner contidas nele.

As casas

As casas onde vive a maioria dos personagens de Jane Austen são enormes para nossos padrões.  Em geral, Jane Austen não fornece muita descrição sobre as residências, a não ser nos casos em que, por alguma razão especial, o imóvel se destaca na narrativa.  Esse é o caso de Pemberley, a morada de Darcy em Orgulho e Preconceito, em que a cena da visita de Elizabeth é de fundamental importância na narrativa.  Ali, possivelmente, ela percebeu o poder de Darcy e desejou fazer parte dele.  “Eu podia ser senhora deste lugar” ( V.III, cap. I, p.374), é o que diz a si mesma ao visitar a mansão.

A casa reflete o proprietário, que é um rico herdeiro e descendente de uma antiga família rural, ligada à aristocracia através de parentes nobres.  Como membro desta classe, a riqueza de Darcy é baseada na propriedade de terras e traduzida em termos de uma renda anual.  Já Charles Bingley é herdeiro de uma família que ganhou muito dinheiro no comércio (atividade depreciada diversas vezes no livro, do mesmo modo que a classe das profissões liberais, como a advocacia).  Ele inicia o romance alugando uma propriedade chamada Netherfield, em Hertfordshire (hoje um subúrbio de Londres), na vizinhança onde moram as personagens principais, as irmãs Bennet, embora afirme ao longo da narrativa que pretendia comprar uma residência (e assim, seguir o caminho de ascensão da classe média que enriquece imitando o comportamento dos aristocratas, tornando-se proprietário rural).  Em um trecho, a irmã de Bingley sugere que ele construa uma casa tomando “Pemberley como uma espécie modelo” (OP, Vol I, cap. VIII, p.143).  De fato, é o que Bingley faz após o casamento com Jane, ele compra uma propriedade bem próxima da de Darcy e Elizabeth, em Derbyshire.

Long Gallery, Sudbury Hall, Derbyshire

Sudbury Hall, Derbyshire
As cenas interiores de P&P 1995 de Pemberley foram filmadas em Sudbury
Imagem: © Andreas von Einsiedel

A cena em que Elizabeth Bennet visita Pemberly é crucial no processo de mudança da imagem que ela faz de Darcy no decorrer da narrativa.  Como Tonny Tanner ressalta na Introdução das edições Penguin, tudo na casa reverbera a personalidade do proprietário e, quanto mais Elizabeth se aproxima do interior, melhor é a visão que ela tem de Darcy.  Um detalhe importante é o fato de que há dois retratos de Darcy: um pequeno, no andar de baixo, e outro bem maior, no andar de cima, indicando que quanto mais perto do interior das pessoas, melhor é percepção que temos delas.  Tanner mostra que Jane faz uma analogia entre a precisão do quadro maior e a proximidade com o próprio modelo, que ela encontrará logo a seguir, inesperadamente.

Ficou parada por alguns minutos diante da pintura (de Darcy) em penhorada contemplação e ainda voltou ao quadro antes que saíssem da galeria.  {…} Certamente, neste instante, na mente de Elizabeth, havia mais delicadeza para com o original do que jamais sentira mesmo no auge de sua relação. (OP, Vol III, cap. I, p. 379)

Inclusive, concordo com a interpretação de Tanner sobre a famosa frase de Elizabeth à Jane, situando o momento em que começou a se apaixonar por Darcy na ocasião em que visitou Pemberley pela primeira vez, de que foi ali que ela pode conhecer melhor o caráter de Darcy – e não que ela fosse alguém exclusivamente venal e interessada na riqueza dele, como a frase pode sugerir.

Foi acontecendo de modo tão gradual, mal sei dizer quando começou.  Mas creio que a data precisa seja a primeira vez que vi a sua bela propriedade em Pemberley. (V.III, cap. XVII, p.516)

Outra mansão esplêndida no romance é a residência da tia de Darcy, Lady Catherine De Bourgh, a Rosings Park, em cujo presbitério reside o primo das irmãs Bennet, o sr. Collins e sua esposa, Charlotte.  A mansão é considerada “moderna” no livro, o que significava para Jane Austen que fora construída na segunda metade do século XVIII.  Deirdre Le Faye, no livro Jane Austen – The world of her novels nos informa que o mais provável é que tanto Rosings Park quanto Pemberly fossem pintadas no interior, já que a pintura era um procedimento mais caro na época do que o papel de parede.  Entretanto, a diferença entre as duas residências é observada pela própria Elizabeth, quando visita Pemberley e nota no seu interior que ali “não havia nada de excessivo ou despropositadamente fino; havia menos esplendor, e mais da verdadeira elegância do que na mobília de Rosings” (V.III, cap.I).  O que permite inferir que Rosings Park, como a sua proprietária, exalava luxo e ostentação.

O presbitério em que reside o sr. Collins e esposa é descrito de maneira não muito específica, sabemos apenas que a morada é pequena, mas confortável (possivelmente é do tamanho de uma casa de classe média hoje).  Conta com um pequeno jardim , que recebe uma observação gentil do sr. Darcy na ocasião em que ficou hospedado em Rosings Park com seu primo, o coronel Fitzwilliam, e ambos vão visitar o presbitério, onde está hospedada Elizabeth.

Como Orgulho e Preconceito é narrado a partir do ponto de vista de Elizabeth, não há descrições da casa dos Bennet, porque não faria sentido, já que ela reside ali.  A família mora em Longbourn, no vilarejo homônimo, próximo da cidade imaginária de Meryton.  Segundo Deirdre Le Faye, o senhor Bennet poderia ter um terreno de mil acres, o que no período era considerada a média de um pequeno proprietário rural, como era o caso dele.  As terras produziam duas mil libras por ano e, como ele só teve filhas mulheres, seriam herdadas por um sobrinho, o sr.Collins.  Deirdre faz um levantamento do staff da casa Bennet: a governanta sra. Hill, a cozinheira, duas empregadas, um mordomo e um rapaz de recados que possivelmente age também como valet do sr. Bennet.  A equipe externa consistia em um cocheiro e, por consequência, alguns ajudantes de estábulo, que também eram utilizados na fazenda (fato comentado no livro pelo sr. Bennet).  Também haveria trabalhadores contratados para atuar nos campos e um guarda-caças, pois a senhora Bennet se dirige a Bingley em certa ocasião convidando-o a ir a Longbourn quando tiver matado todas as suas aves, para atirar em quantas quiser na propriedade do senhor Bennet (V. III, cap. XI, pp.472-473).

A casa em si provavelmente é uma pequena propriedade rural, com uma entrada frontal para carruagens e um vestíbulo na entrada que dá para uma sala de café da manhã.  Também no térreo ficam a biblioteca do sr. Bennet, um quarto de desenho e uma ampla sala de jantar apropriada para festas.  No andar de cima, há uma pequena sala de refeições e uma pequenina saleta, de onde as irmãs Bennet podem dar uma espiada no sr. Bingley, na ocasião em que ele visita à casa.  O casal Bennet provavelmente tem quartos separados e Deirdre acredita que cada uma das cinco moças tenha o seu próprio quarto, além de pelo menos mais um quarto de hóspedes, onde o sr. Collins fica hospedado.  Mary provavelmente conta com uma sala separada de música.  Os empregados também precisariam de alojamentos, que geralmente eram situados no porão ou em casas do lado de fora, ou os dois.

A vida das mulheres em Orgulho e Preconceito

No tempo de Orgulho e Preconceito, as filhas de famílias rurais recebiam o mínimo de educação formal antes de sair de casa para casar, o que ocorria, em muitos casos, durante a adolescência (assim é o caso de Marianne Dashwood, por exemplo, de Razão e Sentimento).  A maioria era educada em casa pelos pais ou por governantas e aprendiam trabalhos de costura, noções de matemática, caligrafia, música, desenho, algumas fábulas francesas, a bíblia, Sheakespeare e alguma outra literatura.  Eventualmente, as moças eram enviadas para escolas, para complementar a educação recebida em casa.  As irmãs Bingley, por exemplo, estudaram em uma das melhores escolhas da época.

Já as irmãs Bennet receberam uma educação bastante precária, sem o auxílio de nenhuma governanta ou tutora e de acordo com suas inclinações pessoais.  Há uma discussão interessante sobre o assunto no livro, quando Elizabeth está hospedada em Netherfield, juntamente com Jane que está adoentada.  Nela, Caroline Bingley afirma que, para ser considerada talentosa, uma mulher deve “ter amplo conhecimento de música, do canto, do desenho e das línguas modernas”, ao que o sr. Darcy acrescenta “o aperfeiçoamento de suas qualidades intelectuais por meio de muito leitura”.  Sobre o que Elizabeth conclui, decididamente: “nunca vi uma mulher assim, nunca vi tamanha capacidade, fineza, dedicação e elegância, como você descreve, reunidas em uma só pessoa” (Vol I, cap.VIII, p.144).

A vida dos homens

Os garotos recebiam nesse tempo uma educação bastante limitada, comparando aos nossos padrões.  Eles aprendiam a ler, escrever e recebiam noções de matemática em casa, através dos pais ou de governantas e alguns poderiam ir morar em alguma residência de um tutor pago (função exercida pelo pai de Jane Austen em muitas ocasiões).  O currículo consistia em latim, grego, textos clássicos, noções de geografia e história moderna.  Francês e italiano eram matérias “extras”, assim como caligrafia, dança, desenho e uma miscelânea de outros tópicos.  Em certos casos, os meninos poderiam ser enviados para escolas primárias dos oito aos treze anos, seguidos de cinco anos em uma escola pública e, enfim, a universidade (para alguns).  Deirdre Le Faye considera muito provável que Darcy tenha ido para Cambridge (e não Westminster, onde os personagens considerados maus ou tolos de Jane Austen foram, como Henry Crawford, de Mansfield Park, e Robert Ferrars, de Razão e Sentimento).

Como recreação, entre setembro a abril, os homens do campo geralmente passavam o tempo praticando esportes de caça.  Em Orgulho e Preconceito, parece que Darcy é fã da pesca, já que convida o sr. Gardiner para usar o rio de trutas de Pemberley para pescar e oferece todos os apetrechos necessários para tal.

Como o filho primogênito geralmente era o herdeiro (embora Lady Catherine De Bourgh ressalte que nem sempre as filhas possam ser desprovidas de posses, como é o caso dela própria e da filha – Vol.II, cap. VI, p.285), os mais jovens tinham que seguir profissões.  A carreira eclesiástica, a rigor, não obedecia a nenhuma “vocação” particular, mas era, essencialmente, um emprego como outro qualquer.  Outras profissões desses filhos podem incluir a advocacia (em níveis diversos, dependendo da classe social do indivíduo), o exército ou marinha e, como existe no círculo de Orgulho e Preconceito, o comércio (caso dos tios de Elizabeth, os Gardiner) e outras profissões liberais.  Os trabalhadores manuais e serviçais estão excluídos do meio social frequentado pelas Bennet.  E, por fim, assim como para as mulheres, o casamento também pode ser considerado uma “profissão” para jovens sem fortuna, principalmente aqueles que têm algum nome respeitável ou título de nobreza.  Há uma conversa sobre esse assunto entre Elizabeth e o coronel Fitzwilliam, na ocasião em que ela está hospedada na casa dos Collins.  Ele conta a Lizzy que, como filho caçula de um conde, ele deve “se preparar para o sacrifício e a dependência”, pois “não há muitos em minha posição que possam se permitir casar sem pensar no dinheiro” (V.II, cap. X, pp.306-307).  Ao que Elizabeth pergunta: “Diga-me, quanto costuma custar o caçula de um conde? A não ser que o primogênito seja muito fraco, vocês não devem sair por mais de cinquenta mil” (V.II, cap. X, p. 307).  Vê-se que não eram apenas as mulheres que buscavam a salvação financeira no casamento.

Kedleston Hall and Park

Kedleston, Derbyshire.
A sala de jantar de Rosings Park pode ser imaginada dessa maneira, pois era grande e moderna.
Imagem: © Nadia Mackenzie

A vida social da época

Com empregados se ocupando de todo o trabalho manual, os proprietários de terras e suas famílias podiam passar uma boa parte de seu tempo em atividades recreativas (já que a educação formal de homens e, principalmente, mulheres, terminava bem cedo na vida de um/a jovem).  Entre essas atividades, a principal é a dança, pois era uma das poucas formas de os jovens se conhecerem para se casarem.  Não à toa, há cenas de dança importantíssimas nos livros de Jane Austen e Orgulho e Preconceito conta com alguns dos melhores diálogos entre Elizabeth e Darcy durante tais ocasiões.  O nome country-dance, explica Deirdre, não significa dança camponesa, mas é uma adaptação do francês contre-danse, uma modalidade em que os dançarinos são alinhados frente a frente, homens de um lado e mulheres do outro (Le Faye, p.104).  As danças podiam ser executadas em locais públicos ou, o mais comum no campo, em bailes privados, ou mesmo em pequenas reuniões em que alguma moça provesse o ambiente de música em um piano.  Além desse instrumento, as mulheres também podiam aprender a toca a harpa, o cravo e o violão.  E os rapazes, o violino, a flauta e o violoncelo.  O canto era praticado por ambos.

O teatro também era uma atividade muito exercida e apresentações teatrais amadoras nas residências era um fato corriqueiro.  Havia igualmente um grande número de jogos de mesa, além do baralho e bilhar, para os homens.

E, por fim, em um âmbito bastante relevante, estavam os livros.  Os romances tinham a mesma importância de entretenimento que hoje se dá às novelas e séries televisivas e nem todos consideravam uma atividade louvável a leitura deles (esse definitivamente não é o caso de Elizabeth Bennet, que adorava ler, e de Darcy, que continuava a acrescentar livros à biblioteca enorme que herdou).  Havia também a leitura de jornais e revistas femininas, alguns muito populares na época.

A escrita era também uma ocupação importante do cotidiano das pessoas.  Era comum separar uma hora do dia para escrever longas cartas ou diários pessoais.  O desenho, a pintura e os trabalhos de bordado e costura preenchiam bastante o tempo das mulheres.

O relacionamento entre homens e mulheres é muito formal e mesmo casais se tratam pelo nome de família, pelo menos em público – esse é o caso do senhor e da senhora Bennet.  Rapazes e moças em idade de se casar não podiam trocar correspondências, como demonstra o caso de Jane Bennet, que não pode escrever à Bingley, informando que chegou à Londres, mas apenas às suas irmãs.  Nesse sentido, a carta de Darcy se explicando à Elizabeth pode ser considerada uma exceção, justificada pela ofensa que o falso julgamento dela infligiu a ele.

Há inúmeros outros detalhes sobre o universo de Orgulho e Preconceito, muito úteis para uma compreensão mais abrangente do texto, mas que não caberiam detalhar aqui.  O que eu posso concluir é com um conselho aos leitores: embora seja muito útil ler o livro em PDF (eu mesma o reli pela milésima vez no meu celular) ou em outro formato eletrônico, nada como uma boa edição com notas explicativas e introduções esclarecedoras.  Uma visão verdadeiramente crítica – como a–própria Jane Austen nos ensina em seu livro – jamais pode seguir apenas os critérios das “primeiras impressões” (título original do livro), mas deve surgir da comparação com outros pontos de vista, com informações acessórias e tudo o mais que possa contribuir para o nosso melhor entendimento.

Cumberland House

Cumberland House, Hertfodshire, serve como um modelo comparativo a Longbourn,
a residência dos Bennet, segundo Deirdre Le Faye. Imagem: © Frank Warner

BIBLIOGRAFIA

  • AUSTEN, Jane, Orgulho e Preconceito, Peguin/Cia. das Letras, trad.Alexandre B de Souza. São Paulo, 2011.
  • Prefácio e notas Viven Jones, Introdução de Tony Tanner.
  • AUSTEN, Jane.  Letters of Jane Austen, vol.I. Cambridge University Press, Cambridge, 2009.
  • LE FAYE, Deirdre.  Jane Austen – The world of her novels.  Frances Lincoln, Londres, 2003.