Jane Austen a torto e a direito na alt-right

Quando li que a  alt-right teria se “apropriado” de Jane Austen logo pensei: lá vai Jane, a torto e a direito mais uma vez! Para quem não sabe, como eu não sabia, alt-right é a denominação abreviada da direita alternativa, uma corrente política nos Estados Unidos.

Vamos ao fato que desencadeou a notícia: Milo Yiannopoulos,  militante da alt-right, parafraseou ou tentou parafrasear a mais famosa frase de Austen como se segue:

Como uma romancista vitoriana poderia ter posto, é uma verdade universalmente reconhecida que é muito mais provável uma mulher feia ser uma feminista do que uma bonitona.

Podemos ver que o rapaz, como muitas admiradoras sinceras de Jane, acha que a escritora é da época vitoriana, até aí novidade alguma. Mas o que marcou foi a grosseria sobre as mulheres e que na minha opinião foi de propósito para ser notícia. Conseguiu.

Nicole M. Wright escreveu no The Chronicle Higuer Education o artigo “Alt-Right Jane Austen” onde coloca que o apreço da extrema direita por Austen seria a possibilidade de minimizar suas ideias extremistas imiscuindo-se no mundo dos romances da autora e tornando-as mais palatáveis, principalmente para as pessoas comuns. Ela diz também,

“Talvez Yiannopoulos tenha olhado para o título do romance mais famoso de Austen e tenha presumido que Orgulho e preconceito era uma corroboração do orgulho “branco” e do preconceito contra as minorias étnicas.”

Não creio… Para mim foi de caso pensado mesmo. Jane Austen vende muito bem, inclusive idéias malucas. Estarei vendo Mad Men demais?

Na página em inglês do Deutsche Welle temos o artigo de  Rachel Stewart, “White pride and prejudice: Why the alt-right has adopted Jane Austen”, que menciona o de Nicole Wright e como vocês podem ver pelo título também fala sobre a adoção de Jane pela alt-right. O artigo diz que Yiannopoulos escreveu, em 2016, que os alt-right seriam “perigosamente brilhantes”, muito mais inteligentes do que outros grupos, também da extrema direita. Ah! Vaidade o pecado favorito vocês sabem de quem.

Devoney Looser, professora e autora do livro The Making of Jane Austen, dá sua opinião no artigo dizendo algo que acho fundamental e que muitas pessoas parecem esquecer, “Austen escreveu ficção, não tratados formais”. Menciona também que a discussão sobra a obra de Austen ser conservadora ou liberal é antiga. A referência que ela encontrou é de 1872 quando membros do parlamento britânico evocaram o nome de Austen, em lados opostos da mesma questão, a expansão do direito de voto das mulheres”:

“Um parlamentar conservador sugeriu que Austen nunca teria querido tal coisa, porque ela estaria firmemente do lado do papel tradicional de gênero, mas um parlamentar liberal disse que certamente Austen estaria do lado das mulheres instruídas da sua época [ano de 1872] que procuravam expandir o direito de voto.”

Nestes quase nove anos do Jane Austen em Português tenho lido as mais variada opiniões sobre Austen e sua obra. Às vezes Jane é feminista e logo adiante é anti-feminista; na política cobre quase todo o espectro da esquerda à direita passando por todos os tons de cinza do centro. Mas também há quem a considere uma alienada na política pois não colocou nada em seus livros sobre governos, guerras e que tais. Ela era grande admiradora do abolicionista Thomas Clarkson, fato este registrado em carta mas muitos não a perdoam por não ter sido explícita sobre a escravidão em Mansfield Park.

Os exemplos são muitos e sem levar em conta anacronismos de algumas opiniões, cada leitor tem um pouco de razão em sua interpretação de Austen portanto não há com o que se preocupar. Jane Austen não é de ninguém, nem dos malucos, nem de nós que a amamos. Ela é dona si mesma, sempre foi.

Jane Austen a torto e a direito na alt-right

Jane Austen a torto e a direito na alt-right

6 comentários sobre “Jane Austen a torto e a direito na alt-right

  1. Fabiana Murray disse:

    Maravilhoso! Pra você ver o que é uma escola sem história, pois lá eles estudam só as coisas Americanas mal e porcamente. Pegar um contexto da era regencial ou Georgiana e colocar nos dias de hoje, é como tentar pregar um parafuso. Não dá! Com isso, ao invés de ganhar simpatizantes ganha-se burros e ignorantes que não sabem nada e acham que é isso. Parece que vi isso por aqui também, não? Ótimo artigo, parabéns!

  2. Dandara Machado disse:

    Volta e meia vemos alguma tentativa por parte de políticos e biógrafos de tentar enquadrar Jane nesse ou naquele setor político, mas eu acho que é preciso ter cuidado nesse ponto.

    Não acredito numa total identificação nem com ideias liberais, nem conservadoras, acredito que o motivo que está por trás do fato de estarem vinculando Jane à elas é o oportunismo, como no caso da alt right (ideias super conservadoras).
    O fato de Jane ter conhecido o abolicionista Thomas Clarkson, fato que é consenso entre seus biógrafos e que não pode ser refutado, e tomado simpatia pela causa abolicionista invalida qualquer possibilidade de associar Orgulho e Preconceito com teorias racistas. E Jane mesmo, como mulher,tendo sofrido na pele o preconceito, porque seu nome só foi oficialmente divulgado como autora após sua morte e ela mesma sem poder tratar pessoalmente com seus editores, dificilmente seria uma defensora de valores conservadores quanto à nosso sexo.
    Quanto aos liberais, o mesmo fato, o de ter tomado simpatia pela causa abolicionista, me leva a acreditar que não seria tão identificada com os liberais assim, já que a teria liberal (através de Locke) sustentava a escravidão nos EUA, por exemplo, antes da industrialização daquele país…
    Defender algumas ideias consideradas liberais na época não a vincula essencialmente aos ideários liberais.
    Portanto, amei seu texto Raquel, principalmente o último parágrafo; concordo perfeitamente com você.
    Abraços,
    Dandara

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *